terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Série A Poesia Acreana > FERNANDO DE CASTELA

Em “Poemas ao Deus Dará”, Fernando de Castela (1921-2007) vai pontuando os labirintos que às vezes unem, às vezes separam os destinos. Os poemas líricos nos dizem do amor, do desamor, da entrega, da rebeldia, da paz e assim como o seu “Carro de boi” que, ‘gemendo ou cantando está contando uma história’, vai nos contagiando com a emoção da sua flama interior ou encaminhando-nos para a compreensão dos avessos da vida.

“Poesia Matuta” põe em evidência esse mundo quase fábula que vai sumindo com a fumaça do progresso. Vem trazendo a simplicidade da alma sertaneja até nós como a ‘esperança cantando, vascuiando o coração’. É gostoso ver o poeta resgatar esse mundo com a autenticidade de poucos.

Robélia Fernandes de Souza
Poeta, membro da Academia Acreana de Letras

PÓRTICO
Fernando de Castela

Meus versos não têm poesia colorida
Nem artisticamente burilada,
Têm um pouco de vida
E poeira da estrada,
São minhas horas todas de amargura
São meus cinco minutos de alegria,
Misto de amargo, misto de doçura
É assim minha poesia. p.25


POSSE
Fernando de Castela

Eu quero doce amor,
guardar no sacrário pagão e morno dos teus seios
a hóstia ardente e profana do meu beijo,
quero fechar brandamente,
cariciosamente,
a noite maravilhosa e misteriosa dos teus olhos
com uma porção de beijos ardorosos
quero embarcar no porto sensual dos teus lábios
e fazer meu amor, fazer contigo
uma viagem ideal sublime
acordando depois no ancoradouro amigo,
acordando afinal,
com o gostoso cansaço
depois da viagem desse longo abraço. p.56


TUAS MÃOS
Fernando de Castela

Ontem, estava contemplando as tuas mãos,
Teus dedos pareciam as pétalas de uma rosa...
Lindos, macios, simples
Como belas e simples são as flores.
Pareciam suplicar
Carinho, amor, compreensão.
Quase não resisti
O grande desejo de sobre ela
Depor um beijo.
De tomá-las entres minhas mãos
E acariciando-as
transmitir todo o carinho,
todo o amor
que elas pareciam suplicar.
Não sei porém,
Se não posso,
Ou não devo,
Pois se sofro
Deixando de acariciar,
De te beijar,
De te abraçar,
Muito mais sofreria
Se machucasse tua pureza,
Tua beleza,
Tua inocência,
Com carícias
Que apesar de sincera a nós, são proibidas. p.60-61
Ilustração de Danilo de S'Acre para o poema "Tuas mãos".

GLEBA
Fernando de Castela

O homem filho de Adão
o homem feito de barro
o homem filho da terra,
andou clamando a vida inteira,
um pedaço de chão.
Terra para morar,
terra para plantar,
terra de onde arrancasse as migalhas do pão.
Braços magros ao céu
ele rezou mendigando uma colher de terra
que lhe matasse o milenar jejum,
sucumbiu afinal
tendo na morte o prêmio desejado
gleba,
alguns palmos de terra
numa vala comum. p.73-74


PLEBE
Fernando de Castela

Pés sujos de lama
cara magra e feia
lágrimas no rosto
mostra o atroz desgosto,
mão calosa e bruta
da cruel labuta,
estômago faminto,
cérebro confuso
sem sonhos, sem nada
vida escorraçada
cão sem dono. À toa,
sol, chuva garoa
chão para dormir,
trapos fantasiando
corpo magro,
magro,
dois olhos enormes
dois olhos profundos,
dois olhos
dois mundos. p.75


CARRO DE BOI
Fernando de Castela

Gemei carro de boi da minha terra
pelas estradas de barro do sertão,
que gemendo ou cantando estás contando
uma estória de crime ou de paixão;
canta carro de boi a alegria angustiada
do nosso pobre povo pé no chão
do nosso povo que ama, sofre e chora
e mesmo rude, tem coração.
Solta carro de boi teu gemido plangente,
fala de um certo amor de uma certa saudade
e conta pra esse povo da cidade
que no nosso sertão tudo é poesia
tudo é beleza, paz e amenidade,
fala carro de boi, através dos gemidos,
dos homens que morrem flagelados,
fala de quem viajou para a aventura
nos caminhos do mundo a doudejar
e por mais que labutassem febrilmente,
não puderam voltar...
Geme carro de boi contando a minha história
e a história dela e o quanto nos amamos
e diz carro de boi na estrofe dos gemidos
que nós dois pela sorte separados,
nunca mais, nunca mais nos encontramos.
Chora carro de boi
e eu chorarei contigo,
conta estórias de crime e de paixão
que o teu destino é andar contando estórias
pelas estradas ermas do sertão. p.87-88


LAMENTAÇÃO
Fernando de Castela

Ás vítimas silenciosas do vandalismo das derrubadas

Nois vivia no mei da mata
quebrando castanha,
cortando siringa,
na luta da colha,
na luta da apanha,
nas festa da caça,
nas festa da pesca,
nos forró de lá.
Matando a sordade
das terra queimada,
seca e inscranzinada
do meu Ceará.
Nois ia aos magote
lá no barracão
deixá as castanha,
vendê as borracha,
bebê a cachaça,
comprá pruvisão.
Pisava cum força
na terra bendita
que foi conquistada
por nossos irmão.
Terra brasilêra,
terra hospitalêra,
agora sofrendo
traiçoêra invasão.
Irmãos lá do Sul
derrubando as mata,
tirando o sossego
e acomodação.
Cada castanhêra,
cada siringuêra
tombada no chão
é um gorpe certêro
doendo e ferindo
nosso coração.
Agora pra quê?
Magine vancê!
Criá boi berrêro,
vendê pru istrangêro,
deixá pelos campo...
Ali foi, num foi,
pra nois siringuêro,
pra nois castanhêro,
só bosta de boi. p.91-92


CASTELA, Fernando de. Saudade da minha terra, saudades do meu Ceará. Rio Branco: Printac, 2006.

FERNANDO DE CASTELA BARROSO DE ALMEIDA nasceu em uma companhia teatral de Fortaleza-CE, em 02 de fevereiro de 1921. Chegou ao Acre em 1940, como soldado da borracha, indo cortar seringa no Seringal Liberdade, no Alto Purus. Escolhido para ser escrevente e redator de cartas do patrão, logo passa a ser gerente e, anos depois, muda-se para Manuel Urbano. E, logo em seguida, fixa residência em Rio Branco-AC, em 1943. Escritor, poeta e jornalista, publicou as obras literárias Poesias Matutas (1986) e Poesias ao Deus Dará (1986). No jornal O Rio Branco assinou a coluna “Travos e Trovas”; no A Gazeta do Acre, a coluna “Crivos e Cravos”; e no “O Jornal”, a coluna “Traços e Troços”, sob os pseudônimos de Zé Matuto e Zé do Mato. Em 2006, foi reunida a sua obra poética no livro “Saudade da minha terra, saudades do meu Ceará”. Era casado com Giselda Ferreira da Silva, com quem teve oito filhos. É autor do Hino de Xapuri-AC. Ocupou a cadeira de nº 25 da Academia Acreana de Letras. Faleceu em 2007.
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