sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O CONTADOR DE HISTÓRIAS: “Sem noite de núpcias, porém, engraçada”

Gilberto A. Saavedra - Rio de Janeiro 16/12/2015


Na década de 70, época de meu casamento, realizado em Rio Branco capital do Acre, estava havendo um racionamento de energia elétrica na cidade. Por causa desse problema energético eram escalados os bairros que teriam luz, e os que ficariam no escuro, seguindo um determinado calendário elaborado pela Companhia de eletricidade, a Eletroacre. 

Meu amigo e saudoso Radialista José Lopes, era o então diretor da Rádio Difusora Acreana. Nesse mesmo tempo, eu exercia as funções de locutor e chefe dos setores de Programação e do Artístico. 

O Zé (Lopes) como era carinhosamente chamado por todos, tratou logo de resolver junto à Eletroacre o fornecimento de energia para o dia do casamento, pois pelo calendário estabelecido nesse dia do enlace, o bairro onde estava situava a residência da noiva estaria no escuro. 

Toda essa preocupação do Zé com a luz era que a Rádio Difusora Acreana, transmitiria o casório. Ele, João Nascimento (técnico) e mais dois funcionário da emissora, passaram mais de uma semana para arrumar o local da irradiação. Não existiam ainda nesse período da história, os modernos aparelhos sem fios. Toda a fiação foi colocada nos postes até a casa da noiva. Foram muitos testes antes do evento. 

O Zé fazia questão de dizer aos que lhe perguntavam que a transmissão do casamento pela emissora, era um presente da Difusora ao Radialista Gilberto de Almeida Saavedra, pelos relevantes serviços prestados à rádio. 

Segundo ele (não pesquisei) foi o primeiro casamento transmitido pela Difusora, ao um integrante de sua equipe. Os colegas de rádio, em seus programas, costumavam brincar comigo falando sobre o casamento. Até o nosso saudoso e querido bispo, Dom Giocondo Maria Grotti, me presenteou com sua celebração ao casamento. 

O grande dia chegou. O enlace foi celebrado na Catedral Nossa Senhora de Nazaré. Os padrinhos da noiva foi o casal Geraldo Gurgel de Mesquita (ex-governador) e esposa D. Ivinha. Do noivo (meus padrinhos) a família Castro, o casal Cláudio de Holanda Castro e Maria R. de Araujo Castro. A festa na casa da noiva, Maria Alany Mesquita, localizada no bairro da Cerâmica recebeu os convidados. A D. Ivinha fez questão de confeccionar e presentear o bolo da noiva. Ela era madrinha de batismo da noiva. 

Meus amigos e colegas de imprensa da época compareceram em massa. Infelizmente muitos já não estão entre nós. Faço questão de reverenciá-los: José Lopes, meu compadre Anselmo Silva, Campos Pereira, Nivaldo Paiva, Jorge Cardoso, Compadre Lico, Orlando Mota, Cláudio Mota, Zé Conde, Delmiro Xavier, Cícero Moreira, João Nascimento, Elzo Rodrigues, Orsetti do Vale, Rivaldo Guimarães, Jurivaldo Brasil, Manoel Ribeiro e muitos que não me recordo no momento, além dos convidados em geral, amigos e parentes. 

O casamento começou cedo em virtude da luz que apagaria às 11h00min horas da noite. Ficou acesa até esse horário no bairro, só por causa do pedido do Zé. A transmissão pela Difusora foi realizada, mas acabou em menos de uma hora. Transmissão de festa sem imagens não é lá essas coisas. Porém o registro foi feito. O radialista e advogado José Lopes e jornalista e advogado Anselmo Sobrinho comandaram a cobertura do evento matrimonial. 

Agradeço de coração pela cobertura da rádio ao meu enlace. Um grande e inesquecível presente, que eu como todo mortal jamais poderia esquecer. Obrigado Zé (Lopes) onde você estiver. Você foi demais, um grande profissional e amigão. Ao Anselmo, João Nascimento e toda a equipe da Difusora. 

A luz apagou e a festa continuou mais um pouco, pois ainda alguns convidados se faziam presentes. Aí os noivos resolveram se mandar. 

Saímos de táxi, o motorista era um conhecido, meu amigo de infância, meu vizinho chamado Ney, filho de uma amiga da família, Dona Lourdes. Alias quase todos os meus vizinhos de rua compareceram ao casamento. Convidei todos. Os que não foram por algum motivo não se fizeram presentes. 

A nossa nova morada (alugada) ficava próxima, ao bairro chamado Aviário. Era uma casa de telhado de duas águas, novinha em folha, que eu e meu cunhado Carlos Mesquita (falecido), fizemos questão de pintá-la. Tinha uma sacada (varandinha) na frente, sala, cozinha e dois quartos. Um dos cômodos de dormir dava de frente para a rua. Na frente da casa na existia muro e eu aproveitei o espaço vazio e plantei gramas.

Era uma ruazinha que dava acesso à principal que ficava uns 30 metros da casa. A pequena rua deveria ter no máximo uns 50 metros, e no final, tinha uma fazenda de propriedade de um senhor chamado de Capitão Beco bastante conhecido na cidade. De noite alguns bois costumavam sair da área da fazenda e circular pelas vizinhanças. 

E foi aí que um desse gado se dirigiu para a nossa casa, para deglutir a grama que eu plantei na frente da casa, bem encostadinha do quarto da frente, no mesmo horário, em que eu e minha mulher iríamos passar a nossa primeira noite de casados. A cama era bem próxima à janela que tinha uma altura baixa. Noite, já sem luz e bem escura. Deixei apenas dentro de casa um Aladim, aceso. 

Pois bem: o touro resolveu comer o capim (grama), que ficava encostado à janela do quarto, na hora que nós já estávamos deitados. Ele era um boi imenso, com um par de chifres que não tinha tamanho, igual. Kkkkkkk! Conforme o boi arrancava o capim com os dentes, nos movimentos, batia com os longos chifres na parede do quarto, provocando forte pancadas. 

Levamos um grande susto e ficamos apavorados com o barulho! Pulamos da cama numa rapidez incrível. As batidas continuaram. E aí eu, gritei! 

– Quem é? Quem tá batendo? 

[Minha mulher] Pelo amor de Deus! O que você quer? 

As batidas continuaram e ninguém respondeu. Mesmo com muito medo, resolvi abrir a janela. Pedi a senhorita “ainda”, para se aproximar da janela com o Aladim, e com a outra mão, abrir bem rápido a janela, que era de correr. Eu com um terçado (facão), pronto para o inesperado confronto com o misterioso e barulhento visitante noturno.

Quando a minha mulher, com força! Abriu a janela! Eu me arremessei pra frente da janela com o facão em punho, e me dei de cara (frente) com uma imensa cabeça fedorenta, longos chifres e dois grandes olhos arregalados que pareciam mais duas tochas de fogo olhando pra mim. Assustei-me! Em milésimo de segundo ficamos inertes, eu e minha mulher. 

Aí a criatura deu uma fortíssima e longa respirada pelas narinas e mugiu bem alto. Muuu! Eu gritei! _ É O SATANÁS! SALVE-SE QUEM PUDER! Kkkkkk! Dei um pulo pra trás, largando o cutelo. A minha mulher também correu largando o Aladim que caiu em cima da cama. Kkkkkk! 

O touro, também já assustado com tudo que estava acontecendo (gritaria dentro de casa), pra completar o cenário de pavor deu mais um mugido bem mais alto do que o primeiro (MUUU), provocando um eco ensurdecedor dentro de casa e, ‘pernas pra que te quero’! Saiu correndo, também com medo. Kkkkkkkkk! 

O fogo já tinha ateado na cama. Corremos até a cozinha apanhamos água e extinguimos as labaredas. 

Depois de todo esse inusitado episódio, caímos em gargalhadas. Naquela noite, ninguém, ou melhor: eu e minha mulher, não conseguimos mais nada, nem dormir. Então fomos pra cozinha saborear, comer outras “coisas”. Motivo: os noivos ficaram “SEM NOITE DE NÚPCIAS, PORÉM ENGRAÇADA”, por resto de nossas vidas. 

Agora você imagina, um boi de chifres longos me aparece no meu primeiro dia de casamento? Ainda bem que eu consegui espantá-lo pra bem longe de minha casa. Kkkkkkkk! 

Tenho quase 50 anos de convivência com essa valente, batalhadora e simples mulher, que me inspira e que me dá força para continuar vivendo. 
(estou incluindo quatro anos de namoro para chegar aos 49 anos). 

“Acho que as “mãos abençoadas de Dom Giocondo” e esta “saudação” de José Lopes (mensagem iluminada) logo abaixo, disseram Amém aos nossos destinos”.

Seria ingratidão de minha parte, não aproveitar a oportunidade e não publicar esse pensamento de José Lopes, que leu durante a transmissão.

SAUDAÇÃO DE JOSÉ LOPES, EM NOME DA “RÁDIO DIFUSORA ACREANA”.
AOS NUBENTES GILBERTO A. SAAVEDRA E ALANY – 25-07-70
(TRANSCRITO DO ORIGINAL) 

Senhor Alan e Digníssima esposa 
Senhor Levy Cervantes Saavedra e Digníssima esposa 
Senhores convidados e demais presentes
Meu nobre e dileto amigo Gilberto Saavedra
Distinta jovem, senhora Alany. 

A festa magnânima, que neste momento se realiza nada mais é do que um passo a mais em suas existências. Talvez o mais importante seja o significado realizado pelos seus pés no solo terreno.

Este momento é de júbilo e emoção para o Sr. Alan e senhora Geny, porque às mãos de um moço, colocam uma joia que mimaram e guardaram durante longos anos, porque amanhã sentirão o lugarzinho vazio, do mais belo bibelô, que durante tanto tempo ornamentou o seu lar. 

Este momento é de grande emoção para o Dr. Levy Saavedra e para a senhora Rita, porque acabam de confiar a uma jovem, os cuidados especiais que devotaram durante longos anos, ao filho querido que parte para uma vida nova. 

Este momento é de grande emoção para todos nós que assistimos esta cerimônia divina, porque queremos ver Gilberto e Alany sempre sorridentes como aí estão, e que esta felicidade inigualável, jamais seja esquecida, fique indelével em ambos os corações. 

E, para esta felicidade, poder-se-ia dizer, sem temor de equívoco, que as bases da família feliz, são fornecidas por duas pedras angulares: O AMOR e a SUJEIÇÃO, firmemente assentados sobre o fundamento de uma personalidade amadurecida. 

Esses dois princípios regedores são comparáveis a duas fontes das quais emanam todas as qualidades do bom êxito da família, como unidade cooperativa, fundamento da sociedade e molde onde se plasmam os homens e as mulheres de caráter firme e de princípios morais elevados e sólidos, de que tanto necessitamos nesta hora incerta em que vive a humanidade. 

Na família sã, há companheirismo; há fraternidade. Os esposos são confidentes mútuos. Anunciam-se ideias entre si, preocupações, decepções, problemas e momentos felizes. 

Estes dois princípios ou pedras angulares que citamos a pouco, foram apresentadas por “São Paulo”. 

“Vós mulheres, sujeitais a vossos maridos, como ao Senhor”. “Vós maridos, amai vossas mulheres”. Deve os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seu próprio corpo. “Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo”. 

Convém salientar que aquela sujeição citada acima, da esposa para o marido, não se refere a uma submissão escravizadora, mas sim, uma grata colaboração em uma causa comum. 

O fundamento da felicidade conjugal está em que o esposo e a esposa possuam personalidades equilibradas e amadurecidas; que não tenham traços desagradáveis e ao contrário sejam capazes de oferecer um amor perfeito. 

O amor é sofredor, é benigno: o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. O amor não se porta com busca a interesses; o amor não se irrita, não suspeita mal. O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera!... O amor tudo suporta e o amor nunca falha. 

Como vêm não se pode considerar o amor como um sentimento simples e de fácil definição, por que é um processo complexo no qual se tecem e entretecem sentimentos como o afeto, a bondade, emoções como a agressividade e tendências instintivas como a necessidade sexual. 

É, portanto, dentro desses princípios que em nome de todos da Rádio Difusora Acreana, eu vos saúdo, para que do princípio ao fim, vossas vidas seja um elo só, inseparável, sorridente, para a felicidade de todos nós que nesta hora inesquecível, tivemos a satisfação de comparecer. 

Parabéns Gilberto Saavedra e Madame Alany Saavedra 

Rio Branco, 25 de julho de 1970.
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JOSÉ DE SOUZA LOPES – DIRETOR DA RÁDIO DIFUSORA ACREANA

Obs. Qualquer pessoa pode publicar a história sem problemas de direitos autorais. 


GILBERTO DE ALMEIDA SAAVEDRA nasceu no Acre, mas reside na cidade do Rio de Janeiro. É jornalista e radialista. Com uma história marcante no rádio acreano, de modo especial pelas ondas da Rádio Difusora Acreana, a voz das selvas.
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