sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O VOO DO QUELÔNIO

Isac de Melo

O dia estava lindo!
Passarinhos a cantar
O sol das dez da manhã
Ardentemente a brilhar
E a tartaruga dizia
Ainda hei de voar...

O bem-te-vi sibilava
No espaldar do portão
O beija-flor sobre o ninho
Imitava o avião
E a tartaruga dizia
Um dia eu saio do chão!

Avistando o urubu
Dando mil voltas no céu
O voo da garça e do ganso
Da pipira e do xexéu
A tartaruga dizia
Não vou tirar meu chapéu!

Observando o macaco
Pulando de galho em galho
Se arrastando pelo campo
Toda molhada de orvalho
Diz então a tartaruga
Um dia eu desencalho!

Vou conferir meu horóscopo
Consultar o astro rei
Usar tudo que aprendi
Pelos vales onde andei
Pode chover canivete
Mas um dia voarei!

Quando a bicharada ouviu
Essa notícia chegar
Desacreditaram tanto
Que um bordão veio a gerar
Isso ai só acontece
Se a tartaruga voar!

Dias e noites passaram
Sem achar a solução
De repente ela chegou
À seguinte conclusão
Saiu pra pedir ajuda
Ao compadre gavião

Compadre você que é forte
E tem o dom de caçar
Que escapa do bem-te-vi
Fazendo giros no ar
Seja bonzinho comigo
Ensinando-me a voar

O gavião respondeu
Vai-te cabeça de bagre!
Eu quero apenas viver
Sem que o bem-te-vi me rasgue
Eu não posso com teu peso
E nem sei fazer milagre!

O compadre gavião
Resolveu aproveitar
Pra zoar a tartaruga
Dizendo vai acolá
E fala com a coruja
Que ela pode te ajudar

A tartaruga pensou...
Virou-se e saiu calada
Foi procurar a coruja
No romper da madrugada
Encontrou-a cochilando
No meio de uma caçada

Disse amiga coruja
Desculpe lhe incomodar
Estou procurando alguém
Que me ensine a voar
E o compadre gavião
Mandou-me lhe procurar

A coruja respondeu
Com o olhar bem aceso
Como se sentisse pena
Mas demonstrando desprezo
Se você quiser voar
Tem que perder muito peso!

Imitando o gavião
A coruja informou
Que num lago ali pertinho
Morava um velho castor
Que quem sabe com jeitinho
Fizesse-lhe esse favor

A tartaruga saiu
Um tanto contrariada
Parou na beira do lago
Depois de longa jornada
Uma semana de espera
Não viu castor não viu nada

Aumentou o desespero
O tédio feriu seu peito
Agora sem esperança
Até a morte eu aceito
E saiu dali jurando
Voarei de qualquer jeito!

Havia naquele vale
Uma montanha rochosa
Que embora muito alta
Também bonita e formosa
Semelhante a uma torre
De altura vertiginosa

Por trás daquela montanha
Ouviam-se explosões
Que logo se confundia
Com barulho de trovões
Ou quem sabe uma manada
De cento e vinte leões

Nossa pobre tartaruga
Disse vou me suicidar!
Subirei esta montanha
Depois me jogo de lá
Quero ver alguém dizer
Que eu não consegui voar...

Chamou a dona pipira
Camarada bem-te-vi
Pelo chão mandou o porco
A cotia e o quati
Convidar todos os bichos
Para o seu voo assistir

Deixou o dia marcado
E começou a subir
Caminhava em passos lentos
Pensando em não desistir
Enquanto seus convidados
Chegavam pra assistir

Veio a paca e o tatu
O elefante o leão
A girafa e o guinu
O queixado e o pavão
A cobra e o jacaré
O prego e o capelão

Enquanto todos chegavam
A tartaruga subia
E caminhando lembrava
Bem que minha mãe dizia
Desejar o impossível
É cozer com água fria...

Precisou de cinco dias
Pra concluir a subida
A montanha era tão alta
E a caminhada sofrida
Não precisava ter pressa
Pois pensava na descida

Chegou a hora do voo
O vale estava lotado
Todos olhando pra cima
Sussurros por todo lado
A cobra pra ver melhor
Tentou subir no veado

O veado deu-lhe um coice
E o mais interessante
É que a cobra desviou
E pegou no elefante
E o maior borborim
Começou naquele instante

Alguns olhavam pra cima
Outros trocavam pancada
A girafa se torcia
Na multidão imprensada
Querendo ver sua pata
Que fora pisoteada

Nisto o sol foi esquentando
Aumentando o calor
Uns gritavam pula, pula
Outros diziam, já vou!
Assim passou-se o dia
E a quelônio não pulou

Volto à nossa heroína
Quando chegou lá em cima
Pensando em suicídio
Encontrou um novo clima
Que mudou a sua vida
E moldou a minha rima

Ela sem saber de nada
Achando o caminho torto
E pensando que ali
Seu destino estava morto
Na verdade ela chegava
Num grande aeroporto

Foi avistada de longe
Por um jovem passageiro
Que de todos que a viram
Chegou a ela primeiro
E resolveu transportá-la
Para por em seu viveiro

O jovem era piloto
Por ter exclusividade
Colocou-a na cabine
Levou pra sua cidade
Transformando o sonho dela
Num voo rumo a liberdade

Enquanto isso no vale
A bicharada esperou
Olhou, torceu, roeu unhas
De nada adiantou
Mandaram um mensageiro
Esse nada encontrou
E pra fechar a questão
Eles jamais saberão
Que mesmo sem ter noção
daquela situação
a tartaruga voou!!!!


ISAC DE MELO é poeta e músico popular acreano. Autor do livro "Urucum" (Clube de Autores, 2015).
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