segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O DIA INATINGÍVEL

Rogel Samuel


Um dia ele saiu de sua toca, digo, de seu pequeno apartamento e começou a andar pelo corredor imundo do caos daquela cidade.

Era o anoitecer do último dia. Chovia. Não demorou estava fora da área urbana. Havia ameaças por todo lado, policiais armados, mulheres sujas, vozes aterradoras. Não pôde compreender tudo, mas, como não saía de casa há muitos anos, pensou que tudo poderia estar assim desde sempre.

Grande Episódio.

Procurou um bar, pois estava com sede.

Entrou, pediu um copo, e bebeu.

O rapaz do bar perguntou:

- Com quê vai pagar?

Ele estranhou a pergunta, mas respondeu:

- Com dinheiro.

- Com que dinheiro, quis saber o rapaz.

Aí ele não soube mais o que responder. Imaginou que o mundo mudara, e que aquelas velhas cédulas já não valiam nada. Resolveu arriscar:

- Veja, respondeu, exibindo o dinheiro.

À vista daquelas coisas, o rapaz do bar desmaiou e caiu, o dia amanheceu, as luzes se acenderam nas árvores e parou de chover.

Só então ele reparou que exibira, por engano, suas cartas de amor.



* Rogel Samuel é um dos grandes autores e pesquisadores da Amazônia contemporânea, além de poeta. Doutor em Letras, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre outros, escreveu: Crítica da Escrita, 1979; Manual de Teoria Literária, Editora Vozes, 14 edições; Literatura Básica, Editora Vozes, em 3 volumes, 1985; 120 Poemas, 1991; o romance "O amante das amazonas", Editora Itatiaia 2a edição, 2005; Fios de luz, aromas vivos, Fortaleza, Expressão Gráfica Editora, 2012; e autor do romance TEATRO AMAZONAS, Edua, Manaus, 2012.

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