quinta-feira, 17 de outubro de 2013

UMA CANÇÃO DE GESTA

Elson Farias


1.

Vida carente de vida,
mundo vivo sem vivente,
úmida noite de chuva
que canta e sabe o que canta

e não repete esse canto
só para fazer de conta,
para dizer que viveu
vivendo o que jamais viu,

que matou onça a cacete,
a nado atravessou rio.


1.1

Vou contar aqui as vidas
do menino que nasceu
às margens do riomundo,
riomundo que o sorveu

folha seca no remanso,
redemoinho do rio.

1.2

Existia pelas águas
mariscando pedra e praias,
vivia dos benefícios
que o rio lhe concedia.

Vivia dos benefícios
da ribanceira de insetos,
da água e da lama que
lhe davam peixes de escama.

Se alimentava de peixes
igual a uma ave de inverno,
se de carne, só de caça,
nas fronteiras desse inferno.

Morreu por dentro dos raios
noite negra, escuridão,
se enrolou no seu lençol
pra não ouvir o trovão,

sofreu de febre e frieira,
provou do ardor da sezão.

1.3

Foi tentado pelas almas
por detrás da vã certeza,
tremeu como treme
verde contra a correnteza.

Viu uma caveira viva
de homem bêbado no rio,
caveira com claros traços
de vida a cobrir-lhe de aura,

caveira toda roída,
roída de fio a fio,
de afogado sem beleza,
marca amarga deste rio.

1.4

Se refez da morte certa,
peixe armado com as galhas,
lutando contra a sua linha,
perdido nos seus anzóis.

Se refez da morte certa
precisando atravessar
o Amazonas de banzeiros
no tempo dos temporais.

1.5

Perseguiu os bichos fêmea
como se busca mulher,
soube da morte de um homem
sandeu de amor por mulher.

1.6

Dizia de cor os nomes
dos motores que passavam,
corria a chamar os outros
se via um de nome novo,

companheiros do alvoroço
que lhe enchia o coração
quando vestia uma roupa
nova, da linha ao botão.

1.7

Ouviu com olhos abertos,
mas, abertos de doer,
as histórias que contavam
da vida para ele ouvir,
histórias sempre mentidas
porque não lidas, ouvidas

e se ouvidas, corrompidas.
Não lidas porque, a não ser
um ou outro de mais sorte,
ninguém se arvorava a ler

e escrever sabiam poucos,
um escrever sem ideias
de garranchos e borrões,
não pela pena ruim

mas pela rude ignorância
sem um dedo de pudor,
com arroubos literários,
veleidades de escritor.

2.

Os seres mortos aterram,
aterra a figura falsa,
flores de pano sem água,
fruta sem ar de quintal.

Vejo em tudo a vida avara
do menino que encontrei,
futuro sem ser futuro,
letra falida de lei,

caibro de casa caída,
solidão das que eu andei.

2.1

Chorar, não mais, porque choro
não convence, e o convencer
a chorar, fere o decoro
de homem feito pra viver.

2.2

Por isso conto esta história
irreal, sem conclusão,
tais aquelas de memória
contadas no barracão.

Me propus contar a vida
das vidas de um só vivente,
relatar vida por vida,
passo a passo, uma por uma,

e me encerro certo, certo
de não ter história alguma.

3.

A não ser que não se saiba
bem certo o que é ser viver,
se converta a ação em ato
de morrer e nunca abrir

os olhos para a paisagem
num grande hausto de aspirar
a aurora nova das coisas
e dos bens da terra no ar;

a não ser que se concebam
as coisas tais elas são
e não se mova uma palha
para a sua transformação.

4.

Transformar como quem abre
na pura estrela do dia
as tapagens da vontade
contra a voz neutra, vazia.

Transformar como quem dobra
a ilusão, com toda fé,
como envira de munguba
na textura do topé.

Transformar como quem rompe
os gritos num só grito,
eficaz tal como o golpe
da gaponga no igapó

ou como a clave distante
do machado a transformar
a mata verde em coivara
disposta para plantar.


FARIAS, Elson. Do amor e das fábulas. Rio de Janeiro: Artenova, 1970. p.43-52

> Elson Farias é um dos principais expoentes da literatura amazonense. O poeta itacoatiarense integrou o chamado Clube da Madrugada, importante movimento de renovação das letras no Amazonas, fundado em 1954. Pertence à Academia Amazonense de Letras. Entre outros, escreveu: Barro verde. Manaus: União dos Estudantes do Amazonas, 1961; Do amor e da fábula. Rio de Janeiro: Ar­tenova, 1970; Imagem. Rio de Janeiro: Conquista/Academia Amazonense de Letras,1976; Roteiro lírico de Manaus em 1900. Ma­naus: Governo do Estado do Amazonas,1977; Palavra Natural. Brasília: Clube de Poesia e Crítica, 1980; Romanceiro. Manaus: Puxirum, 1985; Balada de Mira-anhanga. Manaus: 1993, A destruição adiada , Manaus, 2002; Memórias Literárias.  Manaus: Valer, 2005.
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