quarta-feira, 31 de março de 2010

DOROTHY STANG

Narrativa da morte de Ir. Dorothy Stang, por Binka Le Brenton.
Dorothy se voltou para ir, e Eduardo acenou. Rayfran puxou a arma. “Irmã!”, ele gritou.

Dorothy se virou e viu a arma. Ficou ali parada um instante, paralisada. “Meu Deus!”, disse a si mesma. “Ele realmente quer me matar.”

“Bem, senhora, ela o ouviu dizer, se não resolvermos este assunto hoje, não resolveremos mais.”

[...]

“Não faça isso”, ela dizia para Rayfran. “Não atire em mim.”

Rayfran ficou tenso. “Tira a mão da sacola!”, ele gritou. “É uma arma o que você tem aí ou o quê?”

“Eu não tenho arma”, ela respondeu em sua voz suave. “Minha única arma é esta.” E ela tirou sua Bíblia e a abriu calmamente.

Rayfran e Eduardo a observavam, hipnotizados. Detrás da árvore, Cícero fechou os olhos e rezou uma breve oração. Aproveitando-se de reservas que ela nem sabia que tinha, Dorothy leu com uma voz equilibrada: “Abençoados são os puros de coração, pois eles verão a Deus. Abençoados sãos os dóceis, pois eles herdarão a terra. Abençoados são os que têm fome e sede de justiça...”

Ela fechou a Bíblia e olhou nos olhos de Rayfran. Eles estavam duros como uma rocha. “Bem, senhora”, ele lhe cuspiu, “chega disso.”

O silêncio da floresta foi rompido por um tiro e Dorothy caiu por terra. A última coisa que viu foram as botas de Rayfran, de pé, esvaziando o tambor de seu revólver. Tudo ficou preto.

Os dois matadores se viraram sem uma palavra e correram para dentro da floresta. Cícero segurou a respiração e os observou enquanto partiam, e então, soluçando, correu na direção oposta o mais depressa que seus pés podiam levá-lo.

Houve um silêncio absoluto e então começou a chover sobre o corpo de Dorothy deitado na estrada, misturando seu sangue com o barro vermelho do chão da floresta.


BRETON, Binka Le. A Dádiva Maior. São Paulo: Globo, 2008.
Fotos: CNBB

segunda-feira, 29 de março de 2010

CONCEITO DE JUSTIÇA

Profª. Inês Lacerda Araújo


A cada crime, a cada ato de violência, ouve-se "Queremos justiça!". Trata-se da justiça obtida pelo direito, que é muitas vezes precária, lenta, cheia de percalços. Condenar o culpado é tudo o que se requer para que a justiça se estabeleça. Isso basta?

Justiça pode ser entendida como um valor, aliás, para Platão, ela é a virtude mais preciosa para a realização política na polis. A cidade ideal é aquela em que as pessoas têm um papel, uma função, cada um ocupa seu lugar no todo segundo sua capacidade. Artesãos, guerreiros, governantes têm suas funções específicas e realizam um tipo de valor: os primeiros realizam a virtude da temperança, da moderação, sua alma é sensitiva; os guerreiros defendem a cidade, sua virtude é a da coragem; os governantes devem ser sábios, sua virtude é a da sabedoria. Justiça é uma decorrência dessa distribuição.

O conceito de justiça que mais usamos na modernidade não é o distributivo e sim o equitativo. Ela é para todos, e todos ganham o mesmo quinhão.

Evidentemente isso não funciona, há diversidade enorme de gostos, de educação, de projetos pessoais. Governo algum consegue distribuir tudo a todos da mesma forma. E se por acaso o fizesse, teria que ser impositivo, totalitário, ter mão de ferro para que uns não quisessem também o que caberia ao outro.

Um conceito mais interessante e viável é o de um filósofo norte-americano, Richard Rorty (1931-2007), de justiça como lealdade ou solidariedade alargada. Para ele não há uma moral universal, não há regras morais que devam ser seguidas por todas as culturas. Ele sugere que em algum lugar, de alguma forma, entre as crenças e desejos compartilhados deveria haver recursos que permitissem a convivência, a convivência sem violência.

Como aplicar isso a palestinos e israelenses, por exemplo? A aproximação deveria permitir que cada um desempenhasse seu papel, seu destino político sem que nenhuma das partes pretendesse impor-se ou arvorar-se em ter razão, ser superior ou alegar direito inconteste.

Alargar a lealdade que se tem com seu amigo, seu familiar, ao outro, ao outro lado da fronteira, ao diferente de nós. Isso seria praticar justiça.
 
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**INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, autora e organizadora, entre outros, de Temas de Ética (Editora Champagnat - PUCPR, 2005)

segunda-feira, 22 de março de 2010

SOBRE ACASO, DESTINO, SORTE E AZAR

Profª. Inês Lacerda Araújo


É frequente ouvirmos "estava escrito", "era o destino". Ou "hoje é meu dia de sorte" e também o inverso "hoje tive azar".

Como entender o tempo? O futuro? Se algo está escrito nas estrelas, então pode ser que tudo esteja escrito e pré-determinado.

Mas não é bem assim, temos liberdade para agir, para decidir, podemos planejar. Quando o planejado não dá certo costumamos atribuir a "culpa" ao misterioso, ao desconhecido, ao azar, ao acaso. Quando o planejado dá certo, consideramos que nós somos os responsáveis!

Não é estranho pensar dessa maneira?

Há diversas séries de acontecimentos, e elas se entrelaçam e deságuam no acontecimento x ou y. Se isso nos favorece, achamos que foi sorte. Se não favorece chamamos de azar.

Acontecimentos que se entrelaçam por causas diversas, em momentos diversos e que culminam em certo momento, podem ser o que chamamos de acidentes, uns felizes outros não...

Se houvesse destino, algo marcado para acontecer, não poderíamos mudar nossos percursos, e mudamos, ainda bem. O que não podemos mudar, aquilo em que não podemos interferir são as séries de acontecimentos aleatórios, ocasionais, fortuitos. Um terremoto, um galho que cai, a existência do universo, a evolução da vida na Terra. Podemos nos defender com prédios mais seguros, ficando abrigados numa tempestade, fazendo modificações genéticas.

Mas isso não elimina a incerteza, mesmo com todos os dispositivos de prevenção e de segurança, o futuro nos inquieta e amedronta. Vêm daí os mitos, os deuses, as promessas, as tentativas do dominar o acaso. Esses recursos podem até nos consolar, nos distrair por um momento, criar a ilusão de que somos eternos e incólumes.

Em vão.

Enfim, há três tipos de fenômenos: os que estão fora de nosso alcance, insondáveis; os fenômenos causados direta ou indiretamente pela nossa ação; e aqueles em que podemos influir, um enorme espaço de criação e liberdade, que só encontra limite na nossa humana forma de ser e de agir.
 
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**INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, autora, entre outros, de Do Signo ao Discurso: introdução à filosofia da linguagem  (Editora Parábola, 2008)

sexta-feira, 19 de março de 2010

A TEMPESTADE

Gibran Kahlil Gibran

O pássaro e o homem têm essências diferentes. O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas; o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos.

Acreditar é uma coisa; viver conforme aquilo que se acredita é outra coisa. Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos. Muitos levantam a cabeça acima dos montes; mas sua alma jaz nas trevas das cavernas.

A civilização é uma árvore idosa e carcomida, cujas flores são a cobiça e o engano e cujas frutas são a infelicidade e o desassossego.

Deus criou os corpos para serem os templos das almas. Devemos cuidar desses templos para que sejam dignos da divindade que neles mora.

Procurei a solidão para fugir dos homens, de suas leis, de suas tradições e de seu barulho.

Os endinheirados pensam que o sol e a lua e as estrelas se levantam dos seus cofres e se deitam nos seus bolsos.

Os políticos enchem os olhos dos povos com poeira dourada e seus ouvidos com falsas promessas. Os sacerdotes aconselham os outros, mas não se aconselham a si mesmos, e exigem dos outros o que não exigem de si mesmos.

Vã é a civilização. E tudo o que está nela é vã. As descobertas e invenções nada são senão brinquedos com que a mente se diverte no seu tédio. Cortar as distâncias, nivelar as montanhas, vencer os mares, tudo isto não passa de aparências enganadoras, que não alimentam o coração nem elevam a alma.

Quanto a esses quebra cabeças, chamados ciências e artes, nada são senão cadeias douradas com as quais o homem se acorrenta, deslumbrando com seu brilho e seu tilintar. São os fios da tela que o homem tece desde o início do tempo sem saber que, quando terminar sua obra, terá construído uma prisão dentro da qual ficará preso.

Uma coisa só merece nosso amor e nossa dedicação, uma coisa só...

É o despertar de algo no fundo dos fundos da alma. Quem o sente, não o pode expressar em palavras. E quem não o sente, não poderá nunca conhecê-lo através de palavras.

Faço votos para que aprendas a amar as tempestades em vez de fugir delas.


GIBRAN, Kahlil Gibran. Todo Gibran. Seleção e tradução Mansour Challita. Rio De Janeiro: Associação Cultural Internacional Gibran.

sexta-feira, 12 de março de 2010

SOBRE AS COISAS SIMPLES DA VIDA

Profª. Inês Lacerda Araújo


Heráclito de Éfeso, filósofo pré-socrático (cerca de 540-470 a. C.), ficou famoso pela afirmação de que tudo muda, a cada vez que alguém se banha em um rio, as águas não são mais as mesmas, a pessoa já não é mais a mesma. O elemento primordial, aquele de que tudo é feito, a causa de tudo é o movimento, tal como o do fogo, incessante. Ele era famoso como pensador, admirado pela sua sabedoria. Era até mesmo arrogante, preferindo viver isolado. Morreu com hidropisia, como os médicos não conseguiam retirar a água de seu ventre, ele mesmo se fechou em um estábulo, cobriu-se com esterco imaginado que pudesse secar a água (!), mas acabou morrendo ...

Perguntado por que muitas vezes ele se calava, respondia "Para que vocês possam tagarelar". Dizia que a felicidade não residia nos prazeres do corpo, se residisse, "diríamos felizes os bois, quando encontram ervilha para comer". O equilíbrio de todas as coisas se acha na luta dos contrários, no ser e não ser de todas as coisas.

Conta-se que certa vez foi procurado por estrangeiros, que foram visitá-lo em busca de respostas para as questões mais nobres da filosofia. Encontraram-no junto ao fogão, se aquecendo, e se espantaram por ver um sábio em uma situação comum. Ao que ele respondeu: "Junto à lareira também habitam deuses".

Nas mais simples e cotidianas tarefas, "se manifesta algo de natural e de belo", completa Heráclito.

É possível encontrar harmonia, satisfação e plenitude nos atos mais banais. Muitas vezes a filosofia serve para isso, para ver o que está diante de nossos olhos e não buscar o inalcançável quando o sentido e a completude estão à nossa mão.
 
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**INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, autora, entre outros, de Foucault e a crítica do sujeito (Editora UFPR, 2008)

terça-feira, 9 de março de 2010

NADA MELHOR



Para fazer pessoas ninguém ainda não
inventou nada melhor que o amor:
Deus ajeitou isso pra nós de presente.
De forma que não é
aconselhável trocar
o amor por vidro.



Manoel de Barros
in O Fazedor de Amanhecer

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O HOMEM ABSURDO de Albert Camus

Isaac Melo

"Para Camus, o único problema fundamental da filosofia e, verdadeiramente, sério é: o suicídio, isto é, julgar se a vida merece ou não ser vivida".


Albert Camus (1913-1960) foi um homem de muitas faces: foi jornalista, romancista, dedicou-se ao teatro, foi militante político e polemista. Sua vida e sua obra entrelaçam-se de uma maneira fecunda e criativa. São seus sentimentos que impulsionam sua obra, seu sentir frente a um mundo que lhe era estranho, absurdo, mas também fraternal e cheio de sol. É um mundo do absurdo, num primeiro momento, e da revolta num segundo. Ele não é um filósofo preocupado com definições nem com o rigor conceitual, mas com o simples, cotidianos e profundos problemas da existência.

É em O Mito de Sísifo que o tema do absurdo aparece em toda a sua plenitude no pensamento filosófico de Camus. Agora ele problematizará filosoficamente a vida e refletirá sobre ela. O livro começa colocando o único problema fundamental e, verdadeiramente, sério: o suicídio, isto é, julgar se a vida merece ou não ser vivida. Não tem importância maior saber se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias. Tudo é secundário. O homem se sente estranho porque vê-se privado de repente das ilusões e das luzes. É o encontro do exílio, fuga sem conforto e solução, pois, não se tem esperança de se encontrar a tão querida e desejada terra prometida. O sentimento de absurdo consiste, pois, na afirmação do divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e sua decoração. Camus considera que todos os homens sadios pensam no suicídio. Conclui, daí, que há uma ligação direta, lógica entre esse sentimento e a aspiração ao vácuo, isto é, ao nada.

A revelação da morte tem algo de violento e nos transforma. Chega um dia em que nos damos conta de que o homem morre e de que morremos. Uma vez atingida esta verdade, seremos para sempre sua presa. É pela morte que nossa sensibilidade chega ao absurdo. Só depois de termos sidos atingidos de perto, a grande verdade terá significação e não mais se deixará levar ao desprezo. Ela é o nosso acesso à sensibilidade. A verdadeira expressão camusiana é que os homens não são felizes porque morrem. O fato da morte é repugnante à sensibilidade. Por mais que façamos, a morte não pode ser enfeitada. Será sempre “uma aventura horrível e imunda”. A imagem da “aventura imunda” é uma barreira para que sonhemos uma eternidade. O absurdo sensível não é esta constatação da brutalidade de um termo. Mas é a constatação violando o meu desejo de vida.

A atitude essencial do homem absurdo será a lucidez, isto é, uma consciência que não se quer negar. Por isso, o homem absurdo não foge à luta, não despreza a razão. Acha que reúne todos os elementos, os dados da experiência. Contudo, não está disposto a saltar antes de saber. É resultante de sua lucidez, daí não haver lugar para esperanças. Os homens que acreditam na esperança, para Camus, vivem mal neste mundo.

Na última parte do livro Camus fala do antigo mito grego de Sísifo que tinha sido condenado a empurrar sem descanso um rochedo até o cume de uma montanha, de onde ela caía de novo, em conseqüência de seu peso. Para Camus, Sísifo é o herói absurdo, pelas suas paixões bem como pelo seu tormento. O tormento dele é o preço que é necessário pagar pelas paixões desta terra. Camus nos diz que seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte e a paixão pela vida valeram-lhe esse suplício indizível em que seu ser se emprega em nada terminar.

Sísifo sobe e desce infinitamente, sem nenhuma esperança que isso termine. Camus faz da situação de Sísifo uma analogia com a situação de milhares de operários que devem recomeçar seu trabalho cada dia. Mas Sísifo é lúcido e, embora imponente e revoltado, conhece toda a extensão da sua miserável condição. É essa condição que Sísifo pensa durante a sua descida, pois, para Camus, a clarividência que devia fazer o seu tormento consome ao mesmo tempo também a sua vitória. Camus nos diz que não há destino que não se transcenda pelo desprezo. Ele conclui afirmando que há só um mundo e que a felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra, são inseparáveis.

Sísifo faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens, e ali é que Sísifo encontra sua silenciosa alegria. Seu destino pertence-lhe e é um destino único e pessoal, pois não há destinos superiores. Isto faz com que Sísifo sinta-se senhor de seus dias.

De acordo com Guimarães, o Mito de Sísifo é de fato uma análise da sensibilidade absurda, uma análise racional, que procurar tirar as conseqüências. O absurdo é um ponto de partida e não um estado. Transformar um sentimento em estado é negar qualquer saída e concordar com o que oprime. Fazer do absurdo uma regra é viver no desespero. Camus anota em O Mito de Sísifo várias possibilidades do surgimento do absurdo, sempre em situações corriqueiras, onde é apenas decisivo o exame da inteligência. A consciência da rotina, seguida da indagação do sentido, leva-nos para a sensibilidade absurda. A inteligência dá-se conta de que a existência faz-se no tempo. Compreende a tragédia de jogarmo-nos, constantemente, no futuro. A cada momento aproxima-nos mais do termo e, não querendo o fim, queremos o futuro. O absurdo é a constatação de que o mundo se nos escapa. O absurdo não é nem o mundo nem a Inteligência, mas a relação entre a inteligência e o mundo.

A fidelidade do raciocínio à evidência que o despertou exige a manutenção do absurdo. O salto filosófico é uma empresa condenada. Esta é a lógica que reina no absurdo. A fidelidade ao absurdo é aqui uma fidelidade ao homem. O que obtemos com o salto, aquela certeza de ordem religiosa, ultrapassa a dimensão humana. O homem absurdo quer viver lucidamente. E a lucidez mostra uma realidade que nos rejeita. Rejeitados, talvez seja nossa tarefa rejeitar. Num mundo sem sentido, permanece a exigência humana de sentido. Nada pode ser feito para satisfazê-la. Sou obrigado a manter o caos reinante, mas este caos, este inferno, é meu lugar. Assim me imponho frente a uma realidade que me contraria e frente a qual sou impotente. O confronto do homem com a realidade é favorável ao homem. Ele é o grande inocente.

O homem absurdo tem que viver. Viverá sem apelo, sem esperança. Outra vez não anulará o problema. A tentação seria a negação da consciência: o suicídio. Porém, um absurdo que nasceu da consciência tem que viver como verdade, logo, viver na consciência. A resposta absurda é viver. Viver é então convertido em revolta. A revolta é a manutenção dos dois elementos da questão: considera o real e mantém a consciência. Viver mantendo os dois elementos da oposição é viver a própria oposição. Negando-lhe o que lhe nega, ele se afirma e se faz superior, pois a consciência dá grandeza à revolta.

Sísifo é fiel à sua tarefa absurda. Mas sua fidelidade é consciente e, consciente, faz-se superior aos deuses que o condenaram. Sem esperanças, sem verdades absolutas, sem Deus, o homem é livre. Porém, o homem absurdo se sabe condenado ao que não dura. Aceitando o relativo, aceita a possibilidade. Sua liberdade é disponibilidade, é abertura. A liberdade absoluta será sua criação. Nada se impõe, pois ser livre é criar e examinar todas as soluções.

Por fim, desligado de valores absolutos não será possível procurar viver melhor, mas, unicamente, viver mais. Só o finito da condição pode nos levar a esta paixão. Só a morte justifica o amor intenso pela vida. Viver mais é viver conscientemente. A lucidez faz-nos sentir a vida. Só a consciência conta. Retirados todos os valores, a lucidez é o único valor. Se o absurdo acentua a experiência quantitativa, tal experiência terá que ser qualitativa, consciente, para ser válida. Estão aí as três conseqüências do absurdo: revolta, liberdade e paixão. Três afirmações da vida.



REFERÊNCIAS

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007.

GUIMARÃES, Carlos Eduardo. As dimensões do homem: mundo, absurdo, revolta. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1971.

GUTIÉRREZ, Jorge Luis. A revolta do homem absurdo. Revista Ciência & Vida (Filosofia). São Paulo, no. 21, ano II, p. 22-33, 2008.

LEITE, Roberto de Paula. Albert Camus: notas e estudo crítico. São Paulo: Editora Edaglit, 1963.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

UM ÍNDIO ACREANO REINVENTA A PINTURA

Chico da Silva
(1910 - 1985)
Chico da Silva. O que está por trás deste nome tão simples é a história daquele que é considerado o maior pintor de estilo primitivo do Brasil. E poucos sabem que a sua obra hoje se encontra nas principais coleções de arte do mundo – como na coleção da Rainha da Inglaterra. A seguir transcrevo o artigo de Cassandra de Castro Assis Gonçalves (bolsista IC-FAPESP) sobre o nosso Chico da Silva.

“Marcadas pelo talento, o acaso e a decadência, a vida e a obra de Chico da Silva são das mais intrigantes da História da Arte brasileira e também um retrato da falta de suporte por parte do governo e dos próprios artistas em oferecer a oportunidade de um grande artista, ainda que simples como Chico da Silva - analfabeto toda a vida - de se profissionalizar.

Francisco Domingos da Silva nasceu em 1910, às margens do “Alto Tejo” no Acre, e aos 10 anos veio para Pirambu, bairro pobre de Fortaleza-CE. Perdeu o pai logo cedo, passando então, a fazer todos os tipos de serviços - consertando sapato, fogão, cobrindo guarda chuva, etc. para sobreviver. Em suas muitas andanças pela cidade, Chico às vezes parava em frente a um muro branco e fazia desenhos com carvão ou tijolo, colorindo-os com folhas. Foram estes desenhos, na Praia Formosa, que chamaram a atenção do crítico de arte e pintor Jean-Pierre Chabloz que passou a procurá-lo e foi seu primeiro incentivador.

Chabloz ensinou Chico da Silva a pintar com guache e passou a dar o material para que ele pintasse, além de comprar todas as suas telas - comprou mais de 40. Foi por intermédio dele que Chico da Silva expôs sua arte, pela primeira vez, no III Salão Cearense de pintura e no Salão de Abril de 1943, em Fortaleza. Em 45, junto com outros artistas cearenses, expõe na Galeria Askanasy e, durante a década de 50, suas obras vão ser vistas em várias galerias da Europa, conseqüência de um artigo a seu respeito no CAHIERS D’ART, conceituada publicação francesa, que o considerou um pintor genuinamente primitivo.

Deslumbrado com o dinheiro e a fama, Chico da Silva passa a gastar com álcool e mulheres; atento à supervalorização dos seus quadros, quer produzir cada vez mais, e passa a recorrer a ajudantes, na verdade meninos e meninas que pintavam os quadros que ele só assinava - cerca de 90% dos quadros com data posterior a 72 eram falsos. A esta altura o artista estava cercado de aproveitadores que o exploravam, exigindo cada vez uma produção maior, vendendo quadros de Chico em mercados, feiras e até na porta de hotéis, por valores ínfimos.

Em meio a denúncias de falsificação, Chico da Silva é indicado para expor na XXXIII Bienal de Veneza (Itália), em 66, onde recebe Menção Honrosa. Chabloz, decepcionado com os rumos que artista e obra tomaram, rompe com ele em 69, afirmando em um artigo do Jornal do Brasil, intitulado Chico da Silva ou a ingenuidade perdida, que sua arte estava morta.

O processo de decadência do artista se agravara com a morte da mulher, Dalva, em 75, e tem seu ápice em 1976, quando foi internado com cirrose hepática e tuberculose crônica, permanecendo um ano no hospital. Mesmo se recuperando fisicamente, Chico continuou bebendo e jamais conseguiu recuperar sua arte. O maior artista primitivo do Brasil, que imprimia nas suas pinturas toda a mitologia da região amazônica realizava através de uma expressão quase surrealista, e que está representado nas maiores coleções do mundo - como a da Rainha da Inglaterra - nunca teve suporte para estruturar sua carreira, apenas incentivos isolados, que o jogou em um meio desconhecido que o deslumbrou e, dentro do qual, sem orientação, acabou por perder-se.”

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Algumas de suas obras:




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Fonte das imagens: MAUC
Obs: Não foi possível precisar o nome de cada obra, pois o site de onde foram retiradas, expirou.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O SONHO DE UMA SOMBRA

Píndaro


A sorte dos mortais
cresce num só momento;
e um só momento basta
para a lançar por terra,
quando o cruel destino
a venha sacudir.

Efêmeros! que somos?
que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
Mas quando os deuses lançam
sobre ele sua luz,
claro esplendor o envolve
e doce é a vida.



Referência e sugestão:
Píndaro. Poesia: Grega e Latina. Sel. e trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Editora Cultrix, 1964.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

FREI PAULINO, O PADRE SERINGUEIRO

RELATO DE UM DOS MAIORES TEÓLOGOS DO BRASIL, CLODOVIS BOFF, ACERCA DE FREI PAULINO, O SACERDOTE MAIS ATUANTE NA DEFESA DOS POVOS DA FLORESTA E MAIS QUERIDO DO ACRE. O RELATO É DE 1980, MAS CONTINUA ATUAL.


Ele é o responsável da missão dentro da imensa paróquia (50.000 quilômetros quadrados) de Sena Madureira. Anda sempre com uma batininha surrada, por razões de pobreza e comodidade, segundo ele. Baixo e magro, tem um olhar de touro e uma voz cavernosa. Pode ficar falando de 2 a 3 horas aos homens da floresta em tom elevado, como nos discursos, e não se cansa.
As viagens missionárias que faz pelos rios e pela mata, chamadas “desobrigas”, podem durar meses. Come e bebe o que comem e bebem os seringueiros. E dorme em rede, como eles. É um homem profundamente integrado no mundo dos filhos da mata. É um autêntico “padre seringueiro”. Quando volta para casa vai direto para o hospital, para se recuperar do desgaste da desobriga.

Foi dos primeiros missionários do Acre a defender no passado a tese do respeito à cultura dos índios e do aproveitamento pastoral de sua religião. Num curso de antropologia em Manaus, Darcy Ribeiro, grande estudioso e amigo dos índios, não deu nada por esse homenzinho rústico, com sua batina surrada e tradicional. Mas, depois que o ouviu falar, ficou impressionado e lhe ofereceu alguns livros seus como homenagem.

Até pelos anos 70, Frei Paulino fazia uma pastoral ainda baseada na assistência e sacramentalização. Era a época. Depois começou a ler alguns livros que lhe passava o bispo. Lia-os enquanto fazia as viagens de barco pelas voltas infinitas dos rios da Amazônia. Leu, por exemplo, o livro de José Comblin, Sinais dos Tempos e Evangelização, que fala da religião do povo brasileiro e do como a Igreja brasileira deve evangelizar. Era o vento do Vaticano II que passava sobre a floresta. Aí o Frei Paulino mudou. Passou para uma pastoral de evangelização, de conscientização, de libertação, de comunidades. E, com essa virada, viraram também os seringais. Já não pousava na casa grande e confortável do patrão. Ia dormir nas choças dos seringueiros. Começou a abrir os olhos do povo para seus direitos. Denunciava as injustiças que ia vendo. Virou profeta, ao modo de Amós, o lavrador.

Os seringalistas e fazendeiros, os políticos e marreteiros exploradores passaram a ter raiva dele. Sentiram-se traídos por quem julgavam um aliado seguro. Mas ai de quem fala mal de Frei Paulino diante de um seringueiro! Quem não o conhece nestas matas do Acre? Hoje ele casa gente que batizou. Nem sei quantos anos faz que anda pelas matas e rios, buscando e reunindo o rebanho de Cristo disperso.
Ainda hoje ele lê bastante nas viagens. Leva consigo apenas uma sacola com objetos de culto e um algum livro. Já andou virando tudo aquilo no meio do rio. Durante o treinamento no Icuriã estava lendo o meu livro Teologia e Prática. Admirei a coragem dele de ler um livro tão duro – mais duro que tronco de cumaru-ferro. Tirou-o de sua sacola de borracha (que é para não molhar). Estava todo manchado de óleo. É claro, misturado com tanta coisa dentro do saco.

No treinamento, o pessoal se apresentava a dois. Tocou-me apresentar Frei Paulininho. Para indicar ao mesmo tempo seu espírito missionário, sua pobreza e sua popularidade, disse apenas isso, com a mão no seu ombro: “Aqui está o Frei Paulino, uma mistura de São Paulo, de São Francisco e do Padim Ciço!” Ele sorria com aquele seu rosto limpo, como anjo feito a terçado...


Referência e sugestão:
BOFF, Clodovis. Deus e o homem no inferno verde: quatro meses de convivência com as CEBs do Acre. Petrópolis: Vozes, 1980.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

HÉLIO MELO, O PINTOR DA SELVA

"Então, como aprendi sem professor, podem me chamar de pintor da selva. Porque só quem viveu lá dentro é capaz de descobrir os mistérios da natureza por meio de nossos irmãos índios, donos da floresta."
Hélio Melo


Hélio Melo (1926-2001), grande expoente das artes plásticas do Acre. Autodidata, cursou apenas até a terceira série do antigo primeiro grau, porém, um homem multifário, pois também era compositor, músico e escritor. Seus livros revelam mais que um imaginário pessoal, pois são preciosidades que resgatam aspectos peculiares da cultura amazônica, com suas lendas, histórias fantásticas e reais. Hélio escreve a partir de suas vivências, o que agrega a seus escritos autenticidade e brados de vida. Conforme ressaltou Naylor George, na apresentação de O caucho, a seringueira e seus mistérios: “ele escreve o que conversa e o que sente da mesma maneira que pinta uma tela, ou ainda da mesma forma que toca um violino. Ele é a simbiose de uma arte múltipla que se revela clara e cristalina...”.

A histórica revista Outras Palavras, assim descreve, sinteticamente, Hélio: “Nasceu e passou boa parte de sua vida - dos 12 aos 41 anos - dentro de um seringal. Foi entre o corte nas estradas de seringa, que o artista rabiscou seus primeiros desenhos e aprendeu a tirar som do primeiro instrumento: um violão. Mais tarde, ele iria abandonar este e um outro instrumento - o cavaquinho - pela paixão ao violino, que aprendeu a tocar de ouvido, no meio da floresta. Encantado com a beleza e os mistérios da Amazônia, o pequeno Hélio aproveitava as horas de folga preenchendo folhas brancas com desenhos que misturavam lápis e uma tinta extraída do sumo de uma planta. Em 1959, deixou para trás o seringal e veio para Rio Branco em busca de uma vida melhor para a família. Na capital acreana, foi trabalhar como catraieiro, levando e trazendo passageiros de uma margem à outra do rio Acre. No início da década de 70, com a construção da primeira ponte ligando os dois lados da cidade, a procura pela velha catraia diminuiu e Hélio Melo tratou de arrumar outro ofício que lhe garantisse o sustento da mulher e dos cinco filhos. Foi barbeiro ambulante e depois vigia. Em meados da década de 80, matriculou-se num curso ministrado pelo também pintor Genésio Fernandes”.
Estrada da floresta (1983)
Col. Mansour

Ferramentas do seringueiro (1983)
Col. Museu da Borracha

Homem defumando
Col. Museu da Borracha

Burro sobre a árvore
Col. Museu da Borracha

Família e mulher vaca
Col. Garibaldi

Serradores
Col. MASP

Árvore vaca e árvore bezerro
Col. Camargo

Seringueiro fazendo corte na ávore
Col. Mansour

Árvore vaca
Col. Goldfarb

A árvore que chora
Col. Camargo

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"Nos campos e queimadas não se vê o canto dos passarinhos. Tudo perde a sua graça. A mata que é vida dos pássaros e dos homens, aos poucos vem transformando a floresta em um sertão isolado.

Os Pássaros também sentem o desmatamento. Uns choram seus ninhos desbaratados e outros seus filhotes, esmagados pelas árvores tombadas pelo homem, que se diz inteligente.

A floresta é o véu da terra que sustenta o oxigênio, além disso, existe um verde vivo e outras cores que ninguém consegue definir. Enfim, para pintar uma mata do jeito que ela é, sem o sumo das plantas é impossível".

Hélio Melo em A experiência do Caçador e Os Mistérios da Caça
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Hélio Melo conta sua história.


REFERÊNCIAS PARA APROFUNDAR
MELO, Hélio. A experiência do Caçador e Os Mistérios da Caça. Rio Branco: Bobgraf – Editora Preview, 1996.
MELO, Hélio. Os Mistérios da Mata e Os Mistérios dos Répteis e dos Peixes. Rio Branco: Bobgraf – Editora Preview, 1996.
MELO, Hélio. O Caucho, a Seringueira e Seus Mistérios e História da Amazônia. Rio Branco: Bobgraf – Editora Preview, 1996.
* Imagens retiradas de Universes in universe.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

É UMA MANEIRA DE DIZER


Quando tornar a vir a primavera talvez já não
me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a primavera é gente
para poder supor que ela choraria,
vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a primavera nem sequer é uma coisa:
é uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada  se repete, porque tudo é real.


PESSOA, Fernando. Poesia Completa de Alberto Caeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Imagem: Sandro Botticelli, A Primavera (1482)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

OS PRIMEIROS JORNAIS DO VALE DO JURUÁ

Em O Juruá Federal, obra datada de 1930, de autoria de José Moreira Brandão Castello Branco Sobrinho, juiz do 1º termo da comarca de Cruzeiro do Sul na época, trás importantes dados acerca da região acreana do Vale do Juruá, quando o Acre ainda era Território Federal. Uma das peculiaridades é o resgate histórico que o autor faz dos principais jornais que circulavam na época. Vejamos alguns deles:

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1. O Progresso – o primeiro número saiu no dia 7 de Septembro de 1904, e o último no dia 30 de Septembro de 1905. Foi o primeiro jornal impresso que houve no Alto Juruá, tendo sido publicado na foz do rio Amonea, no Seringal Minas Geraes. O seu número inicial coincidiu com a data da installação da Prefeitura do Alto-Juruá. Era hebdomadário, litterario, noticioso e humorístico, de pequeno formato, com quatro paginas e de tiragem inferior a 100 exemplares.

2. O Cruzeiro do Sul – foi fundado pelo ex-prefeito, coronel Thaumaturgo de Azevedo, tendo sido sempre órgão official do governo Departamental. Saiu pela primeira vez no dia 3 de Maio de 1906, sendo suspenso provisoriamente a 10 de Janeiro de 1915, por falta de papel apropriado. Voltou a circular no dia 14 de Fevereiro do mesmo anno. Seu último número tem a data de 1 de Março de 1918, por ter sido suspenso definitivamente de ordem do Ministro do Interior Carlos Maximiliano. Prestou grandes serviços ao Departamento e teve como redactores os principais jornalistas que hão passado por esta região, entre outros Manuel Fran Pacheco, Belisario de Sousa Filho, João Craveiro Costa, João Alfredo de Mendonça, Manuel do Valle Silva, Olegario da Luz Castro e Esmeraldo Coelho. Era semanário, tendo saído algum tempo duas vezes por semana, com quatro ou seis paginas.

3. O Rio Juruá – foi publicado em Villa Thaumaturgo, de 5 de Janeiro a 6 de Março de 1907. Semanário Litterario e humorístico.

4. O Alho – o primeiro número é datado de Janeiro de 1908, não precisando o dia. Era quinzenal, critico e humorístico, tendo o seu último número a data de 7 de Septembro de 1908.

5. O Mimo – foi mensal e bi-mensal, critico, noticioso e litterario e publicado em Villa Thaumaturgo de 11 de Julho de 1909 a 30 de Janeiro de 1910. Teve como redactores Leoncio Louzada, João Medeiros, Alexandre Sussuarana e José Castello Branco.

6. O Correio do Juruá – semanário noticioso e litterario, publicado sob a direção de Francisco Pereira e Homonono de Figueiredo, de 7 de Março de 1912 até o anno de 1913, não sabendo o mez.

7. O Alto Juruá – publicado de 12 de Agosto a 30 de Dezembro de 1913. Era órgão da Intendencia Municipal, semanário, noticioso e litterario, tendo como redactor Alfredo Cordeiro da Rocha.

8. O Bacurau – tinha como director Eulelio Theophilo e era humorístico, critico e litterario. Seu primeiro numero tem a data de 3 de Septembro de 1916, sendo seu último número do mesmo anno.

9. O Estado – desde a sua fundação obedece á orientação do Partido Autonomista do Alto Juruá, do qual é órgão. Foi seu fundador João Craveiro Costa, que tem sido sempre seu director. Em 1923, passou a ter como redactor chefe Odilon Moura. É político, noticioso e litterario, tendo saído o seu primeiro numero no dia 12 de Agosto de 1916.

10. O Rebate – seu director é Antonio Alves Magalhães, que desde o numero 16 se tornou também proprietário. Dos números 11 a 15 foi propriedade de Eulelio Theophilo. Não tem ligações políticas, tendo saído pela primeira vez no dia 19 de Junho de 1921. É noticioso, critico e litterario.

Obs: foi mantida a ortografia tal qual o livro.
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Ao todo José Moreira descreve 22 jornais existentes na época. Aparecem ainda nomes interessantes nesses jornais como de Craveiro Costa, autor de "A conquista do deserto Ocidental", Thaumaturgo de Azevedo, etc. A maioria dos jornais não ultrapassavam a tiragem de 100 exemplares, com exceção de alguns que chegaram de 200 a 800 exemplares. Um bom começo, para a adversidade da região e da época. Material que vale uma boa pesquisa. Salve, historiadores acreanos!


Referência e sugestão:

SOBRINHO, José Moreira Brandão Castello Branco. O Juruá Federal: Território do Acre. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1930.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

JOSÉ DE ANCHIETA BATISTA e o...

...MENINO DA RUA DO BAGAÇO
José de Anchieta Batista é "acreibano", usando sua expressão. Nasceu na cidade de Teixeira, na Paraíba. Formado em Ciências Contábeis pela UFPB exerceu diversos cargos públicos no Acre, aonde ainda trabalha. Autor dos Livros: Cantos e Lamentos (1987), Menino da Rua do Bagaço (1991) e Contabilidade para principiantes (1989). Atualmente mora em Senador Guiomard – Ac. Conforme o poeta anunciou em seu blog (Blog do Anchieta), estava trabalhando na organização de seu mais novo livro. A obra já foi enviada à editora (Publit, do RJ) e chama-se MENINO DA RUA DO BAGAÇO, com lançamento previsto para 13 de Novembro de 2009, em Rio Branco. Quem o acompanha por meio de seu blog, sabe da qualidade de sua poesia. MENINO DA RUA DO BAGAÇO  será uma valiosa contribuição aos quadros da poesia acreana, confirmando seu autor como uma das grandes expressões poéticas do Acre atual. Não sou eu que digo, é sua obra que demonstra.
***

INCONGRUÊNCIAS


Não sou noite, nem sou dia,
Nem vento, nem calmaria,
Não tenho voz, nem sou mudo,
Não sou nada, nem sou tudo,
Não sou fome, nem fartura,
Nem sensatez, nem loucura,
Nem relento, nem abrigo,
Não sou longe, nem sou perto,
Não sou mar, nem sou deserto,
Não sou rei, nem sou mendigo...

Sou o que presta e não presta,
Sou funeral e sou festa,
Sou errado e sou correto,
Sou letrado e analfabeto,
Sou deista e sou ateu,
Sou os outros e sou eu,
Sou pacífico e sou brabo,
Sou real, sou ilusão,
Sou o sim e sou o não,
Sou um deus, sou um diabo...

Sou parte da romaria,
Sou a fina hipocrisia,
Sou mais ou menos a média
Da tragédia e da comédia...
Sou verdade e sou mentira
Sou a calma e sou a ira,
Sou alegria e sou pranto,
Sou achado e sou perdido,
Sou sorriso e sou gemido,
Sou o encanto e o desencanto...

Sou passado e sou presente,
Precavido, inconsequente,
Sou o ódio e sou o amor,
Sou medo e sou destemor,
Sou machado e sou o lenho...
Não sei de onde é que venho,
Não sei pra onde é que vou...
...E assim perdido na estrada,
Numa confusão danada,
Não sei que diabo é que sou!!!


José de Anchieta Batista (no blog)

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