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sábado, 19 de abril de 2014

POVOS INDÍGENAS: A RAÇA ESMAGADA

Foto: © Survival
Índios torturados no período
da Ditadura de 1964.
Augusto dos Anjos (1884-1914)
(trecho IV do poema Os doentes)


Começara a chover. Pelas algentes 
Ruas, a água, em cachoeiras desobstruídas, 
Encharcava os buracos das feridas, 
Alagava a medula dos Doentes! 

Do fundo do meu trágico destino, 
Onde a Resignação os braços cruza, 
Saía, com o vexame de uma fusa, 
A mágoa gaguejada de um cretino. 

Aquele ruído obscuro de gagueira 
Que à noite, em sonhos mórbidos, me acorda. 
Vinha da vibração bruta da corda 
Mais recôndita da alma brasileira! 

Aturdia-me a tétrica miragem 
De que, naquele instante, no Amazonas, 
Fedia, entregue a vísceras glutonas, 
A carcaça esquecida de um selvagem. 

A civilização entrou na taba 
Em que ele estava. O gênio de Colombo 
Manchou de opróbrios a alma do mazombo, 
Cuspiu na cova do morubixaba!

E o índio, por fim, adstrito à étnica escória, 
Recebeu, tendo o horror no rosto impresso, 
Esse achincalhamento do progresso 
Que o anulava na crítica da História!

Como quem analisa um apostema, 
De repente, acordando na desgraça, 
Viu toda a podridão de sua raça... 
Na tumba de Iracema!...

Ah! Tudo, como um lúgubre ciclone, 
Exercia sobre ele ação funesta 
Desde o desbravamento da floresta 
À ultrajante invenção do telefone.

E sentia-se pior que um vagabundo 
Microcéfalo vil que a espécie encerra 
Desterrado na sua própria terra, 
Diminuído na crônica do mundo! 

A hereditariedade dessa pecha
Seguiria seus filhos. Dora em diante 
Seu povo tombaria agonizante 
Na luta da espingarda com a flecha! 

Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos.
Uma desesperada ânsia improfícua 
De estrangular aquela gente iníqua 
Que progredia sobre os seus despojos! 

Mas, diante a xantocroide raça loura, 
Jazem, caladas, todas as inúbias, 
E agora, sem difíceis nuanças dúbias, 
Com uma clarividência aterradora,

Em vez da prisca tribo e indiana tropa 
A gente deste século, espantada,
Vê somente a caveira abandonada
De uma raça esmagada pela Europa!


ANJOS, Augusto dos. Toda a poesia de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. p.134-136

quarta-feira, 16 de abril de 2014

A UM CARNEIRO MORTO

Augusto dos Anjos (1884-1914)


Misericordiosíssimo carneiro
Esquartejado, a maldição de Pio
Décimo caia em teu algoz sombrio
E em todo aquele que for seu herdeiro!

Maldito seja o mercador vadio
Que te vender as carnes por dinheiro,
Pois, tua lã aquece o mundo inteiro
E guarda as carnes dos que estão com frio!

Quando a faca rangeu no teu pescoço,
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos – fontes de perdão – perdoaram!

Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,
Se fosses Deus, no Dia do Juízo,
Talvez perdoasse os que te mataram!


ANJOS, Augusto dos. Toda a poesia de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. p.127

segunda-feira, 24 de março de 2014

AS CISMAS DO DESTINO (excerto)

Augusto dos Anjos (1884-1914)


Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao Céu o fumo de um cigarro,
Há mais filosofia nesse escarro
Do que em toda a moral do cristianismo!


ANJOS, Augusto dos. Toda a poesia de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. p.105

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

VENCEDOR

Augusto dos Anjos


Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração – estranho carniceiro!

Não pode?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma
Nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta! 

[1902]


ANJOS, Augusto dos. Toda a poesia de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. p.180

sábado, 28 de setembro de 2013

VERSOS DE AMOR

Augusto dos Anjos

A um poeta erótico


Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a... ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.

Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!

Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.

Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal como eu o estou amando,
É Espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!

Para produzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Marsias – o inventor da flauta –
Vou inventar também outro instrumento!

Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que eu te falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!

Para que, enfim, chegando à última calma
Meu pobre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d’alma! 

[1907


ANJOS, Augusto dos. Toda a poesia de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. p.166-167

domingo, 1 de setembro de 2013

RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ

Augusto dos Anjos


A minha ama de leite Guilhermina
Furtava as moedas que o Doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava...
Via naquilo a minha própria ruína!

Minha ama, então, hipócrita, afetava
Susceptibilidades de menina:
“– Não, não fora ela! –” E maldizia a sina,
Que ela absolutamente não furtava.

Vejo, entretanto, agora, em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o ouro que brilha...

Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha! 


ANJOS, Augusto dos. Toda a poesia de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. p.154

quinta-feira, 18 de julho de 2013

VERSOS ÍNTIMOS

Augusto dos Anjos (1884-1914)


Vês?!  Ninguém assistiu ao formidável  
Enterro de tua última quimera.  
Somente a Ingratidão — esta pantera —  
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!  
O Homem, que, nesta terra miserável,  
Mora, entre feras, sente inevitável  
Necessidade de também ser fera. 

Toma um fósforo.  Acende teu cigarro!  
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,  
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,  
Apedreja essa mão vil que te afaga,  
Escarra nessa boca que te beija!



ANJOS, Augusto dos. Toda a poesia de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. p.179