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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

SOBRE A FUNDAÇÃO DE RIO BRANCO: entrevista com o historiador, escritor e professor Eduardo Carneiro

Eduardo Carneiro é professor da Universidade Federal do Acre, licenciado em História (UFAC), bacharel em Economia (UFAC), mestre em Letras (UFAC), Doutor em História Social (USP), e doutorando em Estudos Linguísticos pela UNESP. É membro da Academia Acreana de Letras, escritor e editor de livros. Autor de A formação da sociedade econômica do Acre: sangue e lodo no surto da borracha (1876 - 1914); A Fundação do Acre: uma história revisada da anexação (fase invasiva, fase militar e fase diplomática); A Epopeia do Acre e a manipulação da História no Movimento Autonomista & no Governo da Frente Popular; e O Discurso Fundador do Acre(ano): História & Linguística; História do Acre: resumão para concurso; Acreanismo e comemorações cívicas; Poesias Noturnas e Poesias Diurnas.

QUAIS SÃO AS SUAS PALAVRAS INICIAIS SOBRE O ANIVERSÁRIO DE RIO BRANCO? 

Bem, primeiro eu precisaria saber sobre qual Rio Branco você está se referindo. Pois, historicamente, temos várias, cada uma com o seu respectivo decreto de criação historicamente datado, a saber: Vila Rio Branco (1904), Município de Rio Branco (1912), Rio Branco como capital do Território do Acre (1920) e Rio Branco como capital do Estado do Acre (1962). Assim devem ser vistos porque são entes da divisão administrativa da República brasileira com identidade geográfica e status jurídico-político distintos. O fato de a grafia dos topônimos serem os mesmos, ou seja, Rio Branco, não significa que estamos nos referindo a uma mesma coisa em estágio de evolução diferentes. São simplesmente fenômenos históricos singulares de mesmo nome, ou seja, homônimos.

TUDO BEM, MAS O SENHOR NÃO MENCIONOU O 28 DE DEZEMBRO DE 1882 E NEM O 13 DE JUNHO DE 1909 COMO DATAS PROVÁVEIS DA CRIAÇÃO DE RIO BRANCO. POR QUÊ?

 A não indicação das datas não foi mero esquecimento meu, foi proposital. Primeiro porque tanto a primeira que faz alusão à fundação de um seringal por nome Volta da Empresa, quanto a segunda que faz referência à criação da cidade de Penápolis, não guardam relação homonímica com o topônimo Rio Branco. Segundo por achar que o fato de o seringal e a referida cidade ter se localizado em áreas que atualmente pertencem ao território da capital acreana não os credenciam como parte genealógica do município. Nos dois casos, estamos tratando de vocábulos heteronímicos. Porém sou sabedor da celeuma que muitos políticos e historiadores têm feito a respeito dessas datas, basta lembrar que o cinquentenário da cidade de Rio Branco foi comemorado levando-se em consideração o 13 de junho de 1909, já o centenário, o 28 de dezembro de 1882. O que posso dizer é que as expressões “cidade de Rio Branco” e “município de Rio Branco” só foram usadas oficialmente pelo Decreto Federal Nº 9.831, de 23 de outubro de 1912. Portanto, essa talvez seja a data do nascimento teórico ou jurídico do município, já que, na prática, de fato, como é sabido, ele só veio a ser instalado no dia 15 de fevereiro de 1913.

MAS PROFESSOR, PRATICAMENTE TODOS OS HISTORIADORES AFIRMAM QUE O SERINGAL VOLTA DA EMPRESA, A CIDADE DE PENÁPOLIS E O MUNICÍPIO RIO BRANCO SÃO NOMES DIFERENTES PARA DESIGNAR A MESMA COISA. CERTO? 

Errado (Risos). Essa confusão toda foi feita propositalmente para justificar o 28 de dezembro como data de aniversário do Município de Rio Branco. No entanto, uma coisa é um seringal, outra coisa é uma cidade, e outra coisa é um município. Um seringal é uma unidade de produção rural extratora de borracha que, no Acre, no último decênio do século XIX, era fundado por meio da invasão de território estrangeiro, grilagem de terra e genocídio indígena. Já uma cidade é caracterizada por uma população urbana que se dedica a atividades econômicas não rurais, que geralmente se constitui em sede administrativa de um Município, Departamento, Distrito ou Intendência. Município é uma pessoa jurídica de direito público interno, um ente administrativo do Estado, que é criado por força de decreto oficial e abarca um território composto por áreas rurais e urbanas. No caso do Acre, estamos tratando de um seringal fundado ilegalmente em território estrangeiro, que figurava do lado direito do Rio Acre; de uma cidade fundada “por resolução prefeitoral” em um uma área contraditoriamente rural, situada no lado esquerdo do rio Acre, que passou a servir de sede administrativa de um dos Departamentos do antigo Território do Acre; e de um município que é a capital do Estado do Acre, cujo o território abarca tanto áreas rurais quanto urbanas situadas tanto do lado direito do rio Acre, quanto do lado esquerdo. Portanto, geograficamente, identitariamente e juridicamente são fenômenos históricos distintos.
 
O SENHOR ESTÁ AFIRMANDO QUE A FUNDAÇÃO DO SERINGAL VOLTA DA EMPREZA NÃO É A DATA DE ANIVERSÁRIO DO MUNICÍPIO DE RIO BRANCO? 

Exatamente. O 28 de dezembro de 1882 é a provável data de aniversário do seringal Volta da Empreza e não do Município de Rio Branco. O referido seringal provavelmente completa 135 anos em 2017, digo provavelmente pois tal data é, até hoje, duvidosa. Já o município de Rio Branco, unidade político administrativa do Departamento do Alto Acre, do Território do Acre, completou 105 anos. Já o município de Rio Branco como capital do Território do Acre completou, neste ano, 97 anos. Já o município de Rio Branco como capital do Estado do Acre completou 55 anos. Foge à minha capacidade cognitiva entender como o aniversário do Município de Rio Branco, capital do Acre, que é um Estado do Brasil, pode ter como data de origem o aniversário de fundação de um seringal que, na época, sequer pertencia ao Brasil, num momento histórico que sequer o Acre existia. Isso é um anacronismo sem tamanho. Acreditar nisso é o mesmo que ter por verdade a ideia de que o Município de Rio Branco já estava presente no ato de fundação do Seringal Volta da Empreza, quer seja em potencialidade a ser realizada, capacidade de vir a ser, ou em forma de uma espécie de “DNA” (risos). Não há nenhuma linhagem ou lastro de significância entre um seringal e um município. O fato de o território do município de Rio Branco incluir, dentre outras, a área que anteriormente funcionava o seringal Volta da Empresa, não faz do seringal a origem do município. Simples assim! Até porque o Vale do Rio Acre em fins do século XIX já era formado por mais de 65 seringais, que, mais cedo ou mais tarde, no todo ou em parte, também foram dissolvidos e urbanizadas, tendo suas respectivas áreas abarcadas pelo território do Município de Rio Branco. Logo, a depender das coordenadas geográficas escolhidas, a data do início da colonização do território do atual Rio Branco poderia mudar. Interessante dizer que expedição que trouxe Neutel Maia foi a mesma que trouxe os irmãos Leite, que desceram do vapor algumas milhas antes que Maia. Os irmãos Leite também fundaram um seringal, um dos maiores do Vale do Acre na época por sinal, que, por sua vez, também passou a fazer parte do atual território de Rio Branco. Ora, se os irmãos Leite desceram da embarcação antes que Neutel Maia, por que este e não aqueles foi “batizado” como fundador de Rio Branco? 

PROFESSOR, ENTÃO POR QUE SE FALA TANTO EM VOLTA DA EMPREZA COMO ORIGEM DE RIO BRANCO? 

Para responder essa pergunta, teríamos que reconstituir o cenário político e as correlações de forças que estavam em jogo no momento em que o Projeto de Lei que instituiu a data oficial de aniversário do município de Rio Branco foi redigida, aprovada e sancionada. Uma coisa posso afirmar, até fins da década de 1970, os prefeitos faziam festas cívicas em homenagem ao aniversário de Rio Branco baseados na data de 13 de junho de 1909. Basta verificar nos jornais da época. O primeiro a fazer uso do 28 de dezembro de 1882 para comemorar o aniversário de Rio Branco foi o então prefeito Fernando Inácio dos Santos. A decisão dele pode ser facilmente explicada quando percebemos que fez recair o centenário da cidade no interstício do seu mandato. Os jornais de dezembro de 1982 revelam a mega festividade que organizou para homenagear o suposto 100 anos de Rio Branco. No Acre é assim, a história muda conforme os interesses de autopromoção dos políticos (risos). No centenário do Acre não foi diferente, o poder executivo também deu aula de manipulação da história. Os políticos e membros da elite acreana sempre torturaram a história do Acre a fim de torná-la testemunha dos seus duvidosos “grandes feitos”. A decisão de comemorar o aniversário da cidade baseado na data do início da colonização praticada por Neutel Maia às margens do lado direito do Rio Acre, tinha forte apoio dos familiares e descendentes da elite riobranquence que, até meados dos anos 1960, dominavam o comércio local a partir do que hoje conhecemos como Segundo Distrito, mais precisamente, do bairro Empresa. Já que, como é sabido, a sede do Departamento criado em 1912, na cidade de Penápolis, ficava no chamado Primeiro Distrito. Eu até suponho que a escolha da data também tenha agradado os funcionários públicos municipais, já que ganhariam um feriado pós natalino (risos).

TUDO BEM, MAS COMO SENHOR EXPLICA O FATO DE O SERINGAL VOLTA DA EMPRESA TER SIDO ESCOLHIDO COMO SEDE DO ENTÃO DEPARTAMENTO DO ALTO ACRE? 

A região mais urbanizada do Acre no início do século XX era Porto Acre, era ali que se reunia as melhores condições para uma sede departamental, já que a estrutura governamental deixada pelo governo boliviano colaborava para isso. No entanto, aquele povoado se tornou uma forte área de influência de Plácido de Castro, após a vitória do mesmo contra os bolivianos em janeiro de 1903. Por conta disso, é possível que o General Olympio da Silveira tenha preferido, em abril de 1903, criar a sede do governo brasileiro do Acre Setentrional no Volta da Empreza, para onde levou as tropas do exército. Tal região era dominada pela influência cearense Neutel Maia, que era talvez o homem mais rico de todo o Acre, e que havia se recusado a apoiar Plácido de Castro. E foi justamente essa estadia do General com sua tropa composta por mais de mil soldados que alavancou a região do Volta da Empreza como um povoado urbano com estruturas mínimas para uma futura sede departamental. Se o general tivesse escolhido Porto Acre ou Xapuri, a história da capital do Acre, provavelmente, teria sido outra.  E foi esse povoado, formado no entorno do Seringal, que foi elevado à categoria de Vila em agosto de 1904, com o nome Volta da Empresa. E foi essa Vila, e não o seringal de mesmo nome que, em setembro do mesmo ano, foi indicada como sede provisória do Departamento do Alto Acre com o nome de Rio Branco.

DE QUALQUER FORMA PROFESSOR, O SENHOR NÃO ACHA QUE A HISTÓRIA DO SERINGAL FAZ PARTE DA HISTÓRIA DO MUNICÍPIO? 

É bom deixar claro que uma coisa é a história do seringal, outra coisa é a do Município de Rio Branco. A história do Seringal Volta da Empreza é apenas um capítulo da história do homem na região que hoje faz parte do território do Município de Rio Branco. A não ser que assumamos uma postura rigidamente acreanocêntrica e etnocêntrica para excluirmos da história a milenar presença das nações indígenas na região. Portanto, a fundação do referido seringal é apenas um marco, arbitrário por sinal, do início da colonização do homem “branco” de nacionalidade hegemonicamente brasileira em território que hoje pertence ao dito município. A história do município de Rio Branco, pessoa jurídica e unidade político-administrativa da República do Brasil, que gerencia a ordem pública em um determinado território geograficamente definido, não pode ser confundida com a história humana neste mesmo território. Até porque a área do antigo seringal Volta da Empresa é apenas uma fração do atual território de Rio Branco e, como já mencionamos, antes de Neutel Maia já havia comunidades ali. Resumindo: a data da fundação do seringal Volta da Empreza não é a data de origem do Município de Rio Branco. A Relação entre um e outro foi construída arbitrariamente por meio do abuso da história. O seringal é tão somente parte da história do início da colonização nordestina em terras que a posteriori fariam parte do território do Município de Rio Branco. Pronto! Só é isso... o resto é imaginação dos escribas do poder (risos).

ENTÃO O MUNICÍPIO DE RIO BRANCO NÃO FAZ 135 ANOS. É ISSO?  

Exatamente isso (risos). Rio Branco não faz 135 anos em 2017, a não ser que me provem que Neutel Maia tenha trazido consigo, em meio as suas bagagens, o Projeto Piloto urbanístico de construção do Município (risos). Brincadeiras à parte, é somente dessa forma, meio que hilária, que seria possível justificar um suposto aniversário de 135 anos de Rio Branco. Apenas em uma narrativa teleológica e manipulada da história é que fica visível a existência de um Município no ato fundador de um Seringal. Como comemorar o aniversário de nascimento de um ente numa data em que ele sequer existia? Isso só é válido num ambiente espírita, em que o Município apareceria como a reencarnação do seringal em um estágio mais evoluído (risos). Portanto, o que provavelmente faz 135 anos é tão somente a chegada do vapor Apihy, liderada pelo cearense Neutel Maia, às barrancas do lado direito rio Acre, nas proximidades onde hoje conhecemos como gomeleira. Será que é tão difícil entender isso?

PROFESSOR, NÃO ESTAMOS ACOSTUMADOS COM ESSA EXPLICAÇÃO, COMO O SENHOR CHEGOU ATÉ ELA? 

A questão é que grande parte dos historiadores com má formação acadêmica confundem as diversas temporalidades históricas, muitas das quais descontínuas, com o tempo cronológico marcado pelo relógio e calendários, limitando àquelas a estes. Escrevem a histórica como se ela fosse uma narrativa evolutiva rumo ao progresso, uma mera sucessão de fatos marcados no tempo cronológico. Como se o lastro de continuidade fosse algo natural e não um ato arbitrário, resultado de escolhas. Precisamos vencer a ideia de que o presente já existia potencialmente no passado, e que, portanto, caberá ao historiador tão somente a tarefa de realizar a montagem teleológica dos fatos. A história real e empírica é cataclísmica, ela é saturada por várias temporalidades e de acontecimentos simultâneos e desconexos. No entanto, quando a história é representada graficamente por meio de uma narrativa escrita, ela acaba tomando forma, por culpa dos historiadores e escritores “embriagados de evolucionismo”, de uma sucessão cronológica e consequencial de fatos. Mas os fatos históricos não obedecem a uma lógica ritmada do tipo “causa e efeito”, pelo contrário, as relações de forças que envolvem cada evento são multiformes, e estamos falando de vários eventos simultâneos e desconexos dos quais a escrita da história cronologicamente marcada não consegue abarcar. A narrativa da história não pode mais ficar refém de uma ideia de tempo absoluto newtoniano (físico Isaac Newton), que já foi superada. A física quântica está aí e a noção de tempo relativo é fato! Portanto, há descontinuidades na história, ela não é uma narrativa do progresso humano. As conclusões a que cheguei sobre esse debate sobre o aniversário de Rio Branco são facilmente percebíveis por qualquer cidadão acreano. Não é preciso se ter um diploma de nível superior para tal. Basta se ter uma compreensão semiológica básica dos seguintes vocábulos, marcando a diferença semântica entre eles, a saber: um seringal, um povoado, uma vila, uma sede departamental, uma cidade, um município, uma capital de estado. Quem domina minimamente o conceito exato que o vocábulo “município” evoca, jamais verá num seringal, a origem de Rio Branco. É só entendermos que quando as terras que anteriormente faziam parte do seringal se urbanizaram, tal região já não era mais exatamente um seringal. Além do mais, a urbanização teve início nos arredores do seringal, que foi, aos poucos, loteado. A área do seringal tendeu a diminuir na proporção que a do povoamento tendeu a aumentar.

ENTÃO, COMO PENSAR A HISTÓRIA DE RIO BRANCO PARA ALÉM DA NARRATIVA LINEAR E EVOLUTIVA? 

É fazer exatamente isso que estou tentando aqui. Mas a maioria das pessoas ainda têm resistência a isso, pois estão presas à noção de tempo do século XIX. A história de Penápolis não tem origem na do seringal Empreza; assim como a história de Rio Branco não está potencialmente viva na de Penápolis. Vila Rio Branco, capital de um departamento é uma coisa; Município de Rio branco, Capital do Estado do Acre é outra coisa. Rio Branco, atual capital do Estado do Acre, não é a versão melhorada da Vila Rio Branco (1904). Um não é a continuação evolutiva do outro. Não estamos falando de um mesmo ente com nomes diferentes, pelo contrário, estamos nos referindo a entes com status jurídicos e identidade territorial díspares que assumem nomes iguais, ou seja, são homônimos. De modo que a Vila Rio Branco (1904) não é a mesma coisa que o município de Rio Branco (1912), que por sua vez não são a mesma coisa que a capital do Acre (1920 e 1962). O bairro Empresa localizado no Município de Rio Branco nos anos 1950 não pode ser visto como um estágio evoluído do seringal de mesmo nome. Embora homônimos, são coisas diferentes, com histórias diferentes, embora em alguns aspectos, convergentes. 

DOUTOR, PARA FINALIZAR, DEVEMOS COMEMORAR O ANIVERSÁRIO DE RIO BRANCO? 

No dia em que um prefeito de Rio Branco parar de fazer uso abusivo de indicações políticas para ocupação de cargos públicos estratégicos para sustentar um projeto de poder ou tomar a iniciativa de parar de pavimentar nossas ruas com asfaltos de “papelim”, nós, o povo, talvez tenha o que comemorar. Fora isso, chega de hipocrisia e publicidade governamental!

quinta-feira, 26 de maio de 2016

O passado acriano e a esquizofrenia coletiva. CONCLUSÃO do livro "O Discurso fundador do Acre(ano)" do Prof. Dr. Eduardo de Araújo Carneiro

CONCLUSÃO


“O que nos importa é observar esse movimento entre o real da descoberta (sem-sentido), a fantasia (imaginação), e a ideologia (imaginário), produzindo a realidade dessa história que se está fazendo. E que produz o efeito de que a ideologia sempre está fora da história (oficial). Por seu lado, essa história aproveita, do discurso fundador, o fato de que nele há ainda uma indistinção entre imaginação, imaginário e realidade”.
 (ORLANDI, 1993, p. 18, grifo nosso).
O Acre é, acima de tudo, a consagração do homem branco de nacionalidade brasileira em uma região milenarmente marcada pela presença indígena. No entanto, o apoderamento físico desse território foi precedido pelo assenhoreamento simbólico dele, uma vez que, antes mesmo da colonização, os migrantes já imaginavam aquele “fim do mundo” (JACKSON, 2011), como uma “terra de ninguém”, uma espécie de “deserto ocidental” (COSTA, 2005).

A nosogenia acriana foi inaugurada pelo apelo econômico do capital internacional em favor da produção da borracha e pela violência imagética da negação da humanidade indígena. O sangrento genocídio, o dramático culturicídio e tantas outras patologias sociais protagonizados pelos “heróis patriotas” (Cf. CARNEIRO, 2015a), base da árvore genealógica do povo acriano, foram invisibilizados pela historiografia oficial. Infelizmente o excesso de “acrEanismo” provocado por políticas simbólicas de governos com tendência ao autoritarismo populista tem afetado a sanidade mental coletiva local. Até hoje parte dos acrianos sofrem com surtos de megalomania e com delírios de grandeza, pois insistem em viver sob a égide de um passado fantasiosamente glorioso. 

Eu tive que aproximar as minhas reflexões da linguística e utilizar o conceito de discurso fundador para entender como um período tão violento e tão corrupto conseguiu transmutar-se em uma espécie de Idade de Ouro da acrianidade. Por conta disso, esse livro se preocupou mais em historicizar a emergência da verossimilhança do que em descrever os fatos propriamente ditos. A verossimilhança é a imagem através da qual as “vozes constituintes do discurso fundador” pintaram a cena inaugural do Acre(ano). É a representação ideal dos acontecimentos, de como deveriam ser imortalizados no imaginário social para posterior recordação.

Em resumo podemos dizer que o discurso fundador do Acre tem as seguintes características: a) estabelece um marco inaugural glorioso para o Acre(ano) – a “Revolução Acriana”; b) sugere o culto ao passado por meio do eterno retorno às origens; c) instaura o idealismo patriótico como motivação constituinte da “Revolução Acriana”;         d) consagra qualidades heroicas para a primeira geração de acrianos;      e) inventa uma comunhão em torno da “Revolução”.

Até hoje o período relativo à formação histórica do Acre(ano) é tratado como uma espécie de Idade de Ouro, em que os paradigmas e os arquétipos da identidade acriana se encontram em seu estado puro. É como se a ideia triunfalista da origem fosse fiadora do otimismo presente e futuro. Esse atavismo acriano precisa ser desintoxicado, pois a ideia de gênese defendida está “envenenada” com “acrEanocentrismo”. No decorrer dessas linhas mostramos que a apoteose da genealogia Acre(ana) foi o resultado de um processo de significação, qual seja, o do “embelezamento” dos fatos. A nossa missão foi justamente denunciar o caráter artificial desses sentidos enobrecedores, revelando o jogo de interesse que estava por trás deles.

O fato de o caráter “glorioso” da origem ser retratado nos documentos e textos jornalísticos da época, não garante o caráter célebre da genealogia do Acre(ano). Isso porque o discurso enobrecedor é explicado pelas condições históricas e linguísticas que permitiram a emergência dele. Consequentemente, a representação beatificada do Acre(ano) tem uma história e está eivada de “violência simbólica” e de relações de poder. A manutenção dela é puramente convencional. O gentílico “acrEano”, por exemplo, foi inventado com o propósito de causar certa união entre os “brasileiros do Acre” em torno da causa latifundiária dos seringalistas e da demanda fiscal do governo do Amazonas.

Essa disposição à heroificação do passado demonstra o conservadorismo das elites acrianas, afinal, a evocação ao heroísmo se torna uma necessidade social quando se trata de uma sociedade constituída de covardes (Cf. MICELI, 1994), e “quanto mais fracos os homens numa sociedade, tanto mais eles precisam de super-heróis. E tanto mais super-heróis eles recebem para se manterem fracos” (KOTHE, 1985, p. 72). E tudo isso não deve servir de espanto, pois a retórica da identidade é sempre mais proferida naqueles povos em que a união é mais frágil.

O debate sobre o discurso fundador do Acre(ano) está apenas começando. Há um longo caminho a ser percorrido para que essa categoria de análise seja consolidada nos estudos historiográfico e linguístico regionais. Toda a pesquisa que resultou nesse livro visou encontrar, nas “origens” do Acre(ano) fincadas pela historiografia oficial, a formação do acriano enquanto subjetividade, e a do Acre enquanto território brasileiro. No entanto, tais origens não foram encontradas, no lugar delas o que se achou foi uma rede interminável de discursos.

O passado inaugural glorioso, a identidade bem-aventurada e a anexação territorial epopeica, tudo, não passam de discursos. E se esses discursos circulam até hoje com o status de verdade, é porque existe uma política institucional para preservá-los como tal. Por isso, a história do Acre, da forma como vem sendo escrita e ensinada, mais deseduca do que educa. Ela não tem compromisso com o desenvolvimento do juízo crítico do cidadão acriano, pelo contrário, a missão dela é produzir ufanismo, alienação e pacificação social. Toda a glória desse passado imemorial pode ser resumida nisto: discursos, uma rede interminável de discursos.


Publicado originalmente na página do autor: 
http://eduardoeginacarli.blogspot.com.br/ 

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A FORMAÇÃO DA SOCIEDADE ECONÔMICA ACRIANA (Introdução)

Eduardo de Araújo Carneiro

Ah! Meus amigos, estão manchadas de lodo
e sangue as páginas da história do Acre.
(Plácido de Castro apud LIMA, 1998, 
p.270, grifo nosso).


Esse livro é uma versão ligeiramente revisada de minha monografia defendida no Curso de Economia da UFAC sob a orientação do ilustríssimo professor Carlos Estevão Ferreira Castelo. Apesar de os professores da banca tê-la avaliado com a nota máxima, alerto que o texto tem suas limitações e não pretende alçar maiores voos. No entanto, mesmo assim, achei oportuno publicá-lo por conta da revisão historiográfica que faz sobre a origem da sociedade econômica¹ acriana. O meu objetivo nesse livro foi estudar a economia praticada pelo homem branco na região dos rios Purus e Juruá durante o surto da borracha (1877 a 1912) e as implicações que ela teve para a formação histórica da sociedade acriana.

A premissa que conduziu esse estudo foi a de que a Economia-Mundo Capitalista, por ser dominada pela lógica do lucro a qualquer custo, produz sociedades marcadas por “patologias sociais” (KEPPE, 1987; FROMM, 1983) ou por “irracionalidades” (SINGER, 1987; HARNECKER, 1979) que serão tratadas aqui pelas metáforas “sangue” e “lodo”. Para tanto, nossa hipótese foi que o “sangue” e o “lodo”, característicos da economia capitalista, foram constituintes da sociedade econômica acriana¹. Isso porque o surgimento dela tem a ver com a inclusão da Amazônia sul ocidental na cadeia mercantil dos países imperialistas. Por isso é que o capital circula em suas “veias” desde a gestação, contaminando-a com patologias congênitas.

Como a formação da sociedade acriana faz parte da história da reprodução ampliada do capital estrangeiro oriundo dos países desenvolvidos, resolvi fazer um breve estudo das principais patologias sociais encontradas no processo de fundação do Acre. Isso não quer dizer que todos os migrantes da região estavam “contaminados” com uma ou mais patologias, apenas quero afirmar que tais patologias foram identificadas e que fazem parte da história da formação da sociedade acriana. Algumas delas são: o genocídio indígena, a invasão de terras, a servidão por dívida, a corrupção política e judiciária, o tráfico de prostitutas, a sonegação fiscal e tributária, a exploração predatória da natureza, dentre outros.

Nessa perspectiva, a primeira geração de acrianos – aquela que a historiografia oficial afirma ser composta por heróis – passa a ser compreendida como aquela responsável pela incorporação da região ao sistema capitalista. Esse posicionamento muda toda uma tradição de interpretação historiográfica fincada na narrativa epopeica do Acre, uma vez que o patriotismo acriano passa a ser entendido como um discurso utilizado para disfarçar as marcas do homo economicus² que existiam nos primeiros acrianos. A “Revolução Acriana” não pode ter sido uma luta contra o imperialismo, já que os fundadores do Acre passam a ser percebidos como “as mãos e os pés” do “império do mal” (PERRAULT, 1999, p. 12). Foram eles e não outros que, na prática, colocaram a região acriana na “esfera de influência” do capital monopolista internacional.

O solo onde estão enterradas as “raízes do Acre” foi adubado com “sangue” e “lodo”. A narrativa epopeica da origem do Acre é uma versão manipulada dos fatos que inventa um passado “glorioso” para dissimular a barbárie constitutiva da sociedade acriana. Tal barbárie foi uma consequência direta tanto do homo economicus² acriano quanto das patologias congênitas de uma sociedade organizada para atender a reprodução ampliada do capital dos países desenvolvidos da Economia-Mundo Capitalista.

Por isso, acredito que a história do Acre, da forma como vem sendo ensinada, em nada contribui para a formação crítica da consciência histórica do povo acriano. Pelo contrário, o passado inventado como epopeico serve tão somente para induzi-lo a uma sensação megalomaníaca, que tem por objetivo deixá-lo alienado e vulnerável a manipulações. Quem mais ganha com a perpetuação desse abuso da história é a elite política local, pois é ela quem canaliza todo o ufanismo para o tempo presente a fim de forjar uma sensação de consenso e de otimismo coletivo.

Esse livro foi dividido em três capítulos. No primeiro, serão analisadas a formação do sistema capitalista e algumas de suas consequências sociais, morais, ecológicas e econômicas. No segundo, será abordada a relação que o capital internacional manteve com a economia gumífera na Amazônia, desde a primeira metade do século XIX até a primeira década do século XX. No terceiro, será estudado as principais “marcas de nascença” do Acre enquanto comunidade de brasileiros inseridos na periferia do sistema econômico capitalista.

Para finalizar, é bom que se diga que os resultados dessa pesquisa não passam de “interpretação de interpretações” (REIS, 2006, p. 73). Portanto, não pretende esgotar o assunto, muito menos apontar o caminho seguro da verdade, pelo contrário, a intenção foi ressuscitar o debate acadêmico sobre as “raízes Acre”, retirando-lhes o manto glorioso do heroísmo e do patriotismo propositalmente atribuídos a elas pelo status quo acriano.

Boa leitura! 

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1 O conceito de “sociedade econômica” foi tomado emprestado do economista Robert Heilbroner (1972). E para efeito de nossa análise, o termo “sociedade econômica acriana” significa aquela sociedade que surgiu na Amazônia sul ocidental em função da produção da borracha demandada pelas economias do centro dinâmico do capitalismo mundial em fins do século XIX e início do XX.
2 Conceito utilizado pelos economistas liberais e neoclássicos para privilegiar a dimensão econômica do comportamento humano. Segundo eles, tal dimensão é caracterizada pelo egoísmo, ou seja, o homem sempre buscará maximizar o prazer e minimizar a dor, obtendo o máximo de bem estar com o menor esforço possível.

*Texto retirado do blog Estudando a História, do autor.