| Por Luiz Felipe Jardim |
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quinta-feira, 20 de novembro de 2014
terça-feira, 18 de novembro de 2014
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
TRIBUTO A MANOEL DE BARROS (1916-2014)
TRIBUTO
A MANOEL DE BARROS
Isaac
Melo
coração de barro
num corpo sem chão
aves palavras
a chilrear
manuel
ao fim de tudo
mudo
pantanal
a falar
só a poesia
ousa calar
domingo, 12 de outubro de 2014
MENINO DO MATO
Manoel de Barros
Eu queria usar palavras de ave para escrever.
Onde a gente morava era um lugar imensamente
e sem
nomeação.
Ali a gente brincava de brincar com palavras.
tipo assim: Hoje eu vi uma formiga ajoelhada
na pedra!
A Mãe que ouvira a brincadeira falou:
Já você com suas visões!
Porque formigas nem têm joelhos ajoelháveis
e nem há pedras de sacristia por aqui.
Isso é traquinagem da sua imaginação.
O menino tinha no olhar um silêncio de chão
e na sua voz uma candura de Fontes.
O Pai achava que a gente queria desver o
mundo
para encontrar nas palavras novas coisas de
ver
assim: eu via a manhã pousada sobre as
margens do
rio do mesmo modo que uma garça aberta na
solidão
de uma pedra.
Eram as novidades que os meninos criavam com
as suas
palavras.
Assim Bernardo emendou nova criação: Eu hoje
vi um
sapo com olhar de árvore.
Então era preciso desver o mundo para sair
daquele
lugar imensamente e sem lado.
A gente queria encontrar imagens de aves
abençoadas
pela inocência.
O que a gente aprendia naquele lugar era só
ignorâncias
para a gente bem entender a voz das águas e
dos caracóis.
A gente gostava das palavras quando elas
perturbavam
o sentido normal das ideias.
Porque a gente também sabia que só os
absurdos
enriquecem a poesia.
BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São
Paulo: Leya, 2010. p.449-450
sábado, 27 de setembro de 2014
POEMA
Manoel de Barros
A poesia está guardada nas palavras – é tudo
que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre
ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de
imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.
BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São
Paulo: Leya, 2010. p.403
quinta-feira, 17 de julho de 2014
MARIA-PELEGO-PRETO
Manoel de Barros
Maria-pelego-preto, moça de 18 anos, era
abundante de pelos no pente.
A gente pagava pra ver o fenômeno.
A moça cobria o rosto com um lençol branco e
deixava pra fora só o pelego preto que se espalhava quase até pra cima do
umbigo.
Era uma romaria chimite!
Na porta o pai entrevado recebendo as
entradas...
Um senhor respeitável disse que aquilo era
uma indignidade e um desrespeito às instituições da família e da Pátria!
Mas parece que era
fome.
BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010. p.22
sexta-feira, 11 de julho de 2014
MUNDO PEQUENO
Manoel de Barros
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer
nas
leituras não era a
beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu
Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer
defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é
doença,
pode muito que você
carregue para o resto da vida
um certo gosto por
nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda
em
estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores
surpresas e os
ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro
professor de
agramática.
de O livro das ignorãças, poema Mundo Pequeno VII
BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São
Paulo: Leya, 2010. p.319-320
terça-feira, 1 de julho de 2014
TRIBUTO A J. G. ROSA
Manoel de Barros
Passarinho parou de cantar.
Essa é apenas uma informação.
Passarinho desapareceu de cantar.
Esse é um verso de J. G. Rosa.
Desapareceu de cantar é uma graça verbal.
Poesia é uma graça verbal.
BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010. p.404
sábado, 12 de abril de 2014
O AMOR
Manoel de Barros
Fazer pessoas no frasco não é fácil
Mas seu eu estudar ciência eu faço.
Sendo que não é melhor do que fazer
pessoas na cama
Nem na rede
Nem mesmo no jirau como os índios fazem.
(No jirau é coisa primitiva, eu sei,
mas é bastante proveitosa)
Para fazer pessoas ninguém ainda não
inventou nada melhor que o amor.
Deus ajeitou isso para nós de presente.
De forma que não é aconselhável trocar
o amor por vidro.
BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010. p.473
quarta-feira, 12 de março de 2014
RETRATO QUASE APAGADO EM QUE SE PODE VER PERFEITAMENTE NADA
Manoel de Barros
I
Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
– Imagens são palavras que nos faltaram.
– Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
– Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada
no lixo).
Concluindo: há pessoas que se compõem de
atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.
V
Escrever nem uma coisa
Nem outra –
A fim de dizer todas –
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar –
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.
VII
O sentido normal das palavras não faz bem ao
poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez
de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa liberdade
com a luxúria convém. BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010. p.263, p.264-265, p.265
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
OLHOS PARADOS
Manoel de Barros
Ah, ouvir mazurcas de Chopin num velho bar,
domingo de manhã!
Depois sair pelas ruas, entrar pelos jardins
e falar com as crianças.
Olhar as flores, ver os bondes passarem
cheios de gente.
E, encostado no rosto das casas, sorrir…
Saber que o céu está lá em cima.
Saber que os olhos estão perfeitos e que as
mãos estão perfeitas.
Saber que os ouvidos estão perfeitos. Passar
pela igreja.
Ver as pessoas rindo. Ver os namorados cheios
de ilusões.
Sair andando à toa entre as plantas e os
animais.
Ver as árvores verdes do jardim. Lembrar das horas
mais apagadas.
Por toda parte sentir o segredo das coisas
vivas.
Entrar por caminhos ignorados, sair por
caminhos ignorados.
Ver gente diferente de nós nas janelas das
casas, nas calçadas, nas quitandas.
Ver gente conversando na esquina, falando de coisas
ruidosas.
Ver gente discutindo comércio, futebol e
contando anedotas.
Ver homens esquecidos da vida, enchendo as
praças, enchendo as travessas.
Olhar, reparar em tudo, sem a menor intenção
de poesia.
Girar os braços, respirar o ar fresco,
lembrar dos parentes.
Lembrar da casa da gente, das irmãs, dos
irmãos e dos pais da gente.
Lembrar que estão longe e ter saudade deles…
Lembrar da cidade onde se nasceu, com
inocência, e rir sozinho.
Rir de coisas passadas. Ter saudade da pureza.
Lembrar de músicas, de bailes, de namoradas
que a gente já teve.
Lembrar de lugares que a gente já andou e de
coisas que a gente já viu.
Lembrar das viagens que a gente já fez e de
amigos que ficaram longe.
Lembrar dos amigos que estão próximos e das
conversas com eles.
Saber que a gente tem amigos de fato!
Tirar uma folha de árvore, ir mastigando,
sentir os ventos pelo rosto…
Sentir o sol. Gostar de ver as coisas todas.
Gostar de estar ali caminhando. Gostar de
estar assim esquecido.
Gostar desse momento. Gostar dessa emoção tão
cheia de riquezas íntimas.
Pensar nos livros que a gente já leu, nas
alegrias dos livros lidos.
Pensas nas horas vagas, nas horas passadas
lendo as poesias de Anto.
Lembrar dos poetas e imaginar a vida deles
muito triste.
Imaginar a cara deles como de anjos. Pensar
em Rimbaud,
Na sua fuga, na sua adolescência, nos seus
cabelos cor de ouro.
Não ter ideia de voltar para casa. Lembrar
que a gente, afinal de contas,
Está vivendo muito bem e é uma criatura até
feliz. Ficar admirado.
Descobrir que não nos falta nada. Dar um
suspiro bom de alívio,
Olhar com ternura a criação e ver-se pago de
tudo.
Descobrir que, afinal de contas, não se
possui nenhuma queixa
E que se está sem nenhuma tristeza para dizer
no momento.
Lembrar que não sente fome e que os olhos
estão perfeitos.
Para falar a verdade, sentir-se quite com a
vida.
Lembrar dos amigos. Recordar um por um.
Acompanhá-los na vida.
Como estão longe, meu Deus! Um aqui. Outro
lá, tão distantes…
Que fez deste o destino? E daquele?
Quase vai se esquecendo do rosto de um… Tanto
tempo!
Ter vontade de escrever para todos os amigos.
Ter vontade de lhes contar a vida até o
momento presente.
Pensar em encontrá-los de novo. Pensar em reuni-los
em torno de uma mesa,
Uma mesa qualquer, em um lugar que a gente
ainda não escolheu.
Conversar com todos eles. Rir, cantar,
recordar, os dias idos.
Dar uma olhadela na infância de cada um.
Aquele era magro, Venício…
Aquele outro era gordo, Abelardo… Aquele
outro era triste.
Ai, não esquecer jamais este último, porque
era um menino triste.
Como andarão agora? Naturalmente, mais
velhos.
Talvez eu não conhecerei alguns.
Naturalmente, mais senhores de si.
Naqueles, naturalmente, para quem o mundo
deve ter sido menos bom.
Pensar que eles já vêm. Abrir os braços.
Procurar descobrir, no mundo que os envolve,
Alguma voz que tenha acento parecido,
Algum andar que lembre o andar longínquo de
algum deles…
Ah como é bom a gente ter infância!
Como é bom a gente ter nascido numa pequena
cidade banhada por um rio.
Como é bom a gente ter jogado futebol no
Porto de Dona Emília, no Largo da Matriz,
E se lembrar disso agora que já tantos anos
são passados.
Como é bom a gente lembrar de tudo isso. Lembrar
dos jogos à beira do rio.
Das lavadeiras, dos pescadores e dos meninos
do Porto
Como é bom a gente ter tido infância para
poder lembrar-se dela
E trazer uma saudade muito esquisita
escondida no coração.
Como é bom a gente ter deixado a pequena
terra em que nasceu
E ter fugido para uma cidade maior, para
conhecer outras vidas.
Como é bom chegar a este ponto de olhar em
torno
E se sentir maior e mais orgulhoso porque já
conhece outras vidas…
Como é bom se lembrar da viagem, dos
primeiros dias na cidade,
Da primeira vez que olhou o mar, da impressão
de atordoamento.
Como é bom olhar para aquelas bandas e depois
comparar.
Ver que está tão diferente, e que já sabe
tantas novidades…
Como é bom ter vindo de tão longe, estar
agora caminhando.
Pensando e respirando no meio de pessoas
desconhecidas.
Como é bom achar o mundo esquisito por isso, muito
esquisito mesmo
E depois sorrir levemente para ele com seus
mistérios…
Que coisa maravilhosa, exclamar. Que mundo
maravilhoso, exclamar.
Como tudo é tão belo e tão cheio de encantos!
Olhar para todos os lados, olhar para as
coisas mais pequenas,
E descobrir em todas uma razão de beleza.
Agradecer a Deus, que a gente ainda não sabe
amar direito,
A harmonia que a gente sente, vê e ouve.
A beleza que a gente vê saindo das rosas; a
dor saindo das feridas.
Agradecer tanta coisa que a gente não pode
acreditar que esteja acontecendo.
Lembrar de certas passagens. Fechar os olhos
para ver no tempo.
Sentir a claridade do sol, espalmar os dedos,
cofiar os bigodes,
Lembrar que tinha saído de casa sem destino,
que passara num bar, que ouviria uma mazurca,
E agora estava ali, muito perdidamente
lembrando coisas bobas de sua pequena vida.
BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010. p.58-63
p.s. eu acho esse poema lindíssimo, profundo, porque humano e simples.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
SÓ DEZ POR CENTO É MENTIRA
Documentário dirigido por Pedro Cezar sobre o
poeta Manoel de Barros. É um dos raros trabalhos em que o poeta se deixa
documentar imageticamente, já que é averso a aparições na mídia. Manoel de
Barros, Thiago de Mello e Ferreira Gullar são, a meu ver, os três grandes
poetas vivos do Brasil. Viva Poesia!!!
Para fazer
pessoas ninguém ainda não
inventou nada
melhor que o amor:
Deus ajeitou
isso pra nós de presente.
De forma que
não é
aconselhável
trocar
o amor por
vidro.
Manoel de Barros
in O Fazedor de
Amanhecer
terça-feira, 9 de março de 2010
NADA MELHOR
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