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terça-feira, 26 de abril de 2016

NA PONTA DE UMA FLECHA

Raimundo Correa (1859-1911)
Jovem defendendo-se do Amor, 1880, William-Adolphe Bouguereau

O deus loiro, rosado e nu, que os poetas
Pintam de aljava ao ombro e arco cingindo,
E, como os serafins e as borboletas,
Com um par de asas palpitante e lindo;

O menino pagão que, nas inquietas
Pupilas de alguns olhos, mora; e, rindo,
Aí às vezes se diverte, setas,
De dentro para fora, despedindo;

Um dia a tais prazeres se abandona
Dentro dos vossos olhos, e, imprudente,
Em um dos olhos fere a própria dona...

Ei-la a flecha nefasta; eu vo-la entrego...
Resta um dos olhos só, mostrando à gente
Que o amor não é completamente cego. 


CORREA, Raimundo. Poesias. São Paulo: Livraria São José, 1958. p.94

terça-feira, 17 de novembro de 2015

TENTAÇÕES DO ERMO

Raimundo Correa (1859-1911)


O asceta que trocara os bens mundanos
Pelo místico pão amargurado,
Deixa agora o retiro, onde, isolado,
Ia, na paz de Deus, contando os anos?!

É que ele, quando aos laços e aos enganos
Do mundo se esquivou, tinha um pecado:
Em Virgílio e em Catulo era versado,
Em Ovídio e outros clássicos profanos...

E um dia, indo apanhar ervas ao monte,
E o púcaro de barro encher na fonte,
Viu... (Ou seria uma ilusão talvez)

Viu surgir entre as moitas a Serpente:
Uma ninfa... e vestida unicamente
Da tentadora, feminil nudez.


CORREA, Raimundo. Poesias. São Paulo: Livraria São José, 1958. p.91

quinta-feira, 21 de maio de 2015

BICHO DA TERRA

Raimundo Correa (1859-1911)


Homem, embora exasperado brades,
Aos céus (bradas em vão e te exasperas)
Ascendo, arroubo-me às imensidades,
Onde estruge a aleluia das esferas...

Cá baixo, o que há? traições e iniquidades,
As tramas que urdes, e os punhais, que aceras;
As feras nos sertões, e nas cidades
Tu, homem, tu, inda pior que as feras!

Cá baixo: a Hipocrisia, o Ódio sanhudo
E o vício com tentáculos de polvo...
Lá cima: os céus... Dos céus o olhar não desço.

Homem, bicho da terra, hediondo é tudo
O que eu conheço aqui; eis porque volvo
O olhar, assim, para o que não conheço!


CORREA, Raimundo. Poesias. São Paulo: Livraria São José, 1958. p.128

sábado, 28 de fevereiro de 2015

ÓDIO E AMOR

Raimundo Correa (1859-1911)


Ódio e Amor. Eis as duas sentinelas
Da minha vida. quando, outrora, eu tive
A alma povoada de ilusões singelas,
Morre! – dizia-me a primeira delas;
Mas a segunda me dizia: – Vive!

Hoje estão ambas mudas. Ah! Se, um dia,
Não me corresse as veias, como corre,
Sangue honrado, mas lama e cobardia;
Vive: – o Ódio então com júbilo diria;
E o Amor a soluçar diria: – Morre!


CORREA, Raimundo. Poesias. São Paulo: Livraria São José, 1958. p.178

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

PLENA NUDEZ

Raimundo Correa (1859-1911)
O nascimento de Vênus (1879), William-Adolphe Bouguereau.

Eu amo os gregos tipos de escultura;
Pagãs nuas no mármore entalhadas;
Não essas produções que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.

Quero em pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nus; as linhas onduladas
Livres; da carne exuberante e pura
Todas as saliências destacadas...

Não quero a Vênus opulenta e bela
De luxuriantes formas, entrevê-la
Da transparente túnica através:

Quero vê-la, sem pejos, sem receios,
Os braços nus, o dorso nu, os seios
Nus... toda nua, da cabeça aos pés!


CORREA, Raimundo. Poesias. São Paulo: Livraria São José, 1958. p.42

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

AS POMBAS*

Raimundo Correa (1859-1911)


Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...


CORREA, Raimundo. Poesias. São Paulo: Livraria São José, 1958. p.8
p.s. poema originalmente sem título, apenas III do livro.