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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

ISSO É BONITO DE SUA PARTE, SENHOR DOUTOR!

Theodor W. Adorno (1903-1969)


Não há mais nada de inofensivo. As pequenas alegrias, as manifestações da vida que parecem excluídas da responsabilidade do pensamento não possuem só o aspecto de teimosa tolice, de um impiedoso não querer ver, mas se colocam de imediato a serviço do que lhes é mais contrário. Até a árvore que floresce é mentirosa no momento em que se percebe seu florescer sem sombra de sobressalto; até o inocente “Que beleza!” torna-se expressão para a ignomínia da existência que é diversa, e não há mais beleza nem consolo algum fora do olhar que se volta para o horrível, a ele resiste e diante dele sustenta, com implacável consciência da negatividade, a possibilidade de algo melhor. É de bom alvitre desconfiar de condescendência em relação à prepotência do que existe. O maldoso sentido oculto do aconchego, que antigamente se limitava à íntima e afável ação de brindar, há muito apossou-se de impulsos mais amenos. A conversa casual com o homem no trem, com quem manifestamos acordo através de um par de frases de modo a evitar discussão e das quais sabemos que, no fim das contas, chegam a ser um crime, já é até certo ponto traição; nenhum pensamento é imune à sua comunicação e já é suficiente dizê-lo no lugar errado e num consenso falso para minar sua verdade. De cada ida ao cinema, apesar de todo cuidado e atenção, saio mais estúpido e pior. A própria sociabilidade é participação na injustiça, na medida em que finge ser este mundo morto um mundo no qual ainda podemos conversar uns com os outros, e a palavra solta, sociável, contribui para perpetuar o silêncio, na medida em que as concessões feitas ao interlocutor o humilham de novo na pessoa que fala. O princípio mau, que sempre esteve escondido na afabilidade, desenvolve-se, no espírito igualitário, em direção à sua plena bestialidades. Condescendência e falta de presunção são o mesmo. Ajustando-nos à fraqueza dos oprimidos, confirmamos nesta fraqueza o pressuposto da dominação e desenvolvemos nos próprios a medida da grosseria, obtusidade e brutalidade que é necessária para o exercício da dominação. Quando, na fase mais recente, o gesto de condescendência desaparece e só o ajustamento se torna visível, é então precisamente, nesta completa ofuscação do poder, que a relação de classe disfarçada se impõe da maneira mais implacável. Para o intelectual, a solidão inviolável é a única forma em que ele ainda é capaz de dar provas de solidariedade. Toda colaboração, todo humanitarismo por trato e envolvimento é mera máscara para a aceitação tácita do que é desumano. É com o sofrimento dos homens que se deve ser solidário: o menor passo no sentido de diverti-los é um passo para enrijecer o sofrimento.

p.s. Herr Doktor, das ist schön Von Euch: título tomado de um verso de Fausto (I, 981), de Goethe, da cena do passeio do domingo de Páscoa. (N. do T.)

ADORNO, Theodor W. Minima Moralia: reflexões a partir da vida danificada. Tradução Luiz Eduardo Bicca. São Paulo: Ática, 1993. p.10-21

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

NÃO SE ACEITAM TROCAS

Theodor W. Adorno (1903-1969)


As pessoas estão desaprendendo a dar presentes. Na violação do princípio de troca, há algo de absurdo e implausível; muitas vezes, até mesmo as crianças examinam com desconfiança quem dá algo, como se o presente fosse apenas um truque para vender-lhes uma escova ou um sabonete. Em compensação, pratica-se a charity, a beneficência administrada que, como um adesivo, tapa planejadamente as feridas expostas da sociedade. Dentro dessa empresa tão organizada já não há mais lugar para a emoção humana, a doação está necessariamente vinculada à humilhação pelo ato de repartir, de avaliar exatamente, em suma, pelo fato de tratar como um objeto aquele que é presenteado. Até o ato privado de dar presentes foi rebaixado ao nível de uma função social que se efetua com uma racionalidade contrariada, com base no cumprimento cuidado de um budget estipulado, numa avaliação céptica acerca do outro e com o menor esforço possível. O verdadeiro ato de presentear encontrava sua felicidade na imaginação da felicidade do recebedor. E isso quer dizer: escolher, dedicar tempo, desviar-se de suas ocupações, pensar no outro como sujeito: o contrário da negligência. Eis aí algo de que quase ninguém mais é capaz. Na melhor das hipóteses, as pessoas presenteiam aquilo que desejariam para si próprias, apenas um pouco piores sob alguns aspectos. A decadência do costume de dar presentes reflete-se na embaraçosa invenção dos artigos para presente, que se baseiam na pressuposição de que as pessoas não sabem o que presentear porque, no fundo, não querem fazê-lo. Essas mercadorias são desprovidas de toda relação com os seus compradores. Já eram artigos de encalhe desde o primeiro dia. Algo semelhante ocorre com a ressalva relacionada com a troca de artigos, que para o presenteado significa: – Aqui está sua tralha, faça com ela o que quiser; se isto não lhe agradar, para mim é indiferente; troque por outra. Ademais, em face do embaraço envolvido nos presentes habituais, sua substitutibilidade exibe até um aspecto mais humano, porque aos menos permite ao presenteado da algum presente a si mesmo, o que, porém, implica ao mesmo tempo a absoluta contradição do ato de presentear.

Em vista da enorme abundância de bens acessíveis até aos mais pobres, a decadência do costume de dar presentes poderia parecer indiferente e sua consideração algo sentimental. Entretanto, mesmo que na abundância isso fosse supérfluo – e isto é uma mentira, tanto privada quanto socialmente, pois hoje não há ninguém para quem um pouco de fantasia não possa encontrar exatamente algo que o alegre por completo – restariam como carentes de presentear aqueles que não presenteiam mais. Neles se atrofiam aquelas faculdades insubstituíveis que não podem prosperar no isolamento da pura interioridade, mas apenas em contacto com o calor das coisas. A frieza apodera-se de tudo o que fazem, da palavra amistosa que permanece impronunciada, da consideração que não é praticada. Essa frieza acaba repercutindo naqueles que emana. Toda relação não deformada, talvez até mesmo aquilo que é conciliador na vida orgânica, é um dom. Quem se torna incapaz disso por força da lógica da coerência faz de si uma coisa e deixa-se congelar.


ADORNO, Theodor W. Minima Moralia: reflexões a partir da vida danificada. Tradução Luiz Eduardo Bicca. São Paulo: Ática, 1993. p.35-36