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sábado, 30 de novembro de 2019

FRANCISCO MANGABEIRA: poeta da guerra de Canudos desterrado

Para atender a amigos, ex-alunos, hoje professores, estou colocando no meu blog apenas a apresentação do meu último livro, que está sendo publicado pela Edufba com o título abaixo, ao qual acrescentei as Matinais, crônicas escritas pelo poeta em 1899, enquanto aguardava a publicação da sua Epopéia Épica, a guerra de Canudos. O leitor também encontrará neste livro as famosas Cartas do Amazonas, escritas em 1903, no exílio na Amazônia. 
Consuelo Novais Sampaio  
 
- Eu não sou doutor, eu sou poeta.
Irritado, à beira da morte, foi assim que Francisco Mangabeira se definiu, corrigindo o amigo que o chamara de doutor. Saíra do Acre cambaleante, febre alta, tomado pela malária. Numa precária embarcação, desceu o caudaloso Amazonas, na esperança de encontrar socorro em Manaus, para a terrível moléstia que o consumia, em plena juventude. Na realidade, era doutor. Havia se diplomado em Medicina (18 dez. 1900) depois de estudar durante seis longos anos na velha Faculdade de Medicina da Bahia, sem contar os quatro anos do “preparatório” no Instituto Oficial de Ensino Secundário, precursor do Ginásio, depois Colégio da Bahia. Mas na verdade, era poeta, de refinada estirpe. Ainda cursava o “preparatório” quando, aos 14 anos, começou a escrever poemas líricos. Publicou-os em 1898, com o título de Hostiário. Nesse mesmo ano terminou de escrever o célebre poema Tragédia Épica, a guerra de Canudos. Chegou ao público em 1900, dois anos antes de Os Sertões, de Euclides da Cunha. Os seus versos, descrevendo a sangrenta guerra, causaram forte impacto na conservadora sociedade local. A reação a seguir foi drástica: deportação.
Para cumprir esta punição, não oficialmente declarada, Francisco Mangabeira deixou Salvador, com destino a São Luiz do Maranhão. Na época, alegou-se que, já diplomado, precisava trabalhar e, para isso teria sido contratado como médico pela Companhia de Navegação Maranhense.  Essa foi a justificativa dada aos amigos que por ele perguntaram. Deste modo, provia-se a sua saída da Bahia com uma aura de dignidade, do ponto de vista da conservadora sociedade baiana.
Até hoje, esta é a única versão que explica a inesperada e não desejada saída de Francisco Mangabeira de Salvador. Contrariando-a, afirmo ser ela totalmente inconsistente. É o que espero deixar claro no decorrer deste estudo. Defendo a tese de que, com esse argumento, procurou-se acobertar o fato de que o poeta de Canudos estava sendo deportado da Bahia, contra a sua vontade. Por dissimulada coação, deixou a terra natal, com destino, não divulgado para a Amazônia.
Francisco Mangabeira foi mais um proscrito, em decorrência da defesa que terminou por assumir em relação ao massacre perpetrado contra os moradores de Canudos. Os outros dois cronistas de Canudos, Euclides da Cunha, aclamado nacionalmente, e o médico-jornalista baiano, Alvim Martins Horcades -- o primeiro a publicar em livro as atrocidades cometidas contra o arraial sertanejo -- também foram deportados, ou exilados, bem distante do poder constituído. O autor de Os Sertões foi enviado para a Amazônia, então terra de ninguém, em fins de 1904. Com relação a Mangabeira, justificou-se esse desterro, apelando-se para o seu espírito aventureiro e patriótico. Martin Horcades, graças à influência do pai, refugiou-se em Minas Gerais, cumprindo exílio não voluntário. Carlos Mangabeira que, junto ao irmão Francisco prestou serviço médico, socorrendo doentes no Banco de Sangue de Canudos, também foi desterrado. Depois de diplomado em Farmácia, passou a trabalhar na modesta farmácia do pai, localizada no Largo do Teatro, atual Praça Castro Alves. Mas logo foi convocado pelo Exército e, a seguir, transferido para a cidade de Bagé, no Rio Grande do Sul. Aí se estabeleceu e constituiu família. Tanto Carlos como Horcades, passado o fantasma da restauração monárquica, enveredaram pela política como deputado federal. Esses três homens ilustres foram citados apenas para configurar-se o fato de que Canudos, ainda que destruída, era um fantasma que atemorizava aqueles que comandavam uma República ainda mal resolvida. Todos três, como Mangabeira, foram exilados. Contudo, deles tratarei em estudo posterior. Aqui desejo concentrar-me apenas no destino do poeta Francisco Mangabeira, irmão do ex-governador da Bahia, Otavio Mangabeira, e patrono da cadeira nº 40 da Academia de Letras da Bahia.
O desterro sofrido por Francisco Mangabeira foi involuntário, isto é, ele foi obrigado, coagido a partir para o exílio, a fim de não expor a si próprio e a sua família a outras situações que se manifestavam mais constrangedoras e deprimentes, como por exemplo, a prisão ou deportação anunciada. Já foi dito que o desterro para regiões inóspitas e mesmo inabitáveis, como a Amazônia, o estado de Mato Grosso e do Pará, assim como a ilha de Fernando Noronha, tornou-se a modalidade de punição mais adotada pelas classes dirigentes, para o que considerassem crime político, ou qualquer ação julgada nociva contra a República. Nas palavras de Euclides da Cunha -- quando se referiu à transferência do sogro major Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro, republicano convicto, para o Mato Grosso por ordem de Floriano Peixoto – “Partiu para um exílio disfarçado e hipócrita”. Então, mal sabia que ele, como todos aqueles que registrassem a carnificina de Canudos, perpetrada pelo Exército brasileiro, seriam vitima de exílio disfarçado e hipócrita. Sólon Ribeiro, transferido para a Bahia (dez. 1895) no governo Rodrigues Lima, já como general, para comandar o 3º Distrito Militar, em decorrência de atrito com o governador Luis Viana (1896-1900), em torno da Guerra de Canudos, foi transferido (leia-se deportado) para Belém, a capital do estado do Pará.
Para que não restem dúvidas em relação à tese que defendo, é necessário contextualizá-la, tendo-se em conta as circunstâncias políticas que envolveram o Brasil, na transição da Monarquia para a República. Vale, portanto, um breve esboço da grande instabilidade que envolveu o novo regime político, desde a sua proclamação e, especialmente ao longo das duas primeiras décadas.
A situação de instabilidade econômica, política e social, gerada pela crise de longa duração, que atingiu o sistema capitalista, nas últimas décadas do século XIX e primeiras do XX, varreu toda a Primeira República, especialmente o período de transição da Monarquia para o novo sistema de organização política. Dentre os muitos movimentos de contestação então surgidos e que resultaram em exílios e manifestações severas contra os opositores, farei breve referência apenas ao de Canudos, com o objetivo de contextualizar o exílio de Francisco Mangabeira.
Antonio Conselheiro foi um pacífico líder sertanejo, a perambular pelos sertões nordestinos, deixando como marca nos lugares por onde passava uma igreja ou um cemitério. Alimentava, com as suas prédicas seres sedentos de crença, com precárias condições de vida. Uma simples manifestação contestatória da sua parte, em torno de uma compra de madeiras, foi politicamente manipulada, cresceu no boca-a-boca, e a imprensa divulgou como mais uma tentativa de restauração monárquica. O combate ao povoado de Canudos, estabelecido às margens do rio Vasa-Barris, foi cruento e prolongado. Devido à inesperada resistência dos sertanejos, estendeu-se de 1893 a 1897.
No Rio de Janeiro, terminada a guerra, o ataque contra a vida  do presidente  Prudente  de Morais, perpetrado por um desconhecido, terminou por atingir o ministro da Guerra, Carlos Machado Bittencourt, morto a punhaladas ao tentar defendê-lo. Este crime abalou toda a sociedade e mudou a configuração político-social do Brasil.
 Com o apoio do Congresso, o estado de sítio foi decretado e se estendeu a todo o país, por tempo indefinido, permitindo que o presidente iniciasse rapidamente uma cruenta reação conservadora. As passeatas dos “jacobinos”, que antes enchiam as ruas da Capital Federal, foram substituídas por largas manifestações lideradas pelos “reacionários”; os jornais foram silenciados; alguns políticos da oposição, como o todo poderoso senador Pinheiro Machado, foram presos a bordo de um navio de guerra, pelo que se anulou a imunidade parlamentar. Políticos de destaque, como Barbosa Lima, ex-governador de Pernambuco, e o jornalista Alcindo Guanabara foram deportados, com outros presos, para a ilha de Fernando Noronha; o influente Francisco Glicério fugiu para São Paulo, onde se escondeu; o vice-presidente Manuel Vitorino Pereira, também foi denunciado à Justiça, ainda que tenha sido impronunciado.
Vale lembrar que, sucedendo a Prudente de Morais, o presidente Campos Sales (1898-1902) -- quando governador do estado de São Paulo (1894-98) ao tempo em que se desenrolava a guerra de Canudos -- aconselhou-o a proceder ao extermínio “sem vestígios” do arraial sertanejo, para o que enviou-lhe tropas estaduais, a fim de reforçar as federais, nos combates contra o arraial sertanejo. Ele, que fora ministro da Justiça no governo provisório do Marechal Deodoro da Fonseca (1889-1891), desenvolveu mecanismos para assegurar a supremacia da oligarquia cafeeira, e fechou com mãos de ferro o ciclo de domínio absoluto do Executivo.  Descrito por seus biógrafos como “frio e autoritário”, assegurou-se o domínio das diversas unidades da Federação, através do controle do Legislativo, ao institucionalizar a “política dos governadores”, que regeu o sistema político na Primeira Republica. Sua diretriz prevaleceu além da Revolução de 1930, cujo principal objetivo era dar-lhe fim.
Antes, a Convenção do Partido Republicano Federal (PRF), que oficialmente apontara a sua candidatura à presidência, havia decidido, seguindo a sua orientação, que a palavra Federal seria retirada do nome do partido, no que deixava claro o absoluto controle da Federação pelo Executivo. A vitória sobre Canudos havia fortalecido o centralismo presidencial, levando o novo P.R. a declarar que estava constituído pelo que (havia) de mais acentuadamente conservador na opinião republicana do país e que o partido continuaria a representar os princípios estáticos da sociedade brasileira (...) e a sustentar, com decisão, os interesses primordiais da Ordem, para a segura garantia da Liberdade, repelindo qualquer ideia de revisão constitucional. Passado algum tempo, tanto a facção oficial, como a oposicionista, do P.R. foram dissolvidas.
Após a reunião do PRF no Rio de Janeiro (10 out.1897) estabelecendo as novas diretrizes ultraconservadoras do governo, o chefe do Partido Republicano Federal na Bahia, futuro governador Severino Vieira, declarou que retiraria o Federal do nome do partido e, com entusiasmo, deu o mais vivo apoio às candidaturas Campos Sales e Rosa e Silva (vice-presidente), enfatizando as mesmas aspirações de ordem e imobilismo social.
Foi nesta conjuntura política, onde não havia possibilidade de livre manifestação, que o poeta Francisco Mangabeira foi deportado para o Amazonas, conforme o meu entendimento, ou saiu de Salvador para trabalhar como médico junto à Companhia Maranhense de Navegação, como quer a versão até aqui vigente. Ele recebeu o diploma de médico no dia 18 de dezembro de 1900, depois de já haver publicado Tragédia Épica (5 out.1900). Observe-se que quinze dias após a reunião do novo partido criado por Severino Vieira, o Partido Republicano da Bahia (PRB), em 1º de março de 1901, o recém-formado doutor Mangabeira partiu de Salvador para o Amazonas (16 março, 1901), na calada da noite, como o irmão Otavio registrou, 50 anos depois, na Academia de Letras da Bahia.
Chegando a São Luis, Francisco Mangabeira escreveu a parentes e amigos. Contrariando a versão oficial, não foi trabalhar como médico em lugar algum. Em carta registrou que após se instalar numa pousada frente à estátua do poeta Gonçalves Dias, foi (supostamente) visitar os jornais locais, visando obter qualquer trabalho com o qual pudesse sustentar-se. Também, suponho, poderia estar aguardando o vapor que o levaria ao Amazonas, pois nada conseguiu, tendo prosseguido viagem até Manaus, onde se estabeleceu. Ainda de São Luis dirigiu carta ao poeta e amigo Jacinto Costa, um dos redatores da Revista Nova Cruzada, na qual foi publicada. Nesta carta (7 abr. 1901), ele extravasa a sua frustração e sofrimento por ter saído da Bahia.
Reproduzida na íntegra em anexo, aqui citarei algumas frases que reforçam a tese que defendo do exílio compulsório do poeta. Nesta carta ao amigo ele se reporta à Bahia, onde deixei tudo quanto amei na vida: meus parentes e meus amigos (...). Depois de dizer que vive um suplício escreve: Eu já não penso em minhas aspirações. Só penso em minha terra (...) onde se aninharam todas as minhas ilusões de sonhador e todas as minhas venturas, hoje mortas (...) Eu jamais me acostumarei a viver longe da Bahia. A minha saudade é incurável. 
Está claro que esta carta não poderia ter sido escrita por alguém que houvesse deixado a sua terra natal para trabalhar em outras plagas, a fim de prover o seu sustento. Ela constitui forte argumento de sustentação da minha tese que aponta para o seu exílio.
Não se sabe com precisão quanto tempo Francisco Mangabeira teria passado em São Luis do Maranhão. Sabe-se apenas que foi pouco tempo. Reafirmo que São Luis foi uma simples escala para o seu destino final, Manaus, capital do Amazonas -- não mencionado na fala oficial. Naquela época, era sabido ser um local de exílio. Alguns anos antes, destacados homens públicos e luminares das letras haviam sido exilados para o Amazonas, a mando do então presidente Floriano Peixoto, entre eles, o futuro ministro e governador da Bahia J. J. Seabra, o jornalista e escritor José do Patrocínio, o poeta Otavio Bilac dentre outros brasileiros. Na presidência Artur Bernardes, o degredo para o Amazonas e o Pará foi comum, dada à arbitrariedade e despotismo prevalecentes no seu governo. Ambos os estados, cobertos por densa vegetação e precárias ligações com o resto do país, eram ideais para receber os condenados políticos. Neles situados, estariam muito longe do centro do poder, então no Rio de Janeiro
Com referência a Francisco Mangabeira, divulgou-se, decorridos alguns meses, que o poeta havia recebido “importante comissão” do governador do Amazonas para percorrer grandes regiões da bacia amazônica, ainda mal identificadas, como as do Juruá, do Javari, do Purus etc. Esta é uma segunda versão que acredito haver sido elaborada por parentes e amigos em Salvador, para justificar a ida do poeta para o que então era referido como “inferno verde”. Há indícios de que, efetivamente, o poeta percorreu essas inóspitas regiões. Contudo, em carta adiante transcrita (p. 29) dirigida ao irmão Otavio, lê-se que ele não recebeu a esperada comissão do governo. No entanto, foi no estado do Amazonas, e posteriormente no Acre, que Francisco Mangabeira fixaria residência. A selva amazônica, praticamente inabitável, seria a sua prisão natural, aberta, mas ao mesmo tempo, sobre ele se fechava, impedindo-lhe a saída. Esta só aconteceria, de modo definitivo, com a sua morte.
Francisco Mangabeira demorou-se na Amazônia cerca de um ano, sete meses e sete dias, antes de retornar a Salvador, para passar o Natal de 1902 com a família. Chegou à casa paterna exatamente no dia 24 de dezembro. Gozou do aconchego da família durante dois meses e cinco dias. No dia 3 de março de 1903, pela segunda vez deixou o porto de Salvador, de volta a Manaus, mas com o destino já traçado. Deveria acompanhar as tropas nacionais na luta que se travava para a conquista do território contestado do Acre. Observe-se que não mais se fala do suposto emprego que teria obtido junto à Companhia de Navegação Maranhense. Voltaria direto para a Amazônia. Da região soberbamente agressiva do Acre escreveria as Cartas do Amazonas, adiante referidas e que este estudo tira do esquecimento, ao republicá-las, em anexo.
Mangabeira foi encontrado no Acre, por acaso, pelo doutor Montenegro, em situação de grande penúria, macilento, no abandono, como resumiu o amigo. A luta pela disputa do Acre já havia terminado com a vitória do Brasil. Sem forças para se levantar, foi colocado numa precária embarcação, com destino a Manaus. O seu estado de saúde se agravava em relação direta à sua ânsia de voltar para Salvador. Seu corpo foi transportado para o primeiro paquete surgido no porto de Manaus. Durante a viagem, o seu estado de saúde se deteriorou, vindo ele a falecer no dia 27 de janeiro de 1904, em pleno mar, entre o estado do Pará e o Maranhão.
Até o último suspiro, Mangabeira reafirmou a sua condição de poeta, o que a elite baiana, imobilizada pelo conservadorismo, se recusava a aceitar. Pronunciando, num último estertor a frase que abre este estudo, Eu não sou doutor, eu sou poeta, ele dizia o que sentia, o que verdadeiramente era. A despeito de suas breves incursões como médico, na guerra de Canudos e na tomada do Acre, ele era muito mais poeta do que doutor. Um homem feito de emoções contidas que, acumuladas, explodiam em versos líricos, os primeiros publicados com o título de Hostiário; depois em versos trágicos como os da Epopeia Sertaneja, além dos muitos que escreveu na Amazônia, e que juntamos a este estudo com o título de Últimas Poesias. Infelizmente a maioria dos poemas não publicados em livros foi destruída ou se perdeu nas águas do grande rio. Sua prosa poética o leitor encontrará nas Matinais, crônicas que registraram, em tom leve e irônico, os males e a hipocrisia da sociedade baiana; e também nas Cartas do Amazonas, nas quais deixou impressa a sua visão da imensa floresta brasileira, cuja luxúria ante ele se descortinava à medida que subia o grande rio.
Feitas estas considerações introdutórias, convido o leitor a examinar, nas páginas seguintes, o pouco que nos restou da experiência de vida de um grande brasileiro e da construção literária de um dos maiores poetas do Brasil que, no entanto, permanece ignorado na sua grandeza.


Este texto foi publicado originalmente no blog da autora:

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A UMA FLORENTINA

Francisco Mangabeira (1879-1904)


Na sua carne morna se condensa
A primavera em flor com a madrugada
E das duas não sei qual a que vença
Tanto ela brilha quanto é perfumada.

É uma flor de volúpia e de descrença
Que abre a linda corola envenenada,
Trouxe no olhar a lua de Florença
E o Vesúvio na carne sublevada.

É uma ave cujo canto cheira a flores...
É deusa e me abandona... É a Traviata
Que em lugar de morrer mata de amores!

P’ra tanto amor meu coração é pouco...
Oh! maldita a loucura que me mata
E bendita a mulher que me faz louco!

                                          Sob o Sol dos Trópicos, Manaus, 1902.


MANGABEIRA, Francisco. Poesias: Hostiário, Tragédia Épica, Últimas Poesias. Rio de Janeiro: Annuário do Brasil, s/d. p.382

> Veja aqui mais poesias de Francisco Mangabeira.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O RIO AMAZONAS

Francisco Mangabeira (1879-1904) 


De onde vem esta voz frenética e atroante
Que parece escapar do peito de um gigante,

E, rasgando do espaço o ilimitado véu,
Espalha-se a gritar por todo o vasto céu,

Após ter abalado a mata, a costa, a serra,
Como se acaso fosse o desabar da terra?

De onde vem ela? Agora é branda, a recordar
Um segredo de amor, nos campos, ao luar;

O gorjeio sutil de um pássaro encatado
Que, contemplando o azul, fica maravilhado,

Entre-abre o bico de ouro e, quase sem querer,
Solta um canto que faz a gente estremecer.

Por acaso será de algum gênio escondido
Cujo palácio escuro, amplo e desconhecido,

Inda o não viu ninguém – esta esquisita voz,
Tão rude e tão sutil, tão meiga e tão feroz?

Por que anseia, curvado e trêmulo, o arvoredo,
A maneira de leões a tiritar de medo?

Assim pergunta a brisa, ouvindo com terror
Um grito que se muda em cântico de amor.

Não achando resposta o vento em ânsia estranha,
Cresce, incha, rodopia, as árvores assanha,

Ergue nuvens de pó, torna-se furacão,
E é um doido a sacudir os ferros da prisão.

O espaço é um antro azul, imenso, esplendoroso,
E por ele o tufão agita-se furioso,

Raiva, fugindo à voz que entre explosões e ais
O acompanha, e é maior, e o aterroriza mais.

É o rio que, a rolar, canta e ruge, violento,
Respondendo talvez às perguntas do vento,

Que se amedronta, ouvindo-o...

            O rio é como um rei
Que nas árvores tem uma formosa grei

De pajens triunfais e olímpicas escravas,
A que o sol dá broqueis, capacetes e aljavas.

Inda há pouco rolava, estourando em cachões,
Na queda... A luz do dia arrancava clarões,

Incêndios imortais, estrelas, pedrarias
Do tesouro real de suas águas frias...

A cachoeira gloriosa era o espelho do sol,
Refletindo-se nela, às horas do arrebol...

Das águas a cair uns trêmulos salpicos
Ficam a rutilar como adereços ricos

Nas folhas de esmeralda, apresentando assim
Pérolas e corais em cofres de cetim,

A modo de brilhante e esplêndido debuxo
O mato a revestir de um espantoso luxo.

Depois – era uma encosta – e ele, tonto, desceu,
Desviando um filete incendiado, que deu

Um gemido tão vago, um suspiro tão doce
Que uma ave se ocultou humilhada... e calou-se.

É que o gigante, sempre indômito e revel,
Mandava um fio de água a trêmulo docel

De flores, e ela então, louca, ficou pingando,
Como um pranto a rolar das flores soluçando...

Porém, esta doçura em breve se acabou,
Porque ele, impetuoso, o docel desmanchou,

E avolumando o curso audaz, de lado a lado,
Deu um pulo, entesou o tronco revoltado,

Empolando-se todo em desesperos mil,
Sinuoso e coleante a modo de um réptil,

Cuja cauda sem fim, retorce de tal modo
Que parece arrochar, gemendo, o mundo todo.

As onças a rugir chegam de muito além
Para espiar o duelo e, não vendo ninguém,

Rolam os olhos maus nas órbitas redondas,
Esgueiram-se, e, curvando as patas hediondas,

Vão se agachar atrás das árvores senis,
A cujo tronco adusto, assombradas e vis,

Se colam... À feição de colossais espectros,
Ou desgraçados reis sem tronos de ouro e cetros,

As árvores, tremendo, afilam-se, de pé,
E ante o rio voraz, dizem juntas: – Quem é?

Mas o altivo gigante, escachoando, avança,
Aos barrancos iguais, colérico, se lança,

A separar com fúria as pedras, a torcer
As plantas, a arrancar os troncos com prazer...

E os troncos vão boiando aos tropicais fulgores,
Rebentando-se ainda em preciosas flores

Como ninhos ideais que aos pássaros seduz,
E às falenas gentis, bordadas a ouro e luz,

Que, vendo-os a descer entre olores e roncos,
Adejam de vagar e pousam nesses troncos...

E bifurca-se o rio, ilhas formando aqui,
Um estreito adiante, um lago puro ali...

Mais além se desdobra em monstruosas curvas,
Encrespa ferozmente as grandes águas turvas,

Arranca uma canoa, e a vai levando já,
Por sobre a correnteza, enganadora e má,

Até que ela se afunda, e, como o adeus extremo,
Vê-se após, à flor da água, abandonado – um remo...

Assim o rio, em sua heróica estupidez,
Deixa em tudo um sinal de glória ou de revés...

É o Deus onipotente e eterno destas zonas
Este gênio monstruoso e angélico: – O AMAZONAS,

De que as árvores são esplêndidas galés,
E tem por cortesãs onças e jacarés,

Que empinam a cabeça em meio ao sorvedouro,
Para que o sol os possa aureolar de ouro...

E a terra ama o titã que a fecunda e a destrói,
Como se fora um Deus! Um mártir! Um herói!

Assim, entre o respeito e as orações da mata,
O rio que, ao luar, é uma cobra de prata

E o sol, grande réptil de fogo, ouro e rubins,
Imenso como o céu, reflete-lhe os confins,

E ao chegar no oceano os seus furores dobra...
Ninguém pode domar a enraivecida cobra

Que pula, curveteia, um tal barulho faz,
Que parece trazer consigo satanás.

Mas o Atlântico enorme as fauces escancara
E a cobra, mais furiosa, ao inimigo encara,

Põe-se quase de pé, tomba arrancando uns sons,
Que da angústia e do horror têm os terríveis tons.

Cai soberanamente em cima do oceano,
E esboroa-se após num desespero insano,

Estrondando um rugir que vai de norte a sul...
O mar no inquieto seio ilimitado, azul,

Todo o peso do rio indômito recebe,
E o engole. É um mostro mau que a outro monstro bebe,

Tal um sonho que ainda há pouco era o melhor,
Realizado, desfaz-se ante um sonho maior...


MANGABEIRA, Francisco. Poesias: Hostiário, Tragédia Épica, Últimas Poesias. Rio de Janeiro: Anuário do Brasil, s/d. p.338-345


*
Francisco Mangabeira esteve pela primeira vez no Amazonas em 1901, a convite do governo do Estado do Amazonas, para servir em importantes comissões de saúde nas regiões do rio Juruá, Javary, Madeira, Negro, Purus, etc. Permaneceu na região por mais de um ano, regressando à Bahia em dezembro de 1902, onde ficou pouco tempo, pois retornou ao Amazonas, com destino ao Acre, em abril de 1903, onde irá servir como médico na Revolução Acreana. A Amazônia o impressionou muito. O Rio Amazonas o fascinou sobremaneira, embora tivesse lhe causado certa desilusão quando, pela primeira vez, esteve, por oito dias, viajando pelo rio mar. Esse alumbramento diante da ‘pátria das águas’ fez nascer o poema “O Rio Amazonas”, considerado uma das obras-primas do poeta, e um dos que melhores expressam a sua filiação simbolista. No poema, o Rio Amazonas é praticamente personificado como um indômito titã, lutando incólume com seu percurso, até a grande batalha com o mar, onde dasfaz-se no sonho maior. Grandeza, no entanto, que advém de sua beleza, onde seu “gemido tão vago, (e) um suspiro tão doce” faz até as aves emudecerem. O poema é certamente um dos mais belos que já se escreveu sobre o Rio Amazonas, e está à sua altura, em grandeza e beleza.

* Francisco Mangabeira como médico da revolução acreana, fotografia in Francisco Mangabeira: sonho e aventura, de Paulo Mangabeira-Albernaz.