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terça-feira, 12 de setembro de 2017

ATRIBULAÇÃO

Cassiano Ricardo (1895-1974)


I

Abro o meu guarda-sol
contra uma ave de fogo.

Desço a aba do chapéu
sobre os olhos diurnos.

A matéria, ferida,
cospe flores e música.

O menino demônio,
que vendia jornais
nos estribos dos bondes,
virou rosa do reino
da metamorfose.
Há uma poça de sangue
sob o céu de safira.

Durmo em pé, meu enterro
será vertical,
por falta de horizonte.

A hora e a geometria
nunca estão de acordo
na cidade grande.

II

Ó deus cotidiano!
por que não nos concedes,
ao menos, o direito
de escolher a morte
de que desejaríamos
morrer, mais simplesmente?
como quem escolhe
um lírio, entre outras flores,
para um presente?


RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.97-98

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O ACUSADO

Cassiano Ricardo (1895-1974)


Quando eu nasci, já as lágrimas que eu havia
de chorar, me vinham de outros olhos.

Já o sangue que caminha em minhas veias pro futuro
era um rio.

Quando eu nasci já as estrelas estavam em seus lugares definitivamente
sem que eu lhes pudesse, ao menos, pedir que influíssem
desta ou daquela forma, em meu destino.

Eu era o irmão de tudo: ainda agora sinto a nostalgia
do azul severo, dramático e unânime.
Sal – parentesco da água do oceano com a dos meus olhos,
na explicação da minha origem.

Quando eu nasci, já havia o signo do zodíaco.

Só o meu rosto, este meu frágil rosto é que não
quando eu nasci.

Este rosto que é meu, mas não por causa dos retratos
ou dos espelhos.

Este rosto que é meu, porque é nele
que o destino me dói como uma bofetada.
porque nele estou nu, originalmente.
porque tudo o que faço se parece comigo.
porque é com ele que entro no espetáculo.
porque os pássaros fogem de mim, se o descubro
ou vêm pousar em mim quando eu o escondo.


RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.78-79

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

VIAGEM SOBRE O ESPELHO

Cassiano Ricardo (1895-1974)


Na grande tarde, que é um arco
vermelho
oscila o barco
sobre o espelho.

Nesse barco navega o meu rosto.
O meu rosto de tripulante
olha o meu rosto de náufrago
no espelho.

A viagem é longa. A paisagem
também oscila
entre o meu mundo em viagem
e a água tranquila.

Tudo é oscilação na tarde.
A água como que balança
em cada curva
entre o futuro e a demora.

Depois caminha oscilando
entre as duas margens opostas
como uma pergunta: até quando?
entre duas respostas.

Mas a oscilação mais grave
é a da viagem sobre o espelho.
Em que cada um de nós navega
com dois rostos.

Tripulante sobre o barco
e náufrago no meu reflexo
sob a tarde, em forma de arco,
vou eu, cada vez mais perplexo.

O meu rosto que se debruça,
vê o outro, caído ao fundo.
E sente, através do outro,
o abismo que aos meus pés carrego.

Antípoda de mim mesmo
entre mim e a minha mágoa
levo os dois rostos a esmo
um em meu corpo, outro n’água

O que, por força, conduzo
preso ao corpo
é o que não naufragou ainda.
O outro é o que perdi para sempre.

Viagem dupla, quase sem alvo,
em que o meu barco desliza,
entre o que há em mim de salvo
e o que de salvação precisa.

Na grande tarde, que é um arco
vermelho
oscila o barco
sobre o espelho.


RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.66-68

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

CAFÉ EXPRESSO

Cassiano Ricardo (1895-1974)


1

Café expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo…
E pronto! parece um brinquedo…
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.

E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.

A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória apagada…

Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da estrada…
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.

E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.

E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa…
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de sol que floriu no portão…

E o fazendeiro, calculando a safra do espigão…

Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim…

2

Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.

Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe e desce de gente que vai pras fábricas.

Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando...

Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!


RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.49-51

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

CIENTE

Cassiano Ricardo (1895-1974)


I

O beijo com que a tarde
me ensanguenta a boca.
Fingirei que o não sinto?

Grandes borboletas,
que só nascem a esta hora,
pousam de asas fechadas
no meu labirinto.

No desmoramento
dourado do dia
a grande ave absurda
do silêncio gorjeia
mas não sei em que árvore.

II

Já na primeira infância
me roubaram o seio,
alvo, redondo, cheio,
em que eu bebia o leite
da ignorância.
Agora bebo o sangue
da filosofia.

Sangue rubro em que molho
o pão de cada dia.
E, em lugar da rosa,
resta-me o pedregulho
onde nasce o país
dos objetos sem uso.
País que fica ao norte
do imediatamente.
O país concluso.

Não existem mais frutos
em nenhum pomar
que já o meu paladar,
hoje corrompido,
não conheça – sabido.
Não há seda ou cacto
que já a minha mão
não adivinhe, logo,
experiente ao contacto
das coisas corpóreas
e das suas arestas
ou frestas.
Minha mão é um símbolo.
Ontem, rica – convexa.
hoje pobre – côncava.

III

Lembro-me, ainda hoje:
o diabo me chamou
a um canto da parede
em capcioso gorjeio,
e aí me ensinou tudo.

A primeira palavra
que aprendi a escrever
no beco da Matriz
foi um nome feio.
E quando era manhã
já eu sabia o segredo
da noite, ao meu ouvido,
que a serpente da fábula
me ofereceu, dentro
do fruto proibido.

Tinha eu muita sede.
Deu-me a vida a água
da mágoa.
Água terrível, trago-a
dentro de mim, orvalho
dentro de um baralho.

Até que escrevi “ciente”
no papel que me trouxe
o oficial de justiça
e fiquei então ciente
de que havia a injustiça.
Fiquei ciente de tudo.
(A mais triste forma
de saber é estar ciente.)

IV

O mundo me ensinou,
me cuspiu no rosto,
me fez triste e sábio.
E em meio ao triste pão
que minha mão amassa,
em meio à convicção
que substituiu o êxtase,
em meio à mais abjeta
condição de vida,
resta-me, só, a ironia
da poesia.

Resta-me só esta graça
de ser poeta.
Poesia! única coisa
que, depois de sabida,
continua secreta...


RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.108-112

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O ELEFANTE FUGIU DO CIRCO

Cassiano Ricardo (1895-1974)


(...)
Teu lugar, elefante, não é mais
na selva da África, nem na rua 15.
É no circo, onde, atualmente, moras.
No circo de onde, ludibriando o guarda –
fugiste para a rua; é lá, no circo,
onde demora o último vestígio
do mudo mágico, onde és qualquer coisa
de tragicômico, de maravilhoso,
entre os necessitados de alegria.
Os que procuram coisas diferentes
das que encheram de tédio as próprias flores.
Algo que lhes pareça fabuloso.
Não aquilo que, à custa de ser visto,
o olhar se prostituiu de tanto olhar;
mas algo acima do seu horizonte
de agora e que – embora muito feio, –
seja, como tu és, gentil de ver.

Volta ao circo, elefante; tem piedade
do pouco que nos resta de criança,
neste planeta, sujo fim de terra.
Volta ao circo, elefante... Sê obediente
como a força que crê em si; e deixa-me,
deixa-me, desde logo, azuis, na tromba
amarrar-te, de novo, os laçarotes
de fita, e fulvos, pendurar-te, aos pulsos,
os guizos de ouro, tilintantes de ouro.
Além de tudo, este é o maior segredo,
que eu queria contar-te, bem no ouvido.

A hora é de morrermos todos; todos.
Vem aí o dilúvio, e o circo é a arca
de Noé, ancorada, já no asfalto,
para salvar apenas as crianças
e os poucos a quem Deus ofereceu
a graça de se parecer com elas... 


RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.129-130

terça-feira, 19 de agosto de 2014

SERENATA SINTÉTICA

Cassiano Ricardo (1895-1974)


                        Rua
                        Torta.

                        Lua
Morta.

Tua
Porta. 


RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.70

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

CANTIGA SEM REGRESSO

Cassiano Ricardo (1895-1974)


Um cacto me pergunta: quando?
O horizonte me interroga: onde?
Só o meu coração é quem sabe...
E este bate, mas não responde.

A paisagem se torna escassa
quanto mais longo é o meu caminho.
O céu é que vai aumentando
as suas tardes de ouro e vinho.

De quando em quando, de onde em onde,
paro: Só para quem duvida.
O que é rápido vai-se embora.
Passa sem pensar na vida.

O desencontro desta viagem,
por onde passo, fica impresso.
Não há esperança de chegada
e muito menos de regresso.

De quando em quando, de onde em onde,
faço do cacto a minha prece.
Do horizonte faço o meu leito
ensanguentado, se anoitece.

Regressar? já não é possível.
Seguir? já não é necessário.
Resta-me, no último horizonte,
o último cacto solitário.

O destino que me vence
é aquele de que sou oriundo.
Não é amar o que me pertence,
mas o que pertence ao mundo.

A viagem sem querer da vida,
pontilhada de agrestes luas,
me reduziu a duas palavras
espectrais, totalmente nuas:

Uma de pé, como um cacto: quando?
(a que ninguém me responde)
Outra, deitada no chão duro,
como um horizonte: onde?


RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.75-76

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

DEPOIS DE TUDO

Cassiano Ricardo (1895-1974)


Mas tudo passou tão depressa.
Não consigo dormir agora.

Nunca o silêncio gritou tanto
nas ruas da minha memória.

Como agarrar líquido o tempo
que pelos vãos dos dedos flui?

Meu coração é hoje um pássaro
pousado na árvore que eu fui.


RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.225

quarta-feira, 30 de julho de 2014

FICAM-ME AS PENAS

Cassiano Ricardo (1895-1974)


O pássaro fugiu, ficam-me as penas
da sua asa, nas mãos desencantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um voo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.

Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glórias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!

Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.


RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.77

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A NOTÍCIA DE HOJE

Cassiano Ricardo (1895-1974)


Mais quinze condenados à morte foram conduzidos em fila
e encostados ao muro,
perante quinze cintilações de baioneta.
E não quiseram que se lhes vendassem os olhos
nem se lhes pintassem o alvo, no peito,
em cima do coração – pobre símbolo.

Que adiantaria serem cegos, à última hora?
Que adiantaria não olhar a cena que mais tarde
os cegos, a quem seus olhos fossem dados,
veriam?

Que adiantaria a rosa ser vermelha, na noite?


RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.135