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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A REZA DAS ÁRVORES VELHAS

Pereira da Silva (1890-1973)
(1890-1973)

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Foto: joãosilvio.blogspot
As árvores do igapó estão rezando.

No átrio sombroso, místico e silente,
Deste recanto de selva venerável,
Transfigurado numa catedral,
Inclinam-se com humildade
E balbuciam preces comovidas,
Diante da santidade desta hora colorida,
Anticrepuscular.

O gênio superdivino de Michelangelo
Esvoaçou sobre a quietude e a contrição
Destas águas luzentes, derramadas
Na paisagem paradisíaca da restinga.

E o igapó, todo ele, é um vitral antigo,
Em que as tintas suaves se ajoelham
E maravilham,
Na iluminura da face leite-e-rosa
Das virgens, dos arcanjos e dos santos.

As árvores velhas do igapó, em unção,
Batem no peito, genuflexas:
Mea culpa.
Mea culpa.
Mea máxima culpa...

Pedem perdão
Ao chão úmido de onde brotaram,
Às águas, aos ventos, aos céus, à divindade.

Perdão de seu orgulho, ao altearem-se,
Afrontando o infinito.
De sua vaidade feminil, ao cobrirem-se de flores.
De sua glória maternal, dando frutos e sementes.
De sua luxúria suave, dormindo abraçadas
Com as madrugadas.
De sua fome pecaminosa de luz e de amor,
Beijando os lábios do sol, no esplendor das manhãs.

Pecaram muito, estas árvores venerandas,
Agora recurvadas,
Carcomidos os troncos, esfolhados os galhos,
As raízes chorando, em desengano,
À beira da cova rasa da barranca!

Mas souberam pecar, com pureza e ternura,
Os mais lindos pecados desta vida!
Bem merecem estas árvores velhinhas,
Em oração nos ermos da floresta,
A absolvição eucarística de uma bênção
Da natureza, neste fim de tarde:

– As águas quietas e coloridas do igapó fulgindo,
Em exaltação à sua beleza e à sua glória,
Como o vitral maravilhoso de uma igreja.
E os rosários imensos
E misericordiosos das lianas
Cobrindo de ave-marias o seu busto! 
Foto: Adriano Gambarini

SILVA, Pereira da. Poemas amazônicos. Manaus: Valer, 1998. p.255-259

segunda-feira, 27 de junho de 2016

POEMA DOS ACREANOS

Pereira da Silva (1890-1973) 


Avançam pela floresta adentro
Os homens bronzeados do Meio-Norte!
– Gente do litoral e dos sertões bravios,
Onde o fogo do sol dança o bailado das secas,
Sobre o dorso cinzento das caatingas.

Tombas sumaumeiras. Clareiam estradas.
E lá se vão os nordestinos,
– Loucos pelo ideal de um Brasil bem brasileiro,
Doidos de amor pela terra morena das palmeiras!

 Lá se vão – penetrando rios,
Abrindo rumos pela selva escura,
Galgando barrancas artilhadas,
Trazendo desfraldado um trapo verde-amarelo,
Onde uma estrela de sangue acena o caminho da glória!...

São agora os indômitos acreanos!

– Cavando uma trincheira em cada sapopema,
Com saudade, com febre e com esperança,
Enfrentam legiões aguerridas! E vencem!
E vencem cantando – feridos, desnudos, famintos, alegres,
Conduzindo o Brasil vitorioso à Bolpebra!

Brava gente morena, audaz, de olhar cheio de sol!
– Quem sois vós? Porque andais em guerra, penetrando
As entranhas da mata, em combate aos exércitos
Que desceram o altiplano, embriagados no sonho
De fazer ressurgir o Império de Atahualpa,
Desde os andes nevados
À grandiosidade verde e eterna do Rio-Mar?

– “Nós somos o Brasil dos seringueiros do Aquiri!
Primeiro, afrontamos as iras do sol que nos matou a felicidade
E pelo sofrimento conquistamos um Paraíso Verde!

À beira dos rios e paranás derramamos o nosso sangue.

Mas, fomos adiante. Era mister a luta.
Ferir. Matar. Morrer, honrando a nossa raça,
Conquistando, a punhal, trincheiras e trincheiras,
Na ânsia de ter um luar sob frondes eternas.

Acreanos!... Nós somos o destino
De um povo infante, inquieto, em marcha ascensional...

Com a nossa valentia e o nosso sangue,
Entre fuzilarias e clamores,
Estamos modelando e repolindo,
Para que brilhe tanto quanto as outras,
Entre fulgurações e glórias, sobre a terra,
A estrela que faltava na bandeira do Brasil!” 


SILVA, Pereira da. Poemas amazônicos. Manaus: Valer, 1998. p.233-237

terça-feira, 21 de junho de 2016

POEMA DA SERINGUEIRA

Pereira da Silva (1890-1973)

(...) seringueira, pobre árvore sofredora, votada pela cobiça humana a eterno martírio! Manará constante teu látex de ouro das mil feridas, que te abrir o ferro na uberdade dos flancos, enquanto acalentar o coração do homem o louro sonho de Creso, ou dominar-lhe o pensamento o desvairado anseio das doçuras satíricas.
João Leda
Foto: blog Ambiente Acreano

Lá, na tessitura da floresta primitiva,
Onde os olhos de Deus chegam já tão cansados,
A seringueira é a dadivosa mãe caritativa
Dos flagelados,
Dos desesperados
Bandeirantes da fome e da desgraça.

Vede, como é humana! Vede!
Lá está, oferecendo os seios fartos a quem passa,
Maltrapilha e sem nome,
Pela estrada.
– Ela dá de comer a quem tem fome!
– Ela dá de beber a quem tem sede!

Há de ter alma e coração como as mulheres boas
E fecundas. Mães carinhosas
Que amamentaram muitos filhos pequeninos.
E as outras árvores, na mata perfumada,
Devem beijar a frança a trifólia benfazeja,
Linda e seivosa irmã das casteloas...

Aos primeiros rubores matutinos
Quando às protofonias de mil vozes
Ferozes,
Sucedem os pizzicatos saltitantes
Dos descantes
Dos pássaros despertos,
A hévea, de folhas alternas, pecioladas,
Digitadas, trifoliadas,
Que a luz equatorial abraça, e afaga, e beija,
Ouve o rumor de passos vigorosos. E escuta.

Anda alguém a tatear nos caminhos incertos
Da mata bruta.

– Quem virá?
– Quem será?

É o seringueiro! É o homem moreno, caldeado
Pelo sol nordestino,
– Misto de trovador e de herói espartano –
Que sofre, dentro da selva, a nostalgia das caatingas.
E contemplando a bruteza dos rios
tem saudade dos “verdes mares bravios”
De sua terra. É o seringueiro,
Que vem chegando para o “corte”,
Vencendo o varadouro emaranhado,
Depois de atravessar igapós e restingas.
Uma faca de mato, um rifle, um machadinho,
Os músculos de aço, o peito forte,
O olhar ligeiro,
Ei-lo que vem trauteando,
De mansinho,
Uma cantiga langorosa do sertão.
Ilustração do livro "O seringal e o seringueiro" (1956), de Arthur Cezar. F. Reis.
E a Árvore-Mãe, então, recebe-o, transfigurada,
Para a glória sensual da martirização.
E abençoa o verdugo seringueiro
Com a mais seráficas das beatitudes.

Ao clarear a manhã, soberbamente nua,
Santamente serena,
Cheia da piedade nazarena
do perdão,
A cada golpe do machadinho certeiro,
A Árvore-deusa do país verdacho dos paludes,
Há de dizer sorrindo,
E de sorrir gemendo
E de gemer cantando:

“Homem! Leva meu leite! A minha seiva é tua!
Ela não vale por uma gota da saudade
Que heroicamente andas carpindo,
Na bruteza cruel destas matas, correndo,
Contra as rudes caudais desses rios, lutando!
Leva a minha vida! é o que te posso dar:
– Meu sangue brancacento, minha saúde e mocidade.

Quero que volte a alegria
À tua face!
E que a fortuna te sorria!
E que a felicidade não seja um bem fugace
No teu lar!...

Fere! E que cada ferida, santificada
Pelo líquido nevado vindo de minhas entranhas,
Seja o manancial da ventura sonhada,
A fonte genetriz das sensações estranhas
Que agitam os teus sentidos,
Na hora angustiada
Dos desalentos, das febres, nos horrores
Do teu abandono
Num pobre tapiri, onde as tristezas e pavores
Povoam de fantasmas o teu sono!...

Fere! E que nunca mais os teus gemidos
Sejam ouvidos!
Que as tigelinhas embutidas no meu tronco fiquem cheias
Do ouro latescente que jorra de minhas veias,
E que, afinal, de tão cheias, transbordem!”

“Oh! Quanto sou feliz, meu filho! – pela alegria
De ver-te a dominar a fereza, a desordem
Hidroflorificada destas zonas,
Onde a brutalidade das coisas circundantes
É um heptacórdio selvagem de beleza e de poesia!...”

... E o rei dos bandeirantes,
O homem moreno e caldeado pelo sol nordestino,
Domador dos sertões palustres do Amazonas,
Vai cortando,
Vai golpeando
A miraculosa seringueira abnegada,
A Árvore-Mulher martirizada,
Que se entrega para o gozo sofrer, todo o verão,
O seu fadário, o sacrifício muito humano
De ser lanceada
Pelo bem
De alguém.

... E o seringueiro vai pela estrada torcicoleante,
Com a esperança dançando dentro da alma,
E o balde cheio de leite... De ouro!
Vai sonhando com a fortuna. A baixada
Próxima. O retorno à gleba nativa. A vida calma
Do sertão,
Onde ficou, soluçando, uma velhinha de cabelos de prata.
Na face albicremada do látex, a miragem.

E o seringueiro, alucinado, crê.

Na crepitação das chamas
De seu sonho, há o fascínio de um tesouro
Encontrado na selva e a linda imagem
Da felicidade perdida lhe acenando!

Mas, oh! desilusão de uma crença insensata!
Tudo afinal é a trama, o engano ledo
De um bruxedo
Da Mãe-da-Mata.

SILVA, Pereira da. Poemas amazônicos. Manaus: Valer, 1998. p.181-188

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“Francisco PEREIRA DA SILVA nasceu em 7 de setembro de 1890, no povoado de Guamaré, município de Macau, no Rio Grande do Norte, mudando-se com a família, ainda menino, para a Amazônia. Iniciou a vida pública ainda no Acre, ainda território federal, onde foi fiscal de rendas federais no Alto Juruá, diretor do jornal oficial da Prefeitura Federal de Cruzeiro do Sul, Promotor Público interino e Prefeito Municipal de Tarauacá, no período de 1911 a 1921. Chegou ao Amazonas em 1924, nomeado Secretário da Chefatura de Polícia, cargo que ocupou por pouco tempo. Em 1930 foi aclamado membro da Junta Governativa Revolucionária do Amazonas e, após a extinção desta, nomeado Secretário Geral do Estado, permanecendo no cargo por dois anos, isto é, até 1932, quando entrou em divergência com o Governo do Estado, na fase intervencionista transferindo-se para o Rio de Janeiro, exercendo a advocacia. Pereira da Silva cumpriu quatro legislaturas como Deputado Federal pelo Amazonas. Foi o idealizador do Projeto da Zona Franca de Manaus. Faleceu em 10 de setembro de 1973, aos 83 anos, em Manaus, sendo sepultado no Cemitério São João Batista, túmulo nº 1, quadra 15.” Saiba mais aqui.