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quinta-feira, 5 de março de 2015

HORROR – GRANDE E MUDO

José Augusto de Castro e Costa


Rio Acre, interminável e fundo,
Entre barrancas de impotência e dor,
Em que mar remoto, profundo,
Estás tu a lançar tantas lágrimas de horror?

Aqui, ali, além, de dobra em dobra,
De curva em curva invades tua terra,
E tal qual uma imensa e assustadora cobra
Vais tragando a vida que a mata bonita encerra...

Da minha terra, toda a risonha história,
Alagaste-a... engoliste-a... São páginas lidas!
Mostras-me tu que o amor é crença ilusória,
E as almas são todas elas esquecidas?

Tuas margens, não as vejo mais. A linha
Das tuas barrancas, onde à tardinha
As garças e alguns de nós íamos cismar a esmo

Me desconcentra,  e ao ver esta água turva,
Descubro o Rio Acre em cada curva
E o destino colérico a bagunçar comigo mesmo!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

GOVERNADOR ANÍBAL MIRANDA

José Augusto de Castro e Costa


Aníbal Miranda
Com o fim de habilitar-se a lançar sua candidatura para Deputado Federal pelo recém criado Estado, o Dr. José Ruy da Silveira Lino pediu exoneração do cargo de chefe do executivo acreano. Para substituí-lo e ao Secretário Geral, Prof. Geraldo Gurgel de Mesquita, foram indicados, respectivamente, os senhores Aníbal Miranda Ferreira da Silva e Milton Matos Rocha, cuja solenidade de transmissão de encargos realizara-se a 6 de julho de 1962, ao apagar das luzes, data máxima para a desincompatibilização necessária à candidatura de quem exercia cargos públicos. Tal estratégia fora utilizada pelo governador Ruy Lino, para que o novel estado permanecesse nas mãos do PTB, pois, se se exonerasse antes, o governo ficaria com o PSD, como objetivava o então Secretário Geral, Geraldo Mesquita, também aspirante a cargo eletivo.

O PTB, na época, era um tronco confluente de duas correntes, navegava em duas vertentes: Oscar Passos e Adalberto Sena. Para que a chapa para governador, com o nome de José Augusto tivesse a aceitação majoritária do partido, Adalberto Sena teve muito trabalho para exercitar seu poder de persuasão junto aos petebistas descontentes, entre os quais sobressaia-se justamente Aníbal Miranda.

Logo de início o governador Aníbal Miranda procurou não descuidar-se de dar solução aos problemas da administração, quer na capital, quer no interior, fazendo com que o plano iniciado pelo seu antecessor, Ruy Lino, não viesse a sofrer solução de continuidade.

Uma das primeiras preocupações do governador Aníbal Miranda fora referente à verba destinada ao pagamento do funcionalismo, objeto da lei que concedera novo aumento.

A propósito, o mandatário acreano mantinha, diuturnamente, contato com a Representação do Acre, na então capital da Guanabara, enquanto, em Rio Branco, a Seção do Pessoal do Departamento de Administração, providenciava a confecção das respectivas folhas de pagamento.

Mais adiante, o governador Aníbal recebera mensagem telegráfica do Dr. Parkinson, Diretor de Obras da Cia. Siderúrgica Nacional, dando conta da elaboração do Contrato com a firma MARTINS FERREIRA S.A., com vistas à construção da ponte “Juscelino Kubitschek”.

De salientar, uma marcante conquista – o Enquadramento do Funcionalismo do Acre. Quando no exercício do governo acreano, Ruy Lino entendeu precípuo o dever de lutar por tão necessária causa. Armou-se da coragem resoluta que sempre o caracterizou, e enfrentou a batalha, já muitas vezes deixada em meio. Conseguiu uma comissão do Departamento de Administração do Serviço Público (DASP) para a colheita de dados imprescindíveis. Persuadiu o deputado Oscar Passos a emprestar sua inestimável colaboração à causa e, brevemente, o Decreto chegara às mãos do presidente João Goulart para a devida sanção. Já encaminhava-se para o “referendum” do Primeiro Ministro quando deu-se a transformação do sistema de Território a Estado autônomo e Ruy Lino cedera  lugar à Aníbal Miranda, que conseguiu que o trabalho chegasse a seu termo.

No governo Aníbal Miranda, o tocante a assistência social, filantropia e demais atividades sociais, estivera a cargo da Primeira Dama, Dalva Vasconcelos Silva, que não poupara esforços para levá-las a efeito, produzindo visitas aos abrigos e educandários, reuniões sociais, pequenos festivais alusivos a data e a cultura dos povos e desfiles de modas e costumes.
Desfile de costumes das nações, realizado na esplanada do Palácio do Governo

Entre as principais realizações do governo Aníbal Miranda pode-se enumerar a Construção de barragens para a reserva de água para as Colônias Plácido de Castro e Bela Vista, o Aparelhamento do Frigorífico do Estado, a Instalação da Telefônica do Acre (TASA), a cargo da Ericson do Brasil S.A., e Convênios com a SPVEA para a instalação da usina e distribuição de energia de Cruzeiro do Sul e instalação de geradores em Sena Madureira.

Ressalte-se que o governador Aníbal Miranda, ao assumir em período eleitoral, conduziu o Acre num clima pacífico e de segurança, garantindo, ao eleitor, decisão livre do seu voto.

Ninguém pode esquecer a grandeza humana e a significação que teve o trabalho iniciado por Ruy Lino, impulsionado pelo deputado Oscar Passos e concluído por Aníbal Miranda Ferreira da Silva.

Entre suas grandes atuações destaca-se, sem dúvida, a obra que no reconhecimento do funcionalismo e do operariado do Acre ficará perpetuada, com gratidão e respeito, marcando sua passagem pelo governo acreano.

O dr. Aníbal Miranda, na verdade, soube honrar e dignificar quantas funções foram-lhe atribuídas no Território do Acre, tendo inclusive chefiado o antigo Departamento de Produção e representado o Acre junto à Superintendência da Produção e Valorização Econômica da Amazônia, alcançando os mais benéficos resultados. Sua capacidade administrativa aliava-se à sua integridade moral.

Quando, por força constitucional, Rio Branco tivera que eleger seu prefeito, fora o nome do Dr. Aníbal lançado, e então o governador José Augusto de Araújo vira chegar sua vez de manifestar-se, veementemente, contrário à indicação. Resistira, energicamente para, enfim, aceitar contra sua vontade, a candidatura e consequente eleição do primeiro prefeito eleito de Rio Branco, Aníbal Miranda Ferreira da Silva.

Foi o Dr. Aníbal Miranda um amazonense que se distinguira fora do seu estado natal, emprestando o valor de sua moral e de sua intelectualidade ao progresso de outra terra e de outras gentes, irmãos de lutas e de ideais.

Isento de paixões, colocando acima de tudo a livre opinião dos seus jurisdicionados, o governador Aníbal Miranda deu sábio exemplo da posição de um homem do Governo, cônscio das mesmas responsabilidades que lhe foram dadas. Em meio ao entrevero das competições políticas que agitavam os estados brasileiros, o governador Aníbal Miranda permanecera surdo ao cântico das sereias que tentavam afastá-lo da rota que traçou, para levar a porto seguro a nau governamental do Acre, através dos temporais das pugnas eleitorais.

Não há como deixar de admirar-se o alto descortino político do governador Aníbal Miranda e reconhecer-se, especialmente, a sua sólida formação democrática. Dotes até então desconhecidos do povo acreano e que vieram à tona pela perspicácia do governador José Ruy da Silveira Lino.


*José Augusto de Castro e Costa nasceu em Rio Branco, tendo vivido parte de sua infância em Porto Acre e Manaus. É formado em Administração, pela universidade do Amazonas, e Filosofia, com pós-graduação em Metodologia do Ensino Superior. Reside em Brasília, onde desempenha a atividade de Assessor Comissionado do Senado Federal, lotado no Instituto Legislativo Brasileiro. É autor do livro “Brasileiro por opção” (2013), lançado pela editora do Centro Universitário do Maranhão.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Série HISTÓRIA QUE O ACRE ESCREVEU

PENTA UNIÃO CONJUGAL
José Augusto de Castro e Costa


No princípio do século XX, muitos brasileiros, entre profissionais liberais e outros sem capacitação, decidiram realizar o seu desejo de conhecer a amazônia,  que tanto seduzia seus espíritos aventurosos, a maioria em busca de fugir da seca e de   enriquecimento.

Chegando ao Acre, os solteiros, dentro do possível, procuravam constituir família, de qualquer maneira.

O romantismo literário  já houvera cedido lugar ao realismo e parnasianismo, porém, parecia emanar-se da floresta, como a fragrância, personificando  o xodó na alma dos seringueiros.

Entretanto, logo após a virada do século, a chamada boa sociedade mandava que, para efetuar bom casamento, fosse precedido um pedido verbal ou por delicada cartinha de quem fosse alfabetizado.

Nas cidades de Manaus, Belém, Fortaleza e outras, evidentemente, havia nas livrarias diversos livretos apropriados ao assunto, contendo uma infinidade de modelos, para diferentes gostos.

Bazílio Gomes de Lyra, descendente de um dos acompanhantes da segunda viagem do colonizador acreano João Gabriel de Carvalho e Melo, nascera no seringal Remanso, do coronel Quintiliano Ferreira de Mesquita.

Muito dedicado às atividades do barracão, e caindo na milagrosa simpatia do patrão, crescera e, por iniciativa própria, buscara aprender as primeiras letras e as quatro operações aritméticas, daí vindo a galgar algumas posições de relativo destaque no seringal, como capataz, apontador e auxiliar de guarda-livros.

Acompanhara com absoluto interesse e relativas participações as tentativas brasileiras de recuperação do território acreano, desde a investida, conduzida pelo espanhol Dom Luiz Galvez Rodrigues de Ária até a vitoriosa, comandada por Plácido de Castro.

Talvez cansado do celibato, é possível que Bazílio Gomes de Lyra, evidentemente, andara percebendo a necessidade de uma romântica companhia feminina, já que a mocidade passara a dar-lhe sinais de fechar o ciclo, porém as candidatas em quem seus olhos pousavam, não despertavam-lhe  interesse.

Finalmente, Bazílio sentiu e demonstrou que começara a simpatizar seriamente com a viúva Filomena e, depois de algum tempo do que se chama hoje de paquera, sem rodeios, de maneira mais simples possível, escrevera -lhe umas  maus traçadas linhas:

“......Se acreditais que um ser humano, na situação de solteiro, é igualzinho à metade de uma tesoura que nada pode fazer sem a outra metade, permita-me que eu vos ofereça as minhas simpatias e a minha boa vontade para que possamos “ cortar” do melhor modo possível, o tecido da vida “.

A graciosa Filomena que guardara luto, já havia dezoito meses, de Francisco Alves, com quem estivera casada por apenas 48 dias, por conta de um forte surto epidêmico de beribéri, agravado por uma fatídica picada de serpente surucucu-pico-de-jaca, também andara a procura de um parceiro. Daí dedicar-se inteiramente aos termos daquela carta, lendo-a, relendo-a, matutando, pensando, repensando, para, enfim,  enviar, como resposta, uma linda tesoura dentro de um pequeno, mas muito elegante, estojo.

Imediatamente, Bazílio, entusiasmado, decidira encarar aquela que lhe fixara possível ventura, para agradecer-lhe o simpático efeito de seus galanteios.

Luiz Galvez
Em seguida, Bazílio Gomes de Lyra procurara o então presidente do Acre, Dom Luiz Galvez, que de fato fizera seu casamento com dona Filomena, viúva de Francisco Alves.

Pouco depois, fora Dom Galvez deposto e tendo sido organizado o consulado brasileiro no então território boliviano de Porto Acre, o representante do Cônsul, Joaquim Domingues Carneiro, sob pretexto de inventário, legalizara e casara novamente Filomena e Bazílio.

Quase em seguida, andando em desobriga, o monsenhor Francisco Leite Barbosa fez os dois, Bazílio e Filomena, já casados, casarem outra vez, desta vez sob as bênçãos  do religioso-católico.

Ainda não ficando nisso, estabelecido o domínio boliviano, o respectivo representante, querendo organizar estatística ou estabelecer o regimem de que era delegado, exigiu e conseguiu que Bazílio e sua mulher três vezes, em audiência por si conduzida, fizessem novo contrato.

Já teria sido muito, porém não fora tudo: pela quinta vez, um cônsul brasileiro, Carneiro de Mendonça, buscando um pretexto para atacar o ato quatro vezes repetido, em que figuram Bazílio e Filomena, declarou sem competência o agente consular, Domingues Carneiro, e os fez casar de novo.

Dizendo a igreja que tudo quanto é ligado na terra será ligado no céu, um laço dessa ordem, apertado com cinco nós cegos, parece ter sido ligado até no purgatório.
E quanto Bazílio não deve ter desembolsado pelas cinco vezes em que foi obrigado a casar-se, hein!

O fato é que o casal  acabou saturado, e... cansado, batido, vivido e sofrido nos dias seus, retirou-se  definitivamente  para Lábrea, onde, devidamente documentado, deu divulgação à  mais essa originalidade acreana.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

AMARGA LEMBRANÇA DA HISTÓRIA

José Augusto de Castro e Costa


Há precisamente cinquenta anos, o jovem JOSÉ AUGUSTO DE ARAÚJO renunciara ao encargo de governador do estado do Acre.

Eleito com apenas 32 anos de idade, o primeiro governador do então mais novo estado da federação, sempre estivera ciente das dificuldades que se lhe apresentariam, sabedor que era da irresistível pressão que viria a sofrer, com extensão aos seus familiares, inclusive, por ser ele o principal responsável, em vista do carisma, de sua competência, equilíbrio e serenidade, que refletiram na esmagadora derrota da classe conservadora, que dominava o Acre, há várias décadas.

Com o atraente slogan “O ACRE PARA OS ACREANOS”, cercando-se de um secretariado reconhecidamente ultra jovem, onde o mais vivido tinha apenas 45 anos de idade, o primeiro executivo acreano eleito pelo povo, viria  ser acusado, de início, de inexperiência e de não receber cooperação de elementos de “reconhecidos  valores”.

Assim, algumas medidas ousadas do governador JOSÉ AUGUSTO, na verdade, vieram colidir, contundentemente, com o pensamento e atitudes da oligarquia política e econômica  acreanas.

No plano educacional, por exemplo, fizera-se ver e sentir a suma importância da educação, destacando-se de que a base vital de um povo é o saber e o conhecimento, salientando-se que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é virar o opressor”.

A oposição não encontrava elementos para combater a administração acreana, até nascer, na alma oposicionista brasileira, o fantasma do “comunismo”, combatido pela famigerada TFP, cujo corpo começou a formar-se a partir de fevereiro de 1964.

Por essa época, o governador JOSÉ AUGUSTO, que encontrara-se fora do estado, a tratamento de saúde, tomara  conhecimento da situação desfavorável  que evoluíra-se na  política do Acre,  e providenciara urgentemente seu  regresso à sede  do governo.

Um mês após seu retorno, a oposição, conduzida e liderada, cruelmente, pelos deputados Aluizio Queiroz e capitão Eloy Abud (respectivos ex-delegado de polícia e ex-Ajudante de Ordem do ex-governador Guiomard),  passaram a denunciar na Assembleia Legislativa, e posteriormente encaminharam cópias das denúncias ao general Orlando Geisel, chefe da Casa Militar da ditadura, dando conta de que o executivo acreano  estaria implantando o “bolchevismo” no estado, mandando, inclusive, destruir propriedades dos adversários, como lojas e armazéns, nos municípios, como Cruzeiro do Sul e  danificando outras benfeitorias.

Com a instalação do golpe militar no Brasil, o PTB acreano começara a dar sinais de sensível fragmentação, notando-se, inclusive, o afastamento de um ou outro deputado estadual às reuniões com o governador, mesmo porque havia militar, que sentira-se  literalmente entre a cruz e a espada.

O governador JOSÉ AUGUSTO era uma criatura admirável, em todos os aspectos, dotado de atitudes comedidas, cautelosas e, sobretudo, honestas.

Em Brasília, o general Orlando Geisel, ao receber as cópias das denúncias, remeteu-as ao próprio governador JOSÉ AUGUSTO e também ao recém-chegado comandante da 4ª CIA. DE FRONTEIRAS.

Em telegramas ao citado general e ao Comandante da 8ª Região Militar, o governador JOSÉ AUGUSTO defendera-se, informando acerca de seu conhecimento das acusações, reafirmara o conteúdo de  seu plano de governo e negara, logicamente, sua filiação ao partido comunista, assim como descartara  a informação de vandalismo e destruição  de propriedades, ressaltando tratar-se de intrigas e  perseguição política.

O Comandante da 4ª Cia. De Fronteiras, na primeira semana de maio de 1964, chegara a ir, diariamente, repetidas vezes, ao palácio do governo, inteirar-se da posição do governador.

Quando, por intermédio de um amigo, tomou conhecimento de que seu superior, com quem não mantinha bom relacionamento, coronel José Alípio de Carvalho, comandante do Grupamento de Elementos de Fronteiras (GEF), sediado em Manaus, estaria disposto a ir ao Acre, apossar-se do governo, o comandante da 4ª Cia. passara a exigir a renúncia do governador JOSÉ AUGUSTO e a imediata eleição, pela Assembleia Legislativa, de um substituto.

Pouco depois das vinte horas do dia 8 de maio de 1964, uma sexta-feira, o governador JOSÉ AUGUSTO convocara, ao palácio do governo, o comparecimento dos seus funcionários diretos e, sem outras palavras, autorizara  ao oficial de gabinete redigir a sua renúncia.

A seguir, pálido e passivo, porém com equilíbrio, harmonia e serenidade, na presença dos deputados José Akel Fares, Presidente da Assembleia Legislativa, Nabor Teles da Rocha Junior, Francisco Taumaturgo, Adonay Barbosa dos Santos, Gerardo Roque de Farias, Geraldo Fleming, do empresário Carlos Abrantes e de todos os secretários de Estado, além do comandante da 4ª Cia. de Fronteiras, o governador JOSÉ AUGUSTO, assinara o termo de renúncia e a exoneração de todo o secretariado.

Teve apenas um sábado para preparar sua mudança para o Rio de Janeiro, e, na manhã seguinte, um segundo domingo de maio, dia 10, Dia das Mães, o primeiro governador eleito do estado do Acre, JOSÉ AUGUSTO DE ARAÚJO, despedira-se de sua mãe, dona Nair, de seus irmãos, de alguns amigos e embarcara no avião do governo acreano, denominado DIM ARAÚJO (seu falecido pai), sob o comando dos pilotos Nelson e Diniz, com destino ao seu domicilio particular.

Ao pousar em Porto Velho, para abastecimento do Curtis Comander, o então ex-governador JOSÉ AUGUSTO fora surpreendido com a ordem de prisão pronunciada pelo Cel. José Alípio de Carvalho, Comandante do GEF, que em um BeachKraef da FAB estaria seguindo para Rio Branco, na sofreguidão de apossar-se do governo do Acre, o que, logicamente não viera acontecer, em vista da rapidez de seu subordinado,  comandante da 4ª Cia. de Fronteiras, Cap. Edgard Pedreira de Cerqueira Filho.
A ordem de prisão ao ex-governador JOSÉ AUGUSTO, fora enérgica e veementemente repelida pelo comandante Nelson, oficial licenciado da FAB, que considerara-se responsável, jurídica e militarmente, pelo aprisionamento e guarda da pessoa que estaria transportando  em caráter especial.

Fora uma contribuição do comandante Nelson, no intuito de diminuir um pouquinho que fosse, a amargura desta triste história, que infelizmente ainda prolongar-se-ia, injustamente, por mais sete anos, até 3 de abril de 1971, para perenizar-se, principalmente, na triste memória de muitas pessoas que conviveram com este importante e  eminente acreano.


> José Augusto de Castro e Costa é cronista e autor de Brasileiro Por Opção (CEUMA, 2013). É acreano de Rio Branco, e reside em Brasília.
Leia aqui outros textos de José Augusto de Castro e Costa.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

EVALDO – EM NOME DO PAI E DO FILHO

José Augusto de Castro e Costa


Não necessariamente, mas instintivamente, seguindo os passos de conterrâneos antepassados, o cearense Augusto Gouveia, jovem ainda, todavia já curtido pelas secas e tocado pelo canto da Sereia, que convocava Sertão adentro, jovens para compor um grande Exército denominado “Soldados da Borracha”, tomara a decisão de partir para a Amazônia, ao final da terceira década do século XX.

Talvez não tenha levado em conta executar um plano de ida e volta, como alguns, a exemplo  do primeiro explorador, o lendário Comendador João Gabriel de Carvalho Melo, filho de Uruburetama, Ceará, que após a sua fuga, provocada por desentendimento com um tio fazendeiro rico, retornara ao sertão após vinte anos, já abastado e possuidor de grandes posses, para buscar a família e outros seguidores, a fim de dar continuidade a real colonização que iniciara no médio Rio Purus, mais precisamente nas adjacências da embocadura do Rio Acre adentro.

Logo que chegara a Rio Branco, o jovem Augusto percebera não haver dificuldades para amar sinceramente aquela terra que os nordestinos desbravaram, povoaram e defenderam do domínio estrangeiro, com sacrifício de inúmeras vidas, na decantada Revolução Acreana.

Sim, havia abandonado a família em busca de melhor qualidade de vida e estabelecera-se ali no Acre, primeiro como Seringueiro, depois como agricultor e pequeno fazendeiro, sentindo-se acreano de coração, mas certamente sem ter esquecido o distante torrão natal, embora não tivesse jamais regressado ao seu Iguatu.

A  ausência não explicada ou  propositada e a distância entre a sua família, no sertão, e o coração da Amazônia, motivou-lhe o desconhecimento de que em Iguatu, o alto falante na pracinha central, passara o menino prodígio, de seis anos, que vinha encantando os ouvintes entusiasmados, ao interpretar lindas canções da época.

Devido a falta de oportunidades em Iguatu, aquele garotinho, aos onze anos de idade, mudara-se para Fortaleza, com o objetivo principal de estudar, porém, sempre envolvido com a música, não obstante a atividade de feirante, que passara a exercer na cidade grande, como meio de sobrevivência.
Trio Nagô (Evaldo ao centro)
Foto Bossa-Brasileira

Passados quase dez anos na prática do fatigante e não menos estressante serviço diário  na feira livre de Fortaleza, Evaldo conseguira, afinal, aliviar sua qualidade de vida, ao ser contratado por uma rádio local, ocasião em que viera a formar um dos mais famosos trios musicais do Brasil o inesquecível “Trio Nagô”, com a participação efetiva de dois amigos, os alfaiates Mário Alves e Epaminondas de Souza, o EPAMI, parceiros das rodas boêmias.

O trio fizera tanto sucesso quanto uma das origens de seu nome (Nagô), inspirado no molho picante, feito de pimenta malagueta pisada com sal, camarão seco moído, quiabo, jiló e sumo de limão, tudo cozinhado na panela de barro.

Os ventos começaram a melhorar para Evaldo, quando o “Trio Nagô”, após representar o Ceará na Rádio Nacional, fora contratado pela Rádio Jornal do Brasil e, logo a seguir por boates cariocas e paulistas. Aos vinte anos Evaldo divulgara sua primeira composição (“DEIXE QUE ELA SE VÁ”), que logo tornara-se sucesso na voz marcante de Nelson Gonçalves. De ressaltar o vaticínio inserido na letra, visto nos versos:

 “pois  o dia em que ele parar
E pensar na maldade que fez,
Certamente ele há de voltar
Pro seu braço outra vez”...

De 1957 em diante Evaldo passara a colecionar sucessos, praticamente, em todas as suas inúmeras composições.

Paralelamente à atividade musical, Mário Alves ocupara-se do ofício da alfaiataria  e, para tal, abrira um atelier, situado na esquina da Travessa Carlos Sá, com a Rua Andrade Pertence, Bairro Catete/Flamengo, em que os altos do sobrado também serviria de residência para os três amigos, componentes do Trio Nagô. O sucesso, portanto, viera atrair a atenção dos vizinhos, que procuravam manter contatos com seus ídolos.

Um desses vizinhos, e seu admirador, o acreano Sálvio Montenegro, que morava na Rua Silveira Martins 140, então estudante no Rio de Janeiro, teve, posteriormente, que retornar a Rio Branco, a fim de prestar o serviço militar e, em lá permanecendo, foi presenteado pelo destino  como intermediador de uma das mais emocionantes histórias de reencontro de pais e filhos, envolvendo  justamente essa criatura maravilhosa: Evaldo Gouveia.

Frequentador casual da fazendinha Boa Água, “point” de entretenimento bastante procurado nos idos das décadas 1960/1970, situado  nas cercanias de Rio Branco,  que oferecia aos mais íntimos, como atrativo, banhos de açude, regado a cerveja gelada, e, como  tira-gosto, o peixinho Cará frito, Sálvio, ali estando, numa certa tarde de domingo, vira  aproximar-se o  proprietário e seu conhecido,  Augusto Gouveia, trazendo um exemplar da revista Manchete  e  acomodar-se, em um banquinho, junto ao grupo.  Com uma  expressão contida e sisuda, o velho sertanejo folheava a revista até deter-se numa foto de página inteira, ilustrando a reportagem ao lado. Tratava-se de Evaldo Gouveia, que passara a ser admirado pelas canções que começavam a guindar ao sucesso seus respectivos intérpretes, como  Altemar Dutra, Agnaldo Timóteo, Ângela Maria e muitos outros.

Quase parodiando o Pai Eterno, disse:

– Este é o meu filho!

O ambiente emudecera. Todos, em silêncio, porém, em conexão mental, passaram a observar minuciosamente, analisar cuidadosamente, e sentiram ser revelados os mínimos detalhes coincidentes nos traços do pai e do filho, mas sobretudo, as expressões refletidas no olhar de um e de outro. Não fizera-se necessário buscar mais o que provar. Como diria Machado de Assis: “quem quer que os vissem, os aceitariam por verdade, tal a expressividade e a verossimilhança dos pormenores”.

Quando Sálvio Montenegro, em viagem ao Rio de Janeiro, tivera oportunidade  de reencontrar Evaldo , tratara de colocá-lo a par do acontecimento, o que causara-lhe  um tremendo choque emocional, já que o artista considerava seu pai como falecido, em face  de jamais ter recebido  notícias de sua existência. Refeito do sobressalto e demonstrando uma reação de  dor e ódio profundo, cujos  motivos guardara em seu coração por toda sua trajetória de vida, ensaiou um desabafo, lamentando o fato de seu pai ainda  existir e referindo-se ao perverso abandono a que foram submetidos  sua mãe, ele, com três anos de idade  e seus dois irmãozinhos, mais novinhos. Sentira tanto a dor da crueldade,  que jamais pensara em perdoá-lo.

Atos e fatos relatados, no curso da conversa, Sálvio quisera saber se Evaldo aceitaria ir a Rio Branco, reencontrar seu pai. A primeira reação foi negativa, curta e grossa. Só em pensar vê-lo, dizia sentir repugnância.  Porém, com um pouco de insistência e ânimos serenados,  propusera-se a ideia de uma turnê ao Acre, com o “Trio Nagô”, o que a princípio,  fora aceito apenas  estudar-se  o assunto e que à partir daí os contatos seriam mantidos. 

Com o retorno do Sálvio Montenegro ao Acre, e mediante a colaboração dos amigos Hermano Diógenes (Manoca), Rufino Farias Vieira e  Dr. Ari Rodrigues, decidira-se  levar a efeito tal  propósito, acontecendo então, em determinado sábado, a apresentação do “Trio Nagô”, em ritmo de baile, no clube Rio Branco. 

No dia seguinte, um domingo, realizara-se o esperado reencontro de pai e filho, depois de mais de trinta anos separados, na Fazenda Boa Água, assistido por um pequeno número de convidados especiais que, em caravana, acompanharam o artista até a consumação daqueles fatos.

No trajeto para a  Fazenda Boa Água,  Evaldo Gouveia,  desculpara-se, antecipadamente, por possível  reação violenta, que infelizmente viesse a ocorrer. Ao chegar ao ponto do reencontro, notara-se  que o ambiente fora devidamente preparado a fim de que  os dois ficassem frente a frente,   para definir e tomar  suas respectivas posições.

No pequeno, humilde, porém agradável  bar, à beira de um lago, com  varandas ao redor, tendo ao fundo o balcão, aí postara-se  o velho Augusto Gouveia, portando um chapéu  de coro batido na testa e uma viola escorada ao lado.  Com a entrada do Evaldo,  um silêncio profundo tomara  conta do ambiente, quando os dois  encararam-se  por mais de um minuto, fixando-se olhos nos olhos.

No decorrer dessa cena, carregada de expectativa, angústia, apreensão, ódio e amor, à beira de  uma explosão de violência, o que se vira foram  lágrimas rolarem em ambas as faces,  e pai e filho apressarem os passos, um de encontro ao outro, abraçarem-se e chorarem copiosamente. Afinal, um era a cara do outro!

Triunfara nesse instante,  o sentimento maior do  amor paternal e filial e da certeza da felicidade de uma antiga criança triste, que após muitos e muitos anos,  como num sonho maravilhoso, abrira seus olhos, deparando-se com o seu ídolo e Pai Herói. Um verdadeiro despertar de um novo dia, para aqueles bem abençoados.

Os amigos expectadores, naquele momento de emoção ímpar, onde ouvia-se até o bater de asas das moscas, todos com os olhos marejados de lágrimas, não pouparam aplausos selando um encontro, dos mais emocionantes, acontecido em solo acreano.

Como era de se esperar,  Augusto e  Evaldo, pai e filho, a partir daí,  jamais se perderam de vista e de quando em vez, com o velho pai vivo, quer em Rio Branco, quer no Rio de Janeiro, quer em Fortaleza, estavam sempre juntos,  tentando recuperar o tempo perdido, que o destino caprichosamente os separara, apenas por alguns anos.

Evaldo, o filho, que gerara de suas entranhas cerebrais, criaturas musicais, visionara por certo, naquele instante, os Alguém Me Disse, Bloco da Solidão, Que Queres Tu de Mim, Sentimental Demais, Brigas, Somos Iguais...  e, visivelmente extasiado, dera mais um passo para, afinal, abraçarem-se, ao som de risos e banhados de lágrimas.

Assim, o Acre restara-se maravilhado em ter sido o palco daquele reencontro original, que tornar-se-ia indelével, na memória romântica dos mais autênticos menestréis acreanos.


> O texto integra a série História que o Acre Escreveu, que o escritor acreano José Augusto assina nesta página.
> Leia aqui outros textos de José Augusto de Castro e Costa.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Série História que o Acre Escreveu

TAL PAI, TAL FILHA
José Augusto de Castro e Costa


parecença entre pais e filhos é, em verdade, bastante comum, assim como é de impressionar a dessemelhança saltitante aos olhos, entre algumas dessas pessoas.

Conhece-se pais e filhos que não têm nada a ver uns com os outros, seja nos traços físicos, seja no porte, seja na tonalidade da voz, enquanto somos sabedores de outros relacionamentos que, independente do gênero, são incrivelmente parecidos.

No Acre, tenente Gesner e Rosa Maria exemplificam bem as leis da transmissão dos caracteres hereditários dos indivíduos.

Se existe graus de precocidade, a Rosa Maria, desde tenra idade, já se destacava como prematura de elevadíssimo nível.

De personalidade bem realçada, Rosa Maria era uma criança vivaz, desembaraçada e de respostas prontas para quaisquer eventualidades.

Estando ela presente, não era raro o enrubescimento de pessoas ao vê-la apontar o dedo médio, com o indicador e o anular recolhidos a alguém que ela julgasse tê-la diminuído, ou subestimado-a, ou dela caçoado: o popular “cotoco”.

Entretanto, irradiava uma simpatia contagiante, o que a mantinha sempre rodeada de amiguinhas, apesar de arteira.

Na vizinhança sempre era vista entre os coleguinhas e, de vez em quando era posta em prática alguma peraltice.

Fora assim que, juntamente com DAN-DAN, amiguinho vizinho, arquitetara  pregar uma peça a uma das figuras mais sérias, mais impolutas e mais respeitáveis de todo o Acre: nada mais nada menos que o Diretor do Instituto de Geografia e Estatística.

Residente próximo, no trajeto do seu Meira estava, necessariamente, a casa da Rosa Maria, na principal esquina do então conhecido Conjunto do IPASE, guarnecida por uma compacta cerca de fícus, arbusto de mais ou menos 80 cm de altura.

Sabedora da rotina do conceituado cidadão e  de que seu retorno se daria ao final da tarde, na chamada “boca da noite”, Rosa Maria servira-se de um grosso cinto preto de seu pai, amarrara um cordão escuro nas extremidades e passara às mãos do DAN-DAN, que ficaria no outro lado da rua, aguardando suas ordens.

No momento esperado, logo após uma rápida pancada de chuva, eis que surgira o elegante e esbelto seu Meira, dentro do habitual e impecável terno branco, com o guarda chuva posto ao braço, caminhando cabisbaixo, certamente meditando no transcorrido cotidiano.

Quando Rosa Maria percebeu a exatidão do momento, sinalizara ao DAN-DAN e começara a puxar o cinto que o colega iria desprendendo compassadamente. Ao notar a aproximação do que supusera tratar-se de uma pequena cobra, seu Meira passara a tentar espetá-la insistentemente com o guarda chuva. Prosseguindo na tentativa, sem atentar ao obstáculo, seu Meira  projetara-se desastradamente sobre a cerca de fícus molhada e, por consequência, sobre a Rosa Maria que ali encontrara-se escondida.

Indignado, o intranquilo senhor esbravejara:

– É você, desgramada !!!  Tinha que ser você, filha da mãe, peste desalmada!

E adentrou a residência da garota, super nervoso:

– Rosita! Olha o que a desgraçada da tua filha me fez !!!

O tal episódio teria sido apenas um a mais na existência daquela menina espirituosa, admiravelmente inteligente.

Rosa Maria cresceu, estudou, e tornou-se brilhante advogada, aposentando-se como bem sucedida defensora pública, sempre cercada da estima de quem com ela, até hoje, se relaciona.

Rosa Maria tem a quem puxar!


Seu pai fora uma figura marcante, em vários sentidos. Na juventude, ao servir, engajado, no 27° Batalhão de Caçadores do Exército, em Manaus, já despertava as atenções por sua tenacidade, conduta destemida, intrépida, arrojada e despachada, não obstante sua estatura mediana. Seus caracteres espartanos talvez tenham justificado sua convocação para incorporar o grupo de heróis da Força Expedicionária Brasileira, durante a Segunda Guerra, tendo inclusive participado, empunhando arma, da tomada de Monte Castelo, na Itália, nos últimos meses do conflito mundial.

No acampamento militar, reunidos em uma mesa, aguardando ordens para partir para as trincheiras, surgira,  repente, um caça solitário, do eixo (RO-BER-TO) e lançara uma pequena bomba de uns 20 kl, num projétil de 45 cm, mais ou menos, que, perfurando o teto do alojamento, fora cravar-se no pé esquerdo de um cabo sentado à frente do sargento Gesner, ficando aquele militar com o coturno pregado à tábua do assoalho, havendo daí, necessidade de serrar o pedaço da madeira, que fora extraído mediante emergente cirurgia.

Em imediata ordem unida, o coronel, comandante do grupamento, tentara levantar o moral da tropa, com palavras negativas, justamente defronte ao Gesner, e praticamente, face a face, bradava:

– Inaptos! Estúpidos! Beócios!

Respondera o Gesner, bem baixinho, para o coronel:

– Quem sou eu,  coronel!  É sua mãe!

– Sargento!! Um passo a frente! Cinquenta apoios, sargento!

Ao regressar ao Brasil, em meados de 1945, o então sargento Gesner, depois de receber justas honrarias, fora reformado, no posto de Tenente da Artilharia do Exército.

A título de passeio, viajara  para o Acre, onde, a convite do governador José Guiomard dos Santos, que, anos após, viera a ser seu padrinho de casamento, e posteriormente apadrinhado o batismo  de Rosa Maria, o jovem tenente viera a fixar residência e ingressar no Corpo de Oficialato da Guarda Territorial.

Pessoa de fácil relacionamento, de pronta disponibilidade incondicional e de relativo conhecimento, prático e teórico sobre assuntos civis e militares, tenente Gesner tornara-se, no Acre, uma figura bastante requisitada.

Quando, a 23 de junho de 1959, exercendo, por decreto governamental, o cargo de prefeito municipal de Sena Madureira, Gesner viera a protagonizar o exemplo de memorável eficiência administrativa e de  elevada benevolência de socorro, auxílio e proteção às vítimas de uma tragédia.

Naquela data fatídica, em Sena Madureira, ocorrera um pavoroso incêndio, que devorara, literalmente, cerca de vinte casas comerciais e duas residenciais, vindo a tomar dois quarteirões, em formato de “L”, compreendendo as ruas Padre  Egídio e Siqueira Campos.

Os prejuízos foram, naturalmente, astronômicos, o que levara os vitimados ao limite do desespero, como ocorrera com o senhor Tufic Assef, que, sentado a um banquinho, resistia em retirar-se do interior de sua loja, que estava sendo vorazmente consumida pelo fogo.

Fora a presença de espírito, a impetuosidade e a providência enérgica de Gesner que  desprendera aquele sofrido senhor, com assento e tudo para o exterior de sua propriedade, prometendo-lhe  que seu estabelecimento seria o primeiro a ser reedificado. E continuara, incansavelmente, Gesner a comandar voluntários e  a prestar amparo  e socorro, no combate ao pavoroso desastre, de ignorada origem.

Com relação a esse episódio, Gesner cativou admiração, não apenas por  envidar rodos os esforços para debelar as labaredas que devastaram as casas, mas pelo seu empenho em comandar e participar, literalmente, da reconstrução de todos os imóveis que foram demolidos naquele incêndio, começando pela loja de seu Tufic Assef, conforme prometido por aquele jovem administrador de 39 anos de idade, que dedicou grande parte de sua vida ao Acre.

Essa história ficou indelével na memória do povo de Sena Madureira e de quantos dela tomaram conhecimento, vindo a reforçar a tese de que, por estranho que pareça, é fato real que a vida no Acre absorve e empolga o espírito dos fortes, que ali demoram, apagando-lhes as saudades da terra distante e dando-lhes ânimo de permanência e fixação.


* José Augusto de Castro e Costa é autor de Brasileiro Por Opção (CEUMA, 2013). É acreano de Rio Branco, e reside em Brasília.

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