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segunda-feira, 26 de março de 2018

O PENSAMENTO

Florentina Esteves (1931-2018)


Parecia até que lhe fervia a cabeça. Dia e noite era aquele pensamento, principalmente quando olhava a barriga da mulher. Mais um filho, e não dava conta nem dos outros. Que fazer, se a mulher era filhenta e só vivia barriguda? Culpa dela. Dele é que não era. Por que que quando ficou aquele ano com das Dores (que Deus a tenha), ela não emprenhou nem uma vez? Aí está. Era culpa de Juraci ou não era?

Não dava conta da filharada e não aguentava mais aquela ladainha de “estou com fome”. Pois não tinha farinha à vontade? Fizessem pirão. E, com paciência, sempre se pescava uma trairazinha, pra dar um gostinho no pirão. E depois, sempre tinha castanha. Comessem castanha.

Tanto filho! Não parava de pensar, dia e noite. Teve até uma noite... uma não, várias noites que sonhou. Foi aquele sonho horrível. E não é que ele, de verdade, tivesse coragem. Imagine um pai esmagar um filho! Pois no sonho ele era capaz disso. As tripas das crianças em suas mãos. Era horrível. Mas que se essa criança a nascer não vingasse ia ser bom, ia.

Era tão insistente o pensamento que teve um dia que ele olhou Jacilene e João, os dois menores, e pensou o pensamento. Diabo, assim também não! Espantou a visão. Nascer morta, morrer assim que nascer, é uma coisa. Morrer depois de grandinho, dá pena. Especialmente Jacilene, tão risonha. Ele chegava, ela estendia os bracinhos e falava lá na sua língua “papai”.

Bem, se Juraci levasse uma queda, um susto grande, até uma raiva, será que ela não abortava? Ele já tinha ouvido falar de muito caso assim. Aí, não teria sido culpa dele nem de ninguém. Assim como não seria culpa dele se Juraci parisse enquanto ele ia à cidade. Ele não estando perto pra ajudar ( conforme ajudou em todos os outros partos), se alguma coisa desse errado, culpa sua é que não era. E, depois, tinha Jacira pra ajudar, já estava grandinha, na hora de aprender essas coisas da vida. Moça donzela não deve? Pois sim. Logo mais ela é que estaria na vez de parir.

O certo é que tinha de ir à cidade. Não dava mais pra ver Joel estirado na rede, morre não morre, sem força até pra falar. Se o filho lhe morresse, quem ia ajudar ele nos trabalhos mais pesados? É. Não dava mais pra esperar. Combinou com Juraci: era pro dia seguinte.

Voltaria logo. Logo!... A pé, varando a lama do ramal, até alcançar a BR, ainda a esperar carona ou ônibus, bote dois dias só pra ir. Mais um dia em Rio Branco, pra conseguir consulta, três. E dois de volta, cinco. Será que ainda ia encontrar Juraci barriguda? Ou quem sabe, nesses dias de sua ausência ela ia resolver parir? Não era de duvidar, lua cheia, e já estava no tempo. É, pelas suas contas, haverá de ser nessa lua.

Seis filhos. Juvenal parou pra contar. Seis? Ou eram sete? Foi nomeando um a um, começando dos maiores para os menores: Jacira, Joel, Jerônimo, Janara, José, João e Jacilene. Sete. Eram sete. Com o que ia nascer, oito. Oito. Que nome lhe daria? Parecia esgotada a relação dos jotas quando lembrou: Jaci. Servia tanto para homem como pra mulher.

Tomou como agouro ter errado a conta do número dos filhos. Será que Joel ia morrer? Logo ele, o mais velho dos homens, que ajudava tanto! Mas que o menino estava mal, estava. Aquele febrão, barriga inchada, vômito escuro e fedorento, boa coisa não era. Sezão, sabia que não podia ser. Estava acostumado com a malária, conhecia de longe, conviveu com ela muitos anos. E só conseguiu curar, abaixo de Deus, porque doutor Mário era um grande médico. Com os remédios que lhe passou, foi poucos dias, e a febre foi embora.

Procuraria doutor Mário. Pedia a Deus que ele continuasse atendendo no Posto Médico. Mas nunca se sabe, pensou. Pelo que lhe contaram, doutor Mário tinha se candidatado a deputado. Se ganhou, foi pra Brasília.

Chegou cansado a Rio Branco, muito cansado. Dormir na mata, comido de carapanã, o medo de cobra, onça, não dava. Mesmo trepando a rede bem alta, quem que dormia sossegado? Depois foi aquela espera sem fim na beira da rodagem, sol quente, tinindo, e nada de ônibus. Carona, cansou de pedir, não davam. O único caminhão que parou, o motorista queria cobrar mais que o preço da passagem de ônibus. Até pagaria mais, se pudesse. Mas o dinheiro era conta certa. E ainda tinha que reservar um pouco para comer alguma coisa no Mercado dos Colonos. Só de lembrar da gororoba de dona Enedina, mesmo ruim, só de lembrar, a fome aumentava. Naqueles dois dias de caminhada, limitou-se a comer a farofa de jabá que Juraci lhe preparou, coco de Ouricuri que foi encontrando pelo caminho, tucumã e castanha. Castanha, sim, tapeava bem a fome. Aliás, doutor Mário sempre lhe dizia: como castanha, Juvenal, coma muita castanha e dê para seus filhos. Castanha tem muita proteína. Proteína... decorou o nome esquisito.

Fome, cansaço, sono. Pior que a noite passada na mata, foi dormir no banco da praça. Carro passando sem parar, barulho que ele não estava acostumado. Depois veio o guarda duas vezes expulsar ele do banco. “Seu guarda, não posso pagar onde dormir, moro na colônia, longe, vim consultar meu filho, deixe eu ficar aqui, que não estou ofendendo ninguém. Não sou ladrão nem vagabundo.” Depois o guarda deixou.

Antes que amanhecesse, iria para a fila do Posto Médico. Certamente seria o primeiro. Consultaria Joel e voltaria logo. Que não conseguia parar de pensar em Juraci. E aquele pensamento... Não queria que Joel morresse, não queria mesmo. Joel acompanhava ele em tudo: no roçado, na horta, na farinhada, e na extração da copaíba que, no tempo, vendia por bom dinheiro. Enfim, Joel não podia morrer, faria muita falta. Mas o neném que ia nascer, Deus... Cortou o pensamento. Deus podia castigar matando o Joel. Começou a assobiar, pra não pensar. Até se distraiu com o assobio. Reconheceu uma valsa antiga que sua mãe cantava, lembrou da velha, do velho pai, do último olhar que lhes deu na beira da estrada, o ônibus buzinando e os velhos ficando cada vez menores, mais pequenos, acenando, e o ônibus buzinando e se afastando e ele indo embora. Parecia tanto tempo!

Tanto tempo parecia que ele havia saído de casa, atrás de promessas de ganhar dinheiro fácil no Acre, e aí estava ele, faminto, cansado, à espera de uma receita pro filho, a fim de voltar pra sua colônia. Juraci o aguardava.

Esperou o médico até onze horas da manhã. Cansado, sonado, faminto. Nem um cafezinho havia tomado, pra não perder seu lugar na fila. O primeiro. Também, quase não dormiu, e se plantou em frente do Posto Médico ainda muito longe de amanhecer.

Não era doutor Mário Maia. Mas o médico que o atendeu fez muitas perguntas, bonzinho, ofereceu-lhe cafezinho, e ainda deu o remédio da receita. Nem precisava comprar. Ainda bem. Saiu satisfeito.

Conseguiu pegar logo o ônibus. Desceu no seu ramal, começou a caminhada...

Não foi mais fácil a volta. Nem a farofa de jabá tinha mais. Comprou uns pães (que era barato) e comia, quando a fome apertava. À noite não conseguiu dormir: caiu uma chuva forte, toró mesmo, e nem as palhas de paxiúba com que improvisou um abrigo, o protegeram da chuva. Amanheceu todo molhado, corpo doído, imaginando que ainda teria o dia inteiro de caminhada pela frente, e só à noite noitinha chegaria em casa.

Vinha pensando o tempo todo. Pensando. Se o governo mandasse arrumar o ramal de sua colônia, a vida ficaria mais fácil. Ele podia plantar e colher o ano todo, que tinha caminhão pra levar a produção e vender no mercado. Mas do jeito que era a estrada, qualquer chuvinha arruinava. No inverno ficava ilhado. E a produção se perdia. As frutas apodreciam, nada se aproveitava. Comiam melhor, é verdade. Comiam o que não podiam vender, mas não tinham dinheiro pra comprar remédio, um corte de chita, um litro de querosene, sabão, açúcar, nada. Um despautério, também, a mulher parindo todo ano.

Sete filhos e mais um chegado. Talvez, até, já tivesse chegado. Tinha quase certeza. Com aquela lua no céu, lua cheia, Juraci já teria parido. E lá voltava o pensamento. Durante a viagem, inventou de pensar na estrada, em caçada, lembrou de tanta coisa, mas era como se o pensamento estivesse escondido na aba do chapéu, bem ali na sua frente, e não adiantava fingir que não estava vendo.

Deus havera de ajudar! Mal formulou o pensamento, teve um estremecimento, como se fosse um aviso. Joel... Não. Deus não havera de permitir que Joel morresse. Mas o neném, quem sabe? Deus é quem sabia. Deus sabia como a vida estava difícil, dar de comer a tantas bocas.

De longe, ainda um resto de dia dando pra avistar o barraco, assuntou: tudo quieto. Nenhum menino passarinhando ou brincando ali pelo terreiro. Ninguém no igarapé. Ia se aproximando da casa e o coração apertando. De repente sentiu um cheiro de vela. Joel? Juraci? No varal, panos estendidos, cueiros, o lençol novo que Juraci só usava nos partos. Então o neném nasceu... Pensou o pensamento, levou as mãos à cabeça como se assim pudesse espantar as ideias. Começou a assobiar.

Ouvindo o assobio, Juraci veio até a porta de casa. Sem barriga. Juvenal chegava a ouvir o bater do coração na boca. Não teve coragem de perguntar. Lá de dentro vinha o cheiro de vela.

Continuou a caminhar em direção ao barraco. Naquela direção não enxergaria o canto em que ficava a rede de Joel. Desviou-se, espichou-se, olhou: ele estava lá. Balançando a rede.


ESTEVES, Florentina. Direito e avesso. Rio de Janeiro: Oficina do Livro, 1998. p.11-14

segunda-feira, 5 de junho de 2017

BARCAROLA AO RIO ACRE

Florentina Esteves

Rio que passa assim tão manso e lento,
Correndo águas fundas e barrentas,
A que destino vais com qualquer vento,
Que porto buscas ou que mar intentas?

Teu caminhar afora flui constante,
Cumprindo a lei de ir, não importa, indo.
Depões os teus balseiros na vazante,
Se cheio és arrastão, caminho abrindo

Vais destruindo pontes e barranco,
Em igapós e igarapés tornando
De areias, nem sequer restando um banco,
Cego voraz, a tudo vais levando.

Mas se a estiagem chega de repente
E de repente escoa teus delírios,
Eis-te a passar humilde, novamente:
Esperas repiquete e outros rios.

Rio que hoje assim faz a corredeira
Em direção veloz à ribanceira,
Navego em teus balseiros, passageira.

Revista OUTRAS PALAVRAS, Ano II, N.12, julho de 2001, p.27



quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

BECO-DO-MIJO

Florentina Esteves

Danilo de S'Acre

Minha filha:
Hoje é teu aniversário. Embora esta carta só te chegue às mãos daqui a uma semana, faço de conta que aprisionei o tempo neste papel, feito passarinho na gaiola, e te envio minhas bênçãos e um beijo, desejando que este dia seja de felicidade, ao lado de teu marido e de teus filhos. Também quero aproveitar para te contar as novidades.
Minha filha, esta guerra está trazendo muita miséria à nossa cidade. Cada embarcação que chega despeja nos barrancos centenas de nordestinos, convocados como “Soldados da Borracha”. Os pobres “arigós”, enquanto esperam a baldeação – alguma lancha ou batelão que os leve para os seringais –, ficam embaixo das mangueiras, e matam a fome comendo mangas. A rua da frente é uma fedentina só: todos com diarreia. As autoridades conseguiram, provisoriamente, alojá-los na antiga Fábrica de Castanha, no Quinze. Estão lá amontoados feito bichos, famintos, doentes, esmolando. Mas cada chatinha ou gaiola que chega, são mais “arigós”, mulheres, crianças, e agora o prefeito botou algumas famílias na casa da Hemita, aqui no Beco.
Não sei se te contei, na outra carta, que Hemita morreu. Foi muito triste, minha filha. Ela pegou aquela doença, não cuidou, e a sífilis tomou seu corpo inteiro. Por causa disso, os homens andam arredios, e o jornal vive falando que as mulheres do Beco-do-Mijo estão todas infectadas, que a Saúde Pública não toma providências, que somos um cancro social plantado em plena zona comercial, um vexame para as famílias. E com essa desculpa, mais a chegada dos “arigós”, exigem que nos mudemos. Para onde? Na última alagação o rio arrasou tudo que foi casa do “Papoco”. No “Porta Larga” é longe e perigoso, e nem tem mais lugar.
Doutor Chico Chagas, faz vinte anos, vinha me prometendo comprar uma casinha pra mim. Você lembra que ele sempre foi muito bom: tratou você como filha, lhe deu estudo, o enxoval de seu casamento, a promoção de Eurico, e nunca me faltou nada, nem mesmo quando aquela tal professora Zuzu espalhou na cidade inteira que ele ia casar com ela. Casava nada! Aquele era enrabichado por mim. Quem é que ia querer um homem doente? Só eu mesma pra cuidar das mazelas dele, ele sabia. Lembra que ele só me chamava de sua Ana Néri? E, na intimidade, eu era a deusa de seus sonhos, Heddy Lamar, o Anjo Azul, Giselle. Li o livro da tal Giselle. Depois que você casou e foi embora, pra não pensar na vida, ficava lendo. Gosto de ler. Doutor Chico Chagas trazia um livro todo sábado. Na segunda ou na terça-feira, eu ia buscar outro no quarto dele, no Madrid. Escondido, é claro. Um homem de importância dele, que já foi Diretor da Instrução e falam até que será governador, não podia aparecer com uma mulher-da-vida. Não importando que eu não fizesse mais a vida. Depois que você nasceu e ele tomou conta de nós, nunca mais recebi outro homem, mas onde foi casa é tapera, diz o povo, que não perdoa. Acho que por isso ele não casou comigo e nunca moramos juntos. Mas sempre prometeu comprar-me uma casinha. Aqui perto, mais fácil de ele chegar, e voltar pro seu quarto. Mês passado, veio o delegado de polícia e deu prazo de noventa dias para que todas as casas do Beco-do-Mijo sejam desocupadas. É pra abrigar os “arigós” (desculpa deles). Fomos logo ao Fórum falar com doutor Chico Chagas. Como advogado quem melhor que ele pra orientar e defender a gente? Pois ele me tratou mal, igual tratou as outras mulheres, e disse que isso era caso de polícia, e não de justiça. De noite mesmo veio aqui em casa, até levei um susto porque não era sábado, e fazia muito tempo que ele não vinha. E veio zangado. O que ele me disse, filha, não repito, é muita humilhação para uma mulher que viveu vinte cinco anos de sua vida para um único homem, sem jamais ter exigido nada. Ele dava só o que queria, eu recebia, obrigada. Depois saía escondido igual tinha chegado. Não fui pedir nem que me desse uma casa, bastava dar um jeito de a gente continuar onde estava. E ele saiu com quatro pedras na mão. De noite, então, só não me bateu porque eu estava com dor de dentes, o rosto inchado por acolá. Assim mesmo procurei me desculpar, agradá-lo, e sabe o que ele me disse? (tenho vergonha de contar...) Disse que não me devia nada, que eu olhasse minha cara no espelho, velha azul desbotada, barriguda, pelancuda. Cabelos de Heddy Lamar? Só se cabelo de milho seco tinha mudado de nome. Que mocinha nova no “Porta Larga”, monte de “arigozinhas” bonitas faziam qualquer coisa por uma cerveja ou um quilo de farinha com rapadura, e ele era muito homem pra dar conta do recado, não precisava ficar com uma velha mazelenta que nem eu.
Faz dois meses que ele não aparece. Diz-que está amigado com uma “arigozinha” de quatorze anos, e até botou casa pra ela na “Seis de Agosto”. No outro dia fui ao Madrid, ela estava lá tomando cerveja com ele. Escancarado. Comigo era só escondido. Nesse dia não conseguir falar. No outro dia voltei lá, pedi pelo amor de Deus que ele me ajudasse, e fui enxotada feito cachorro leproso.
Estava passando fome, não tinha pra quem apelar, resolvi voltar à “vida”. Três noites seguidas fiz ponto no Papoco, e o dinheiro que recebi de um seringueiro bêbado mal deu pra comprar um quilo de carne. Fui pro “Porta Larga”, e as meninas me chamaram de vovó. Os homens riam, um me pegou pagou uma cerveja e perguntou se eu não sabia fazer croché. Ontem um rapazinho queria porque queria que eu fosse com ele, e toda hora dizia que eu era igualzinha a sua mãe. Deu-me todo o dinheiro que tinha, que eu guardei pra depois lhe devolver (tem muito ladrão no “Porta Larga”). Pois a polícia queria me prender, porque o rapaz era “menor”, aquele dinheiro era do cunhado, passei a noite na delegacia.
Minha filha, o prazo para desocupar a casa termina na outra semana. Não tenho pra onde ir, e não quero continuar nessa vida. Não é que eu esteja velha, não, muito rapaz bonito me olha. Pintei o cabelo, e com a saia franzida que eu mesma fiz, até estou com corpo bonito. Doutor Galvão está tratando dos meus dentes, de graça, ele é um homem muito bom e caridoso. O que incomoda, mesmo, são as varizes. Também não estou enxergando direito. Mas dá pra fazer uma costurazinha pra meus netos, e ajudar você na casa. Estou com muitas saudades de você. Sei que Eurico, seu marido, não gosta muito de mim, mas não pretendo viver às suas custas. Posso costurar e ajudar nas despesas, dar uma orientação nos estudos das crianças, só preciso de um cantinho quieto, pra quando a velhice chegar.
A lancha que está levando esta carta volta em seguida. Espero sua resposta. Ou você pode me passar um telegrama, assim eu aproveito uma passagem que Domingos Jordão me ofereceu, na “Lontra”.
Beijos de sua mãe.
 
Beco do Mijo no centro de Rio Branco, ano de 2016.
Mãe:
Recebi sua carta. Estou escrevendo às pressas, escondido de Eurico. Ele não permitiu sua vinda. Disse que doutor Chico Chagas prometeu indicá-lo para Comandante do Destacamento da Vila, e não fica bem a um militar graduado, um sargento, hospedar puta do Beco-do-Mijo. Não quer dar o que falar ao povo, reavivar antigas histórias. Até hoje acha que a senhora sempre soube de tudo, e só fingia ignorar, porque era enrabichada pelo doutor Chico Chagas, e também porque não queria que os falatórios prejudicassem a sua carreira.
Melhor assim, mãe. As crianças já estão na escola, as pessoas falam, já teve quem dissesse que Eugeninho é a cara do doutor Chico Chagas, e precisamos esquecer tudo isso.
Espero que este dinheiro que lhe mando ajude a pagar o aluguel. Não é muito, mas foi tudo que consegui da venda daquele anelzinho de ouro que doutor Chico Chagas me deu, quando fiz quatorze anos.
Beijos de sua filha 
Ana


ESTEVES, Florentina. Enredos da memória. Rio Branco: Fundação Elias Mansour, 2002. p.36-40