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terça-feira, 22 de agosto de 2017

aquiri

Glória Perez 


esse filete moroso
se esticando em suas beiras
vai num cansaço tamanho
como não fora por si
que corresse a vida inteira,
como se alguém o tangesse
desde a sua cabeceira

- é como risco de lápis
um arabesco pequeno
brincando de geografia

Sua textura é igual
a desse corpo que anima
é sangue ralo do chão
desses cantos ribeirinhos

É veia da terra magra
atravessando-lhe o corpo,
imprimida à carne pouca
dessa exposta ossatura
como lanho de chicote

Sua espessura – a do barro
lamacento, fluido,
enxertando a ribanceira

Um novelo quebradiço
desenrolando seu fio
num fôlego, de tão curto,
mais parecendo agonia

Um rebanho de boi manso
desmatando seu caminho,
cavalgando o dorso morno
da planície ressecada,
deitando suas águas frouxas
sobre a febre dessas matas

um riozinho de nada
vai assim mesmo, tangido
dar de beber a outras águas

Quando é de junho a setembro
a chuva engorda esse rio

Vai crescendo sem sossego
- é como fio de faca
Riscando terras mais longe
Das que lhe fazem de margem

Vai como fio de faca
afiado em pedra rente,
cortando de sua beira
a plantação espalhada

Como um espelho de terra
na própria terra espelhado,
como se fora essa gente
um dia toda juntada
num ato de rebeldia

Arrancando dessa vida
o que se tem por direito
Na sua febre tornada
também um fio de faca
reparando assimetrias


PEREZ, Glória. Sem pão nem circo. Rio de Janeiro: s/e, 1976.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Série A POESIA ACREANA > GLÓRIA PEREZ

A face poética de Glória Perez passa muitas vezes despercebida pelo fato do enorme prestígio que tem como novelista. Para situar e se compreender a poesia de Perez é necessário voltar à agitada e conturbada (e fértil) década de 1970. É, sobretudo, a partir dessa década que, em todo o país, irrompe um pipocar literário-social, com um enorme e heterogêneo contingente de poetas a investir, com seus versos-palavras-imagens, contra o sufoco da censura e repressão implantadas a partir de 1964 e também contra os valores morais e culturais da época. Surgia assim a poesia jovem 70, que deu um novo sentido ao fazer poético no Brasil, a semelhança do que proporcionou os modernistas com a semana de 22.

Nas palavras da professora Heloísa Buarque de Hollanda, mais que uma manifestação de denúncia e protesto, a poesia jovem foi uma explosão na literatura, jogando para o ar padrões poéticos, o que lhe valeu, inclusive, o nome de poesia marginal. A produção jovem alternativa – como a produção artesanal na literatura, os grupos de teatro independente e imprensa nanica – emerge com uma força surpreendente, procurando as brechas possíveis para uma intervenção crítica que trabalha novas formas de produção e de linguagem.

Do ponto de vista literário, os textos trabalham coloquial e ludicamente a linguagem, voltando-se para a realidade mais imediata do poeta: o cotidiano próximo, o gesto, o registro bruto do momento. A linguagem da ironia e do humor investe-se de forte sentido crítico. A poesia jovem procurou e tirou vantagem de uma dicção bem humorada, ardilosa, alegre e instantânea. Nela reivindicam-se o descompromisso, a gratuidade e a brincadeira como bandeiras da prática poética e como “bandeira” de uma postura crítica frente à ordem moral e institucional.

Constituíram o eixo dessa cultura marginal a politização das relações no interior do espaço cotidiano e a valorização das práticas artesanais e cooperativas ou coletivas, em resposta ao padrão técnico e “competente”, bem como o fechamento político. Os jovens poetas retomam a leitura pública da poesia, além da ênfase na experiência pessoal como espaço da crítica social. Ao recusar a poesia de “tese”, os poetas se voltam sobre o conteúdo de sua própria experiência existencial num momento especialmente difícil da história e da política brasileira.

É nesse contexto que se insere a poesia de Glória Perez. Ela estava ligada, principalmente, a poesia jovem produzida no Rio de Janeiro, que, em 1974, com o lançamento da “Coleção Frenesi” promoveu um verdadeiro reboliço na cultura literário-social, suscitando a urgência em se buscar novas formas e novos espaços para a poesia e a vida. Perez, por sua vez, irá integrar, em 1975, a pioneira antologia “Abertura poética, 1.ª Antologia dos Novos Poetas do Novo Rio de Janeiro”, editada por Walmir Ayala e César de Araújo. Em seguida, participa das antologias: “Mulheres da vida”, “Escrita”, ambas de 1978, mesmo ano em que publica o seu primeiro livro “Sem Pão nem Circo”; “Alguma poesia” (1979); “Maria Poesia” e “Poesia Jovem Anos 70”, ambas de 1982.

A participação literária de Glória Perez, no entanto, não se limita ao Rio. Irá integrar publicações alternativas em todo o Brasil, sobretudo nos estados de São Paulo, Paraíba, Minas Gerais e Pernambuco. Fará ainda publicações em jornais e suplementos literários por todo o país e até no exterior, além de participar de alguns movimentos culturais.

A temática da poesia de Glória Perez não foge da proposta da poesia jovem 70, focalizando, sobremaneira, na questão de gênero, assumindo o discurso feminino, e uma forte e sutil crítica a certos valores, morais e culturais, preestabelecidos e canonizados por determinados grupos sociais. Características estas que poderão ser observadas nas poesias a seguir, a ressaltar a beleza e o primor literário desta que há muito encanta o Brasil.

-

a palavra
é
arma
tantas vezes
a única
possível

-

meu filho
se te disserem que isto é assim
porque sempre foi, porque sempre será
pergunta se tudo no mundo
não pode mudar

pergunta se o tempo não guarda outro tempo
assim como a fruta já está na semente
repara que em tudo floresce um avesso
e o sonho pressente

pergunta de tudo o que vês e o que sentes
é teu esse mundo com tudo o que há
porque só de ti é que vai depender
mudar pra valer ou deixar como está

-

PEDAGOGIA MODERNA

mamãe leu piaget
por isso diz o porquê
de tudo o quanto me obriga
contestando a moda antiga
nem quer ser mãe – só amiga
e me dá toda a liberdade
de fazer sua vontade

-

PENALIDADE MÁXIMA

a gente cresce escutando
– mulher nasceu pra sofrer
até o que dá prazer
nela promete doer

tão natural da mulher
é o sofrimento que, lógico,
o que a vida não lhe der
lhe dará o biológico
– as regras de todo mês
a dor da primeira vez
as penas da gravidez
a violência do parto

e o cabedal é tão farto
que a conclusão não permite
atenuante sequer
– viver é purgar a culpa
de ter nascido mulher

-

SINTOMÁTICO

era visível:
a cada dia
você ficava
mais invisível

-

BONS TEMPOS AQUELES

tenho saudades de quando
nos amávamos
vinhas de outras mulheres
eu te negava a boca
vasculhava o bolso
e tu desconfiavas
daquele namorado antigo
que quase casou comigo
reclamavas da torta
maldizendo a sorte
e batias a porta

vez por outra – rosas
mobília reformada
juras de nunca mais
nenhum atrito
e nova lua-de-mel
depois do exame de corpo de delito

-

VERDES ANOS

minha tia escutava bolero
dias e dias só chorando
secava
maldizendo a sorte das mulheres

despudorado coração exposto,
assim que eu queria sofrer
quando ficasse grande

-

amor às vezes dá nisso:
alguns quilos a mais
esperanças a menos
e filhos – pra acreditar
que mesmo assim
valeu a pena

-

MERCADO DE ESCRAVAS

ser livre para escolher
a mão que bate
e a boca que me cospe

-

ADOLESCÊNCIA

eu lia de candeeiro
e fazia que estudava
passei tinta no cabelo
bebi vinagre escondido
beijei no canto da rua
pulei janela de quarto
escrevi o nome dele
com o facão da cozinha
na casca de uma mangueira

e toda segunda-feira
a mãe me aparava as asas

-

viver
vicia

-

PÃO E CIRCO

fizemos tudo:
viagens, outra filha
mudar de casa
renovar a mobília
mas o amor acabou
e equilibristas
mantemos nosso lar
com amantes e analistas

-

REVERSO

amor também envenena:
o mais das vezes não mata
mas deixa a alma pequena


PEREZ, Glória; MICCOLIS, Leila. Mercado de escravas. Rio de Janeiro: Achiamé/Trote, 1984.
PEREZ, Glória [et al.]. São Paulo: EDICON, 1990.
HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Poesia Jovem dos anos 70. São Paulo: Abril Educação, 1982.