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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O REBANHO

Hermann Hesse (1877-1962)


— A comunidade — continuou dizendo — é uma coisa muito bela. Mas o que vemos florescer agora não é a verdadeira comunidade. Essa surgirá, nova, do conhecimento mútuo dos indivíduos e transformará por algum tempo o mundo. O que hoje existe não é comunidade: é simplesmente o rebanho. Os homens se unem porque têm medo uns dos outros e cada um se refugia entre seus iguais: rebanho de patrões, rebanho de operários, rebanho de intelectuais... E por que têm medo? Só se tem medo quando não se está de acordo consigo mesmo. Têm medo porque jamais se atreveram a perseguir seus próprios impulsos interiores. Uma comunidade formada por indivíduos atemorizados com o desconhecido que levam dentro de si. Sentem que já periclitaram todas as leis em que baseiam suas vidas, que vivem conforme mandamentos antiquados e que nem sua religião nem sua moral são aquelas de que ora necessitamos. Durante cem anos a Europa não fez mais do que estudar e construir fábricas! Sabem perfeitamente quantos gramas de pólvora são necessários para se matar um homem; mas não sabem como se ora a Deus, não sabem sequer como se pode passar uma hora divertida. Observa qualquer uma dessas cervejarias estudantis. Ou qualquer dos lugares de diversão que a gente rica frequenta! Que espetáculo mais desolador... De tudo isso não pode redundar nada de bom, meu caro Sinclair. Esses homens que tão temerosamente se congregam estão cheios de medo e de maldade, nenhum se fia no outro. Mantêm-se fiéis a ideais que já não existem, e atacam, furiosos, os que tentam erigir outros novos. Sinto o início de graves conflitos que não podem tardar a surgir. Já não podem tardar, crê-me. Naturalmente, não irão “melhorar” o mundo. Quer os operários assassinem seus patrões ou quer a Rússia e a Alemanha disparem uma contra a outra, isso redundará apenas numa mudança de proprietários. Mas tampouco serão completamente inúteis. Revelarão a falência dos ideais de hoje e forçarão a derrocada de toda uma série de deuses da idade da pedra. Este mundo, tal como é hoje, quer morrer, quer aniquilar-se e aniquilar-se-á.


HESSE, Hermann. Demian. Tradução Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Record, 2000. p.157-158 (*Título nosso)

terça-feira, 6 de maio de 2014

DEMIAN (prólogo)

Hermann Hesse (1877-1962)


Para relatar a história de minha vida, devo recuar alguns anos. Se me fosse possível, deveria retroceder ainda mais, à primeira infância, ou mais ainda, aos primórdios de minha ascendência.

Os poetas, quando escrevem novelas, costumam proceder como se fossem Deus e pudessem abranger com o olhar toda a história de uma vida humana, compreendendo-a e expondo-a como se o próprio Deus a relatasse, sem nenhum véu, revelando a cada instante sua essência mais íntima. Não posso agir assim, e os próprios poetas não o conseguem. Minha história é, no entanto, para mim, mais importante do que a de qualquer outro autor, pois é a minha própria história, e a história de um homem — não a de um personagem inventado, possível ou inexistente em qualquer outra forma, mas a de um homem real, único e vivo. Hoje sabe-se cada vez menos o que isso significa, o que seja um homem realmente vivo, e se entregam à morte sob o fogo da metralha a milhares de homens, cada um dos quais constitui um ensaio único e precioso da Natureza. Se não passássemos de indivíduos isolados, se cada um de nós pudesse realmente ser varrido por uma bala de fuzil, não haveria sentido algum em relatar histórias. Mas cada homem não é apenas ele mesmo; é também um ponto único, singularíssimo, sempre importante e peculiar, no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais. Assim, a história de cada homem é essencial, eterna e divina, e cada homem, ao viver em alguma parte e cumprir os ditames da Natureza, é algo maravilhoso e digno de toda a atenção. Em cada um dos seres humanos o espírito adquiriu forma, em cada um deles a criatura padece, em cada qual é crucificado um Redentor.

Poucos são hoje os que sabem o que seja um homem. Muitos o sentem e, por senti-lo, morrem mais aliviados, como eu próprio, se conseguir terminar este relato.

Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim. Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e a sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos.

A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens, e continuam sendo rãs, esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura para baixo. Mas, cada um deles é um impulso em direção ao ser. Todos temos origens comuns: as mães; todos proviemos do mesmo abismo, mas cada um — resultado de uma tentativa ou de um impulso inicial — tende a seu próprio fim. Assim é que podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se.


HESSE, Hermann. Demian. Tradução Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Record, 2000. p.15-17
> Neste blog, leia aqui outros textos de Hermann Hesse.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

NO QUARTO ANO DE GUERRA

Hermann Hesse


Embora a tarde fria e triste esteja,
e a chuva rumoreje,
sem saber quem me escuta, o meu cantar
em tempo entoo ainda.

Embora o mundo se asfixie em guerra e medo,
nalgum lugar,
em segredo, sem que ninguém o veja,
o amor flameja ainda. 


HESSE, Hermann. Andares: antologia poética (trad. Geir Campos). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

SOZINHO

Hermann Hesse


Por sobre a terra se estendem
ruas e caminhos mil,
mas levam todos
ao mesmo fim.

De dois em dois, três em três,
indo a pé ou a cavalo,
o último passo – sozinho
hás de dá-lo.

Não há, portanto, saber
nem poder algum melhor
do que o difícil a gente
fazer só. 


HESSE, Hermann. Andares: antologia poética (trad. Geir Campos). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

TRANSFORMAÇÕES

Hermann Hesse 


Mal entrara no Paraíso, Piktor deparou com uma árvore que era a um tempo Homem e Mulher. Piktor saudou a árvore respeitosamente, e perguntou:

- Você é a Árvore da Vida?

Mas quando a Serpente lhe quis responder em lugar da árvore, ele se afastou e seguiu adiante. Olhava para tudo atentamente, tudo lhe agradava tanto! E sentia, nitidamente, que estava na Pátria e na Fonte da Vida.

E novamente viu uma árvore que era a um tempo Sol e Lua.

Piktor disse:

Você é a Árvore da Vida?

O Sol acenou com a cabeça e riu, a Lua com a cabeça e sorriu. As mais maravilhosas flores miravam-no, com luzes e cores variegadas, com diversos olhos e rostos. Algumas lhe acenavam e riam, outras lhe acenavam e sorriam, outras nada disso faziam: calavam-se, ébrias, submersas em si mesmas, como que afogadas no próprio perfume. Uma cantava a canção dos lilases, uma cantava a canção de ninar azul-marinho. Uma das flores tinha grandes olhos azuis, outra o fez lembrar seu primeiro amor. Uma tinha o aroma do jardim da sua infância, como a voz da mãe, soava o seu doce perfume. Outra riu para ele, e lhe estendeu uma comprida língua curvilínea e rubra. Ele a lambeu; tinha um sabor forte e silvestre de resina e mel, e também do beijo de uma mulher.

No meio de todas aquelas flores, estava Piktor, cheio de saudade e temerosa alegria. Como se fosse um sino, seu coração batia, batia muito; seu desejo ardia ansiando pelo desconhecido, pelo magicamente pressentido.

Piktor viu pousado um pássaro, viu-o na relva pousado, cintilando de cores, o belo pássaro parecia possuir todas as cores. E perguntou ao lindo pássaro colorido:

- Oh, pássaro!, onde está a felicidade?

- A felicidade? – disse o belo pássaro, rindo com seu bico dourado. – Oh, amigo, a felicidade está por toda a parte, na montanha e no vale, na flor e no cristal.

Com essas palavras, o alegre pássaro agitou sua plumagem, moveu o pescoço, balançou cauda, piscou os olhos, riu mais uma vez, ficou pousado imóvel, pousado quieto na relva e vejam: o pássaro, agora, se transformara em uma flor colorida, as plumagens eram folhas, as garras, raízes. No brilho da cor, no meio da dança, ele se fizera flor. Piktor o viu espantado.

Logo depois a flor-pássaro moveu suas folhas e estames, cansou-se outra vez de ser flor, já não tinha mais raízes, moveu-se com leveza, alçou-se lentamente no ar, e tornou-se uma borboleta luzente, que se movimentava flutuando, sem peso, toda luz, toda um rosto iluminado. Piktor arregalava os olhos. Mas a nova borboleta, a alegre e colorida borboleta-flor-pássaro, o claro rosto colorido, voou em círculos em torno do espantado Piktor, cintilou ao sol, baixou suavemente sobre a terra, como um floco de neve, pousou junto aos pés de Piktor, respirou docemente, tremeu um pouco as asas cintilantes, e logo se transformou em um cristal colorido, de cujas extremidades se irradiava uma luz vermelha. A gema rubra brilhava maravilhosamente na relva entre folhagens verdes, clara como sino de festa. Mas sua Pátria, o interior da Terra, parecia chamá-la; logo começou a diminuir ameaçando afundar. Então, dominado por um desejo incontrolável, Piktor estendeu a mão para a gema que desaparecia, e tomou-a para si. Contemplou encantado a sua luz mágica, que parecia iluminar seu coração com o pressentimento da absoluta felicidade.

De súbito, no galho de uma árvore morta, enroscou-se a Serpente e sibilou no ouvido de Piktor:

- A pedra te transformará no que quiseres. Diz-lhe depressa teu desejo, antes que seja tarde!

Piktor assustou-se e teve medo de perder esta oportunidade de alcançar sua felicidade. Disse rapidamente a palavra, e transformou-se em uma árvore. Pois muitas vezes desejara ser árvore, porque as árvores lhe pareciam plenas de paz, força e dignidade.

Piktor transformou-se em uma árvore. Suas raízes cresciam terra adentro, ele elevava-se às alturas, folhas e ramos emergiam de seus membros. E com isto ele ficou muito satisfeito. Suas fibras sedentas sugavam no fundo da terra fresca, e balouçava suas folhas alto no azul. Besouros moravam em sua casca, a seus pés moravam lebres e ouriços, e os pássaros habitavam seus ramos.

A Árvore Piktor estava feliz, e não contava os anos que passavam. Passaram-se muitos, muitos anos, antes de ele notar que sua felicidade não era perfeita. Só lentamente aprendeu a ver com olhos-de-árvore. Por fim, conseguiu ver, e ficou triste.

Viu que ao redor dele, no Paraíso, a maioria das criaturas se transformava frequentemente, sim, tudo fluia em uma torrente mágica de eterna metamorfose. Viu flores se transformarem em pedras preciosas, ou saírem voando como pássaros cintilantes. Viu a seu lado muita árvore sumir de repente: uma derreteu-se e tornou-se fonte, outra se tornara um crocodilo, outra, agora peixe, nadava, indo embora, alegre e fresca, cheia de gozo, com vivacidade, executando novos jogos em novas formas. Elefantes trocavam de roupa com rochedos, girafas assumiam a forma de flores.

Mas ele, a Árvore Piktor, era sempre a mesma, não podia mais se transformar. Desde que reconheceu isso, sua felicidade desvaneceu-se; começou a envelhecer, assumindo cada vez mais aquela postura cansada, grave e preocupada, que se pode observar em muitas árvores velhas. Também em cavalos, pássaros, pessoas e todas as criaturas, pode-se ver isso diariamente. Quando não possuem o dom da transformação, com o tempo decaem em tristeza e mágoa, e perdem a beleza.

Certo dia, errava por aquela região do Paraíso uma jovem de cabelos louros e vestido azul. Cantando e dançando a loura corria entre as árvores, e até então nunca pensara em desejar o dom da transformação.

Muito macaco astuto sorria atrás dela, muito arbusto tocava-a delicadamente com um ramo, muita árvore lhe lançou uma flor, uma noz, uma maçã, sem que disso ela se apercebesse.

Quando a Árvore Piktor avistou a jovem, foi tomada de uma grande saudade, um desejo de felicidade, como jamais sentira. E ao mesmo tempo caiu em profunda reflexão, pois sentia que seu próprio sangue lhe dizia:

- Pensa bem! Lembra-te nesta hora de toda a tua vida, encontra o sentido disso tudo, ou será tarde demais, e nunca mais terás a felicidade.

Ele obedeceu. Lembrou-se de toda a sua origem, seus anos como homem, sua viagem ao Paraíso, e especialmente daquele instante antes de se tornar árvore, aquele extraordinário momento em que tivera nas mãos a pedra encantada. Naquela ocasião, como tinha à escolha qualquer transformação, a vida ardera nele como nunca! Pensou no pássaro que aquela vez rira, e na árvore com Sol e Lua; e pressentiu que naquela ocasião perdera algo, esquecera algo, e que o conselho da Serpente não fora bom.

A jovem ouviu um rumor nas folhas da Árvore Piktor, ergueu os olhos para ela e sentiu, com súbita dor no coração, novos pensamentos, novo anseio, novos sonhos agitando-se em seu próprio interior. Atraída por uma força desconhecida, ela se sentou debaixo da árvore, que lhe parecia solitária, solitária e triste; e não obstante bela, comovente e nobre em sua muda tristeza; a canção de sua copa, em suave sussurro, soava fascinando-a. Ela recostou-se no áspero tronco, sentiu a árvore estremecer fundo, sentiu o mesmo frêmito no próprio coração. O coração lhe doía singularmente, sobre o céu de sua alma deslizavam nuvens, lágrimas pesadas corriam de seus olhos. O que era aquilo? Por que precisava sofrer tanto? Por que o coração anelava rebentar o peito, e fundir-se nela, e com ela, com ele, o belo solitário?

A árvore estremeceu de leve até as raízes, tão fortemente reunia em si todas as forças vitais, ao encontro da jovem, no ardente desejo da união. Ah, fora ludibriado pela Serpente, exilando-se para sempre, confinando-se solitário em uma árvore! Ah, que cego, que tolo fora! Então não soubera de nada, estivera tão alheio ao segredo da vida? Não, bem que ele o sentira e adivinhara aquela vez, obscuramente - ah, e com tristeza e profunda compreensão pensava ele agora na árvore, que era a um tempo Homem e Mulher!

Chegou um pássaro voando, um pássaro vermelho e verde, um pássaro belo e atrevido chegou voando, em circulo se aproximando. A jovem o viu voar, e de seu bico algo soltar, brilhante como sangue, vermelho como fogo; algo que caiu na verde relva e na verde relva brilhava com tanta confiança, sua luz vermelha cortejando tanto, que a jovem se curvou e o objeto vermelho pegou. Era um cristal, era um rubi, e onde quer que este está não pode existir mais escuridão.

Mal a jovem pegou a pedra mágica com sua mão branca, realizou-se o desejo que inundava seu coração. A bela foi arrebatada, tombou e uniu-se à árvore, emergiu do seu tronco como um vigoroso ramo novo, e rapidamente cresceu até o cimo.

Agora estava tudo bem, o mundo estava em ordem, só agora fora encontrado o Paraíso. Piktor já não era uma árvore velha e triste, cantava bem alto, Piktoria, Viktoria.

Estava transformado. E porque dessa vez alcançara a metamorfose verdadeira, eterna, porque passara de uma metade ao Todo, a partir dessa hora podia transformar-se o quanto quisesse. O fluido mágico do vir-a-ser circulava continuamente pelo seu sangue, e ele participava eternamente da incessante Criação.

Tornou-se Cervo, tornou-se Peixe, tornou-se Homem e Serpente, Nuvem e Pássaro. Mas cada forma era um todo, era um par, tinha Lua e Sol, tinha em si Homem e Mulher, e como gêmeos correu pelos países, e pairou no céu como uma dupla estrela.


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"Transformações" é um dos mais belos contos de Hermann Hesse, escrito em 1922. Todas as ilustrações acima são de autoria do próprio Hesse, que exigia que não se publicasse esse texto sem as tais ilustrações.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

NUVENS DO ENTARDECER

Hermann Hesse
O que um poeta imagina e burila,
e anota num livrinho, em verso e rima,
a alguns pode sem nexo parecer;
mas Deus entende e acata com prazer.

Também ele, que cuida do universo,
de vez em vez é poeta também:
quando repicam os sinos da tarde,
como em sonho, toma nas mãos o ar
e, para a festa do final do dia,
faz lindas nuvens de ouro tênues, muitas,
a debruar o perfil das montanhas
– espuma carmesim na pompa do crepúsculo.
Uma e outra, que lhe saem melhores,
por algum tempo ele conduz e guarda,
a fim de que, feitas de quase nada,
pairem no céu em contente sorrir.
A que parece um vão jogo de rima
logo tem algo de magia e imã
a atrair a alma humana
em nostalgia e oração a Deus.
Então a rir o Criador desperta
do breve sonho, a brincadeira esfria,
e da fresca distância desabrocha
plena de paz a noite.
Assim é que da pura mão de Deus,
mesmo de brincadeira, toda imagem
brota perfeita, formosa e feliz
como poeta algum imaginou jamais.
Possa o teu canto terrenal valer
como um acorde musical de sinos,
e que das mãos de Deus, cheias de luz,
brotem nuvens lá em cima.



HESSE, Hermann. Andares: antologia poética (trad. Geir Campos). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976.

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Um amigo uma vez me dissera: “Hesse é um dos únicos autores que qualquer livro que você ‘pegar’ é bom”. Comecei por Lobo da Estepe, depois Sidarta... e quanto mais lia mais ficava fascinado, impactado. Meu amigo estava coberto de razão. Desde então Hesse tem sido um amigo inseparável. Por minhas vez, não custa nada deixar uma sugestão aos amigos do Alma Acreana.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

NOITE - Hermann Hesse

Hermann Hesse
Vista do lago de Lugano
Aquarela 1925
Úmidas nuvens mornas vão passando;
ouvem-se nos juncais aves noturnas
pesadas asas ruflando
e lá na aldeia uma canção de pescadores.

De tempos jamais havidos
sombrias sagas se entoam
e queixas de longevos sofrimentos:
ai daquele que as ouve em meio à noite!

Basta, criança, de murmúrios e lamentos!
De dor, o mundo em redor está cheio.
Vamos ouvir o gorjeio das aves
e essa canção que nos chega da aldeia!


HESSE, Hermann. Andares: antologia poética (trad. Geir Campos). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976. p.47.