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quinta-feira, 5 de maio de 2022

CANTOS E CONTOS DO AMAZONAS

J. G. de Araújo Jorge (1914-1987)

DUAS COTILÉDONES. Dois livros irmãos, dois livros que se parecem, que trazem na fisionomia os mesmos traços indisfarçáveis, só reproduzidos pelos mesmos “genes” ecológicos: “Sapupema”, de José Potyguara, e “Aturá de ritmos”, de Alves de Menezes. O primeiro, um punhado de contos, de contos que reproduzem aspectos da vida amazonense, essa rala e paradoxalmente intensa vida que se espalha rios a dentro, levando a civilização às profundezas das mais espessas florestas do mundo. No Amazonas, a impressão do viajante que sobrevoar as suas selvas, será a de que as cidades estão escondidas submersas no mar de clorofila e da vegetação luxuriante tropical. Há nos contos de José Potyguara a visão objetiva e clara de sua terra. Num estilo simples, direto, sem muitas circunvoluções, ao contrário dos rios amazônicos que parecem demorar na terra com pena de deixá-la, ele nos vai contando as suas histórias. Histórias reais, cada uma delas encerrando uma característica da alma amazonense, suas ânsias, seus desejos, suas paixões. Aí está a vida, vivinha da silva, material farto para dez, para cem, para mil, romances que ainda não foram escritos. “Vingança” é um deles, “Caxinauás”, outro, “Alagação”, é um dos mais belos trechos do livro, onde o poder descritivo do autor se acentua. Chico Reinaldo, um símbolo do caboclo amazônico, estoico, resistente, invencível, lutando contra a terra adversa, pegajosa, ainda informação, terra que melhor que nenhuma outra cabe naquela frase feliz de Agripino Grieco: “parece que ainda se veem as impressões digitais do Criador!” Chico Reinaldo é um pequeno e maravilhoso estudo psicológico do homem do Amazonas, na sua luta sem tréguas contra o meio. Assombrosa luta, desproporcional, que nos enche de orgulho quando verificamos a lenta, mas decisiva imposição do homem sobre a terra.

José Potyguara explica o título de seu trabalho: “Na vastidão da planície amazônica, a gigantesca sumaumeira ergue-se altiva dominando a floresta com sua copa majestosa.

Perdido no labirinto verde da selva, o viajante pede socorro, batendo na sapupema do tronco secular.

O som reboa longe...”

E conclui:

“Enfeixando contos e quadros da longínqua região, este volume é como um eco selvagem da sapupema, transmitindo os anseios, os apelos, e as angústias de uma gente que trabalha com tenacidade, sofre com estoicismo e vive paradoxalmente pobre, em meio às imensas riquezas do setentrião brasileiro.”

Mensagens assim encontrarão eco. Filho do distante Tarauacá, onde o autor situou aliás um dos seus quadros, eu me sirvo de livros como este para lutar contra o tempo, e colorir sempre de novas tintas, as emoções sagradas de minha infância, infância que me saturou as retinas de paisagens inesquecíveis, povoadas de pássaros coloridos, “gaiolas” pitorescos, regatões curiosos, rios verdes como serpentes, engenhos rústicos, igarapés turbulentos, e liberdades maravilhosas. Livros como este, são para mim, passagens grátis de retorno à minha terra, numa viagem feita de saudades a um passado feliz.

 

*   *   *

 

O segundo livro que recebi, é “Aturá de ritmos”, de Alves de Menezes. Aqui estamos diante de um poeta excelente, com as mesmas qualidades do contista. Não raras vezes o seu verso deriva para descrições do meio e da paisagem. Mas um sopro de lirismo quente invade às vezes as páginas deste livro, impregnadas também de um suave desencanto. Como que a poesia de Alves de Menezes reflete a solidão do Amazonas, o abandono das suas terras, a tristeza ingênita das paragens só povoadas de pássaros, e habitadas de árvores. O homem desaparece, é um detalhe insignificante no conjunto. Mas encontramos nessa voz amazônica todos os tons de sua região. A terra ainda é a grande dominadora, a inspiração primordial de quem quer que escreva sobre o Amazonas. E é por isso que, mesmo no verso, os quadros se fixam, e a poesia é dentro deles como um canto de ave que se ouve ao longe, não se sabe onde, “Alagação” é um poema forte, definitivo:

 

“Um rumor de águas revoltas

rola

pela planície...

 

É o coração do rio, descompensado,

dilatando as aurículas profundas

na diástole da enchente...”

 

Assistimos à alagação. As águas crescem, o “repiquete” desce das cabeceiras insuflando água no curso apertado do rio que se contorce entre os barrancos. As águas comem os barrancos, e as árvores desraigadas tombam num vozerio de pássaros assustados e ninhos desfeitos. Passam levadas pela corrente, ramagens sonoras como trechos sinfônicos da grande coral. O caboclo olha impotente, assustado, e procura os altos, a terra firme. A água cresce. A lavoura dos terrenos mais baixos, o jerimum da praia, a melancia, o milharal, tudo vai sendo devorado pela goela barrenta da enchente. Os igapós de olhos vidrados e mortos no interior da mata, acordam com a chegada verde da enxurrada. E seus espelhos que refletiam o céu e o silêncio das noites no fundo das clareiras, se turvam de repente.

Ouçamos o poeta:

 

“Nos barrancos naufragados

as casinhas dos caboclos

de água pelos joelhos

parecem esquisitas banhistas

vestidas de palha

entrando no rio

tremendo de frio...

 

O gado,

em jejum,

nas marombas,

alonga o olhar em derredor

olhando o rio,

o rio

cheio,

o rio,

que passa

turbulento,

despótico,

arbitrário,

levando no roldão das águas piriricas

roçados,

plantações,

esteiras de capins,

toda a roupagem agreste dos barrancos,

todo o ornamento vegetal das margens...”

 

Só o amazonense pode sentir e recompor mentalmente um quadro destes, com todas as suas cores de realidade e suas nuances de tragédia. Todo o livro de Alves de Menezes é assim, verídico, humano, vivo, refletindo o homem e a terra, sua vida e sua luta. Seu estilo é forte e agreste, sua linguagem simples, mas plástica, reproduzindo fielmente o que vê e o que sente. Há poemas belíssimos. “Garças”, “Igapó”, o “Lago “Gaiola”, “Pé-d’água”, “Canoa velha”. Há um sabor de folclore às vezes na simplicidade emocional e nos motivos de seus versos. Em “Boiuna” por exemplo. Mas o poeta é sempre magnífico nas suas expressões. Ora cantando os encantos da “cunhatã”:

 

“porque teus lábios, bons de fazer tucura

são doces como ingá,

e tem curvas fatais e são vermelhos

que nem o bico do tungurupá;

porque os teus seios duros de pontudos

parecem duas pupunhas inchadas

amadurecendo no teu corpo em flor.”

 

tudo amazônico, das imagens ao estilo, nas sugestões emotivas à linguagem. Ora repetindo com novas formas a história do Apuizeiro.

 

“Essa copa triunfal que hoje ostentas ao sol,

toda cheia de alegres passarinhos,

e onde o vento sacode os turíbulos rústicos

dos ninhos,

incensando de sons

o espesso matagal,”

 

tudo isso é poesia, beleza, através da força de um estilo musical e colorido. Conforta encontrar alguns poetas ainda, poetas que saibam dizer coisas belas assim: “turíbulos rústicos dos ninhos, incensando de sons o espesso matagal”.

Todo o livro de Alves de Menezes está cheio de imagens e ritmos. Por isso o seu autor nos define o título:

 

“Aturá, – balaio rústico

feito de cipós e tranças...

........................................

Meu coração, aturá

Carregado de lembranças...”

 

Parece-me que essa é a simplicidade dos verdadeiros poetas. Nada de artificial, de medíocre, de exotismos que mal disfarçam a incapacidade sensorial dos seus exploradores. Alves de Menezes não é no entanto um poeta completo, sem defeitos. Não. Há páginas fracas no livro, páginas indecisas. Mas não há dúvida de que o seu “aturá” está cheio de muita beleza, emoção e poesia.

 

JORGE, J. G. de Araújo. Cantos e contos do Amazonas. In Revista Letras Brasileiras, Rio de Janeiro-RJ, Julho de 1943, p. 31-33

domingo, 25 de julho de 2021

CÂNTICOS

DEDICATÓRIA

 

Aos que creem na liberdade e erguem livres aos céus as suas mãos,

 

– Aos homens cristãos

se é que ainda há cristãos sobre a face da Terra!

 


I

 

Senhor!

 

A minha alma é pagã e eu sou ateu!

Sou aquele no entanto que te compreendeu

no sentido profundo dos ensinamentos

que espalhaste no mundo.

Eu prego os sentimentos

porque um dia morreste entre ladrões na cruz!

 

Falo de paz e amor, de pensamento e luz

e a palavra que escrevo em seu âmago encerra

um protesto à violência, ao despotismo, à guerra,

e aos vis e sempre vis mercadores do templo!

O teu vulto sereno e esplendido contemplo

com o mesmo olhar consciente, simples e sincero,

com que leio Platão, com que admiro Homero,

com esse olhar que demoro sempre sobre o vulto

de um Sócrates ou um Nietzsche!

É eterno este meu culto

pelos que têm luz própria, e são astros, são sóis,

e dão rumos na sombra tal como os faróis;

pelos que foram grandes, pelos que são grandes,

os que marcam na história os relevos dos Andes

sobre as planícies chãs, os desertos vazios;

pelos que, gigantescos como os grandes rios,

passam por muitas terras sem olhar fronteiras

e unem povos e raças sem erguer bandeiras;

pelos que, como os céus infinitos, profundos,

na imensidão do azul contêm todos os mundos,

e os que afinal criaram para os pigmeus

o cabresto da fé e o chicote de um deus!

 

E é por esta razão, Senhor, e é só por isto

que não creio em Jesus mas falo em Jesus Cristo!

 

II

 

Não preciso pensar em punições supremas

para que seja um bom, nem ponho entre dilemas

a minha ação moral; faço o bem pelo bem,

sem recear a deuses, sem temer ninguém,

porque tanto a esse Deus dos visionários temo

como ao fogo do inferno e às caretas de um demo!

 

Sem esperar por prêmios ou temer castigos

vou praticando o bem; chamo aos homens de amigos,

e se a razão que tenho é certa e não me engana

afirmo que é excelente a natureza humana

e é para a sua fonte.

Essa água da nascente

é a água milagrosa que está em nós latente,

– nela fui encontrar a origem da moral.

Bebendo-a, é que instintivamente vejo o mal

e o bem. Por isso prego sem temer, não minto:

mais moral do que um deus é a pureza do Instinto!

 

Um deus se abastardiza, um deus pode afinal

render-se ao poderio louro do metal

quando aqueles que são os apóstolos bons

vão mudando de timbre as suas pregações

na sociedade de hoje onde tudo se vende!

O Instinto, não! O Instinto puro não se rende.

Dentro do homem mais torpe, vil e corrompido,

se retrai; em si mesmo se fecha, escondido,

mas vive sempre, e pode afinal, de repente,

como a flor que rompeu de invisível semente

vir abrir suas pétalas brancas e puras

sobre a lama, – que é lama o ser dessas criaturas!

 

Creio, este há de ser talvez nosso trabalho,

Colher por entre a lama, as pedras e o cascalho,

– as almas (porque uma alma, tal como um diamante,

precisa ser polida para ser brilhante),

e depois descobrir essa oculta pureza

que é o cristal interior de nossa natureza!

Livrando assim da ganga mística e lodosa

os Seres, e polindo-os todos, afinal,

– havemos de encontrar muita pedra preciosa

guardando na aparência bruta e desgraciosa

quanta cintilação sonora de cristal!

 

III

Senhor!

Eu sou aquele que não reconhece

no homem que hoje a teus pés ergue uma falsa prece

um discípulo teu!... Conheço a tua história;

sei que tu foste pobre, e para a tua glória

não nasceste em palácios cravejados de ouro

como nascem os reis!

 

O teu grande tesouro

trouxeste-o no teu peito como nós, e os sábios

ao balbucio humilde e suave dos teus lábios

quedavam-se em silêncio... E se a história não falha,

o teu berço, Jesus, era feito de palha,

e descerraste o olhar na tosca manjedoura

que aumenta a tua glória e que em nada desdoura

o teu grande destino!... Os pobres, os pequenos,

tiveram sempre a luz dos teus olhos serenos

e ouvindo a tua voz tão cheia de conforto

propagaram até que deste vida a um morto,

e assim ficou na história o Lázaro da lenda!

 

E desde então, Senhor, há essa eterna contenda

entre os que veem em ti um sonhador humano

deixando-se morrer no estoico desengano

de um Sócrates, que ergueu a taça de cicuta

e sem tremer morreu; e os que, na tua face,

serena ante a impiedade hostil da força bruta

(como se nela um halo de luz se estampasse)

Chamaram-te de Deus!

Não importa, Senhor,

importa é que morreste pelo nosso amor!

 

IV

 

As eras que em sua ânsia incontida consomem

vidas, seres e coisas, como um deus ou um homem,

hão de sempre guardar aquela trajetória

que os teus passos marcaram na alma e na memória

do mundo, – na ascensão do Calvário e da Dor!

 

Não sei se tu me escutas ou me vês, Senhor!

Minha voz é pagã, meu coração é ateu,

no entanto ela te exalta, e ele te compreendeu!

 

Não entro nem visito a imensa catedral

que não é tua casa! – E nem comungo o mal

dos Judas que hoje ainda rondam tua mesa

e querem te trair!

Nasceste num presepe

e essa cruz que se ostenta eu vestia-a de crepe,

– para mim já morreu!

 

Já não diz da beleza

da obra que tu pregaste e da grande verdade

dessa filosofia eterno de igualdade

que fizeste brotar do coração humano!

 

Compreendi-te, Jesus, por isso não me engano

com os que trazem teu nome à boca, – todos são

os Judas em que em teu tempo vendem a oração

que ontem por entre os pobres, como um lenitivo,

davas ao coração mais morto do que vivo

sem cobrar um ceitil...

 

Senhor! A água da fonte,

que tão pura nasceu entre as pedras do monte

pequenina e escondida, e que era clara e doce,

hoje é turva e pesada, é amarga e envenenou-se!

 

V

 

Eu não creio, Senhor, mas se é verdade e é certo

que tu ressuscitaste, e com o teu peito aberto

pelas lanças romanas te elevaste aos céus,

ouve o aviso que solto nestes versos meus:

 

– que não te lembres nunca de voltar aqui,

porque o que hoje te adora, o que fala de ti,

diante da exprobração do teu desgosto imenso

sobre uma nova cruz deixar-te-ia suspenso

e da tua palavra ainda faria pouco!

 

E outros te chamariam de demente e louco

e outros te chamariam comunista e ateu!

 

Se ao entrares na igreja dos vitrais, como eu

apontasses o luxo, a riqueza, o exagero;

se sentisses profundo e amargo desespero

ouvindo citações em teu nome; se enfim

voltasses a este mundo, ao encontrá-lo assim

tu não compreenderias mais o teu último idioma

nem mandarias Pedro retornar a Roma!

 

Cobririas teu rosto, e ante a trágica ideia

de espalhares a luz; talvez, como em Pompeia,

atirasses também o fogo, e o próprio mundo

sepultasses aos pés de um vulcão num segundo!

 

Ou quem sabe, Senhor, se em silêncio choravas

e ao invés de jogares sobre os homens, lavas,

com a grandeza infinita do teu coração

ofertasses ainda um último perdão,

 

– e ante a inutilidade do teu sacrifício

rolasses do Calvário para um precipício!

 

VI

 

Senhor!

Não seu se sou cristão, mas acredito

nessa voz que no búzio imenso do Infinito

há séculos vibrou e há séculos ressoa!

Essa voz que, bem sei, foi simples e foi boa,

e foi pobre e sincera, – é quem traça o caminho

por onde ando a sonhar, e onde a sonhar, sozinho

prego o que tu pregaste!

E hei de seguir, adiante,

se às vezes abatido, outras vezes confiante,

mas sem voltar jamais!

Eu também quero o mundo

Como uma só família!

 

E um desejo profundo

de amar e de ser bom, e esse culto à beleza,

são a essência da minha inquieta natureza!

Também falo de amor! Pelo amor também velo

e nesta exaltação tenho pelo belo,

nessa ânsia de criar, nessa paixão de artista,

sorrio com desprezo à alma pequena e egoísta

da vida que me cerca...

E então me desiludido

tal como tu, Senhor, dos homens e de tudo!

 

E fujo... quero a terra só, o isolamento,

para dar a liberdade a este meu sentimento

e gritar para os céus minha incompreensão!

É então, no desespero desta fuga, é então

que às vezes penso em ti, Senhor!

 

E o céu lá no alto

é a catedral azul onde canto e me exalto

e onde rezo estes versos todos que compus!

As palavras que solto, eu só posso entendê-las,

vibram no ar não em sons, mas em jatos de luz,

acredito que vão mais longe que as estrelas,

mais além, aonde os céus sem estrelas são nus!

 

Há um consolo, Senhor, que me acalma e me anima

quando fito o teu vulto branco e legendário

nas cores dos vitrais, nos óleos dos retratos:

 

– é que a estrada da dor caminha para cima

e mais vale subir e morrer no Calvário

que sentar-se e viver no trono de um Pilatos!

 

VII

 

Dos jornais: “Os sinos das igrejas romanas repicaram em festa, por ordem do Papa, à vitória de Mussolini sobre a Abíssinia.”

 

Senhor!

A tua história que ficou no meio

leio-a com tal ardor e convicção, que odeio

os que com a tua efígie esplêndida e sublime

perpetram e repetem pela Terra o crime

que Roma se imputou –.

E é por isso talvez

que combato o romano que se fez burguês,

e para que afinal o mundo me ouça e veja

quebro as imagens falsas de uma falsa igreja!

Não entoo com eles cânticos ou hinos,

renego as suas cruzes, desconheço os sinos

que hoje soltam no espaço o metal dos seus sons!

Os sinos que aplaudindo o ensanguentar das terras

entusiasmam servis para o pasto das guerras

e se fundem depois no bronze dos canhões!

 

Que dirias, Senhor, se visses a epopeia

daquela multidão de negros da Eritreia,

indefesos e nus como os cristãos de outrora,

dando carne às metralhas famintas de agora

e em contorções morrendo inflamados aos gás?!

 

Que dirias, Senhor, se ao longe, por detrás

destes quadros de sangue (onde a Roma de Nero

ressurgiu com mais tinto esplendor, mais esmero

na maldade feroz) ouvisses como um bando

de loucos, os teus sinos soltos, badalando,

no alto das catedrais que ostentam tua cruz?!

 

Acredito, Senhor, – por consolo supus

que num rasgo de dor dilacerante e intenso,

dissesses para o mundo o que eu sinto e o que eu penso,

e arrancando um por um os sinos que bateram,

e fechando os portões das ricas catedrais

gritasses:

 

– estes sinos todos já morreram!

– e estas igrejas todas já não vivem mais!

 

VIII

 

Que dirias, Senhor, se a tua fé sublime,

a que te fez sofrer e ainda hoje nos redime,

encontrasses assim deturpada em seus fins?

 

O teu tempo de outrora é a casa dos festins

onde a tua figura, em púrpuras vestida,

sem sentido e sem alma, e aos poucos pervertida

fala uma língua morta a um mundo fariseu,       

– porque a tua palavra há mil anos morreu!

 

Um dia tu quiseste igualar os destinos

dos homens, e chamaste os pobres pequeninos,

crianças que sem ninguém te cercavam nas ruas...

Que dirias, Senhor, se hoje as igrejas tuas

inacabadas sempre por fora, e por dentro

vestidas de ouro, apenas servissem de centro

aos que vendem no altar os teus restos finais,

entre baixos sermões e enormes castiçais?

 

Senhor, ouso indagar-te: – que dirias, tu,

morto sem teres nada, o corpo quase nu,

se te visses envolto nessa liturgia

que um Midas ambicioso certo não teria?!

Acredito que entrasses mesmo, sem notar

Que essa era a tua casa... e aquele, o teu altar!

 

IX

 

A minha alma é pagã, Senhor, e eu sou ateu!

 

Sou aquele no entanto que te compreendeu,

e propaga as belezas dos ensinamentos

por cujos são princípios tantos sofrimentos

tiveste de curtir; sou aquele que ainda hoje

muito embora da vida e dos homens se enoje

continua na crença de que cedo ou tarde

chegaremos a ti...

 

É que no mundo ainda arde

a chama que acendeste, – a chama rubra e ardente,

que eum muitos corações crepita intimamente!

 

Não é minha nem tua, a falsa religião

das sacras barbarias de uma Inquisição,

que se antepondo à ciência inutiliza as ânsias

do progresso, a embuçá-la em sombras e ignorâncias;

 

e ainda aplaude a não senil que os filhos teus

incita ao ódio e ao crime em nome de algum deus!

 

Tu disseste, Senhor: “Não matarás!...” Parece

que escuto a tua voz como um rumor de prece

e penetro o sentido do teu misticismo!

 

Hoje, tu lutarias contra o imperialismo

que reduz certos povos como os de outras eras,

às condições de vida em que vivem as feras!

 

Teu gesto se ergueria contra a prepotência,

pelo direito ao lar, ao pão, pela existência,

e pelo bem maior que encontramos na vida:

– a nossa liberdade... E a tua voz perdida

seria igual à minha, a falar para o caos.

Ao silêncio dos vis, e à incompreensão dos maus!

 

X

 

Tenho um ódio de morte a qualquer tirania!

Amo a terra, amo o sol, amo o clarão do dia

que ilumina e que aquece os homens em comum

sem preterir ninguém, sem desprezar nenhum!

Afirmo que é sagrada a liberdade humana;

a justiça, imortal; e eterna, e soberana,

a razão que elucida o cérebro fecundo

dos que vem de longe construindo o mundo!

 

Tenho um ódio de morte à césares e reis,

que esquecem no poder a força ideal das leis

e cegos, – na expansão de ambições sanguinárias

exploram sem piedade o trabalho dos párias,

e ao toque de clarins e em bárbaros festejos

satisfazem a ferro e fogo os seus desejos!

 

Tenho um ódio de morte aos homens das boleias

que atrelam aos seus carros multidões plebeias

e de chicote em punho, a açoitar os seus povos,

arrastam, com a mentira, a inconsciência dos novos!

 

Aos déspotas sem lei, aos tiranos e aos vis,

aos que armam sobre a força hedionda dos fuzis

os palanques vistosos de um poder nefasto

e preparam com a morte o sanguíneo repasto

que não lhes mata a fome de domínio!... Odeio

os que para seus fins engendram qualquer meio,

e jogam contra o fogo, e à ceifa da metralha

(tal como se atirassem vão montões de palha),

nações inteiros, povos jovens e felizes,

enchendo-lhes o peito e a alma de cicatrizes!

 

XI

 

Eu não sei por que vim e não sei por que falo,

sei que não tenho à fronte, a aureolar-me, um halo

de luz, para iludir, com retoques grosseiros

os que são meus irmãos, irmãos e companheiros...

minha palavra é clara e nua, desconhece

os cicios suspeitos que se dizem prece,

não digo entre falsos clarins e trombetas

dos que falam grifando a voz com baionetas!

Falo de Paz, sem crer no entanto em Utopias,

porque creio na Paz e creio em novos dias.

A humanidade sofre (eis a verdade atroz)

da indigestão de deuses e ilusões de heróis:

obedece a fantasmas e adora visões,

confunde cores, formas, e mistura sons,

e folhea de bronze as imagens tacanhas

dando a montes de barros o nome de montanhas!

 

XII

 

Eles querem que eu cale, Senhor, é o receio

pela voz que se eleva e desconhece o freio

de qualquer interesse, e arranca a hipocrisia

que cheira a bastidor de altar, a sacristia,

e diz alto, e dizendo bem alto de tudo,

dá-lhes certo a impressão de quem fica desnudo

ante um olhar estranho.... Odeiam-me por isso.

Pouco importa! Sou livre e não nasci submisso!

 

E se um pouco afinal de mim mesmo conheço,

sei que não trago ao peito pendurado um preço

nem nunca o meu ideal joguei ao “quem dá mais”;

nem vendo a minha fé, e nem serei capaz

de erguê-la em meu sentir sobre o alicerce indigno

da exploração alheia!

É em vão! Não me resigno

ao silêncio! E talvez, imprevidente e incauto,

cada grito que solto é cada vez mais alto!

 

E se me ouves, Senhor, se escutas este grito

lá da distância azul, na ilusão do Infinito,

tu que encarnaste um dia a perfeição e o Todo

e sentiste o maligno efervescer do lodo

da incógnita criação, – por certo não te assombras

pois matou-te esse horror que têm à luz às sombras!

 

Caminho – sigo à frente –, e me embaraço e perco,

tonto do odor que sobe do estagnado esterco,

mas ainda encontro forças, ao fitar, tranquilo,

o sol rompendo a nuvem que tentou cobri-lo

e apagá-lo dos céus.

O sol que triunfante

desaparece aqui para surgir adiante!

 

Sigo à frente, Senhor, e hei de avançar assim

já que sinto esta chama acesa dentro de mim,

e se tal como tu, for vencida a luta,

com pena da planície onde há sangue e onde há pus,

erguerei sem tremer a taça de cicuta

ou buscarei eu mesmo os braços de uma cruz!

 

JORGE, J. G. de Araújo. Cânticos. Rio de Janeiro: Vecchi, 1962. p. 157-207

* O poema “Cântico dos Cânticos” foi escrito em janeiro de 1937.