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terça-feira, 15 de janeiro de 2019

AS ANDANÇAS DE STRADELLI PELO AMAZONAS

Antônio José Souto Loureiro 


Quando seu pai morreu, Stradelli suspendeu os estudos de Direito, que fazia em Pisa, e resolveu ser um explorador de terras ainda pouco visitadas e desconhecidas, a contragosto da sua mãe, que não aprovava essa ideia, principalmente para tê-lo perto de si. Apesar desse fato, preparou-se para aquilo que sempre desejara ser: geógrafo e etnólogo. Para tanto aprendeu topografia, farmácia, homeopatia, etnologia, botânica, zoologia, e até fotografia, lendo tudo o que podia sobre esses assuntos, pois estava vivamente interessado em visitar a África.

De repente houve uma mudança de planos e se voltou para o Brasil, no que foi apoiado pela Real Sociedade de Geografia Italiana, passando a estudar português e espanhol, no que pode ter sido influenciado pelas notícias da Ordem Franciscana, então empenhada na evangelização dos indígenas da Bacia Amazônica. Estando tudo pronto e preparado para a execução do seu ideal, embarcou para o Brasil, em 1879, chegando a Manaus, no mês de julho.

Iniciavam-se os quarenta e sete anos de vida dedicados à Amazônia.

Manaus aumentava celeremente de tamanho desde quando o Mundo necessitara cada vez mais da borracha natural, para atender a demanda das novas descobertas como os pneus para bicicletas e automóveis, e as capas de isolamento para fios elétricos e telefônicos. A partir deste momento, o simples vilarejo de pouco mais de 10.000 habitantes, sem atrativos, ou possibilidades de progresso tornar-se-ia em uma metrópole moderna de mais de 100.000 habitantes, em 1910, com todos os equipamentos urbanos, que a maior parte das cidades brasileiras então não possuía: telefones, em 1887; água encanada, desde 1888; eletricidade e bondes elétricos, em 1894; cabo submarino, em 1896; esgotos, em 1906, além de ruas largas, jardins floridos e prédios colossais, como o Teatro Amazonas. E corria muito dinheiro, sendo um dos grandes centros compradores de diamantes do Mundo. A Amazônia de então estava mais ligada às cidades da Europa e América do Norte, do que ao restante do Brasil, através de linhas de navegação inglesas e alemãs, e mais tarde, através da Ligure Brasiliana, ao Mediterrâneo, com Gênova, via Marselha, Barcelona, Tanger, Lisboa e Madeira.

A Inglaterra, da qual a Amazônia era uma colônia econômica, além da navegação interna, controlava os investimentos da infraestrutura, as exportações e as importações de borracha e alimentos, pois o Brasil não tinha produção suficiente para fornece-los aos seringais, os navios necessários ao fluxo da produção, fabricados em Glasgow e Liverpool. Na realidade, os laços da Amazônia com o restante do País eram meramente políticos e tradicionais.

Em Manaus respirava-se praticamente borracha, que representava quase 100% da sua monolítica economia. Sem erro, a Amazônia era a maior leoa do Império Britânico, e dela saíam anualmente o equivalente a 600 toneladas de ouro, em borracha.

 EM MANAUS

Quando Stradelli aqui chegou, Manaus ainda era uma aldeia, em que a população feminina falava o nhengatu, para evitar contatos com estranhos, e a cidade não centralizara o comércio de aviamentos dos seringais produtores, estando em vigor a fase de mudança do poliextrativismo, para o monoextrativismo.
Porto de Manaus, em 1879, da autoria de pintor desconhecido. Vejam o grande navio a vapor de rodas laterais ancorado no cais em frente à matriz. As casas estão apresentadas aleatoriamente.

ALIMENTAÇÃO

Os costumes eram indígenas: tomava-se banho nu, nas praias do rio Negro, fritava-se peixe e banana, com manteiga de tartaruga, gordura extraída dos ovos do quelônio de modo artesanal, comia-se piraém com farinha dágua, e no café da manhã consumia-se tapioca, beiju e cará, além do pão, e a carne mais consumida era a de tartaruga. Não havia muito pão, nem azeite, nem vinho, pois na região equatorial eram inexistentes o trigo, a oliveira e a parreira, característicos da cultura mediterrânica.

Foi nesse vilarejo no meio do nada, que Stradelli começou a vida que desejava: a de explorador de novas terras, e logo após a sua chegada, poucos meses depois, em 1880, fez a sua primeira incursão ao interior da Amazônia.
Caiçara com tartarugas e matança para alimentação diária, pois a sua carne era a mais abundante e comum na região. Quase não existiam bois. Esta caiçara em tempos mais recuados servia para prender os índios que iam ser vendidos como escravos.

VIAGEM AO PURUS

Embora a foz do Purus fosse conhecida há muito tempo, o curso superior desse gigantesco rio, de mais de 3000 km de extensão, só fora percorrido, pela primeira vez, até o afluente Aquiry (Acre), pelo sertanista amazonense Manuel Urbano da Encarnação, em 1861, há uns dezenove anos antes.

O rio era habitado por milhares de índios de diversas tribos aruaque do grupo aruã, anteriormente expulsos do Marajó, mas além dos índios possuía grandes concentrações da seringueira preta, chegando algumas delas a darem dois litros de látex, por corte.

Por isso, contrariando as previsões de William Chandless, de que séculos se passariam antes daquele rio ser povoado, quando Stradelli a ele chegou, em 1880, já estava todo povoado e os índios praticamente haviam desaparecido, pelas matanças, ou se embrenhando para os divisores, para as terras gerais.

Os franciscanos italianos, desde 1870, atuantes no Madeira e Solimões, sob a direção dos superiores Samuel Mancini e Jesualdo Machetti, a partir de 1877, estavam tentando atuar, no Purus e em seus afluentes Tapauá, Mamoriá Mirim e Ituxi, com Venâncio Zelochi, Francisco Sidane e Mateus Canioni, mas os índios estavam sendo eliminados muito rapidamente e os rios, povoados pelos seringueiros, nada mais havendo o que fazer. Por isso, as missões do Purus foram abandonadas, em dezembro de 1880, embora Stradelli fosse auxiliado pelos seus compatriotas, percorrendo o Mamoriá Mirim, onde em uma corredeira perdeu todos os seus instrumentos científicos.
Spix e Martius - desenho da retirada e preparo dos ovos da tartaruga, para produção da manteiga, a gordura extraída das gemas. Este o único óleo comestível produzido na Amazônia deste tempo, para frituras, principalmente das bananas. Local - praia das onças?

DUAS VIAGENS AO ALTO RIO NEGRO E PRIMEIRA AO RIO BRANCO
VIAGEM AO NEGRO E AO UAUPÉS

Em abril de 1881, Stradelli subiu o rio Negro e depois o rio Uaupés (Ucaiari), chegando até o rio Tiquié. Esta região estava alvoroçada pela chegada dos franciscanos italianos, desde maio de 1878, com frei José Vila, logo secundado por Venâncio Zelocchi e outros, que haviam abandonado sucessivamente o Madeira, o Solimões e o Purus.

Neste ano de 1881 as missões estavam em franco progresso, apoiadas pelo presidente da Província, o Barão de Maracaju.

Zelocchi estabelecera-se em Taracuá, desde setembro de 1880, e em torno da igreja de São Francisco de Assis já existiam quarenta casas e uma escola.

Stradelli fez rápidos estudos, pois no início de 1882 já estava de volta a Manaus.

VIAGEM AO NEGRO E AO RIO BRANCO

Desde fevereiro de 1879, estava na região a Comissão de Limites destinada a demarcar a fronteira do Brasil com a Venezuela. Comandada pelo tenente coronel Francisco Xavier Lopes de Araújo, depois Barão de Parima, até 1880, demarcara o trecho entre o rio Memachi e o cerro Cupi e, a 10 de julho de 1882, seguiria para a fronteira do rio Branco.

Um dos dirigentes da expedição o capitão Dionísio Cerqueira, que se tornara amigo de Stradelli, convidou-o a participar dessa Comissão como adido amador. Com ele, visitou o rio Padauari, em março e abril de 1882; Tomar, em maio; Carvoeiro, em junho e daí ao rio Branco, voltando de lá com o trabalho incompleto, pelas dificuldades do terreno.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

O SERINGAL GUANABARA

Antonio José Souto Loureiro
Barracão do Seringal Guanabara, rio Yaco.


DE SERGIPE AO ACRE

Avelino de Medeiros Chaves
No ano de 1909, aos trinta e quatro anos de idade, o coronel Avelino de Medeiros Chaves ascendera à posição de um dos maiores seringalistas do Acre.

Nascera a 4 de novembro de 1875, no Estado de Sergipe, de onde partiu aos dezessete anos em direção ao Pará, para libertar-se das más condições de vida de sua terra natal.

De lá foi para o Rio, onde sentou praça, em 1893.

Voltou a Belém, onde concluiu o curso de Agrimensura, pela Escola Politécnica do Pará e foi para o Acre, em 1896, no interior da Amazônia, nos rios da borracha, o Paraíso dos Agrimensores, onde existia muito trabalho para eles, que se tornariam políticos importantes e proprietários de extensos seringais.

Lá tomou parte nas lutas contra os bolivianos e abriu uma estrada entre Xapuri e o Alto Iaco.

OS SERINGAIS

Onze anos após demarcar e da sua chegada ao Iaco, já estava rico. Naquele ano de 1909, o seringal Guanabara, no alto rio Iaco, produzira 190 toneladas de borracha, já tendo descido 144 toneladas pelo navio Índio do Brasil, o que lhe propiciaria um passeio pela Europa, para onde iria a passeio e a negócios, visando à aquisição de embarcações para as suas atividades produtoras e comerciais.
Navio Índio do Brazil
Esta produção de 190tons de borracha equivalia aproximadamente a 475.000 Libras Esterlinas, correspondentes a 8g de ouro, por libra, correspondendo a 3,8 toneladas de ouro, uma fortuna gigantesca para a época.

O seringal Guanabara era o maior diamante da sua coroa de Rei da Borracha do Acre possuindo uma área total de 2.535.000.000 metros quadrados, equivalentes a 253.500 hectares ou 2.535km2, um dos maiores do Acre, a margem esquerda do Iaco, a nove léguas de distância da fronteira peruana, chegando a produzir 300 toneladas de borracha anualmente.
Tornara-se sua propriedade desde 1898, mas só começara a ser explorado, em 1901, com 30 trabalhadores, em uma área onde existiam cinco grupos indígenas: os catianas, os mais numerosos, canamaris, inamarés, capixis e maneteneris.

A maior dificuldade no trato deste seringal sempre fora a navegação, pois os navios só iam até Santa Clara, porém, em 1902, ele conseguiu que o Augusto Montenegro chegasse até Porto Brasil. Algum tempo depois os navios atingiriam Guanabara, desde então o ponto terminal da navegação, no Iaco.

Em 1912, o império da firma A. Chaves & Cia, da qual era sócio o seringalista João Câncio de Lima, compreendia os seringais Brasil, Guanabara, Arvoredo e Peri, no Iaco; Canadá, no rio Acre; e Califórnia, Panamá e Mato Grosso, no rio Xapuri.

VIAGEM À EUROPA

Voltemos a 1910, quando Avelino Chaves resolvera fazer a sua viagem à Europa, como faziam os grandes seringalistas da época.

De descida, passando por Sena Madureira, informou aos amigos que ficaria hospedado no hotel Avenida, no Rio, e no Grand Hôtel, em Paris.

Durante esta viagem, a 2 de setembro de 1910, na Alemanha, ofereceu um almoço no Salão do Kaiser do hotel Adlon, ao qual compareceram cinquenta oficiais de alta patente das forças armadas prussiana e brasileira, ao qual compareceu o Marechal Hermes da Fonseca, em visita àquele país do qual era um admirador fervoroso.
Salão do Adlon Hotel, Berlim, 1910.
Em Paris, comprou o jornal Le Courier du Brésil, destinado à propaganda do Brasil, no Velho Mundo.

No seu regresso foi nomeado Comandante Superior da Guarda Nacional do Alto Purus, chegando à Sena Madureira, a bordo do navio Ajudante, sendo alvo de calorosa acolhida.

COMPRA DE EMBARCAÇÕES

Nesta viagem ao Velho Mundo, o coronel Avelino encomendaria três modernas embarcações para a sua firma: a lancha Sena Madureira, a Alvarenga Catiana e esse vapor Guanabara.

O barco principal, o Guanabara, tinha a sua primeira subida ao Iaco prevista para março de 1911, mas fora retardada por uma greve nos estaleiros ingleses, o que atrasara a sua entrega.

Fora construído pela Dundee Shipbuilding Co Ltd, de Dundee, na Escócia, em 1911, nº220, com 324tbr ou 175 net, 140x29x 7,9 pés, e usava máquinas W.V.V. Lidgerwood, Glasgow.
O magnífico Navio Guanabara
A lancha Sena Madureira foi feita nos estaleiros franceses Chaparelle, tendo o casco de aço galvanizado, 13 metros de comprimento, 2,80 metros de boca, 1,10 metros de pontal e 60 cavalos de força, e destinada à linha Iaco-Purus, até Boca do Acre.

Traria a reboque a Alvarenga Catiana, fabricada pela empresa alemã H. Holtz, com 48 pés de comprimento e 80 centímetros de calado, dispondo de beliches, banheiros e cozinha.

O jornal “A Província do Pará” informava que o barco fora classificado sob o nº100 A 1 do Lloyd Register, como navio de primeira classe para rios, possuindo quatorze camarotes de primeira classe, com divãs, beliches e guarda-roupas, acomodações de terceira classe, camarotes no bico da proa destinados aos oficiais, alojamento de oito camas para os tripulantes, duas câmaras espaçosas no convés reservadas ao comandante e ao proprietário e instalações sanitárias. Havia ainda um magnífico salão de refeições à popa, com quatro mesas de mármore, ventiladores, um piano automático com vasto repertório, e um salão para jogos e fumantes.

O barco fora equipado com câmaras frigoríficas, destiladores de água potável, uma máquina com a capacidade de fabricar 150 quilos de gelo por dia, um grande conforto para as regiões de calor tropical, além de luz elétrica.

As máquinas de tríplice expansão possuíam 350 cavalos de força, consumindo 6,5 toneladas de carvão por dia, e desenvolvendo 11 milhas por hora, em velocidade de cruzeiro, e 12, de máxima. Estava equipado com guindastes elétricos e lanchas com motores americanos.

A sua viagem inaugural começou em Belém, a 22 de janeiro de 1912, tendo a embarcação atingido Sena Madureira a 14 de fevereiro, após 23 dias, em um percurso relativamente rápido.

Conforme as descrições da época, o seu rancho primava pela qualidade, sendo composto de conservas e bebidas finíssimas compradas na França, Alemanha e Inglaterra.

Um diário desta primeira viagem foi publicado nos números 93 e 94, do Brazil Acreano, infelizmente incompleto, pela falta do segundo exemplar, na coleção que consultamos, do qual iremos publicar o primeiro trecho, por retratar as passagens de uma longa viagem, talvez de trinta dias, subindo o rio Purus.