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terça-feira, 1 de abril de 2014

PIMENTA NO FIOFÓ DOS OUTROS É REFRESCO

Olivia Maria Maia


Tem coisas que quando escrevo fico perturbada, sem ter certeza se o que guardei na memória é real, ou se as recordações estão temperadas com a imaginação.

A história das jiquitaias é uma dessas. Cabe uma explicação àqueles que nunca se depararam com uma formiga jiquitaia na vida.  Elas também são conhecidas pelos nomes caga-fogo, formiga-brasa, formiga-de-cemitério, formiga-de-defunto, formiga-de-fogo, formiga-doceira, formiga-lava-pés, formiga-malagueta, formiga-ruiva, itaciba, jequitaia, mordedeira, queima-queima etc. Tantos nomes para designar uma das menores espécies do reino das formigas. Não passam de uns pontinhos. O nome vem do tupi e está ligado a coisa ardida. Pois é, as danadinhas das jiquitaias têm uma ferroada ardida que você vai ver logo mais.

Sim, vamos em frente com recordações bem remotas. Éramos levados da breca e brincávamos soltos pelos quintais da vizinhança. O mais velho por volta dos nove anos. Havia uma premissa para a meninada — não perder tempo com inutilidades. Perder tempo significava se envolver em qualquer situação que nos afastasse das brincadeiras. Algumas, resolvíamos rapidamente. Por exemplo, quando sentíamos sede, chupávamos um caju ou outra fruta suculenta, e a sede era amenizada. Com a fome era semelhante: comíamos uma banana, goiaba, manga, um beribá, uma ingá, às vezes, várias juntas, uma verdadeira salada de  frutas.

Mas havia um momento em que, querendo ou não, precisávamos parar: era pra obrar (na realidade a gente dizia mesmo era cagar, mas acho tão feio  escrever ou falar cagar — bloqueio mesmo, sabe? — que resolvi grafar aqui o termo usual entre os adultos). Aí não tinha quem nos fizesse ir até o banheiro de casa, pois além de perdermos tempo, corríamos o risco de ser capturados por nossas mães para descansar um pouco, como elas costumavam dizer. Nunca entendi esse tal parar para descansar, pois não nos sentíamos fatigados. Acho engraçada essa mania das mães determinarem quando uma criança está cansada. Parece que elas possuem um termometrozinho nos olhos. Com as mãos nas cadeiras e o olhar de generalas, gritavam: Chega!  Você já está cansado demais, pode entrar pra repousar.  Ó sina, quando isso acontecia! Para evitar esse incidente catastrófico, optávamos por fazer nossas necessidades num lugarzinho por ali mesmo.

Bastava ir pra trás de uma moitinha, de uma árvore, ou qualquer coisa. E o serviço podia ser feito sossegadamente. Só havia um porém: como se limpar? Não havia papel, nem água. E não aceitávamos ficar sujos, pois além do incômodo dava uma assadura danada com aquele calor enorme. E ainda poderíamos ser denunciados pelo cheiro.

Aí, alguém, nunca descobrimos quem, sugeriu a utilização de folhas de árvores para fiofó limpinho.

Acabamos por nos aperfeiçoar na descoberta das folhas mais adequadas para substituir o papel — resistentes, macias, grandes. Ao mesmo tempo em que descobríamos, também, as não adequadas para tal função. Uma das não recomendáveis era a folha de goiabeira, não só pelo  tamanho e aspereza, cheia de pequenas nervuras, mas também porque costumava ter ninhos de jiquitaia. Às vezes, um pobre menino desavisado vinha pulando num pé só, com a cara vermelha e com as calças nas mãos. Surra de jiquitaia! Ainda não havia essa história de bullying, mas existiam os metidos a sabichão, que diziam:

— Tá vendo? Tem que aprender a escolher a folha certa, Mané! Deixa de ser mole, que nem arde tanto!

Que raiva que eu sentia, ao ver o pobre coitado sofrendo pelas ferroadas, e ainda sendo humilhado na frente da turma.

As pequeninas formigas, aparentemente inofensivas e sem cabeça, gozavam de um senso de preservação enorme. Possuíam mais juízo do que muitos humanos, e ocasionalmente mudavam de rumo, ou melhor, de moradia. Mudavam os ninhos para as folhas mais improváveis.

Lembro, como se fosse hoje, o dia em que o menino mais metido a esperto (aquele que chamava os outros de Mané) apontou lá no começo da rua, vindo do bairro da Cadeia Velha. Olhos esbugalhados, parecendo que comera pimenta. Engolindo seco e sem dizer uma única palavra. Apenas um nó subia e descia do pescoço, parecendo entalado com farinha d’água. Suado e fedorento. As ventas alargadas como se estivesse pegando fogo, e soltando fumaça por tudo que era buraco. Encostou-se desolado numa árvore. Foi descendo até o chão, esfregando a bunda, parecendo um gato quando quer se limpar.

A meninada toda se aproximou. Olhares dos mais diversos: pena, compaixão, espanto. Mas lá no fundo existia um olhar de vingança e um pensamento unânime que parecia ecoar por todos os lados:

— Vai, espertalhão! Agora tu vai saber que pimenta no fiofó dos outros não é refresco, fio de égua!

> Olivia Maria Maia é escritora acreana, radicada em Brasília. Autora de Em rio que menino nada raia não ferra (2010) e Se a catraia não virar (2013), a qual pertence o texto acima.
> Leia aqui textos de Olivia Maria Maia

segunda-feira, 10 de março de 2014

QUERO SER ANJO

Olivia Maria Maia


— Vó, posso entrar?

— Entre, Clarinha.

— A senhora anda tão quieta e sumida, Vozinha. Faz dois dias que não a vejo molhando as plantas — disse a neta, enquanto passava as mãos nos cabelos brancos de Dona Lucy.

— Nada não, minha pequena. O reumatismo me atacou.

— Vó, nunca ouvi alguém dizer que reumatismo ataca a língua das pessoas. Durante o jantar a senhora não deu uma só palavra. E tem passado o dia todo trancada aqui sozinha.

— Uhum... É só mesmo falta de assunto — disfarçou, baixando a cabeça para que a menina não visse a mentira estampada no seu olhar. Foi inútil.

— Mentir é feio... Foi a senhora mesma que me ensinou. Lembra quando me dizia que se eu mentisse meu nariz ia ficar grande?

Dona Lucy sorriu, procurando esconder o que não caberia na curiosidade de Clara. Abraçou-a, apertando-lhe as bochechas.

— Que bagunça, Vovó! A senhora tá arrumando as gavetas? — perguntou a menina, enquanto caminhava até a cômoda.

Dona Lucy pegou Clara pelas mãos. Apanhou um saquinho vermelho de cetim que estava na gaveta do móvel. Um cheiro forte de naftalina se espalhou pelo quarto, enquanto ela retirava de dentro uma melindrosa preta e uma piteira. Alguns confetes desbotados caíram sobre a cama. Ela segurou a longa piteira e colocou-a na boca. Rodopiou pelo quarto imitando baforadas de fumaça, enquanto cantarolava, imitando a voz do Francisco Alves:

Confete, pedacinho colorido de saudade... ai, ai, ai, ai... ao te ver na fantasia que eu usei, confete, confesso que chorei... chorei porque lembrei...  — parou bruscamente.

— Vó, a senhora tá chorando?

— Não, foi só um ciscozinho. Acho que foi a poeira dos confetes que estão aí escondidos há muito tempo — tentou disfarçar.

Pegou a melindrosa e, acariciando as franjas que insistiam em se desprender, sentiu o peito apertar de saudade: de Helena, Lúcia, Madalena, Célia... Do carnaval de 1952. Mais uma vez conteve as lágrimas:

— Quando chegará minha hora de usar, também, minha fantasia de anjo? — sussurrou.

Apenas o silêncio... De anjos, Clara entendia.


> Olivia Maria Maia é escritora acreana, radicada em Brasília. Autora de Em rio que menino nada raia não ferra (2010) e Se a catraia não virar (2013), a qual pertence o texto acima.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A FORÇA DE UMA CATRAIA

Isaac Melo

“Amo as palavras representantes das minhas saudades. Elas estão em mim sem cerimônias. Imorais. Amorais. Depravadamente intensas. É com elas que atravesso o mundo de labirintos mágicos e fantásticos da imaginação e me lanço inteira nos textos que escrevo”  Olivia Maria Maia


O vírus do amor ao livro é incurável. É o que costumava afirmar José Mindlin, o homem que fez de sua fortuna um monumento eterno à sabedoria. Cedo despertei para o universo dos livros, da literatura. Ainda menino de seringal, o meu primeiro e fascinante livro foi a floresta com seus encantos e desencantos. As águas de repiquetes eram páginas pujantes como as de Guimarães Rosa. O sol que, tardinha namorava as copas da samaúma e depois contente ia se deitar detrás da terra firme, era um poema de Drummond. A noite, com o mãe-da-lua cantando e que me fazia arrepiar, era um texto de Clarice Lispector. O cumaru, vigoroso e altaneiro, era a prosa de um Machado de Assis. O livro da selva e o livro de papel: um único fascínio. Mas por que esse meu culto ao livro? Porque o livro tem cheiro de gente, e nos faz ir além da gente. O livro, que é fruto de uma subjetividade, só se completa na intersubjetividade. Com as lentes da literatura eu vejo com mais nitidez a realidade do mundo e a minha própria realidade. Vendo-a, posso compreendê-la; compreendendo-a, posso vivê-la melhor. Por isso sou do mesmo parecer de Tzvetan Todorov: “Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente”.

Deixemos, no entanto, de proêmios. Em vez de crítico literário, tem-se aqui um crítico leitorário, cuja função assemelha-se a da peneira. A peneira filtra as impurezas. Deixa apenas o que é essencial. É a nossa pretensão. A viagem é a bordo da escrita de Olivia Maria Maia em Se a catraia não virar (Brasília, 2013). Este livro é uma catraia feita de sonhos e memórias. Tem remo talhado com elegantes palavras que parecem garças faceiras em final de tarde. E navega num rio largo feito a própria imaginação, o próprio mar. Não faz muito que me deparei com a escrita de Olivia Maia. Mas o tempo não conta quando a beleza desponta. Olivia escreve numa linguagem que todo coração entende, o da beleza. E a beleza, na minha reinterpretação de Frost, está no modo de se dizer uma coisa. Ela sabe dizer. E diz do seu jeito. Suas palavras saem com quentura, como quem escreve com a vida e o coração na mão. Sente-se o pulsar. O latejar da vida. E os seus textos são ela não poder estourar de viver (aqui reinvento Álvaro de Campos).

Olivia Maia principiou nos rios literários com Em rio que menino nada raia não ferra (Brasília, 2010). Geralmente um autor não alcança excelência na primeira obra. Pois, nas palavras de Vladimir Maiakovski, “um principiante, seja qual for seu talento, não conseguirá escrever logo de início algo que permaneça; mas por outro lado, o primeiro trabalho é sempre mais “vivo”, porque inclui todas as reservas de uma vida”. A meu ver, Olivia Maia, em sua primeira obra, já alcança grau de excelência. É tanto que esse seu segundo trabalho não opera uma cisão significativa quanto à obra anterior, diria, até, que se complementa, pois embora o viver seja múltiplo a vida é única. Vida que pode ser tanto real quanto fictícia. No papel, tornam-se literárias.

Ancoremos por ora nas terras acreanas. O berço de Olivia Maia. O mesmo que inspirou seu tio Mário Maia, médico, político e poeta, a escrever Rios e Barrancos do Acre (1968) e Sombras siderais e outras sombras (1990). A autora retornou àquele Acre das catraias. O Acre sem ponte, onde só a confiança era o que ligava as pessoas umas às outras. É o Acre da infância que ela recorda. E como é bonito o verbo recordar. Re-cord-ar, do latim, cor, cordis, o coração. Recordar é voltar-se para o que se centra e, assim, centrado, conserva e se conserva no coração. É voltar a ver a partir do coração. E Thiago de Mello sabiamente poetava que “a palavra da boca é sempre inútil se o sopro não lhe vem do coração”. Mas, afirmo de antemão, Se a catraia não virar não é uma obra regionalista, como alguns podem supor a partir do título. A verdade é que não simpatizo com o termo regionalista para literatura. Dá impressão que o sul e sudeste fazem literatura, e os demais, literatura regionalista. De fato, o livro de Olivia embebeda-se de alguns elementos próprios da cultura acreana. Mas as coisas de que trata são universais.

A memória, em Olivia Maia, não é tão só o ato de retornar ou recompor os fatos históricos. Não se trata de uma dispensa para a qual se volta no intuito de suprir ou preencher as necessidades do presente. Já entre os gregos havia Mnemosyne, a deusa da memória e mãe das Musas. Mnemosyne preservava do esquecimento as vivências do passado. Lethes, na cosmogonia grega, era o rio do esquecimento, ao cruzar a morada dos mortos as almas banhavam-se nele para esquecer a sua vida anterior. Portanto, não esquecer, para os gregos, relacionava-se à aspiração de infinitude. A memória é, assim, o museu onde encontra-se aquilo que é essencial. Nisso é que o efêmero tresmuda-se em perenidade. Por isso a autora afirma: “minhas memórias dizem muito sobre mim. Me revelo. Me perco e me acho. Estou em cada texto, em cada palavra, em cada ideia. Sou a somatória de minhas memórias”. Ao tornar presente o que está ausente, o passado se presentifica, agora não mais sob as amarras do tempo. Na atemporalidade da memória temos o nosso naco de infinitude.

Assim podemos identificar três fontes que alimentam as águas pelas quais navega a catraia de Olivia Maia: as reminiscências da infância, as histórias dos povos amazônicos dos rios e barrancos acreanos e as experiências de mulher vivida e amadurecida nas terras do planalto central e d’além mar. Foi aprendendo a gostar de ouvir que aprendeu a gostar de contar. Contando, encanta-se. Pois sem encantamento, sem pathos, sem paixão, sem tesão não há obra de arte, não há beleza. Daí a sua afirmação: “E me encanto no canto de um papel em branco, a ser preenchido por pedaços de mim; curvas de rio; rios de lembranças”. Aí pouco importa se o que ela conta é real, “ou se as recordações estão temperadas com a imaginação”. A autora ao dar-se a si mesma, revela-se a seus leitores. E ficamos como aqueles meninos bem espremidinhos para ouvir as suas histórias como eles ficavam para ouvir as histórias da seringueira Da Rosa. Ou corremos pela Avenida Brasil, em Rio Branco, em brincadeiras como a de boca de forno, onde o simples jardim do vizinho, aos olhos da menina, assume a magnificência do Jardim do Éden, a exprimir beleza e temor.

Nesta catraia há janela, a janela da casa de seu Armando. Janela que representava vida, esperança, abertura para o mundo, de onde a vida, como num poema de Drummond, “passava lenta, rua acima, rua abaixo”. Mas um dia a janela se fecha. É Mercedes que se foi, e junto foi o coração de Armando. A autora então impregna suas palavras com uma descrição de alta força e expressão poética: “A janela agora está morta. Não tem luz. Não tem brisa, nem perfume. (...) A janela perdeu a alma”. Algo semelhante ocorre quando a autora transforma a artista plástica Nice em mulher flor. A própria narrativa nos leva a caminhar com as duas pelo sítio de Nice, entre árvores, perfumes e flores. Se Bilac entendia as estrelas, a Nice de Olivia entendia a alma das plantas. Na alquimia do verbo de Olivia o resultado é sempre poético, de quem, com seu olhar, transforma a matéria bruta da vida em motivo de beleza. É ela quem afirma que olhamos e captamos os eventos do mundo com o que temos e somos. Nosso olhar não é passivo diante daquilo que contemplamos. Ele toca, e é tocado. Muda, e é modificado. Ficamos naquilo que olhamos. E o que olhamos permanece em nós. A prosa de Olivia são olhares múltiplos sobre a vida vivida, lembrada, sonhada, amada.

A catraia de Olivia não é um distanciar do mundo, senão um caminhar com o mundo. Não é uma observação passiva da realidade. O próprio ato de escrever já é em si ação, transformação, um agir sobre o mundo. É assim que a autora lança o seu olhar sobre os desafios que envolvem a sociedade a qual estamos imersos. Milton Santos já nos alertava que vivíamos a era da informação, mas não da comunicação. Por maior que seja o número de informações que temos hoje, a comunicação interpessoal se apresenta cada vez mais fragmentada e virtual. Por isso constata a autora: “Sim, ninguém existe. O que existe são muitas vozes nos telefones”. As novas tecnologias da informação e da comunicação acabaram tendo um efeito inverso, em vez de aproximar as pessoas acabou por distanciá-las ainda mais. Embora tenhamos a sensação de proximidade, a proximidade virtual, estamos cada vez mais isolados: “A sensação que me deu é que ninguém mais quer olhar para o outro. Os outros não contam. Não existem”. Até mesmo as celebrações e festas em família deterioram-se. As casas, que eram lugares centrais, de encontro das famílias e amigos, cedem lugar aos clubes e espaços sociais próprios: “E por fim, onde andam as reuniões com mesas fartas de pão, vinho e comunhão, família, amigos?”. A simplicidade da vida é preenchida por espetáculos e encenações vazias. Endividamo-nos para comprar presentes caros, como se no preço estivesse a garantia do amor, do afeto. E nos esquecemos daquele avô que, na noite de natal, deu a seus filhos uma pamonha. Não era, todavia, só uma pamonha. Era o sentido da própria união que fortalecia e mantinha aquela família. Tudo isso se revela na prosa de Olivia Maia.

Um verso de Alberto Caeiro diz: “Porque eu sou do tamanho do que vejo”. Quando se fala de Brasília, por exemplo, Olivia Maia vai além. Onde muitos veem apenas o centro do poder, carcomido e mal-cheiroso, ela vê música, poesia, flores. A sua percepção de mundo opõe-se aos estereótipos, aos pré-conceitos, às verdades pré-fabricadas. Ela é aquela que se ajoelha “agradecida àqueles que não deixam nossa alma se tornar árida e ressequida, como as que só conseguem ver o concreto, seja na arquitetura, seja no ser humano”. É esse olhar mágico que faz com que ela, deitada na rede da varanda, faça surgir no gramado solitário meninos em algazarras, a correr, a gritar, a cantar. A mesma magia que envolve as lembranças do irmão, que “soltou os pés do chão e elevou as asas ao Céu”. Ou da Clara, que entendia de anjos, “mas de saudade, apenas silêncio”.

Quero, porém, me deter em dois textos específicos de Se a catraia não virar, onde a autora, a meu ver, alcança a excelência de sua prosa, tanto pela força de expressão quanto pelas imagens que evoca. Trata-se de Se a catraia não virar e Portas abertas para a morte. No primeiro, a autora nos leva ao Acre das catraias. A cidade de Rio Branco, capital do Acre, desenvolveu-se às margens do Rio Acre. De um lado ficava o primeiro distrito, à margem esquerda, onde localizava-se o centro do poder governamental; mas era no segundo que ficava a parte comercial e mais badalada da cidade, à margem direita. Até 1971, quando inaugurou-se a primeira ponte sobre o rio, o único meio de ir de uma margem à outra era por meio das catraias, pequenas embarcações, a remo, conduzida por um catraieiro. Tendo presente este contexto, podemos embarcar na catraia junto com a Menina e sua Mãe num sábado qualquer de janeiro de 1960.
CATRAIAS NO RIO ACRE - Catraias no antigo porto do Jabuti, no 2º Distrito de Rio Branco.
Foto in Tarauacá Notícias.

A história dá-se em torno da Menina que acompanha sua mãe às compras no outro lado do rio. Tem-se de primeiro momento a menina que desperta envolta num cheiro forte de perfume. O cheiro lhe remete à mãe, portanto: “mãe cheirosa, passeios na certa”. Daí surge a estupefação da filha ante a mãe que arruma-se. A mãe, aos olhos da filha, reveste-se de uma beleza encantadora, uma diva glamurosa. Então, como numa sequência cinematográfica, segue a mãe com a filha para o segundo distrito. Aliás, um dia hei de ver, quem sabe, esse texto transposto às telas, sem muitas palavras, cada imagem fala por si: a mãe a arrumar-se, a estupefação da filha, o rio, a catraia, a travessia, a apreensão, o medo, a sequência das lojas... Enfim, tudo nos lembra uma sequência de cinema, num estilo profundo talvez de um Ingmar Bergman.

Entre a Mãe e a Menina percebe-se, no entanto, dois mundos diferentes. A Mãe tem o olhar consciente sobre a realidade, enquanto a Menina olha o mundo com os olhos da magia: “sim, para a Menina a travessia do rio era uma aventura”. Onde a mãe vê chuva, perigo, a menina vislumbra um mundo mágico, onde só se vê bem com os olhos da fantasia. Frente à iminência da chuva, portanto, da cheia do rio, a mãe apressa o passo, mas “para os olhos da Menina nada era tão veloz a ponto de não lhe deixar perceber o mundo ao seu redor”. A menina de mãos dadas com a mãe a acompanha enquanto um mundo encantador se vai lhe desvelando. É assim que a menina quer que se apague a luz do sol para ver o colorido da fonte luminosa: “de seus olhos saíam sorrisos coloridos e ondulados como o bailado das águas que ali jorravam nas noites de domingo”. É assim com as lojas, a livraria, a barbearia, a sorveteria... um percurso mágico até chegar à catraia.

Na catraia, apesar do medo, a filha sente-se segura sentido a firmeza da mão da mãe. Se a mãe segue temerosa, a travessia para a Menina é momento de sonhar. À pergunta da filha para onde vai toda aquela água, a mãe responde que vai para o mar. Mas a menina não sabe o que é o mar. Então, mirando as águas do rio e depois a saia azul da mãe, a menina dá forma a seu próprio mar. O mar azul de que sua mãe falara agora é real. E aquela catraia é capaz de conduzi-la até ele, se ela não virar. Ao receber o livro de Olivia Maia fiquei meio ressabiado em relação à capa. A fotografia de uma catraia cruzando o rio Acre viria a calhar melhor, pensava. No entanto, no decorrer da leitura da obra, percebi que a catraia da Olivia era muito diferente da catraia da Menina. Uma levava para a outra margem do rio Acre, a outra, para o mar.

Passemos então à catraia de Portas abertas para a morte, o nosso segundo texto escolhido. A narrativa é breve: Ana assassinada por Roberto, depois que prometera seu último perdão. É poema-conto. Um conto-poema. Um texto, a meu ver, digno de figurar em qualquer importante antologia. É ímpar na força de expressão, no ritmo, nas imagens que evoca. Quando li o texto a primeira vez sentir um arrepio. Digo, arrepio mesmo. O meu corpo sempre reage frente a algo que me impacta. É como se ele dissesse: isso não sinto todo dia, não é comum. As palavras encarnavam-se, saíam do papel, e percorriam o meu corpo. No conto, a meu ver, o que está em jogo é a paradoxal condição humana. Digo paradoxal, e não contraditória, porque o ser humano é isto, mas é aquilo também: “a mão que afaga é a mesma que apedreja”, constata um verso de Augusto dos Anjos.

A catraia de Olivia é feita com a madeira da prosa, mas o feitio é todo poético. Em Portas abertas para a morte, em específico, isso fica evidente. Temos aí o que o poeta Ezra Pound definia como literatura: “linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”. Aí as palavras revestem-se de uma força poética e dramática de um modo impressionante. Nada está fora do tom. As palavras têm a força de um tiro, mas nos envolvem de modo suave e leve como o perfume das rosas. No meu parco entender, temos assim o ponto alto dessa catraia de Olivia, uma Olivia para além até mesmo de Em rio que menino nada raia não ferra.

A catraia de Olivia, porém, é muito vasta. Vai... Vai para o mar. Cada um que nela embarcar descobrirá que o melhor da travessia é o atravessar, onde o remo da imaginação é o que faz a catraia mover-se. Ela bem diz: para os que plantam palavras há de florescer emoções. Com ela também sonhamos com aquele lugar onde possa reinar “a poesia, a justiça, a beleza, a esperança...”, porque cada um de nós pode fazer surgir uma praça Saramago em seu coração ou pegar sua mochila e “sair pelo mundo em busca de sossego”, ou mesmo ler poesia pela manhã, afinal, não há idade para o amor, pois lobo ou vovozinha, a vida é mesmo para quem sabe amar. Se a colcha da vida vai se tecendo com os retalhos dos afetos e perdas, o fio que os atam há de ser as lembranças e a saudade. Em Se a catraia não virar Olivia Maia agigantou-se. Suas palavras criaram asas. Alçaram voos mais altos. E do alto, com a visão alargada, alargou-se a si mesma. Então a sua beleza pode enfim ser nos dada. Só quem viveu e amou sabe a medida das palavras.


> Leia aqui textos de Olivia Maria Maia
> Leia aqui um comentário sobre Em rio que menino nada raia não ferra

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

NOVO LIVRO DE OLIVIA MARIA MAIA

A escritora Olivia Maria Maia lança no dia 17 de agosto (sábado, às 19h30), no Bar do Brasil (202 Norte), o seu novo livro, Se a catraia não virar (Edição do Autor). Nascida em Rio Branco (AC) vive em Brasília desde 1972, onde se formou em Sociologia, Psicologia; teve filhos e netos. Nessa obra, como disse o poeta Nicolas Behr, a  autora, com uma prosa leve e solta,  é como um rio que começa largo e manso mas logo vira correnteza. "Fernando Pessoa disse que 'é o tempo da travessia e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado pra sempre, à margem de nós mesmos'. E eu ousei, com este novo trabalho, fazer travessia no rio da minha terra, e também em rios de palavras",  confessa a acreana, que teve o primeiro livro, Em rio que menino nada raia não ferra, boa acolhido pelos leitores e pela crítica.

Para o jornalista e escritor Mario Pontes, que foi editor do caderno Livros do Jornal do Brasil, por mais de 20  anos, Olivia em seu livro de estreia reconstitui, com notável força poética, paisagens e figuras humanas do início de sua vida em meio às terras, florestas, águas, dias e noites do Acre. "Por vários motivos, a ficção de Olívia atrai o interesse do leitor.  Primeiro, pelo modo firme como suas  narrativas são construídas, proporcionando um bom equilíbrio entre os  elementos memorialísticos e a invenção dramática. Segundo, pela qualidade do humor, que não  interfere na viagem ao interior dos personagens, mas contribui, ao contrário, para revelar sua riqueza ou pobreza interior. Finalmente, porque ela capta os movimentos da existência no âmbito do próprio ato de viver, levando  suas criaturas a entrar e sair vivas das histórias, e não apenas a circular sem propósito no interior de cada página", diz Pontes, que publicou diversos livros de ficção e ensaios, tendo ainda traduzido 30 livros, entre os quais obras de Camilo José Cela, Júlio Cortázar e Isabel Allende.

Em Se a catraia não virar, Olivia confirma e vai além do que nos brindou no livro de estreia. Nessa viagem ela não se limita a reminiscências, mas transita das saudades infantis à indignação com a violência urbana, num passeio literário que terminará no mar, ou numa praça Saramago, que a autora constrói no coração.

> Leia aqui meu comentário sobre Em rio que menino nada raia não ferra, o primeiro livro de Olivia Maia.
Leia aqui minha crítica a Se a catraia não virar.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

CHEGA DE CONVERSA MOLE

OLIVIA MARIA MAIA


Cheguei ao Shopping um pouco mal-humorada. Explico. Não gosto de Shopping Center, pois me dá uma sensação de aperreio. De falta de ar. De poluição visual. Aquele mundo de vitrines com os produtos piscando para os passantes: comprem-me! Prefiro comércio de ruas. Ultimamente ando frequentando, já que a maioria das boas salas de cinemas se encontra nesses monstrengos. Pois. Um dia, na saída do cinema, vi uma botinha muito simpática e ontem resolvi comprá-la. Sabia mais ou menos o rumo da loja e fui direto pra lá. Quando senti um esbarrão. Uma moça pendurada em um celular quase me derrubou, e seguiu em frente. Desculpas, para quê? De certo não poderia interromper o papo com a pessoa do outro lado da linha. Fiquei indignada, mas certa de que adiantaria falar nada já que eu “não existia”. Sim, ninguém existe. O que existe são vozes... Muitas vozes nos telefones.

Resolvi sentar pra tomar um café e observar as pessoas que passavam, com o firme propósito de contar quantas estavam falando ao celular. Devo dizer que me senti uma idiota, pois o difícil foi ver alguém que não estivesse falando no tal aparelhinho. Eram jovens, velhos, crianças, homens, mulheres... A única coisa que me veio à mente foi: o que esse povo tanto fala? Que tanto assunto, gente! Me bateu um tédio... Tenho sentido falta de um bom dia, um oi, olá, como vai? Um desculpe-me... Um olhar. A sensação que me deu é que ninguém mais quer “olhar” para o outro. Os outros não contam. Não existem.

Juro que não estou aguentando tanta conversa mole. Ando de saco cheio de ter que ouvir conversas alheias: como a da mulher que no meio do supermercado fica falando em alto e bom som com a empregada, perguntando se ainda tem alface para o almoço. Ou a da mocinha que, na fila do Banco, conta pra amiga como foi a noitada com o “ficante” no barzinho. A da mãe histérica dando ordens para o filho fazer tarefa. A da moça no salão de cabeleireiro fazendo futrico da roupa da melhor amiga. A conversa do casal no restaurante, que enquanto aguarda a comida - ela fala com a mãe sobre as crianças, e ele com o amigo sobre o trabalho. Ou a fala do sujeito que mal acaba de sentar ao meu lado no avião e liga para mulher avisando que já embarcou... E tão logo a aeronave para no pátio, é um alvoroço... Parece uma comoção coletiva, todos enfiando a mão nas bolsas, pastas, bolsos à procura do famigerado aparelhinho. E nem adianta você tentar mexer-se para pegar seus pertences, que eles te olham de cara feia tipo insinuando: não tá vendo que eu preciso telefonar?!

Sim. Tem mais. Depois que inventaram a tal de ligação com tarifas por chamada (tipo R$ 0,21 com tempo indeterminado), minha tortura, de ter que ouvir conversas que não me dizem respeito aumentou ainda mais, e com mais um complicador. Literalmente tive que colocar ordem na casa.

− Francisco! Francisco! − chamei o jardineiro para pedir-lhe que podasse uma árvore que estava alta, e nada de o cabra aparecer. Saí à sua procura, e me deparei com ele embaixo da mangueira com o celular... E trololó... trololó... Quando me viu, fez sinal com a mão para que eu esperasse. Esperei... Passaram vinte minutos e ele veio me perguntar o que eu desejava... (naquele momento o que desejava era lhe dar um esporro, mas fiquei calada).

E o rumo da prosa foi aumentando. Procurava o Francisco e lá estava ele encostado à máquina de cortar grama (desligada, claro)... Celular no ouvido... trololó... trololó. Um dia eu estava escrevendo, no escritório. A janela dá pra área da frente da casa e quando olhei para o gramado vi o jardineiro “trabalhando”. Acocorado, como se estivesse retirando mato da grama. Percebi que ele não se mexia (ou melhor, as mãos não se mexiam – uma na orelha e outra parada segurando uma machadinha). E lá estava no celular... Trololó... trololó. Resolvi então marcar a duração da ligação, dessa vez sem incomodá-lo. Uma hora e quinze minutos (sentou, acocorou, riu, falou e falou). Quando ele terminou, fui lá fora e perguntei:

− Rapaz! Será que esse serviço fica pronto hoje? – Ele me olhou com cara de: não estou entendendo! O que estou fazendo de errado?... Tô só telefonando. – Então eu acrescentei:

− Com mais um telefonema desses, a metade do teu dia vai ser descontada, sabia?

Ele me encarou como se eu estivesse lhe fazendo a maior injustiça. Quando eu notei que o pouco pra ele era muito pra mim, decretei:

− Cara, ou tu desligas a porra desse telefone ou vai procurar emprego em outro lugar.

Na semana seguinte ele chegou com um fone de ouvido. Agora fala e trabalha. Pronto, resolvida a questão, dele claro, pois meu jardim está um caos.

Alguém conhece um jardineiro que não use celular, para me indicar?


* Olivia Maria Maia é escritora acreana, autora de EM RIO QUE MENINO NADA RAIA NÃO FERRA (2010). Reside em Brasília.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

UM POUCO MAIS DE GOMA, DONA MININA

Olivia Maria Maia

Sergio Bastos
Era assim, nas tardes quentes de sábado da Avenida Brasil, em Rio Branco, Acre: a meninada juntava suas moedinhas conseguidas com muita peleja e saía pras bancas de tacacá. Eu ia com as minhas bem apertadinhas na mão, pois qualquer descuido era o bastante para que uma se perdesse. Aí, adeus, tacacá.

Na década de 60, as bancas eram montadas em frente às casas. Uma pequena mesa forrada com uma toalha limpa, outras nem tanto. Um tamborete com dois fogareiros — um com a panela de tucupi misturado com jambu, e a outra com goma. Uma vasilha com camarão seco. As cuias distribuídas sobre a mesa, por ordem de tamanho — pequena, média e grande — ou, melhor dizendo, de preço. Um vidro de molho de pimenta cumari. E uma lata de água ao lado de uma bacia, para a lavagem das cuias. Esse era o arsenal necessário para servir o manjar dos deuses dos nortistas — o tacacá.

— Mãeeeee! Já posso ir?

Deitada na rede de fibra de tucum, enquanto pegava uma fresca, ouvindo Anisío Silva, a mãe respondia:

— Espera, menina. Deixa dar três horas.

A voz proveniente da vitrola, que se misturava com o rom-rom da rede e o chiado do disco de setenta e oito rotações, fazia minha mãe revirar os olhos pelos Silvas, que costumavam fazer sucesso lá por casa: “Alguém me disse que tu andas novamente, de novo amor, nova paixão toda contente...” Depois seria a vez de outro Silva, o Orlando. Conhecíamos essa turma como a palma da mão, a voz deles e a de outros.

— Esse fanho não para de cantar, mamãe vai perder a hora — ficava eu resmungando pelos cantos da casa, enquanto calculava o tempo para repetir o pedido. A algazarra já começara a crescer. Minhas amigas Alair, Otília e Ducarmo (os meninos não se misturavam) já iniciavam a passação pela frente de nossa casa, enquanto eu e minha irmã continuávamos trancafiadas. Mas era preciso ter cuidado. Mãe irritada é um perigo!  eu pensava, fazendo força pra manter a paciência.

Minha mãe sabia o horário em que as bancas eram montadas. O que fazia era administrar o tempo. Três horas. Sim, essa era a hora. O sol escaldante, o calor por volta de quarenta graus. A suadeira escorrendo. A língua, tremelicando com o efeito do jambu, atiçava o desejo pelas mariolas, que ficavam, também, junto às cuias, e que acabavam por ser um luxo para aquela criançada. Depois, quem ainda possuía alguma moedinha ia tomar sorvete de cupuaçu, graviola, cajá, mangaba e outros, na sorveteria do Fabiano. As minhas reservas eram, na maioria das vezes, reduzidas. Só davam para um tacacá na cuia média e um picolé de groselha. Mas eu sonhava alto, com um delicioso sorvete de cupuaçu.

Aí, eu escutava o outro Silva cantando — “Adeus, adeus, adeus cinco letras que choram num soluço de dor. Adeus, adeus...”

— Ops! Tá na hora. Já tocou mais de uma música do outro Silva — deduzia eu, com água na boca. Éramos liberadas após uma espera que parecia uma eternidade. Encontrávamos as amigas e seguíamos para a banca de tacacá mais próxima.

— Dona Minina, quero um tacacá pequeno com pouca goma.

Pedia com os olhos aflitos, acompanhando a mão que se dirigia para a cuia. Havia algumas diferenças mesmo na classificação P, M, G, já que as cuias eram feitas de cabaças, e na natureza não tem forma perfeita, ou, neste caso específico, a perfeição é diferente. Às vezes, uma cuia era tão pequena que doía na alma.

Recebia o meu tacacá. Colocava o sal e a pimenta. Mexia pra lá e pra cá. Ensaiava uns golinhos. Disfarçava pra um lado, puxava conversa pro outro, e aí vinha a primeira jogada:

— Dona Minina, meu tacacá tá tão mole, a senhora pode colocar mais um cadim de goma?

Com o olhar complacente, ela empunhava a colher grande de alumínio e derramava um pouco daquela gosma em minha cuia. Eu misturava pra cá, temperava pra lá, e carregava na pimenta. Não podia haver drama de consciência. O tacacá tinha que arder, realmente.

— Dona Minina, eu errei na cumari. A senhora pode colocar um cadim mais de tucupi?

Meus olhos ardiam por causa da pimenta, enquanto os dela ardiam de impaciência. Ela, mesmo de má vontade, despejava um pouquinho mais de tucupi.

— Dona Minina... agora desandou! Tá molim, molim. Põe mais um cadim de goma...
O olhar agora era de raiva, de quem já estava de saco cheio.

— Oh, menina! Vê se da próxima vez pede mais dinheiro pra tua mãe! Esse tacacá pequeno já está grande demais — reclamava, enquanto derramava uma concha rasa de tucupi, sem uma folhinha sequer de jambu. Mal sabia ela que na próxima seria... outro dia, outra vez, outra banca.


Saíamos. Eu, feliz da vida e de barriga cheia, olhava a preciosa moedinha que economizara. Cinquenta centavos. O necessário para...

— Seu Minino... põe um sorvete bem grandão de cupuaçuuuuuu!!!



* OLIVIA MARIA MAIA é escritora acreana.
** Crônica publicada no livro Em rio que menino nada raia não ferra (2010) – Disponível na Livraria Nobel (AC).

quinta-feira, 26 de julho de 2012

LEMBRANÇAS DE CHEIROS

OLIVIA MARIA MAIA


Sinto o cheiro de óleo de peroba e lembro-me do Natal. Perguntarão alguns: — Natal? O que tem a ver peroba com Natal? Não seria cheiro de peru, galinha, pato, marreco, porco?

Explico.

A casa em que nasci era de madeira e avarandada. Situava-se na Avenida Brasil, perto da Praça do Quartel. No coreto, a banda de música da tropa da Guarda Territorial do Acre tocava aos domingos, após a missa.

Na semana que antecedia o Natal, minha mãe começava os preparativos para o grande dia. O início era a limpeza. Todas as casas são limpas e arrumadas, principalmente para festejos. O que a minha tinha de diferente? É que muitas outras não tinham “perna manca” — peça de madeira, que nunca entendi muito bem por quê, recebia esse nome —, nem eram enceradas com óleo de peroba.

E lá estava minha mãe, com um balde de água, limpando tudo... Depois, vinha a parte que mais me chamava a atenção. Ela pacientemente pegava um pano e ficava lustrando as ripas, a perna manca, com óleo de peroba. Passava várias e várias camadas, até que o brilho aparecesse.

Na véspera do Natal, enquanto ela adiantava a ceia assando peru, leitão e bolos, intercalava os afazeres com mais uma mãozinha de óleo de peroba.

Chegava o grande dia. Os encostos das cadeiras, vestidos com paninhos de linho, impecavelmente passados na goma. A toalha de mesa, guardada durante todo o ano apenas para aquela ocasião. Tudo pronto. Sentávamos à mesa, meus pais, eu e meus cinco irmãos.

Olhos arregalados, esperando as guloseimas. De repente, a entrada triunfal de Sua majestade o Peru, decorado com jambos, carambolas, cajás e... Ah! O cheiro de peroba no ar. Era Natal. Papai Noel vinha nos visitar e, certamente, adorava o cheiro de óleo de peroba.

Fecho os olhos, depois de quase cinquenta anos, e sinto a lembrança do cheiro... peroba... emoção... cheiro... peroba... saudade...



* OLIVIA MARIA MAIA é escritora acreana.
** Crônica publicada no livro Em rio que menino nada raia não ferra (2010).

sexta-feira, 20 de julho de 2012

COPO DE LAMA

OLIVIA MAIA


Bem-aventurado o poetinha Vinícius de Moraes quando disse que a crônica deve ser um copo de água fresca, limpa e luminosa. Sempre concordei com Vinícius, durante todo o tempo que escrevo esse gênero. Ando em crise nos últimos tempos. Quando inicio um texto meu coração aperta, as ideias não saem. Fogem. As poucas que insistem em sair são permeadas de dor, de desesperança. Um copo de água salgada. Crônicas com lágrimas...

Existem momentos em que parece que os porões das sombras são abertos de maneira tão intensa que nos aterroriza. Somos inundados de tragédias, de dramas, de dores. Este é um desses momentos. Abre-se um jornal ou revista, liga-se a TV e lá está estampada a morte: matou porque o outro era gay; porque olhou para a sua namorada; porque não aceitava a separação; porque se dizia hostilizado; porque desejava a herança. E somos entupidos pela morte. Muitas.

Duas em Cunha (cidade do interior paulista). Duas irmãs que não tinham medo do lobo-mau da mata em que moravam na zona rural. Por causa da lama e dos buracos, o ônibus que as transportava da escola para casa as deixava a mais de um quilômetro de onde moravam. E foi nesse percurso, caminhando já no escuro, que o lobo assassino as executou. Motivo? Quem tem medo do lobo mau, lobo mau, lobo mau... Lobo bobo, nós não gostamos de você... – talvez elas tenham cantado ao entardecer.

Doze... Doze crianças fuziladas. Realengo. Realeza. Real... Muita falação e pouca ação: governador, prefeito, secretários, repórter procurando o furo de reportagem; emissora se dizendo a única a obter informações exclusivas sobre o caso; legistas opinando; psiquiatras e psicólogos transformando-se em estrelas televisivas e sendo disputados a preço de ouro para programas e telejornais.

E eu, que ainda não curei minha dor pelas vítimas das tragédias do Rio de Janeiro, de Friburgo, de Petrópolis, da favela do Bumba, e tantas outras que depois de saírem dos holofotes da mídia continuam na situação de abandono em que ficam os desamparados pelo poder público.

E de tanto lembrar e relembrar... esqueço! Realmente, estou em crise existencial e não consigo produzir nada. Nem mesmo um grito de indignação. Sinto-me afogada num copo de lama podre.

Meu poeta! Mande a bem-aventurança. Aí do seu lugar de estrela, envie a luminosidade necessária para que eu consiga produzir uma crônica como um copo de água limpa e cristalina... Onde reine a poesia, a justiça e a beleza...



* OLIVIA MAIA é escritora acreana.

Nota do blog.: a crônica, apesar de refletir acontecimentos passados, continua a tocar em pontos atuais. Na 'angústia' da cronista, a angústia de um país em que os acontecimentos de ontem, assustadoramente, parecem ser repetir nos de hoje.