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terça-feira, 7 de junho de 2016

O PRESENTE

Robélia Fernandes de Souza 


Foi quando chegou à cidade um desconhecido tio da menina, irmão do pai que ela também não conhecia.

A mãe vestiu-lhe o melhor vestido, arrumou-lhe os cabelos com uma tiara, examinou-lhes as unhas – estavam limpas – levou-a ao hotel onde o tio hospedara-se. Até lá não foi. Ficou na esquina, a pouca distância.

– Você chega lá, diz que quer falar com o tio Armando. Armando Fernandes. Diga-lhe que já está na 5ª série e que este ano vai estudar no colégio das freiras. É uma escola melhor e que arranjamos uma bolsa para seus estudos. Não fale que você tem uma irmã. Não lhe conte nada de nossa vida. Se ele perguntar, diga-lhe que quer o uniforme e o material escolar. Fale corretamente, com educação e de cabeça levantada. Agora vá, eu fico aqui esperando você.

A filha criou-se sem o pai. O casamento não deu certo. Se por causa dos ciúmes da mãe, se por causa da infidelidade do pai... o certo é que não se acertaram. A separação foi rápida, a vida a dois não vingou. Para ele, outra cidade, outra vida, nem conheceu a menina. Nunca mais se encontraram. Crescia ouvindo a mãe a dizer que o pai era um desgraçado, nunca quis saber da filha, mas que era mulher suficiente para criá-la sozinha.

Mas não era tão fácil criar uma filha sozinha. A armadura de heroína, que ela mesma inventara, começou a pesar-lhe a cada dia. A filha crescendo, precisando de tudo, o salário de diarista curto.

Arranjou outro marido. Outra filha. Outra separação. Agora eram duas pra criar.

Assim, quando recebeu o recado do ex-cunhado de que estava na cidade, por dois ou três dias, e que queria conhecer a sobrinha, pensou que os santos resolveram ajudá-la. O uniforme da filha era caro e exigido desde os primeiros dias de aula. Depois da primeira semana, sem ele, o aluno voltava da porta do colégio. E os livros, cadernos e toda a parafernália que os professores exigem? Sabia que o ex-cunhado era uma pessoa generosa, muito diferente do irmão. Só não queria que ele soubesse dos desencontros e desacertos de sua vida, outra união desfeita, como se ela não tivesse as qualidades necessárias para manter um relacionamento a dois. Além disso, envergonhava-se de sua aparência atual, cabelos maltratados, mãos ásperas. Certamente, mais cedo ou mais tarde, ele contaria para o irmão e isso ela não queria. Por isso não foi encontrá-lo no hotel e, por isso mesmo, as recomendações à filha.

O tio era alto, muito branco e calvo. Na opinião da menina, muito bonito. Recebeu-a com alegria e mesmo sem muitos afagos, abraçou-a, puxou conversa. Qual a idade? Onze anos? Já na 5ª série? Parece muito com sua mãe, sabia?

Ela sabia.

Respostas lacônicas, com muita reserva e timidez. Na ponta da língua, a pergunta do presente. Na cabeça, a recomendação da mãe: não conte nada de nossas vidas.

Ele mostrou-lhe uma fotografia do pai: Por fotografia já o conhecia, disse-lhe. Tem em casa a fotografia do casamento. O tio ficou, de repente, mais sério.

– Sabe, sua avó faleceu faz poucos dias. Ela queria muito conhecer você.

– Morreu?

O coraçãozinho não doeu nada. Mais conversa, mais conversa, até que o tio lhe faz a tão esperada pergunta.

– Então, minha sobrinha, o que você quer de presente do tio Armando?

Calou-se, olhou o bico dos sapatos, envergonhada. Lembrou-se das palavras da mãe: – foi Deus quem te mandou esse tio.

– Então, querida, o que você quer?

Criou coragem. Era uma oportunidade única. Ginásio ou não, queria ter o que nunca teve.

– Uma boneca. Uma boneca grande, de cabelo louro e que abra e feche os olhos.

– Uma boneca?

– É – responde com convicção. – Uma para mim e outra para minha irmã menor. Sabe, o pai dela também foi embora!

As duas bonecas foram compradas na loja próxima ao hotel. O tio nem perguntou o preço. 


SOUZA, Robélia Fernandes. Contos esparsos. Rio Branco: Estrela Gráfica & Editora, 2009. p.30-32

sexta-feira, 13 de maio de 2016

AS BALSAS

Robélia Fernandes de Souza 


A balsa!
Olha a balsa!
Uma, duas, três
Enchiam todo o estirão
Rio a baixo
Iam descendo
Sem banzeiros
Sem mapa
Sem relógio
Sem data
Iam para bem longe
Bastava o rio querer
E o rio não se cansava

Desciam devagarinho
Lentas e preguiçosas
Serpentes de pélas
Ao mandar das águas
Levando no lombo
A fibra do homem
Que se fez espectro
Defumando o látex 


SOUZA, Robélia Fernandes de. Asa de vida. Rio de Janeiro: Oficina do Livro, 1992. p.67

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

TRÊS POEMAS DE ROBÉLIA FERNANDES

SEM TESTEMUNHA


A janela fechou-se
Num supetão
Não viu a chuva
Espatifar-se na calçada
Enquanto o vento
Ao relento
Como um cão
uivava


IPÊ AMARELO


Minha mão madura
Fez-se leve
Fez-se pura
No plantio do ipê!
Raizinha do meu verde
No verde que vai crescer

Um dia...
Eu já no tempo esquecida
Os herdeiros do meu sangue
Herdarão flores amarelas
Se um pouquinho de mim
No perfurme da lembrança,
Quem me dera!


RIO DE LEMBRANÇAS


A memória
Num rio de lembranças
É canoa alagada
Na margem esquecida
Na margem encalhada

Porque nas águas do tempo
O que já foi
Não é mais
Nem mais será
O passado
Navega
Sem seguir viagem



SOUZA, Robélia Fernandes de. ConVerso Novamente: poesia. Rio Branco: Tico-Tico, 2004. p.39, 67, 87


* Robélia Fernandes de Souza é da Academia Acreana de Letras. Autora de Asa de vida (1992, poesia), Conversa Afiada (1996, conto), Boquinha da Noite (2003, folclore infantil) e ConVerso Novamente (2004, poesia).

> Leia aqui outros poemas de Robélia Fernandes de Souza.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Série A POESIA ACREANA > ROBÉLIA FERNANDES DE SOUZA

Robélia Fernandes de Souza estreou na literatura a partir da década de 80. Mas desde o Colégio Acreano, já escrevia. Manauense de nascimento, ainda criança veio para o Acre, terra de seus familiares maternos. Graduou-se em letras pela Universidade Federal do Acre. Por muito tempo exerceu o magistério na área de Língua Portuguesa e Literatura. Ocupa a cadeira 35 da Academia Acreana de Letras.

Na poesia, estreou com o livro Asa de vida (1992). Depois vieram Conversa Afiada (1996), contos, e Boquinha da Noite (2003), acerca do folclore infantil acreano. Em 2004 publicou ConVerso novamente, o segundo livro de poemas da cronista-poeta. Porém, Robélia Fernandes sempre teve uma presença ativa nos jornais e revistas, além de participar de várias antologias locais e nacionais.

A voz lírica de Robélia Fernandes se acentua em temas que vão além de qualquer regionalismo, como exige a poesia. Para Clodomir Monteiro “não estamos diante de uma memorialista. Ela não oferece e nem cobra linearidade”. De seus versos emana um “universo metafórico dos fenômenos da natureza, seres e sentimentos”, acentuados por uma voz feminina. Mas, de acordo com a professora Margarete Edul Prado de Souza Lopes, a vontade maior da voz lírica é a de liberdade, mas sendo mulher, ainda está aprendendo a transpor a janela.

Robélia Fernandes por meio de uma escrita simples e bem elaborada traduz a relação entre a arte do texto e a da vida. E semeia poesia / E espera / Que amenheça o dia.

---

ASA DE VIDA
Robélia Fernandes de Souza


Se a vida é pequena
São tantas as normas
E regras
Algemas

Se a vida é severa
São tantos arbítrios
E elos
Prendendo os sonhos
Soterrando castelos

Se tantos deveres
Lições
Costumes
Enterram meus pés
E me plantam
Como árvores

Só há uma saída
Faço da poesia
A minha asa de vida

Poesia é viagem
Por caminhos diversos
Libertos
É força motriz
Que se alarga
No peito infeliz
E se o espírito que é leve
E a alma mais leve
Precisam voar
Faço da poesia
A minha asa de vida


NEM ESPERANÇA
Robélia Fernandes de Souza


Não ouvi o apelo
Não senti o abraço
Não vi a estrela
Que me acompanhava
Havia luz na janela
Eu a mantinha fechada

Tanto tempo perdido
Tanta alegria comprada
Agora o trem corre solto
Não há mais estações
Só chegada


MENINA
Robélia Fernandes de Souza


A cama era dura
A casa era fria
A farinha era amarga

Mas eu era feliz
A rua, as pessoas, a cidade
Eram hostis
Mas eu era feliz

Eu tinha meu mundo
Tinha meus sonhos
Tinha um eu dentro de mim
O resto...
Só realidade
Não cabe no sonho


TELEVISÃO ÀS AVESSAS
Robélia Fernandes de Souza


Na televisão
Uma moça me convida
A comprar sabão
E outras pessoas
Dirigem carros
Bebem cerveja
E dançam e cantam
Abraçam-se, beijam-se
E fazem pouco
Da minha inércia
E solidão

Vampiro dissimulado
Suga de mim a emoção
Que alimenta os personagens
Toma meu cérebro
Filtra meus pensamentos
Amordaça
Neutraliza
Se faz a vida
Me faz a máquina
Diante dela
Me faço tela
Ela é quem vive
Eu sou imagem


A GAMELEIRA E O RIO
Robélia Fernandes de Souza


O rio dorme
O rio brinca
O rio cresce
Ela fica
            O rio desce...

Onde anda a cobra grande
O tucuxi encantado?
Onde apita Benjamim
Onde atraca Tocantins?

Passa a vida
O rio passa
O tronco morre
                O rio corre...

O rio lavava roupa
A areia prendia a popa
Do batelão carregado
Santa Maria, Deus te Guie,
Juriti, Estrela D’alva
A piracema explodindo
Na folia das tarrafas

Rio apitando grosso
Sem alarmar ribeirinho
Os balseiros navegantes
Sem pilastras no caminho

Desce o rio
É sua destinação
A água tudo arrastou
Naquela curva do rio
Só a saudade encalhou


AMANHECER
Robélia Fernandes de Souza


Dia novo
Tecendo luz
Na árdua conquista do espaço
Mistério arte
Que se renova
Em ouro e prata
Mistério arte
Que se revela
E a escuridão esgarça
Mistério ou magia?
Milagre de um novo dia


EU VI
Robélia Fernandes de Souza


Eu vi
Não me contaram.
Arigós aqui chegarem
Amontoados nas chatinhas
Vinham tentar a sorte,
A vida morava no norte,
Atrás da vida
eles vinham.

Gente rija,
gente terra
Alma plasmada com a pedra
Da caatinga
do sertão,
Traziam a sede na veia
Queriam a seiva da selva
Queriam o veio da seiva.
Acauãs em retirada
Noutros céus aclimatadas
Mas tentando um outro azul
Era tanta a esperança
Nos corações retirantes
que a saudade se encolhia
no mais escuro da alma.

Eu vi,
Não me contaram
Os arigós aqui chegaram
E nunca mais foram embora
Uns perderam
Poucos ganharam,
Plantaram sangue na terra
Mataram a sede da guerra
Teceram lendas no verde
E fizeram nossa história.


TECELÃO DE SEGREDOS
Robélia Fernandes de Souza


Aranha inábil
O homem
Horas a fio
Trança a trança
Tece, tece
A teia tonta
Dos seus segredos
Inventa
Esconde
Falseia
Escamoteia
            A teia
Arm a a ilha
            A armadilha
Disfarsa
            A farsa
Acaba por ser a presa
Enquanto a teia se esgarça


SEM TESTEMUNHA
Robélia Fernandes de Souza


A janela fechou-se
Num supetão
Não viu a chuva
Espatifar-se na calçada
Enquanto o vento
Ao relento
Como um cão
uivava


IPÊ AMARELO
Robélia Fernandes de Souza


Minha mão madura
Fez-se leve
Fez-se pura
No plantio do ipê
Um pezinho de ipê!
Raizinha do meu verde
No verde que vai crescer

Um dia...
Eu já no tempo esquecida
Os herdeiros do meu sangue
Herdarão flores amarelas
Se um pouquinho de mim
No perfume da lembrança,
Quem me dera!


ENCHENTE
Robélia Fernandes de Souza


O rio!
Calda em ponto de fio
De repente, fez-se mar

Água, água
Espelho d’água

E meu olhar comovido
Mergulha nas águas barrentas
Desafogando lembranças
Outras enchentes
Felizes enchentes
Do meu rio de criança

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SOUZA, Robélia Fernandes de. Asa de vida. Rio de Janeiro: Oficina do Livro, 1992.
SOUZA, Robélia Fernandes de. ConVerso novamente (poesia). Rio Branco: Tico-Tico, 2004.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

DESTA VEZ, A ÚLTIMA

ROBÉLIA FERNANDES DE SOUZA


A casa às escuras. A luz que vem do poste da rua, espionando pelo vidro da janela, são olhos embaçados fitos nele. Caminha escorregando os pés para não topar em nada. Apalpando os móveis, correndo a mão pela parede, encontra a maçaneta. Uma porta. Faz pressão, devagarinho, torcendo, plec. Um quarto. A luz azulada fluorescente que irradia da imagem de Nossa Senhora sobre a mesinha no canto tira-lhe a respiração e o assusta. Uma visão? Foi só um segundo. Rapidamente se recompõe. Milagres não acontecem. Era só um abajur em forma de santa entre mais três ou quatro imagens. Na cama, uma senhora encolhida, como se sentisse frio, dormindo idosamente. Lembrou da mãe, àquela hora dormindo no barraco, sem proteção de santo algum. Na outra cama, do outro lado do quarto, o desgraçado do sargento, de cuecas samba-canção e meias, roncando alto. Sente medo apesar de há dias vir planejando essa invasão. No quarto não entra. Sabe que ali não encontrará o que procura. Foi só curiosidade. Afasta-se com cuidado mesmo sabendo que aqueles não acordariam. Têm o sono pesado das comilanças, da ociosidade, da despreocupação. Sono leve tem a mãe, sobressaltada, a qualquer chuva a água invadindo o barraco, a qualquer hora, uma bala perdida procurando sangue. Além disso, noite curta. O dia para ela começa às quatro para cuidar da vida, pegar duas conduções, chegar na casa da patroa antes das sete.

Tinha raiva do sargento. Sujeito ignorante, prepotente: "esses meninos são uns delinqüentes. Esses pivetes". Para ele toda mulher sem marido era vadia. Todo pobre era indigente, vagabundo.

Pela sala alcança a área da casa protegida por uma grade trabalhada, cheia de arabescos. Muitos vasos de plantas, samambaias penduradas nos xaxins, e num canto, coberta por uma toalha, a gaiola pendurada, como um troféu.

Era comum ouvir as conversas do sargento com outros aposentados que viviam, feito lagartos, tomando sol na pracinha. Assim foi que num dia em que engraxava os sapatos dele ouviu-lhe a gabolice: um pássaro. Tinha um pássaro raro, maravilhoso, vindo da Amazônia debaixo de sete capas. Na realidade poucos tinham o tal pássaro cantador, linda plumagem, custou uma nota.

Ficou tão curioso que nesse dia mesmo resolveu dar uma espiada no tal pássaro. Era só subir na amendoeira da rua, rente ao muro. Avistava o jardim, a casa, a varanda, a área. E o viu. Era um pássaro pequenino, engaiolado, sozinho! Era um pássaro triste! Era só um passarinho. Naquele mesmo dia decidiu-se:

Com cuidado pega a gaiola e vai saindo. A casa dorme, respira e ronca. Saiu por onde entrou. Pelos fundos. Os meninos já lhe tinham ensinado uns truques. Entravam nas residências e faziam pequenos furtos. Tênis, calças jeans. Um dia dois deles pegaram uma bicicleta. Foram parar na casa de detenção de menores. Desde esse dia, afastou-se da turma e já prometera à mãe que nunca mais ia roubar nada, nadinha. Dessa vez... dessa vez era a última.

Difícil era caminhar pelas ruas com aquele trambolho. E se o vissem? Livra-se da gaiola, põe o passarinho debaixo da blusa. De lá para o barraco não era longe. As ruas estavam praticamente desertas àquela hora. Atravessou a pracinha, seguiu as quadras da rua pavimentada fugindo da luz dos postes, entrou pela rua de barro. A partir dali, não tinha mais problemas. Estava em casa. Maior cuidado deveria ter para não acordar a mãe. Era capaz de levá-lo pela orelha para devolver o passarinho. Coisinha de nada ela acordava. Vai para o fundo do quintal onde começa o mato e por onde passa o canal. Pega o passarinho com cuidado e carinho. Afaga-lhe a cabeça. Pensa soltá-lo ao vôo livre - Vai amigo, agora é com você - mas acha que à noite ele não voará. Enfia-se no mato, coloca-o no entroncamento de uma árvore: - Te cuida garoto!.

Entra no barraco, como um gato. Diacho que essa porta é rangedeira.

- Zeca?

- Senhora!

- Fazendo, menino?

- Nada não, mãe. Fui só urinar.

Pela manhã, a notícia. O sargento alardeava. Deu até no jornal: "Ladrão invade casa do sargento aposentado Fulano de Tal, (64). Misteriosamente leva somente um pássaro na gaiola. Suspeita-se de uma quadrilha que rouba pássaros para vendê-los a preço de ouro a estrangeiros. Um crime inafiançável.

- Mãe, hoje vou engraxar lá pros lados da Estação. Na pracinha não tá dando nada.


*
ROBÉLIA FERNANDES DE SOUZA é da Academia Acreana de Letras. Com este conto, “Desta Vez, A Última”, na categoria Literatura, venceu o 9º Concurso Talentos da Maturidade, promovido pelo Banco Real (2008).
** Conto também publicado no site Lima Coelho.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

TELEVISÃO ÀS AVESSAS

Robélia Fernandes de Souza
da Academia Acreana de Letras

Na televisão
Uma moça me convida
A comprar sabão
E outras pessoas
Dirigem carros
Bebem cerveja
E dançam e cantam
Abraçam-se, beijam-se
E fazem pouco
Da minha inércia
E solidão

Vampiro dissimulado
Suga de mim a emoção
Que alimenta os personagens
Toma meu cérebro
Filtra meus pensamentos
Amordaça
Neutraliza
Se faz a vida
Me faz a máquina
Diante dela
Me faço tela
Ela é quem vive
Eu sou imagem

***  *** ***

SOUZA, Robélia Fernandes de. Asa de vida. Rio de Janeiro: Oficina do Livro Ed., 1992