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sábado, 16 de janeiro de 2016

o assassino era o escriba

Paulo Leminski (1944-1989) 


Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente. 
Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida, regula como um paradigma da 1a conjugação. 
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial, ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético de nos torturar com um aposto. 
Casou com uma regência. 
Foi infeliz. 
Era possessivo como um pronome. 
E ela era bitransitiva. 
Tentou ir para os EUA. 
Não deu. 
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.  
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas, conetivos e agentes da passiva, o tempo todo.  
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça. 
LEMINSKI, Paulo. Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p.158

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

DISTRAÍDOS VENCEREMOS

Paulo Leminski (1944-1989)


Eu, hoje, acordei mais cedo
e, azul, tive uma ideia clara.
            Só existe um segredo.
Tudo está na cara.


LEMINSKI, Paulo. Distraídos venceremos. São Paulo: Brasiliense, 1990. p.34

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O QUE PASSOU PASSOU?

Paulo Leminski (1944-1989)


Antigamente, se morria.
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que tem que morrer,
tinha coisas que tem que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
deixar tudo para os filhos
e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Mas ninguém tem culpa.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Não tem o que reclamar.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.


LEMINSKI, Paulo. Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p.287-288

domingo, 6 de abril de 2014

DAS COISAS

Paulo Leminski (1944-1989)


das coisas
que eu fiz a metro
todos saberão
quantos quilômetros
são

aquelas
em centímetros
sentimentos mínimos
ímpetos infinitos
não?


LEMINSKI, Paulo. Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p.37

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

DISTRAÍDOS VENCEREMOS

Paulo Leminski (1944-1989)


ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
            aqueles que deixaram
que a mágoa nova 
            virasse a chaga antiga

            ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
            e que a pedra só não voa
porque não quer
            não porque não tem asa   


LEMINSKI, Paulo. Distraídos venceremos. São Paulo: Brasiliense, 1990. p.74

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

BEM NO FUNDO

Paulo Leminski (1944-1989)


            No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
            a gente gostaria
de ver nossos problemas
            resolvidos por decreto

            a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
            é considerada nula
e sobre ela – silêncio perpétuo

            extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
            lá pra trás não há nada,
e nada mais

            mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande
            e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
            e outros pequenos probleminhas


LEMINSKI, Paulo. Distraídos venceremos. São Paulo: Brasiliense, 1990. p.44

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

ACORDEI BEMOL

                                             acordei bemol
                                             tudo estava sustenido
                                             sol fazia
                                             só não fazia sentido 

                                             Paulo Leminski



Entardecer em Curitiba num dia de verão qualquer. Foto pessoal.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

OLHANDO O MAR


"Aqui
nesta pedra,

alguém sentou
olhando o mar

O mar
não parou
pra ser olhado

Foi mar
pra tudo que é lado"


PAULO LEMINSKI 
in:Caprichos e Relaxos