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segunda-feira, 30 de julho de 2018

REZA MILAGROSA PRA CURAR DOR DE DENTE

José de Anchieta Batista

O poder da fé é algo de que não se deve duvidar. Quando Jesus se referiu à fé que transporta montanha, deixou bem claro que nossa mente está muito aquém de sua magnitude, e que quase não é exercitada. Vivemos aqui na Terra sob o poder de regras e leis que a Ciência vai aos poucos descobrindo. A cada passo que ela avança, a cada nova descoberta, avança também nossa estupefação, e sempre nos fazemos mais conscientes de que somos criaturas pequeninas, frágeis, estúpidas, ignorantes e metidas a conhecedoras do que não conhecemos. Diante desta maravilhosa amplidão, em que estamos inseridos, e que é toda preenchida por uma magia indescritível, ignoramos de onde viemos e não sabemos por que estamos aqui. Também nos é vedado saber qual será nosso próximo destino, depois do que chamamos de morte. Em suma, somos um bando de bestas em busca da verdade. E como não a alcançamos, cada uma das bestas inventa a sua versão e se compraz em se iludir. O Homem de Nazaré evidenciou nossa tamanha ignorância e pediu que buscássemos a verdade pois só ela nos libertará. Enquanto isso não acontecer, estaremos rastejantes, buscando forjar verdades particulares. E assim vivemos sob a batuta do que não é verdadeiro.
Dei um toque simples, nas linhas acima, em um assunto muitíssimo sério, para exordiar um “causo” verídico, que agora vou relembrar, e no qual fica evidenciado o poder da fé.
Barbosinha, companheiro de carraspanas e presepadas, em Campina Grande, convidou-me para passar um fim de semana numa fazenda perto do município de Ingá de Bacamarte. Lá moravam parentes de sua namorada, a Cidinha, naquela época estudante do curso de Ciências Econômicas, e com quem se casou algum tempo depois.
Enchemos o tanque do velho fusquinha azul e partimos para mais uma aventura etílica. Uma hora de viagem até Ingá e outra hora até a fazenda. Após o ritual de apresentações aos familiares, fomos agasalhar nossas mochilas num dos quartos do velho casarão, para depois nos dirigirmos a um banho de cacimba, na companhia de alguns primos da Cidinha.
Mais tarde, sentamo-nos ao redor da mesa do alpendre - éramos mais ou menos umas trinta pessoas - para saborear tira-gostos de todo tipo, com acompanhamento de algumas doses de cachaça. Foi quando um garoto trouxe um recado, avisando que o sanfoneiro não poderia vir para a noitada, por conta de uma dor de dente dos diabos. O forrozeiro estava com a cara redonda de tão inchada e o pobre coitado, lá em sua casa, gemia feito um doido e nem sequer conseguia falar. Dessa forma, também o forró da noite do sábado estaria comprometido. Todos se entreolharam decepcionados e externando alguma lamentação.
Naquele momento, lá me vem o Barbosinha com mais uma de suas maquinações.
- Onde é que mora esse sanfoneiro? Amanhã vai ter forró, sim! – sentenciou, pedindo que alguém o acompanhasse até o fusquinha.
- Que é que tu vais fazer, Barbosa? – indagou Cidinha sem entender nada.
- Ora, meu amor, vou rezar nele uma reza forte que meu avô me ensinou, e amanhã ele estará aqui para comandar nosso forró – respondeu, já entrando no carro, fazendo-se acompanhar por um familiar da namorada.
Eu e a Cidinha olhamos um para o outro, mas nem eu nem ela entendemos nada. Intrigado, pensei comigo: “
- Esse fio duma égua já vai aprontar mais uma.
Esperamos ansiosos por seu retorno. Não demorou muito. Foi chegando e desabafando em voz alta:
- Fiz minha parte. Agora depende do santo e da fé dele – falou com força, engolindo uma dose reforçada de pinga.
Todos se entreolharam, sem comentários, como se preferissem aguardar o outro dia.
Evitei externar minhas reais impressões, mas logo depois me aproximei dele e falei baixinho:
- Homem, deixa de ser sem-vergonha, cara! Você tá doido, é? Amanhã vai passar um vexame.
- Eu? Se der errado vou botar a culpa nele mesmo - respondeu-me com tranquilidade.
No outro dia, o forró foi um dos mais animados já acontecidos ali. O sanfoneiro estava sem dor de dente, sem inchaço na cara, e animou o rala-bucho até o sol raiar.
A partir de então, Barbosinha ficou com a fama de grande rezador. Sempre que aparecia por aquelas bandas, era procurado para rezar até contra dor de corno. Com o acontecido, eu mesmo fiquei com minhas dúvidas se não seriam reais os poderes do Barbosinha. Passei, então, a chamá-lo de “curandeiro”.
Certo dia, lá em Campina Grande, exigi a verdade:
- Barbosinha, você é meu amigo e vai me contar agora qual foi a sacanagem que você aprontou com aquela reza no sanfoneiro.
Ele, então, com a cara mais lambida do mundo, se abriu:
- Anchieta, não é pra falar a verdade pra Cidinha, pois ela pensa que sou mesmo o maior rezador do mundo. Até me pede para benzê-la também – disse com uma estridente gargalhada, fazendo uma pausa para tomar mais uma lapada.
Em seguida concluiu:
- Meu amigo, foi meu avô, que era bem mais sacana do que eu, quem me repassou a oração. Naquela noite, repeti umas vinte vezes, com o galho do pinhão roxo na bochecha do sanfoneiro. Escute aí como é poderosa:

É corno quem acredita
Nesta minha reza à toa...
Ô dente filho da puta,
Na boca dessa pessoa,
- Se quiser passar, que passe!
- Se quiser doer que doa!

sábado, 2 de junho de 2018

OS CORRUPTOS DE MINHA INFÂNCIA

José de Anchieta Batista

(Trecho do livro: Capoeira das Éguas – Capítulo II) 

“ ...
Em 1953, a seca foi terrível e, em consequência, os governantes implantaram, mais uma vez, programas para acudir os flagelados. Na execução desse socorro às vítimas do flagelo das secas, conhecido popularmente como “emergência”, inexistia qualquer controle efetivo que os revestisse de algum princípio de moralidade. Isso propiciava toda espécie de desmandos. Os chamados “fantasmas” fervilhavam em meio à relação de nomes dos trabalhadores. Até animais de estimação faziam parte dos que recebiam aquele socorro.

Dentre tantos desmandos, citam-se exemplos deveras curiosos, e até engraçados.

Naquele ano, foram inscritos, nas frentes de trabalho, dois flagelados com os nomes de José Aurora da Silva e de José Virgulino Caetano. Como nunca se ouvira falar da existência dessas criaturas ali em Capoeira das Éguas, os mais curiosos deram um jeito de saber o destino dos envelopes com o dinheiro. Um, era entregue na Pensão Aurora e o outro, no açougue do Zé Caetano. Como todos os parentes deles já estavam abrangidos pelo programa, deduziu-se que um dos “Josés” era o pornográfico papagaio “Cu Pelado”, da proprietária da pensão Aurora, e o outro “José” se tratava do vira-lata “Lampião”, do debochado Zé Caetano, um açougueiro vendedor de carne de bode. Para completar o absurdo, os “Josés” ganhavam como fiscais de tarefas, pois a remuneração era um pouco maior. Claro que os donos dos bichinhos dividiam com alguém o “suado” pagamento.

Descoberta a trampolinagem, tudo ficou por isso mesmo, e os envolvidos, ao serem perguntados sobre o assunto, ainda tinham o descaramento de se justificarem:

– Esse dinheiro não é de ninguém mesmo! Se a gente não faz, outro faz!

E era desse jeito que os programas de socorro aos flagelados aconteciam.
Aqui, um parêntesis para um destaque ao famoso “Cu Pelado”.

Tratava-se de um papagaio da raça “Estrela”, proveniente das bandas do Pará, cuja “erudição e eloquência” o fizeram famoso. Era versado em xingamentos e saudações pornográficas a quem transitasse por perto dele. Além de saber gritar: “café-vovó!”, “Dá-pé-meu-lô-ro!”, “au-ro-ra-vem-cá!”, ele passava o tempo todo numa gritaria só: “Pi-ri-qui-tô!... Pi-ri-qui-tô!”... “Seu-bos-ta!”... “Seu-bos-ta!”.

Aprendia facilmente tudo o que lhe ensinavam, principalmente quando se tratava de sacanagem. Mas, quem fazia isso, às vezes, se tornava vítima das próprias aulas ministradas ao safado. Dona Aurora bem que tentou, muitas vezes, ensinar-lhe um hino da igreja, mas nunca teve sucesso.

Todos os dias, bastava ouvir a voz do João Mendes e lá se iam os repetidos conselhos do louro: “tomá no cu!”, “tomá no cu!”, “tomá no cu!”.

O Tonheiro, todo santo dia, passava por perto da pensão só para ouvir o louro fazer a festa: “fi-da-pu-ta!”... “fi-da-pu-ta!”... “fi-da-pu-ta!”. E os dois ficavam se insultando com o mesmo xingamento.

O Sebinha teve de suportar a vida inteira: “viado-véi!”, “viado-véi!”, “viado-véi!”.
Cu Pelado aliava a pessoa aos ensinamentos dela recebidos. Era realmente uma graça.

Na esculhambação da “emergência”, pelo menos o louro era responsável por alegrar a “Pensão da Aurora”. A velha tinha de ser bastante agradecida ao papagaio, pois fazia a propaganda de seu estabelecimento. Significava uma atração à parte, animando os clientes da casa.

O papagaio nunca estava de lundu, mas só aceitava “dar o pé” para pessoas de seu convívio mais aproximado. Só nunca se soube o porquê de sua inscrição como trabalhador da “emergença”, como alguns chamavam. Acredita-se que se tratava de um cachê artístico. E assim, “Cu Pelado” cumpriu o importante e histórico papel como personagem daquele tempo. Enfim, o safado do papagaio morreu de velho, mas sua fama vem sendo repassada de geração a geração.

Quanto ao outro flagelado, o “Lampião” do Zé Caetano, só servia para dormir, ficar tentando morder o próprio rabo, ou latindo para o João Mendes, que adorava bater o pé em sua direção.

Tudo isso faz parte das histórias daquele fim de mundo, em que o pranto e o sorriso, a tragédia e a comédia, o inferno e o paraíso, aconteciam no mesmo ambiente, quase sem um muro que os separasse.
...” 


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segunda-feira, 18 de abril de 2016

PADRE ANTONIO TOMAZ – Príncipe dos Poetas Cearenses

José de Anchieta Batista
Blog do Anchieta

Pe. Antonio Tomaz
O padre e poeta Antonio Tomaz nasceu na cidade cearense de Acaraú, no dia 14 de setembro de 1868. Iniciou seus estudos em Sobral, também no Ceará, transferindo-se para o Seminário de Fortaleza, onde foi ordenado sacerdote em 1881.  Em meio ao seu mister sagrado, mostrou-se também um exímio poeta, um sonetista magnífico, com indiscutível capacidade de resumir com maestria, em quatorze versos, uma contundente mensagem à humanidade. E embora seja vasta sua poesia sacra, o padre Tomaz não se prendeu tão somente a este estilo. Seus sonetos, com temas do cotidiano, fora do altar e da sacristia, são verdadeiras pérolas.

O padre-poeta e poeta-padre, após cumprir na Terra uma jornada de 73 anos, entre sacramentos e poesias, faleceu em 16 de julho de 1941, em Fortaleza, para onde se transferira ao final da vida, em busca de tratamento para sua debilitada saúde.

Sobre a vida e a obra deste grande poeta, sua sobrinha, poetisa e escritora, Dinorá Tomaz Ramos, publicou, em 1950, o livro “Padre Antonio Tomaz – O Príncipe dos Poetas Cearenses”, do qual extraí um trecho que resume a criatura que era este colossal poeta:

“... De acordo com as suas disposições testamentárias, foi o cadáver sepultado sem ataúde, não sendo colocada no local nenhuma lápide, nenhuma inscrição, nenhum nome, sem sequer uma data para assinalar que ali jazem os restos mortais do Reverendo Padre Antonio Tomaz, virtuoso Sacerdote Católico, consagrado Príncipe dos Poetas do Ceará.  Como se vê, quis morrer como viveu, na mais inviolável obscuridade. Nunca publicou os seus versos. Eram os amigos que levavam à imprensa cópia de suas produções. Deixou a proibição de que fossem os mesmos enfaixados em livro. Não quis, ao menos, que um epitáfio marcasse a sua mansão mortuária. Já muito doente, na Santa Casa de Sobral, que o acolhera, improvisou no dia 3 de maio de 1941, a instâncias de um amigo que o visitara, o seu último soneto – DESENCANTO -, abaixo transcrito, que bem exprime o estado da alma e do corpo em que então se encontrava. Foi Padre durante meio século. Morreu como vivera: desprendido, serenamente, discretamente”.


DESENCANTO

Muitas vezes cantei, nos tempos idos,
Acalentando sonhos de ventura;
Então da lira a voz suave e pura
Era-me um gozo d’alma e dos sentidos.

Hoje vejo esses sonhos convertidos
Num acervo de penas e amargura,
E percorro da vida a estrada escura
Recalcando no peito os meus gemidos.

E, se tento cantar como remédio
Às minhas mágoas, ao sombrio tédio
Que lentamente as forças me quebranta,

Os sons que arranco à pobre lira agora
Mais parecem soluços de quem chora
Do que a doce toada de quem canta.

Desejo aqui destacar um soneto historicamente atribuído ao Padre Antonio Tomaz, mas que, talvez pelo assunto que aborda, sua sobrinha Dinorá afirma não pertencer ao reverendo. Apesar disso, as publicações havidas em jornais e revistas, sempre lhe atribuíram a autoria:


NOITE DE NÚPCIAS

Noite de gozo, noite de delícias,
Aquela em que a noiva carinhosa,
Vai do seu noivo receber carícias
No leito sobre a colcha cor-de-rosa.

Sonha acordada coisas fictícias,
Volvendo-se sobre o leito, voluptuosa,
E o anjo de amor e de carícias
Fecha a cortina tênue e vaporosa.

Ouvem-se beijos tímidos, ardentes,
Por baixo da cortina assim velada,
Entre suspiros tristes e dolentes.

Se fitássemos a noiva agora exangue,
Vê-la-íamos bem triste e descorada
E o leito nupcial banhado em sangue.

Finalmente, para concluir esta humilde homenagem ao grande poeta das Terras de José de Alencar, brindamos nossos leitores com os sonetos “VERSO E REVERSO”, “CONTRASTE” e “O PALHAÇO”, certamente os mais conhecidos dentre os que escreveu o reverendo:


VERSO E REVERSO

Essa mulher, de face escaveirada,
Que vês tremendo em ânsias de fadiga,
Estendendo a quem passa a mão mirrada,
Foi meretriz antes de ser mendiga.

Fugiu-lhe breve, desta vida airada,
A mocidade, a doce e quadra amiga,
E chegou a ser velha e desgraçada,
Antes do tempo, a quanto o vício obriga!

Ontem, de gozo e de volúpia ardente
Fosse a quem fosse, dava a qualquer hora
O seio branco e o lábio sorridente

Hoje - triste sina! - embalde chora,
Pedindo esmola àquela mesma gente
Que de seus beijos se fartara outrora.


CONTRASTE

Quando partimos no verdor dos anos,
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, céleres e ufanos,
Vamos marchando descuidosamente...
Eis que chega a velhice de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos.

Então nós enxergamos claramente
Como a existência é rápida e falaz,
E vemos que sucede exatamente

O contrário dos tempos de rapaz:
– Os desenganos vão conosco à frente
E as esperanças vão ficando atrás.


O PALHAÇO

Ontem viu-se-lhe em casa a esposa morta
E a filhinha mais nova tão doente!
Hoje, o empresário vai bater-lhe à porta,
Que a platéia o reclama impaciente.

Ao palco em breve surge... Pouco importa
O seu pesar àquela estranha gente...
E ao som das ovações que os ares corta,
Trejeita, e canta, e ri nervosamente.

Aos aplausos da turba ele trabalha
Para esconder no manto em que se embuça
A cruciante angústia que o retalha,

No entanto a dor cruel mais se lhe aguça
E enquanto o lábio trêmulo gargalha,
Dentro do peito o coração soluça.

domingo, 6 de dezembro de 2015

DOIS POEMAS DE JOSÉ DE ANCHIETA BATISTA

SEM RUMO E SEM PORTO
José de Anchieta Batista

Na vaga noite,
Sem rumo,
Eu vago,
E em mim não trago
Qualquer sonhar...

Se eu gritar
Ninguém responde...
Meu ser se esconde
Num endereço
Que não conheço,
Na rua triste
Que não existe...

Na treda noite,
Meu mundo tredo,
E eu com medo
Dos meus zumbis...
Algo me diz
Que estou enfermo,
Mas sigo a ermo...

Na madrugada
Navego o nada,
Num rio morto,
Que não tem margens...
E não tem porto.

Na fria noite,
Um vento frio,
Que vem de um rio
Que vai pro mar...
Chorar? Cantar?
Não adianta,
Tudo é vazio...
Não há mais canto,
Não há mais pranto...
E é falso o rio.
Nesta agonia,
A noite é o dia
Que não findou...
- E eu, quem sou?


MEUS MORTOS
José de Anchieta Batista

Os meus mortos não morreram,
Porque meus mortos não morrem...
Meus mortos seguem comigo,
Mais vivos do que meus vivos...

Caminham no meu caminho,
Choram meus prantos comigo,
Cantam as mesmas cantigas
Que comigo já cantaram...
Meus mortos não morrem nunca,
Vivemos na mesma vida!

Às vezes quero chorar
A saudade inexorável,
Mas descubro de repente
Que meus mortos não morreram,
Que meus mortos estão vivos!


JOSÉ DE ANCHIETA BATISTA poeta e escritor paraibano, com uma vida de dedicação e vivência acreanas. É autor do livro de poesia MENINO DA RUA DO BAGAÇO (Publit, 2009) e do romance CAPOEIRA DAS ÉGUAS (Scortecci, 2014). Escreve aos domingos a coluna Espaço do Anchieta, no jornal Página 20. Edita também o Blog do Anchieta.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A BRABEZA DO BRABO

(*) José de Anchieta Batista


Desde os seis ou sete anos de idade, passou a ser chamado pelo apelido de Brabo.

No primeiro dia de escola, toda a meninada encontrou nele, imediatamente, muitos motivos para gozações. Parecia um boneco de brinquedo. Tinha metade da estatura dos outros, era exageradamente franzino e sua cabeça parecia a de um macaquinho. Com aquele jeito esquisito, seu primeiro apelido foi “monstrinho”, mas diante de suas reações agressivas, os colegas adicionaram outro apelido que veio a predominar definitivamente: Brabo. É que ele saía no braço com meio mundo. Fosse quem fosse. Tivesse o tamanho que tivesse. Havia, contudo, uma infinita desvantagem nisso. Não vencia um só dos embates. Na maioria das vezes, no auge da brabeza, os garotos erguiam-no do chão, sem qualquer esforço, e ele ficava balançando no ar as duas perninhas, sem alcançar coisa alguma. Depois ia ele se sentar, amuado, chorando e xingando, lá pelos recantos.

Os dias se passaram, consagrou-se realmente como Brabo e, até hoje, por volta dos cinquenta anos, quase ninguém sabe seu verdadeiro nome. No transcorrer de todas essas décadas, certamente cansou-se de reagir ao apelido e se tornou tão natural ser chamado assim, que a brabeza do Brabo, para reagir a isso, sumiu. Se o chamarem por seu nome de batismo, que também não sei qual é, com certeza não atenderá.

O lado bom de tudo isso é que, apesar do apelido, o Brabo se fez um cidadão pacato, absolutamente avesso à violência. Por outro lado, o garotinho briguento dos tempos de escola não conseguiu mudar sua compleição física. Continuou um magricela, um pedaço de gente, com estatura inferior a um metro e meio.

Há algum tempo, nosso personagem resolveu montar um bar a que deu o nome de “Bar Paz e Amor”. Num pequeno salão de duas portas, instalou prateleiras e balcão, comprou geladeira, sinuca, mesas, cadeiras e adquiriu utensílios para servir tira-gostos. Ele atende lá na frente e sua mulher cuida dos afazeres da cozinha. A todos ele faz questão de dizer que o ambiente é familiar, em contradição com as atitudes das figuras femininas que lá frequentam. O negócio tem andado de vento em popa, mas o Brabo, vez por outra, tem que apelar para a polícia vir restabelecer a ordem, em decorrência de algum arranca-rabo.

Certo dia, o tempo fechou lá no bar do Brabo e a urgência foi atendida por uma guarnição da Companhia de Operações Especiais, conhecida popularmente como COE, cujos componentes passam por uma seleção rigorosíssima, como se estivessem procurando lutadores de vale-tudo. Só pode fazer parte da corporação quem tiver corpo agigantado e muita disposição na hora do quebra-pau. Vestem farda preta, são de pouca conversa e, dependendo da valentia do abordado, deixam o sujeito moído de peia.

A guarnição atendeu com presteza ao chamado, mas um fato pouco comum aconteceu. Ao entrar no bar, um daqueles gigantes de dois metros de altura e massa corpórea de um mamute, foi logo fazendo a pergunta de praxe:

- Quem é o brabo daqui?

- Sou eu! – respondeu firmemente o pobrezinho do Brabo, caminhando em direção ao soldado.

Por infeliz coincidência, empunhava um pedaço de taco de sinuca que alguém houvera quebrado na hora da confusão e que ele acabara de apanhar do chão para jogar no lixo. O brutamontes não quis papo. Sentiu-se ameaçado e desceu-lhe a mão aberta no tronco da orelha. O pobre do Brabo foi estatelar-se a uns oito metros de distância, completamente nocauteado, lá no meio da rua.

- Comigo, brabeza é na porrada! Mais algum brabo por aqui? - arrematou desafiante o policial.

Quem era doido de responder? Alguns presentes, porém, com muito jeito, apressaram-se em desfazer o lamentável equívoco e correram para acudir o coitado do Brabo que, totalmente zonzo, procurava identificar em que mundo se encontrava.

Desfeito o tumulto, verificou-se que os baderneiros responsáveis pela confusão já estavam muito longe e o comandante da patrulha entabulava, comovido e prestimoso, um insistente pedido de desculpas pela violenta trapalhada.

Vida afora, o Brabo se fez manso, mas infelizmente continua a carregar e a sofrer o peso da falsa brabeza de seu apelido.

http://blogdoanchieta.blogspot.com.br/




(*) Escritor, poeta, passageiro do tempo...  e não sei mais o quê.

sábado, 4 de julho de 2015

AI DE VÓS, DOUTORES DA LEI E FARISEUS HIPÓCRITAS!

José de Anchieta Batista
Página 20


Faço questão de iniciar esta crônica dizendo que nada aqui é direcionado a dirigentes ou a Igrejas que trilham os caminhos de Deus, na verdadeira prática do bem e do amor ao próximo, agindo com seriedade, decência e responsabilidade. Sejam cristãs ou não.

Dito isto, passo a afirmar que sou um homem que acredita piamente na existência de um Poder Superior, consciente e inteligente, que rege, minuciosamente, a dinâmica de tudo o que existe. Um Ser Supremo que rege realmente tudo, desde o micro até o macro. Esta certeza não é uma herança de minha longa passagem por um seminário católico. Vem do mais profundo de minha alma.

Lembro-me de que, uns cinco anos após abandonar a vida eclesial, comecei a duvidar de tudo. Até mesmo de Deus. As novas leituras a que me dediquei, um novo mundo de atrações mundanas e as novas amizades antideístas, puxavam-me para isso. Mesmo assim, enquanto os lábios blasfemavam, com força, “Deus não existe!”, a mente bradava intimamente “perdão, meu Deus!”. Era aquela coisa de jovem, metido a intelectual, querendo aparecer, principalmente diante dos outros.

Passadas algumas estações da vida, veio-me novamente uma vontade enorme de me encontrar com Deus. Fui ao seio das religiões. Mais uma vez, conflito total! Talvez isto só tenha acontecido comigo, mas me convenci, sob todos os aspectos, de que ali dentro das igrejas, dificilmente as orações e os cânticos conseguiam ultrapassar a cumeeira dos templos. Basta! – gritei eu para mim mesmo. E, novamente, me afastei de tudo, sem, todavia, abominar a existência de um Poder Universal, com domínio total sobre tudo o que existe. Continuei alheio a qualquer culto religioso, mas sempre com profundo respeito à fé daqueles que professam esta ou aquela doutrina. Nesta caminhada, desisti de procurar um Deus fora de mim, para buscá-lo no mais íntimo de meu ser. E ali estava Ele! Infinito, divino, paterno, cheio de amor! E eu, uma poderosa fagulha Dele!

Como disse acima, respeito todas as religiões. Vejam bem: eu as respeito! Quando simplesmente as toleramos, muitas vezes o fazemos altamente incomodados. Quando, porém, as respeitamos, há um sentimento de fraternidade.

Amigos, nos dias atuais, sinto que estamos diante de uma realidade perversa. Por mais fraternidade que pratiquemos, por mais que sejamos respeitosos e tolerantes, está bem difícil conviver com algumas religiões que não possuem um mínimo de respeito para com seus semelhantes. São aglomerações, ditas religiosas, sob o comando de verdadeiros estelionatários, com fins meramente comerciais, e que se contrapõem aos mais rudimentares princípios das divinas mensagens cristãs. A visão que hoje tenho dessas denominações, que vêm surgindo aos montes ultimamente, é a de que alguns “vivaldinos”, autênticos criminosos, subjugam a mente de pessoas desesperadas, incautas e ignorantes, a fim de fazerem proliferar suntuosos shopping centers da fé, cuja preciosa mercadoria é um falso Jesus de Nazaré. E não ficaram somente nesta prática. Passaram a incentivar atos de violência contra aqueles que se abrigam em outros credos, sob o argumento de que somos todos demônios e que, por isso, devemos ser eliminados da face da Terra. Que é isso, ó Deus? Onde chegamos? Diante desses falsários, de pregações espúrias, lembro-me de que os religiosos da época de Cristo o acusaram, o condenaram e o mataram. Dois mil anos depois, temos que conviver com os mesmos mercadores do templo, os mesmos fariseus, os mesmos escribas, os mesmos doutores da lei!

Expostos a essa alcateia, parece que estamos diante de um beco sem saída. As leis brasileiras são absolutamente lenientes e permissivas para com esse bando de criminosos e contraventores, que além de se locupletarem com o suor alheio, vendem a utopia da prosperidade fácil, teatralizam prodígios, zombam de nossa sociedade, sem darem bolas para a decência e para os bons costumes. Esses falsários cobram o “imposto” do dízimo com muito mais rigor do que são cobrados os tributos administrados pela Receita Federal. Amparados por uma abusiva imunidade tributária para “templos de qualquer culto”, criam um igarapé que deságua em seu patrimônio pessoal. Dessa forma, alcançam vultosas fortunas, como se o milagre dos cinco pães e dois peixes acontecesse todos os dias. Na tela da TV, meio de comunicação em que investem fortunas e mais fortunas, o mais importante não é a mensagem bíblica, mas as contas correntes onde deverão ser depositados os recursos implorados pateticamente. São ricos, podres de ricos, e vivem nababescamente, custeados por suas pobres ovelhinhas, sem se lembrarem de que o Cristo viveu na Terra “sem ter onde reclinar a cabeça” (Mateus, 8:20). Não há um só local em que eles não plantem seus tentáculos, principalmente em busca de parcela dos míseros salários das pessoas. Há exemplos de humildes criaturas que repassaram para os tais salvadores de almas, veículos, televisores, terrenos, casas e outros bens, a fim de satisfazerem a ganância dessas aves de rapina. São os “sepulcros caiados”, a “raça de víboras”, que não conseguem escutar as muitas advertências do Cristo:

“Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, que devorais as casas das viúvas, com o pretexto de prolongadas orações! Por isso, sereis mais rigorosamente julgados.” (Mt. 23).

Amigos, esses meliantes resolveram agora acender as chamas do ódio, do desrespeito, da intolerância, contra os que são praticantes de outros cultos. Li uma notícia de que na Paraíba, alguns psicopatas de um “reduto religioso”, além de já terem promovido um quebra-quebra de imagens, comparecem às escolas e, durante o recreio, aterrorizam crianças, alertando-as de que frequentar a Igreja Católica significa virar churrasco no inferno. Nesta semana, assisti a um vídeo em que um maluco incita alguns jovens a promoverem desordens em templo afro-brasileiro, alertando-os para fugirem com a chegada da polícia. Outro, manda atacar os homossexuais. Em outra parte de nosso País, sob a influência de sermões demoníacos, apedrejaram uma criança de 11 anos, que retornava de um Centro de Candomblé, acompanhada de sua avó. Outras e outras insanidades têm sido incentivadas por esses imbecis que se autointitulam “profetas de Deus”. Disseram-me que aqui no Acre, já se iniciaram as insinuações e até incursões contra algumas comunidades religiosas, sobremodo o Santo Daime e os cultos que tiveram origem na cultura negra. Um absurdo!

Enquanto tudo isso acontece, temos o bom exemplo do Padre Massimo Lombardi, que busca incentivar uma convivência pacífica e fraterna entre os Cristãos de Rio Branco, procedendo reuniões ecumênicas e até editando uma Cartilha com o expressivo título “Muitos São os Caminhos de Deus”. Parabéns, padre!

Um grupo, contudo, nos traz pavor. Lamentavelmente, instalou-se entre nós um fundamentalismo que cresce mais e mais, sob o manto de uma hipócrita e satânica religiosidade, sem que a sociedade brasileira saiba o que fazer para frear a maldade desses “lobos em pele de cordeiro”. Em algum local de nossos códigos, com certeza, devem estar catalogados os crimes e as contravenções que esses meliantes praticam. O pior de tudo é que ninguém em nosso País tem a coragem de colocar inseticida neste vespeiro. Ninguém se mexe para coibir o avanço desses caras. E eles, ao se intitularem pastores, bispos, apóstolos, missionários, ou sei lá o quê, julgam-se impunes e seguem em frente, saqueando nossa gente. Que me perdoe o verdadeiro Cristo, mas passei a vê-los como mensageiros do capeta. Será que ninguém percebe que eles estão ocupando “a cátedra de Moisés”, citada por Jesus? Será que não se percebe que, com suas maquinações, estão conseguindo dominar considerável parcela das instituições de nossa sociedade? Hoje, por perspicazes que são, já têm influência, às vezes majoritária, em todos os poderes constituídos, o que pode gerar mudanças que nos proporcionem um País que, em nome de Deus, seja obrigado a adotar o apedrejamento, o lançamento de homossexuais e prostitutas do topo dos edifícios, a decapitação, a submissão primitiva das mulheres e muitos outros males terríveis, tudo sob o comando desses malucos. Ou acham que isto é impossível e que o maluco sou eu?

Está na hora de se fazer alguma coisa! Não, com os métodos de violência por eles sugeridos, mas por meio de ações judiciais, contra a incitação à intolerância, ao desrespeito, ao ódio, absurdos estes que têm acontecido de maneira crescente nos últimos dias.

É preciso a imediata união dos verdadeiros evangélicos, católicos, kardecistas, daimistas, seguidores do Candomblé, praticantes da Umbanda, budistas, etc., para que esta praga dos últimos tempos encolha suas garras malditas.

Vamos concluir com uma citação bíblica:

– “Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores …” (Mateus 7:15-20).


(*) Escritor, Poeta, Viajor do tempo e do espaço

sexta-feira, 3 de maio de 2013

"ANOS ATRÁS"

Outro dia me lembrei desse causo anedótico sobre o nosso jornalista por excelência, José Chalub Leite, contada pelo meu amigo poeta e prof. José de Anchieta Batista em seu blog, em maio de 2009.

"Isaac,
O Zé Leite era uma verdadeira enciclopédia de tudo quanto é tipo de curiosidades, sutilezas e gozações. Todo mundo era alvo. Ninguém que pertencesse a seu mundo estava livre. Tudo servia de motivo para formular alguma piada, até consigo mesmo.

Um dia ele me disse: - Anchieta, cometemos muitas besteiras, não é?. Olha o que escrevi: - "anos atrás". Isso é redundância! Nunca conheci ninguém com "ânus na frente". Só fiz sorrir e concordar.

Até o fim da vida foi ele assim! Saudades!"

***

O Zé era exatamente isto: dois olhos, dois ouvidos, uma mente extraordinária, um grande coração e as mãos registrando a vida de uma forma alegre.

ANCHIETA"

Creio que, por sua importante função que ocupa no poder público acreano, que requer muita dedicação, o nosso poeta Anchieta Batista não tem mais escrito ultimamente em seu blog, deixando uma grande lacuna cultural em nosso meio. Anchieta, estamos sedentos de sua palavra amiga. O aguardamos!