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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O CAMALEÃO OVADO

Napoleão da Costa Santos


Seu João era o prenome de célebre tipo popular de Rio Branco, o Camaleão Ovado, há décadas no outro mundo. Morreu com oitenta e oito anos. Consumiu seus dias perambulando pelas ruas da cidade, bebendo nos botecos de bicão, esgoelando-se em palavrões. Interrompia o “trabalho” de “alma das ruas” apenas para o almoço e o jantar. De lata na mão, batia em qualquer casa, implorando pelo amor de Deus um pouco de comida. Se não fosse atendido promovia escarcéu dos diabos, apostrofando abusivamente quem lhe dava o passa-fora. Doido manso que era, mesmo assim voltava dias depois a pirangar o baco-baco.

Só pedia comida, a água bebia era a do rio Acre. Passeava sempre de paletó doado, puído, sujo, as calças frouxas e bamboleantes, expondo a protuberância do baixo ventre causada por uma hérnia estrangulada, e causa do odiado apelido que o punha fora de si. Dormia no curral do fazendeiro Amadeu Barbosa. Como enlouqueceu é um mistério.

Conheci-o na profissão de alfaiate, dos primeiros e melhores de Rio Branco, desde quando aqui aportara, nos anos 20, vindo do Ceará. Era o preferido dos sírios que mandavam no comércio. Existe a hipótese de que sua loucura era resultado de uma desilusão amorosa, a mulher com quem se casara lhe teria traído miseravelmente, tornando-o literalmente doido por amor. As pessoas de bom coração davam-lhe roupas usadas, sapatos, chinelos, uma vez ganhou de presente um paletó de casemira Aurora. Quando a molecada lhe perseguia motejando o apodo “Camaleão Ovado”, o coitado perdia a paciência e jorrava impropérios, palavrões, maldições, brandindo o cajado de maçaranduba no ar. Jamais se separava da surrada maleta de couro velho, furta-cor, sua única bagagem, onde guardava trapos, latinhas, miudezas para ele um tesouro valioso.

Finou-se num plúmbeo de intenso frio, sem choro, vela, orações. Está enterrado no Cemitério São João Batista, na vala comum dos marginalizados pelo destino, desses que não deixam pegadas da passagem pela Terra e nem recordações, saudades, lembranças. Os anônimos na vida, são anônimos na morte. 


SANTOS, Napoleão Costa dos. A Empresa de Napoleãozinho. Rio Branco: S/E, 1996. p.14-15

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

UMA ASA PARA O “TAQUARI”

Napoleão Costa dos Santos
O bairro Taquari tem esta denominação em homenagem ao primeiro avião chegado ao Acre, o “Taquary”, no dia 5 de maio de 1936. O pequeno aparelho aquatizou no rio Acre, no chamado estirão do Bagé, perto do Aprendizado Agrícola, emocionando a população da época que acorreu em peso ao local onde se deu a pioneira e histórica epopeia. Mas durante a operação de amerissagem ao aproximar-se do porto do Aprendizado o avião sofreu um acidente na asa, quebrada ao encostar no barranco, numa guinada malfeita.

No Acre de então, pouca gente vira um avião, nem mesmo em revista, a não ser alguns nordestinos recém-chegados. Como o Território do Acre não tinha estradas, a empresa proprietária do “Taquary” teve de pedir pelo telégrafo que Manaus providenciasse uma asa para o avião poder decolar para São Paulo. Veio por via fluvial a peça solicitada, pelo navio “Leopoldo Peres” que a conduziu de Manaus até porto Velho e dessa cidade rebocada de batelão até a Vila Plácido de Castro. Como na vila a estrada era apenas um varadouro de seringa, a asa foi transportada nos ombros de seringueiro de boa vontade, entre os quais gente da família de José Galdino do Nascimento, pai de José Melgaça do Nascimento, cuja mãe era Dona Josefa Melgaço Gadelha.

Do primeiro casamento originou-se a família Gadelha, muito ilustrada e acatada. O primeiro marido de Dona Josefa era Felício da Costa Gadelha. E como surgiu o nome de Pedro Gadelha dos Santos?

O pai de Pedro também ajudou no transporte da peça do avião. Faça-se uma ideia da aventura de conduzir a asa de uma aeronave, mesmo pequena, durante dias, palmilhando cento e dois quilômetros numa trilha pela floresta fechada, de Plácido de Castro a Rio Branco. Foram duas semanas exatamente que cerca de trinta homens consumiram para exitar-se naquela memorável façanha. A asa foi colocada em cima de um estrado comprido, bem amarrada, cuidadosamente carregada nos ombros. Quando chegaram à cidade, foram recebidos como heróis, uns ganharam emprego no governo e outros eram seringueiros que tiveram seus débitos pagos, no justo reconhecimento oficial pelo belo gesto. Muitos que ainda vivem sabem que a história é verdadeira e são o melhor testemunho.


SANTOS, Napoleão Costa dos. A Empresa de Napoleãozinho. Rio Branco: S/E, 1996. p.71-72