Mostrando postagens com marcador ROBERTO GOMES. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ROBERTO GOMES. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 5 de março de 2014

NA CADEIRA DO DENTISTA OU DO BARBEIRO

Roberto Gomes


Barbeiros e dentistas são assemelhados. Roupas brancas, muito friso na camisa, limpinhos e formais. E são dados a teorias e grandes discursos.

Como entender que dentistas queiram bater papo conosco enquanto duelamos com aquele caninho que suga nossa saliva? Ou, quanto aos barbeiros, se tememos aquela tesoura afiadíssima tirando finos de nossas orelhas? E a navalha? E a broca? Como mexer um só músculo diante de tanta ameaça?

- Hum, hum – a gente rosna para o dentista, sem ter ouvido o que ele disse.

- Nada disso! – corrige ele – Nada disso!

- É verdade – concordamos, sendo essa a melhor tática.

Ele retoma suas teorias. Ficamos de boca aberta, o caninho sugando nossa saliva. Abre umas gavetinhas, cata novos instrumentos de tortura, uns pinos ameaçadores, e volta:

- O que você disse? – pergunta ele.

Não dissemos nada. Estávamos lutando com o caninho sugador.

Já os barbeiros são tidos como bons de papo. Tive um amigo que era um tímido profissional, avesso a todo contato humano. Só curtia música erudita e literatura clássica. Tinha horror de ajuntamentos, não gostava de futebol, jamais colocara os pés num estádio. Sempre de terno e gravata. Sapatos impecáveis e um guarda-chuva. Nenhum esporte. Preferia traduzir discursos de Cícero.

Pois um dia o encontrei empunhando um jornal de esportes.

- Que é isso? – perguntei.

- Vou ao barbeiro, disse ele.

- E daí?

Explicou, muito formal:

- Preciso bater papo com o barbeiro. Dia desses se ofendeu porque eu não sabia que o time dele ganhara o campeonato. Como tem o apelido de Gaúcho, achei que torcia pelo Inter, mas lá no sul existe outro time, o Grêmio. Eu não sabia. E ele é gremista. Também não sabia. Quase me mata com uma tesourada. Doutra feita – era dos poucos que ainda usavam “doutra feita” – me censurou por desconhecer o goleador do seu time. Desde então leio o jornal, decoro a classificação, memorizo o artilheiro. Como quem vai para um exame da OAB.

E, diante do meu espanto, completou:

- Já viu a tesoura que ele usa? Um perigo.

Foi quando me lembrei do meu barbeiro. Depois de várias tentativas inúteis de conversar comigo, ele mergulhou em devaneios:

- Sabe o que eu queria mesmo?

Parei de folhear uma dessas revistas que folheamos em barbearia. Ele me olhou através do espelho:

- Ganhar na loteria. Já pensou?

- Já pensei. Mas não adiantou.

Ele me olhou com reprovação, o assunto era sério, nada de gracejos. E resolveu podar minha sobrancelha, o que é perigosíssimo. Uma piscadela e... Ele continuou:

- Ganhar uns vinte milhões, certo? Melhor, vinte e cinco. Faço uma lista de parentes, dou um milhão para cada um. Mas – a tesoura estalou no ar – não vai ser assim na moleza. Empresto. Juros baixos, claro. Mas vou cobrar, pois eles têm que valorizar o dinheiro, fazer render, trabalhar. Nada de moleza. Dinheiro se ganha trabalhando. Não é certo?

- Certíssimo, concordei, de olho na navalha que ele empunhou.

- Depois, viajaria pelo mundo. Eu, as crianças e a patroa.

Antes de terminar o corte, ele já havia comprado um barco, feito uma excursão ao Betto Carrero, passado o Natal em Nova York. Na volta, participou do programa do Ratinho, adquiriu um camarote no Couto Pereira e deu uma volta olímpica no campo para comemorar a conquista da Libertadores.

- Seria o máximo, não seria? – e, sem esperar resposta, mandou que eu abaixasse a cabeça; ia passar a navalha no meu cangote.

Obedeci. Como diria o meu amigo dado aos clássicos:

- Discordar? Quem há de?


* Roberto Gomes nasceu em Blumenau. Reside em Curitiba. Escritor, editor, tradutor e professor aposentado do Departamento de Filosofia da UFPR. É autor, entre outros, de Crítica da Razão Tupiniquim (1977), hoje em décima terceira edição, a propósito da qual Darcy Ribeiro escreveu, em Aos Trancos e Barrancos: "O Brasil volta, finalmente, a filosofar".
> Texto retirado do site Criar Edições, do autor.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

LAMENTO INFORMAR

Roberto Gomes


Este é um mundo sem heróis e sem loucos. Já não se fazem loucos como antigamente, pois o discurso dos loucos não é politicamente correto. Todos trazem no bolso uma tabela de débitos e créditos, custos e benefícios, vantagens e investimentos. Calculam afetos e amizades, lucros e perdas, negociam os favores dos deuses em preces de aluguel.

Sartre? Aquele sujeito pequeno e feio, vesgo e roufenho, com suas centenas de páginas a respeito do ser e do nada? Nada disso. O pensador da hora usa oitenta palavras, vinte e duas frases feitas, duas ideias solitárias. É politicamente correto e não escandaliza a ninguém. Ama o que todos amam, aprova o que todo mundo aprova, cada um tem afinal seu direito a brilhar.

E Foucault? Não, um bicho muito louco. Deleuze? De modo algum. Os editores estão em busca de quem selecione frases otimistas mesmo em Schopenhauer ou no indefeso Pascal. Que o pensamento seja prêt-à-porter, um pijama folgado, um chapéu de aba larga.

O pensador da hora é bem alimentado e regiamente pago. É um homem feliz. Esguicha otimismo e espírito positivo. Nada de Gogol, Machado de Assis ou Proust. Produz textos como Narciso ordenha a si mesmo e extrai das tripas o livro mais digerível, a história mais palatável, o consolo para todos os males, passados e futuros.

Quanto aos políticos, nada de visionários que pregam no deserto. Os políticos devem ser embalagem pura, exterioridade absoluta. São perfumados, bem penteados, barba feita, usam ombreiras agudas, gravatas cintilantes, ideias toscas, verbo solto, paranoia triunfante. Nada de idealismos. O mundo é assim mesmo. Homens práticos, objetivos, obtusos. Homens que nos matam de rir e de fome.

Nas escolas não se deve aprender nada de inútil. Ler versos, desenhar, escrever poemas, contar histórias, especular filosofias, descobrir novas matemáticas e espaços geométricos inesperados – tudo isto, que não ajuda ao acúmulo de riquezas, deve ser banido em favor da utilidade. Saber assinar o nome e fazer as quatro operações é o que basta. Um empregado deve dominar coisas simples. Um empregador, menos ainda. Um chicote basta. Portanto, abaixo os teóricos, as especulações, a perda de tempo e dinheiro.

E aprenda a se vestir. Os que podem se vestir. A ordem do mundo é esta: vista-se para ser visto. Vista-se por dentro e por fora – logo você não verá mais diferença entre o dentro e o fora. Você é um envelope. Vazio.

Seu corpo é público e não passa de um bem de consumo. Exiba-o como mercadoria. Escolha se é com barba ou barbicha, espete ou raspe os cabelos, encha os seios com silicone, espiche a cara com botox, exiba o que não é seu – quem compra não sabe. Sua pele é uma roupa como outra qualquer, suas idéias e frases preferidas não passam de um cosmético destinado a fazer amigos e conquistar pessoas. Aliás, não leia livros que contenham mais de uma ideia. Só vai atrapalhar.

Mova-se por decisões simples. Veja o filme da moda, ouça a música de duplas românticas, faça o vestibular no qual basta preencher um formulário, escolha a profissão mais lucrativa –, estacione seu carrão no imenso pátio da universidade e suspire: quatro anos é coisa que passa rápido. Logo você estará livre para operar, na bolsa ou no bolso de alguém.

E não esqueça: como dizem as fornidas moçoilas e os esbeltos rapazes que posam na televisão e nas capas de revista, o que importa é o sucesso. O sucesso a todo preço e a todo custo – o deus que a tudo preside. Se puder, faça poses para nus frontais – artísticos, intelectuais ou morais, pouco importa. Importa é o sucesso. Aliás, não queira fazer coisas, apenas divulgue que você fez isto ou aquilo, o que você fez não importa. Não inaugure uma biblioteca, um hospital ou uma escola – mande cartas, e-mails, cartazes e anúncios de página inteira dizendo ao mundo que fez o que não fez nem fará. Importa o que sai na mídia. Se for político, não realize obras. Chame a imprensa e comunique que está decretando que se faça tal obra – é o que basta, o resto o povo esquece. Não aprenda a desenhar, a pintar, a compor – faça logo uma instalação, uma exposição, um release.

Assim, de olho no sucesso, vá em frente. E, sobretudo, não pare para pensar. Pode ser fatal.


* Roberto Gomes nasceu em Blumenau. Reside em Curitiba. Escritor, editor, tradutor e professor aposentado do Departamento de Filosofia da UFPR. É autor, entre outros, de Crítica da Razão Tupiniquim (1977), hoje em décima terceira edição, a propósito da qual Darcy Ribeiro escreveu, em Aos Trancos e Barrancos: "O Brasil volta, finalmente, a filosofar".
> Texto retirado do site Criar Edições, do autor.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

FUTEBOL E KANT, VEJAM SÓ

Roberto Gomes


Dia destes, ouvindo uma transmissão de futebol no rádio, me diverti com a aflição do locutor, francamente favorável a um dos times – ele estava irritado com a cera que o adversário fazia para segurar o empate. O locutor esbravejava, exigia do juiz uma atitude, condenava a demora, o anti-jogo, e por aí vai. Eu tomava um quieto café de final de tarde e segui escutando aquela arenga.

Volta e meia o locutor se exaltava:

- Olha o goleiro! Não repõe a bola! É uma barbaridade!

Sendo o futebol a tal da caixinha de surpresas, quando eu passava manteiga no segundo pedaço de pão, o time do locutor fez um gol, mudando o placar. O locutor, comemorou aos berros, fazendo com que meu rádio desse saltos sobre a mesa da cozinha. Agora seu time estava vencendo.

Bom, não demorou, o time do locutor retardou a colocação da bola em jogo por conta de um lateral. E ele, triunfante:

- É isso aí! Agora é nossa vez!

E toda a equipe da rádio comemorou aquilo que passaram a chamar de esperteza, de jogo de cintura, de “administração do resultado”.

Bom. O Brasil é um país não apenas de ponta-cabeça, como dizia Tom Jobim, mas é também um país que, por diversas circunstâncias históricas e sociais, não exercita o que se chama de pensar. Pensar é de fato doloroso, custa esforço, desprendimento das circunstâncias imediatas da vida, projeção da inteligência e da imaginação no futuro, acúmulo de dados vindos do passado, para ficarmos apenas no mínimo necessário.

Fascinado pelo imediatismo, o locutor agia em função dos estímulos momentâneos, o jogo. Não lhe ocorria especular sobre as condições que tornam um jogo possível – não só a bola, as traves, as chuteiras, mas as regras comuns a todos. O lamentável é que esta cegueira intelectual não está presente apenas no torcedor de futebol, mas se encontra em todas as camadas da população e condiciona o que podemos chamar de oportunismo ético. Ou realismo cínico.

Desliguei o rádio, meu café chegava ao fim de modo melancólico.

Lembrei então que o locutor tinha não apenas um grande número de iguais, mas também um número ilustre de iguais. No caso, o presidente Lula, que vive citando o futebol como o universo de onde extrai seus conceitos (Conceitos? Que Kant e os leitores me perdoem.)

Quando esteve em Madrid, Lula fez uma declaração surpreendente, ao menos para mim, que gasto um tempinho diário com isso de pensar. Disse ele: “Você não governa com principismos. Principismo você faz no partido quando pensa que não vai ganhar as eleições. Quando vira governo, governa em função da realidade que tem”.

É uma versão vulgar da idéia de que existem razões de estado que se impõem aos governantes, caricatura tupiniquim das relações entre meios e fins – uma espécie de Maquiavel de chuteiras. Ela exige, em nome do realismo político, que os governantes possam mudar de convicções e atitudes com relação àquilo que pregavam antes de chegar ao poder.

Se estes dois, o tal locutor e o presidente Lula, conseguissem pensar e tivessem o hábito de ler e estudar, lembrariam que Kant estabeleceu uma condição básica para o imperativo ético: a universalidade. Para que algo possa ser tido como ético deve ser passível de generalização para todos os seres humanos. Por que a mentira é condenável? Porque, se todos mentirem, qualquer sociedade humana se torna inviável. No futebol, as botinadas indiscriminadas ou as malandragens impunes destruiriam o jogo. Trata-se, poderia objetar o filósofo Lula, de um “principismo”. O locutor diria que ficaria impedido de torcer. Enfim, os dois lutariam para que prevalecesse a ética brucutu: ao nosso time tudo, ao adversário o cartão vermelho. Enfim, como não pensam, buscam seus modelos no futebol.

Eis como, terminado o meu café vespertino, descubro mais uma vez que o Brasil é um país desossado intelectual e eticamente. Um país que não pensa. Por isso, qualquer um – seja presidente ou profissional da comunicação – pode dizer qualquer besteira impunemente.

Como talvez observasse Kant, que era um “principista” de quatro costados: “neste caso vocês vão ter que agüentar a guerra de todos contra todos”.

É onde estamos, não é mesmo? 

-

* Roberto Gomes é autor, entre outros, de Crítica da Razão Tupiniquim (1977), hoje em décima terceira edição, a propósito da qual Darcy Ribeiro escreveu, em Aos Trancos e Barrancos: "O Brasil volta, finalmente, a filosofar". O texto acima foi retirado do site do escritor. 

** Entrei em contato ainda recente com a obra de Roberto Gomes, esse blumenauense que reside em Curitiba, onde se aposentou como professor da UFPR. Tive oportunidade de encontrá-lo ainda recente na Biblioteca Pública do Paraná, e desde então sua obra passou a ter um fascínio ainda mais sobre mim. Seus textos são excelentes. Escreve com profundidade e humor.