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quarta-feira, 31 de julho de 2013

A MULHER DE CÓCORAS

Jairo Nolasco


Ao chegar a uma determinada repartição pública  vi uma mulher de cócoras. Aliás, ela estava de cócoras. No corredor e de cócoras. Alguns transeuntes a olhavam com reprovação, outros, covardemente, a ignoravam talvez por que ela só estava lá, assim de cócoras. E eu que não tinha nada a ver com isso e nem com a vida alheia notei que estava de cócoras. E no corredor.

Quem seria? Qual sua história? De rosto sofrido e cabelo rebelde, sem pintura e chapinha, aparentava mais anos do que a cronologia da certidão indicaria. Mãe de alguém. Talvez até avó e estava lá de cócoras. Possivelmente veio da zona rural a procura de atendimento no serviço público. Notei que na sala tinha um aviso dizendo que desrespeitar o servidor público no seu local de trabalho é crime e etc e tal. Como não havia ainda sido atendida e não podia reclamar sem cometer um crime, talvez tenha se encaminhado para o corredor e lá ficou de cócoras.

Há quanto tempo estava lá de cócoras? Não sabia ela que a Coreia do Norte, hoje, atacou uma ilha pertencente a Coreia do Sul e matou dois soldados sul-coreanos e que pode ser início de uma grande guerra? Que muita gente está perdendo o sono enquanto aguarda o próximo mês para saber quem vai fazer parte do novo secretariado do novo governo? Que o nosso prefeito declarou que será o melhor de todos os tempos?  Isso tudo acontecendo e aquela mulher ali de cócoras, sem milho, sem pombos, sem praça e bancos?

Nem ria e nem demonstrava irritação. Só estava ali de cócoras, impassível. Tive inveja daquela mulher. Não por que ela era mulher,  pobre e feia. Tive inveja por que ela era livre para ficar ali de cócoras. Eu nunca poderia ficar de cócoras em um corredor de uma repartição pública. Logo apareceria alguém para me demover da ideia e se insistisse perderia o emprego e a família. Os amigos teriam pena de mim e os conhecidos desviariam o olhar. "Como um cara desse não tem vergonha de ficar de cócoras no corredor?" _  diriam na mesa de bar quando eu passasse, inocente, do outro lado da rua.

Enquanto a ignoram, eu a respeito. Estava ali de cócoras a desafiar  nossa hipocrisia e nossas etiquetas de regras de comportamentos sociais de homens fracos de causar ânsia de vômitos no enfermo Nietzsche. Que se danem os olhares de reprovação dessas pessoas afrescalhadas. Ela estava se sentindo em casa e o seu mundo é o que importava. Estava de cócoras, mas não de joelhos a implorar reconhecimento. Aquela mulher de  fenótipo tosco me atormentou.

Sorte de Drummond que tinha uma simples pedra no caminho. Eu tenho uma mulher de cócoras e minhas retinas nem estão ainda assim tão fadigadas pelo tempo. Mas minhas pernas, sim, cansaram de ficar paradas ali vendo aquela mulher de cócoras enquanto meu tempo de homem moderno urgia. Fiz o que tinha de fazer e quando retornei para rever a mulher de cócoras, ela já tinha deixado o local. Deve ter se cansado de ficar ali servindo de escárnio ou foi convidada a se retirar por alguns sapientes funcionários públicos que devem ter descoberto uma lei que diz que ficar de cócoras no corredor de uma repartição pública é crime, etc e tal...

E ela, a mulher que estava de cócoras,  foi embora para qualquer dia retornar e ficar de novo de cócoras. Talvez o mundo nem fosse melhor se em cada esquina tivesse uma mulher de cócoras, mas  cada homem livre devia ter o direito de ver pelo menos uma vez na vida uma mulher feia e tosca de cócoras no corredor a espera de qualquer coisa, menos da compreensão alheia. A essa hora o Japão já deve ter ter declarado o seu apoio à Coreia do Sul. A guerra se aproxima e aquela mulher continua de cócoras. Terei pesadelo à noite.



> Crônica publicada em 23 de novembro de 2010 no Jurubeba Juruaensis. Um dos mais belos textos do nosso amigo da terra dos Náuas, Jairo Nolasco.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A ÚLTIMA DAS CASTANHOLAS CRUZEIRENSES

Jairo Nolasco


No bucólico, personalíssimo e tradicional, bairro da Baixa (outrora Baixa da Égua) resta o último dos pés de castanholas urbanos. Ele fica na Joaquim Távora, antes da subida do Morro dos Quibes. 

Em uma postagem anterior prometi fazer uma ode ao sujeito árvore, a última da espécie urbanizada em Cruzeiro do Sul que ainda persiste em doar sombra aos transeuntes e a alguns moradores do bairro que vez ou outra vejo sentados num banco de madeira fixo na calçada, jogando conversa fora e bebericando uns aperitivos.

Desisti do sacrilégio quando soube que foi embaixo de um pé de castanhola (ou amendoeira) que Drummond conseguiu inspirar-se para compor uma parte dos seus modernos poemas e textos. Vá que exista um deus da poesia que se zangue das minhas labruscas linhas... melhor não arriscar. 

O que essa espécime de árvore tem de especial? Para virar notícia eu diria, nada! Veja se algum chefe de reportagem vá mandar se gastar tempo em se fazer uma matéria sobre o último pé de castanhola democrática da cidade? Seria loucura pura! 

Só mesmo um blogueiro lol da minha estirpe para perder tempo com isso, oras! É que me passa que essa árvore (não especificamente esta, mas as suas já extintas irmãs mais velhas) já foi muito importante na outrora urbanização da cidade. E serviu até de referência: 

_ Fica onde? 

_ Lá nas castanholas. 

_ O Posto de Saúde da Castanhola. 

_ O Mercadinho da Castanhola. 

_ Depois do segundo pé de castanhola, contando daqui pra lá. 

_ Foi encontrado morto embaixo do pé de castanhola, na entrada do bairro da Lagoa. 

_ Me espera aqui na castanhola, mas não olha para cima que mijo de cigarra cega. 

Deveras também que a castanhola não é nativa da região. É como todo o povo daqui, forasteira. Veio de longe, aqui fincou raiz, cresceu, reproduziu e como uma grande parte dos socialmente invisíveis, desapareceram as mais antigas sem deixar rastros. Marcas? Talvez.

Então, à última das castanholas urbanizadora, ali tão humilde, escondidinha, quase invisível, o meu apreço, o que não é assim lá grande coisa neste espaço tão raro de visitas. 

Quem sabe um dia um poeta não sente naquele banquinho de praça, próxima a tua pequena sombra e dane a escrever de verdade sobre a tua história, teus sonhos, ilusões e agora tua solidão em uma cidade que cresce, enquanto que sua gente, não. 

Quem sabe não te tornes centenária, teu caule tão grosso, como tua resistência, guarde na casca túmida várias marcas de encontros de quem já chegou e de quem, como este blogueiro lol que de ti fala, já partiu.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

ENQUANTO A MISANTROPIA NÃO ME TOMA POR COMPLETO...

Jairo Nolasco
Jurubeba Juruaensis


Por que me visto tão mal? 

Decerto que não sou um maltrapilho sem opção. A esta altura da vida poderia usar roupas mais caras e de grifes. Poderia até me desfazer do carro popular e investir as economias em algo mais prazeroso sobre quatro rodas. 

Mas não. Por enquanto ainda não e talvez nunca. 

Não julgo quem se prende ao bom gosto das roupas caras e combinadas. Que sejam felizes como são. Meu cisma aqui é outro. 

Faço de mim uma figura pobre e mal trajada  de forma proposital. Quero afastar de mim os infames, falsos, destiladores de peçonha. Estes não resistem ao toque simples, cru.

Não é ódio e nem desgosto, é pura diversão. Liberdade de ser assim, eu. 

Gosto de ver e comprovar até onde  vai a covardia e a podridão desses humanos, que julgam as pessoas pelo o que veste, o que calça, o que dirige, quantos 's' se gasta no palavrear... 

A essência e o caráter jazem por completos. Pobre hipócrita, este povo ocidental, suposto "cristão", que adora gabar-se de ter como Deus Aquele que se fez carne, habitou entre nós e veio a este mundo em uma humilde manjedoura, em um estábulo qualquer, tendo como pais, pobres de riqueza material. 

Certamente a mensagem do Messias não foi para que fossemos pobres e maltrapilhos para sermos dignos. Não me venham com esta, pois! A dignidade humana, entretanto, no dobro da distância, não está na boa aparência que pode ser comprada, facilmente fabricada ou  na simples origem do individuo. 

Me divirto observando este povo hipócrita, que se parasse para olhar mais atentamente veria um discreto sorriso de ironia. Eles não te olham na cara, dentro dos olhos. Te julgam de longe. 

Me julgam pela pintura, eu os julgo pela alma. 

São como moscas morféticas por não diferenciar o veneno fatal incluso na sujeira da qual alimentam-se diariamente! 

Não sou e nem quero ser, por certo, melhor que eles. Só diferente e distante, um indivíduo estranho.

Assim a vida é justa e quase divertida...



P.S. sempre que leio Jairo Nolasco vejo um quê machadiano, talvez o tom (ou dom) sarcástico, irônico que atinge o ponto nevrálgico da questão. Os melhores textos advindos das barrancas do Juruá que tenho lido ultimamente são dele, que, com Franciney e o Altheman, forma a trindade literário-jornalística juruaensis da blogosfera.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

PARECE NÃO SER

Jairo Nolasco


Enquanto eu deliciava um sorvete, hoje à tarde, uma moça se aproximou e quis saber se eu era o "Jairo Nolasco, que escrevia o blog Jurubeba". Sim, foi o que, ainda surpreso, respondi.

Surpreso, porque jamais poderia imaginar que alguém pudesse me reconhecer pelo o que escrevo no blog, ainda mais alguém de sua faixa etária, hoje fadada a se apaixonar pelas frases feitas do facebook, este fenômeno da comunicação moderna. Escrever em blog já é 'demodê'.

"Foi você quem realmente escreveu aquele soneto sobre a hipocrisia?" (vide a última postagem). Sem graça, balancei positivamente a cabeça. "Não parece", completou depois.

Em frações de segundos minha mente viajou há décadas, ao tempo de estudante secundário no Colégio Estadual Rio Branco em uma aula de literatura. Um professor, que a época para mim, era um esquisitão magrela movido a cafeína, tinha solicitado à classe, na aula anterior, uma redação narrativa/descritiva. A melhor seria premiada.

Passei o dia a imaginar a cena para descrever. Depois de achar a melhor, passei a descrever ao estilo de Aluísio de Azevedo, já que eu acabara de ler o livro "O Cortiço".

Até hoje acho o escritor um injustiçado, deveria ser sempre citado entre os maiores. Para mim, o cara é um monstro de nossa literatura. Aquele livro, li de um só fôlego e me apaixonei pelo estilo. Incrivelmente até hoje sinto o gosto da "fumegante palangana de café com parati", que a Rita serviu ao Jerônimo, não obstante eu nem saber o que é mesmo 'parati'. Povoa minha mente como algo de sabor super tropical.

Inspirado no melhor, fiz correr a pena pelas linhas pré-desenhadas em azul pálido da folha de papel branca. Fiz as personagens ser parte integrante do meio em que estavam. Descrevi tudo nos pormenores, como se um filme fosse, cena a cena.

A redação foi considerada pelo professor como a vencedora. Foi lida em voz alta em sala. Uns colegas me ofereceram os parabéns, outros fizeram som de muxoxo, ignoraram, e teve quem achasse que aquilo de escrever daquele jeito era coisa de boiola, a despeito de eu não ser um baitola.

Entretanto, o que marcou mesmo foi no fim da aula, quando o professor me encontrou no corredor e falou-me à boca curta: "Ficou muito boa, mas foi você mesmo quem escreveu aquilo? Se foi, continue que você tem um certo talento, se não, pare agora mesmo, o futuro dos falsários é a cadeia..."

Por motivos vários, mandei meu suposto promissor talento de escritor, enxergado pelo preconceituoso professor, às calendas gregas. Persistiu, entretanto, um certo orgulho de ter causado estranheza em quem jamais acreditaria em minha figura:  quem diria este paspalho que senta no fundão não é o marginal que eu pensava...

Agora, aquela mesma sensação novamente. Minha figura não inspira mesmo confiança: Foi você quem escreveu aquilo? Não parece....

Realmente não pareço. Em verdade, eu sequer consigo ser em emblema o que sou em letras. Sou pólos opostos a causar estranheza. Às vezes sinto vergonha do que escrevo. Já quis até parar, me afastar, não me expor ao ridículo. Mas não me mando. Virou vício.

O que consigo ainda fazer é não publicar tudo que escrevo, tenho mais de 200 rascunhos a espera de coragem para liberar... escrevo todo dia a qualquer folga no tempo.

O melhor mesmo foi o que ela disse ter entendido do soneto. E querem saber, bem melhor do que realmente eu quis dizer. A interpretação dela foi sensacional, eu só pude concordar. Talvez se eu tivesse visto por aquele ângulo teria escrito algo mais decente.

Espero ter feito mais uma amizade para meu parco circulo, não necessariamente um leitora fiel. Torço, que ela, ainda muito jovem, mas com gosto pela leitura, também escreva e seja infinitamente melhor do que eu.

Como é bonita e muito espontânea não correrá o risco de alguém perguntar : Mas foi você mesma quem escreveu? não parece...

Post Scriptum: A não ser que ela escreva sobre Economia, aí ninguém vai acreditar...

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SONETO DA FRIA HIPOCRISIA
Jairo Nolasco


E a vela, trêmula, a mão meio segura
que já te lançou pétreos impropérios
à boca que não mais roga deletérios
ao corpo livre da material amargura.

Crispadas, as mãos frias postadas
a separar por outrora vital unida
ao cessado pulsar sem mais guarida
das quentes (ex-recentes) forças separadas

Cara, vai, leva contigo a verdade cruel e fria
que a vistosa de bronze encerrada
não ver a torpeza mordaz incontida

Agora, com nada, és neo camarada
quem, sem tudo, inflamava a ferida
a dias viver - barato é - a bondosa hipocrisia

segunda-feira, 30 de abril de 2012

ELA DA JANELA DA CASA DOS RUELAS

Jairo Nolasco

Localizada estrategicamente em um morrete na esquina da Luiz Meirim Pedreira com a Desembargador Távora fica a fantasmagórica 'casa dos Ruelas', uma das famílias(de origem lusitana) mais abastadas da sociedade cruzeirense em décadas de outrora. Estrategicamente, porque dela se avistaria o movimento de gente que chega e sai pelo rio Juruá.

A caminho de vários mercados de produtores e marreteiros, hoje, o movimento de pessoas ainda é grande naquela parte da cidade. Às pressas os transeuntes ignoram a paisagem já cansada. A velha casa a cada dia fica cada vez mais invisível. É como não existisse mais. É a monotonia da pressa moderna.

Abaixo do que um dia foi uma pequena sacada protegida por barras de ferro e acima da porta principal frontal está gravada em relevo a data 1940, provavelmente ano de sua inauguração. Estranha mania da época que parecia adivinhar que ficaria a construção para a posterioridade a mostrar a exuberância de um passado não tão perfeito.

A velha construção pertence hoje a um comerciante forte desta plaga. Dizem que não vende e nem troca. Queria mesmo era derrubá-la. Possivelmente em seu lugar ergueria mais uma dessas lojas ou mercadinho ultrapassados e apertadinhos que nem estacionamento ou qualquer outro conforto oferecem aos usuários.

Coisa da mentalidade tacanha que ainda reina por aqui de achar que só existe movimento comercial se for " perto do rio". Reza a lenda que só não conseguiu seu intento porque o prefeito à época declarou ser a casa 'patrimônio histórico', portanto embargando a demolição.

Conta-se que ainda foi oferecido outro terreno em troca. Por birra, o empresário não aceitou, como também não permitiu a reconstrução da casa. O empresário espera vencer o poder público pelo cansaço.

Se a conversa popular é verdadeira ou não, eu não sei. Só sei que como não sou nem um pouco normal, vez ou outra costumo passar horas a contemplar a construção fantasma e invisível aos outros. Isto porque uma força estranha que eu não poderia explicar me atrai o olhar e pensamento quando por ali passo.

Como num filme a mente viaja aos anos 40. Vejo a casa de paredes novas, toda pintada de branco com detalhes em vermelho, com ampla escadaria. Ouço vozes, choros e risos. Vejo reuniões de gente importante e bem trajada. Naquela casa, o poder econômico e político da pequena e isolada cidade era passado em conversas à boca pequena.

Se tivesse talento para escritor faria um romance a partir daquelas imagens. Mas sou só um blogueiro sem dom e de paupérrima qualidade.

Na pequena sacada aparece o que parece ser um figura feminina. Eu ouço o que ela fala sem que ninguém veja. Ela diz que o tempo gira e a roda da fortuna também. O que hoje é certo, amanhã não terá continuidade. O dinheiro e o poder sempre trocará de mãos.

Essa é a mensagem que a velha casa me diz. Essa é a sua sina e assim quis o destino que permanecesse em pé até hoje, daquela forma ali esquecida, como esquecida foi a história de seus antigos proprietários. Se ela tivesse sido reformada mesmo mantendo a arquitetura original jamais me despertaria tamanha curiosidade.

Sorte de muitos que existem poucos loucos como eu a ver ou imaginar coisas onde não existem e que na verdade não têm serventia alguma ao mundo real. A cidade não precisa mais dela. O que é do passado ficou por lá, preso ao tempo e espaço.

Mas aquela casa antiga e em ruínas me intriga, sobretudo porque ela não me diz do passado e sim do presente e de um futuro próximo, de uma verdade insofismável : a mudança é a única certeza.

Quem sabe não seja eu que precise mudar primeiro...

sábado, 26 de fevereiro de 2011

CRÔNICA DA MINHA FILOSOFIA BARATA: O LOBO SEMPRE VENCE NO FINAL

Jairo Nolasco
Ontem tive a oportunidade, diria não muito desejada, de receber a visita do dono do alheio. Ele veio na madrugada no melhor do meu sono, aproveitando a noite de chuva invernosa _ só quando as nossas choupanas amazônicas ficam refrigeradas e deixam nossos sentidos mais dormentes _ para me aliviar de alguns bens adquirido pelo ofício. Quando despertei, repentino, do meu descanso já era sem jeito, o convidado non grata já se tinha ido. Restava apenas o latido agoniado do cachorro e o forte cheiro de enxofre deixado pela fumaça que encobria seus rastros.

Queria eu tê-lo encontrado? Não sei ao certo. A arma artesanal deixada na fuga, apresentada na imagem acima, demonstra que ele não estava muito a fim de papo. Queria, porém, parabenizá-lo pela empreitada. Ele é sortudo porque a lei e a moral não o restringe. Ele pode quebrar o Contrato Social de Rousseau. Ele não está preso ao que restou do compêndio do Richard Baxter e da ética puritana. Aliás, minha Visita Secreta não está preso a nada. Não é preciso da dedução ou da inferição "sherloqueana" para saber que aprendeu fazer aquele tipo de arma em uma alguma dessas unidades de recuperação social. E que recuperação!!

Gabaria sua condição privilegiada. Ele sempre estará um passo na frente. Eu nunca saberei quando virá novamente. Esperarei dias, meses, perdendo o sono. Ele dormirá tranquilo, me matará no cansaço da espera. Quando decidir, voltará a carga quando eu estiver novamente dormindo. E o seu lucro financeiro será grande. Cada coisa que ele levou, paguei os impostos nela's contidos. Ele conseguiu livre. Tudo é franqueado no furto. Sorte minha e burrice dele que só eram velhos cacarecos.

Enquanto cumpria minha carga horária escolar e de trabalho , me impunham a lei Draconiana, a moral e a ascese Calvinista e Capitalista, ele, coitado, era vítima de um tal de "sistema". Por isso aprendeu a manusear e fabricar armas, dilacerar a pele e espetar os órgãos internos dos corpos alheios. Seu porte de arma é garantido, a lei não o alcança. Está preparado para a batalha corporal, eis mais uma vantagem. O seu único horário é à noite. Ele está pouco preocupado se é o velho ou é o novo horário. Tanto faz ser às 03 ou às 02 da manhã. Só torce pela fina e fria chuva da madrugada. Há engenhosidade no plano.

Tenho por minha minha propriedade o direito fundamental garantido pela nossa misericordiosa Constituição Federal, desde que _ claro_ pague o IPTU. Mas o direito não é absoluto. Se sem cautela abro a porta que dá para a área de serviço onde o pobre coitado estava fazendo seu trabalho e ele revoltado me desferisse uma, duas estocadas com essa arma artesanal atingindo minha jugular ou carótida interna _ que ele aprendeu onde ficam, nas lições sobre a anatomia humana nas suas aulas de recuperação social _ seria eu só mais um pai de família, no lugar errado na hora errada a atrapalhar o serviço alheio. Será que dei sorte ?

Em espírito, não necessariamente em verdade, desejaria a ele que não voltasse mais vezes. Fosse procurar outras oferendas em outras propriedades, senão a dele mesmo. Vai homem livre das propriedades alheias, enquanto eu me preocupo em reforçar as grades e contratar um cão mais feroz que não tenha medo de água para vigiar melhor minha reclusão. O desvalido, se cair, ainda tem direito ao Auxílio Reclusão. Eu pago os impostos. Os defensores dos direitos humanos pensaram e pensam nele, em mim não. Quem mesmo leva vantagem no fim?

E no ocaso ficaria, como fiquei, com a rústica arma dele. Pediria que não me processasse. Diria: Sei que não foi uma troca justa. Vossa Senhoria trabalhou pesado para fabricá-la; as coisas das quais se apossou, eu já as recebi prontas, a minha mais- valia não estava ali posta. Peço desculpas pelo susto. Bom furto.

Já disseram que o homem é o lobo do homem? Pois, bem por via de dúvidas, eu não sendo o cordeiro da dupla _ me recuso a semelhante papel, trataria de dá-lhe no mínimo dois tiros, um de defesa e outro de garantia, quer ser lobo? Então que vá ser lá onde os raios o partam! Fez bem em fugir antes da minha chegada, o filhote das teorias humanistas. Da próxima vez não farei tanto barulho (proposital), para ter dar a chance de fugir, escravo do mal...

***

*JAIRO NOLASCO vive em Cruzeiro do Sul - AC. Dono de uma ironia-sarcástica requintada, que nos faz pensar num Machado de Assis, é impossível findar um texto seu sem aquele sentimento de incômodo e/ou deslumbramento. Fugindo da crítica fácil e medíocre, tão comum nessa nova onda blogueira acreana, Jairo Nolasco se diferencia de tudo o mais que se tem escrito  no Acre, pelo seu estilo próprio de contar-denunciar, em escrachar o verbo de forma poética, literária, profunda. Jurubeba é planta que amarga, cheia de espinhos... incomoda. Não é por acaso que seu blog se chama JURUBEBA JURUAENSIS.

domingo, 30 de janeiro de 2011

FÁBULA JURUAENSE

JAIRO NOLASCO*

Fonte: http://www.viafanzine.jor.br/
Conta a lenda que outrora, um dito cidadão respeitável que não ganha quatro mil cruzeiros por mês, morador da zona rural de nossa cidadela do interior acreano, sentiu-se mal. Ele é um desses bravos, que não dão moleza ao corpo e não deixam o roçado à mercê da sorte por qualquer febrezinha de 40 graus, não senhor! Nunca capinou sentado e na sombra. Não tinha nada de Macunaíma, o nosso personagem.

Nunca antes achou necessária a consulta a um médico. Para quê, se na mata tinha todo tipo de remédio que precisava? Sua nêga companheira fazia cada chazinho milagroso e escalda-pés capaz de espantar todo tipo de brunhuras, tanto do corpo quanto da alma. "_ O nosso dotô, aqui veste verde, sêo moço", gabava-se aos conhecidos.

Porém, dessa feita por mais que tomasse o chá do Cajiru, o desconforto não passava. Resolveu depois de meses de xêpas que deveria finalmente recorrer à medicina alternativa. Deveria, por fim, encarar a Cidade dos Homens. Mundo-ético de gostos finos e duvidosos que lhe causava ojeriza. Como não sabia dizer essa palavra, dizia que "tinha era nojo". Não das pessoas e da higiene delas, mas dos trejeitos afrescalhados e das meias palavras ditas sem valor algum.

Resolveu, para encurtar caminho, ouvir conselho do seu primo que já havia se consultado antes na cidade e detinha, portanto, certa experiência no assunto. Ouviu em tom solene "que por lei deveria primeiro procurar a porta de entrada do Sistema Único de Saúde".

- E que diabo de porta é essa hômi?, interrompeu.

- É um posto de saúde, primo.

Dito e feito, ao chegar à cidade procurou a tal porta. Algumas estavam fechadas, outras estavam aberta mas faltava "o dotor". Até que finalmente, depois de andar léguas, achou uma porta aberta com o "dotor" dentro. Como não havia mais vaga para consulta naquele dia, foi convencido a voltar no dia seguinte. No outro dia, esperou por mais de três horas na fila. Agora chegara a sua vez.

O "dotor", muito atencioso, sem lhe olhar na cara pergunta o que ele sente. Responde : "_ sinto uma dorzinha aqui", aponta para a região do púbis. Sem continuar olhando para sua cara, o médico deduz que seja verme e lhe receita umas pílulas para dor de cabeça.

Como a sua dor, obviamente, não passava, retorna depois de uma semana ao mesmo posto. O médico lhe receita agora remédio para verme, para curar a dor de cabeça que ele sente na região escrotal. Desconfiado, ele procura o diretor do posto. O gerente - humanizado - confessa que ali, ele não teria solução :

_ O senhor deve procurar um especialista.Vá imediatamente ao Hospital e lá o senhor vai conseguir. Vou lhe dá o nome de uma pessoa nossa lá que consegue uma consulta mais rápida para o senhor, sem que entre na fila. Só não esqueça na próxima eleição quem está lhe ajudando, viu?

Chegando ao hospital, viu ser esse bonito, grande, imponente e bem limpo. Concluiu que ali estava a solução para o seu mal. E foi procurar o nome indicado pelo gerente do posto. E se sentiu importante, visto que desta feita, não enfrentou fila. Pelo contrário, viu-se superior àqueles coitados que avistou na sala de triagem, sofrendo, a espera do atendimento. Já sabia até o nome do santo milagroso para votar no dia 03 de outubro.

No consultório, o médico o olhou de cima a baixo e perguntou o que ele sentia. Começou a contar sua sina e foi logo percebendo que o médico começou a ficar impaciente, a olhar para o relógio. Repentinamente foi interrompido. O médico lhe receitou pílulas para dor de cabeça e vermes. Disse-lho que não podia ajudar e que ele deveria procurar um especialista na área. Explicou que só entendia de pulmão. Ou seja, ele não entendia nada sobre doenças nos escrotos, ou doenças nos bagos, dito no popular. "_ Daqui a três meses teremos um especialista, volte para se consultar. Até lá tome essas pílulas".

Triste, o homem resolveu procurar o seu sindicato. O dirigente sindicalista, muito prestativo, achou aquilo um acinte. "_ Nós vamos lhe ajudar meu bom homem. Vamos processar todo mundo". Tirou de uma gaveta um cartão de visita e deu ao nosso personagem. "_ Esse é o doutor Marcio, vou lhe levar lá agora para o senhor contar a ele o seu problema!"

Foi levado ao escritório do advogado. Foram apresentados. Notou logo que o "dotor" ali era diferente dos demais. Ele não usava aquela roupa branca, vestia paletó e gravata e lhe olhava nos olhos. Deduziu que enfim estava diante de um especialista: "_ em que posso ajudá-lo senhor?", perguntou o advogado.

Não perdeu tempo. Foi logo baixando as calças e dizendo:

_ Dotor eu sinto uma dor horrível aqui no meu ovo esquerdo, me ajude por favor !

O advogado, assustado, disse que não podia fazer nada sobre aquilo.

_ Ué, o senhor não é um dotor especialista?

_ Sim meu amigo, mas o meu negócio é Direito, o senhor me ouviu? Sou especialista em D-I-R-E-I-T-O ! Aí, o homem foi à loucura: "_ Vai ter especialista assim lá na casa do cacête !!!


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Moral da história: Se tens problema no ovo esquerdo, continue a tomar chá de Cajiru. Se tiveres dinheiro vai se tratar na medicina particular, fora do país.

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* JAIRO NOLASCO vive em Cruzeiro do Sul - AC. Dono de uma ironia-sarcástica requintada, que nos faz pensar num Machado de Assis, é impossível findar um texto seu sem aquele sentimento de incômodo e/ou deslumbramento. Fugindo da crítica fácil e medíocre, tão comum nessa nova onda blogueira acreana, Jairo Nolasco se diferencia de tudo o mais que se tem escrito  no Acre, pelo seu estilo próprio de contar-denunciar, em escrachar o verbo de forma poética, literária, profunda. Jurubeba é planta que amarga, cheia de espinhos... incomoda. Não é por acaso que seu blog se chama JURUBEBA JURUAENSIS.