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sábado, 1 de outubro de 2022

FRANCISCO DA SILVA E SEU MUNDO FANTÁSTICO

Texto de Eduardo Campos

Naquela rua do Pirambu, em Fortaleza, vivia um homem simplesmente chamado “O Pintor”. Quando lhe faltava trabalho – pois ocupava-se em consertar fogão e aspas de guarda-chuva – acocorava-se ao pé de um muro branco e o enchia de caprichosos desenhos, colorindo-os depois. Jean Pierre Chabloz, o extraordinário artista suíço, primeiro descobriu o muro, depois esse fascinante pintor, que se chama Francisco Domingos da Silva, analfabeto – como se diz no Norte – de pai e mãe.

Silva nasceu a 16 de março de 1922, no distrito de Alto-Tejo, Acre. São seus pais, Luís Domingos da Silva e D. Minervina Félix de Lima, gente de prendas domésticas e que jamais compreendeu “aquela doidice” do filho em pintar bichos da floresta.

O primeiro quadro de Silva, pintado em 1937, denominou-se “Um Dragão Comendo Arraia”. Em 1961, a 4 de abril, os “Diários Associados, em Fortaleza, organizaram uma amostra de seus trabalhos. Doze ao todo. Á inauguração compareceu o pintor, descalço, com o filho caçula no braço. E assim pôs a ouvir a louvação que lhe fez o Governador do Estado, Dr. Parsifal Barroso, a enaltecer-lhe a sua arte de artista espontâneo primitivo.

Francisco Domingos da Silva não sabe ler nem escrever. A sua assinatura é curiosíssima. As letras toscas são como um sinal de ferro de marcar gado. É exageradamente loquaz. Capaz também de fazer um discurso. Com o dom de improvisar, é atilado em suas observações sobre a política social do Pirambu, bairro onde habita. Tem frases saborosas para expressar o seu pensamento. Nunca se sabe quando o nome, com quem batiza os seus animais, corresponde à realidade. Gavião Vipino? Que será? Viperino? E peixe Paragô? Significa mesmo um espécime ictiológico?

Sua imaginação é fértil, como são exuberantes as cores de seus quadros. Seu professor foi Deus. Aprender o manejo da escala cromática em contato com a natureza. A escola de arte que conheceu foi a floresta amazônica, onde viveu mais de quinze anos.

Há quem o considere índio. Visto de frente, assume caracteres étnicos tribais. Á interrogação franca, repele: “Tive índio na família, mas isso foi “coisa” distante”.

É anárquico. Pode-se dizer que somente conhece disciplina na pintura. Não possui um plano de vida. Dos seis filhos que tem, apenas dois vivem em sua companhia. Não é econômico, mas gosta tanto de dinheiro que ri quando vê uma cédula mil cruzeiros.

Pinta, geralmente, em cartolina. Preparado o trabalho – geralmente aquarela –, enrola-o e leva-o à rua, onde consegue vendê-lo sem dificuldade.

À universidade do Ceará conseguiu reunir a maior coleção de telas de sua autoria. Nesses quadros – mais de vinte – há grandiosos momentos de concepção artística flagrados ali com o melhor do talento do pintor. Os bichos são sua temática. Raramente pinta homem ou mulher. Mas cada peixe que pinta, cada ave, salta de dentro de seu complexo selvagem. Vincula-se ao mundo de fantasia, extraordinariamente belo, que cria para, instintivamente, ausentar-se da extrema penúria em que vive.

É um autêntico e deslavado mentiroso, com tal equilíbrio no contar as suas histórias que jamais oferece duas versões diferentes para estas. Nota se que se esforça para não se deixar trair, no intuito de que nós, seus admiradores, continuemos estonteados diante do comprometimento irreal que o alia aos animais de seu mundo primitivo.

Nessa primorosa amostra de seu talento os leitores de “O Cruzeiro” poderão sentir como o pintor popular, tão despido de cultura, consegue vestir-se com tantos talentos. O desenho é secundário em suas criações, porque o que vale realmente é a compreensão cromática que exibe. Em alguns quadros, como no “Peixe Paragô, além da cor e do aprumado desenho, o ritmo alcançado é decisivo. Todas as suas figuras repelem o comodismo da estática. Os gaviões, as cobras, toda a toda a sua engenhosa fauna parece querer saltar, precipitar-se. Os que estão deliciando, agora, ao folhear estas páginas, com as belas reproduções em cores de seus quadros aqui insertos, completarão, temos certeza, o elogio do pintor.



Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 28 de setembro de 1963, edição 51, p. 108-111

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

UM ÍNDIO ACREANO REINVENTA A PINTURA

Chico da Silva
(1910 - 1985)
Chico da Silva. O que está por trás deste nome tão simples é a história daquele que é considerado o maior pintor de estilo primitivo do Brasil. E poucos sabem que a sua obra hoje se encontra nas principais coleções de arte do mundo – como na coleção da Rainha da Inglaterra. A seguir transcrevo o artigo de Cassandra de Castro Assis Gonçalves (bolsista IC-FAPESP) sobre o nosso Chico da Silva.

“Marcadas pelo talento, o acaso e a decadência, a vida e a obra de Chico da Silva são das mais intrigantes da História da Arte brasileira e também um retrato da falta de suporte por parte do governo e dos próprios artistas em oferecer a oportunidade de um grande artista, ainda que simples como Chico da Silva - analfabeto toda a vida - de se profissionalizar.

Francisco Domingos da Silva nasceu em 1910, às margens do “Alto Tejo” no Acre, e aos 10 anos veio para Pirambu, bairro pobre de Fortaleza-CE. Perdeu o pai logo cedo, passando então, a fazer todos os tipos de serviços - consertando sapato, fogão, cobrindo guarda chuva, etc. para sobreviver. Em suas muitas andanças pela cidade, Chico às vezes parava em frente a um muro branco e fazia desenhos com carvão ou tijolo, colorindo-os com folhas. Foram estes desenhos, na Praia Formosa, que chamaram a atenção do crítico de arte e pintor Jean-Pierre Chabloz que passou a procurá-lo e foi seu primeiro incentivador.

Chabloz ensinou Chico da Silva a pintar com guache e passou a dar o material para que ele pintasse, além de comprar todas as suas telas - comprou mais de 40. Foi por intermédio dele que Chico da Silva expôs sua arte, pela primeira vez, no III Salão Cearense de pintura e no Salão de Abril de 1943, em Fortaleza. Em 45, junto com outros artistas cearenses, expõe na Galeria Askanasy e, durante a década de 50, suas obras vão ser vistas em várias galerias da Europa, conseqüência de um artigo a seu respeito no CAHIERS D’ART, conceituada publicação francesa, que o considerou um pintor genuinamente primitivo.

Deslumbrado com o dinheiro e a fama, Chico da Silva passa a gastar com álcool e mulheres; atento à supervalorização dos seus quadros, quer produzir cada vez mais, e passa a recorrer a ajudantes, na verdade meninos e meninas que pintavam os quadros que ele só assinava - cerca de 90% dos quadros com data posterior a 72 eram falsos. A esta altura o artista estava cercado de aproveitadores que o exploravam, exigindo cada vez uma produção maior, vendendo quadros de Chico em mercados, feiras e até na porta de hotéis, por valores ínfimos.

Em meio a denúncias de falsificação, Chico da Silva é indicado para expor na XXXIII Bienal de Veneza (Itália), em 66, onde recebe Menção Honrosa. Chabloz, decepcionado com os rumos que artista e obra tomaram, rompe com ele em 69, afirmando em um artigo do Jornal do Brasil, intitulado Chico da Silva ou a ingenuidade perdida, que sua arte estava morta.

O processo de decadência do artista se agravara com a morte da mulher, Dalva, em 75, e tem seu ápice em 1976, quando foi internado com cirrose hepática e tuberculose crônica, permanecendo um ano no hospital. Mesmo se recuperando fisicamente, Chico continuou bebendo e jamais conseguiu recuperar sua arte. O maior artista primitivo do Brasil, que imprimia nas suas pinturas toda a mitologia da região amazônica realizava através de uma expressão quase surrealista, e que está representado nas maiores coleções do mundo - como a da Rainha da Inglaterra - nunca teve suporte para estruturar sua carreira, apenas incentivos isolados, que o jogou em um meio desconhecido que o deslumbrou e, dentro do qual, sem orientação, acabou por perder-se.”

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Algumas de suas obras:




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Fonte das imagens: MAUC
Obs: Não foi possível precisar o nome de cada obra, pois o site de onde foram retiradas, expirou.