Mostrando postagens com marcador ELSON MARTINS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ELSON MARTINS. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 5 de maio de 2014

É MAIS SUSTENTÁVEL NO SERINGAL

Elson Martins


A cheia do Rio Madeira em fevereiro e março, que para os acreanos ainda não terminou, colocou em cheque a ideia de que o Acre de Galvez e Chico Mendes pratique de verdade o desenvolvimento sustentável. Bastou 60 dias de interrupção do trecho da BR-364 entre Rio Branco e Porto Velho para que governo, comerciantes, “barnabestas” e todo mundo corressem para estocar gasolina, gás de cozinha, cerveja, arroz, leite em caixinha e em pó, ovos etc – com as mãos e o caos na cabeça.

Os ricos donos de supermercados foram os primeiros a alarmar a população dizendo que não conseguiriam repor estoques; e os postos de gasolina venderam num mês o dobro do que costumavam vender, porque muitos enchiam o tanque, corriam para esvaziá-lo em casa, em depósitos diversos, depois voltavam para a fila para pegar mais. Os executivos do comércio e da indústria correram a pressionar o governo para que conseguisse créditos especiais e o alargamento de prazos para os comerciantes poderem liquidar faturas no banco.

O choro espalhou e contaminou atividades que não tinham nada a ver com alagação. Uma feirante que nos abastecia de ovos caipira a 7 reais a dúzia, sem mais nem menos, passou pra 10  e sem corar pôs a culpa no Madeira. Tomate, mamão, cheiro verde, farinha, macaxeira, banana, tudo subiu de preço e até agora se mantém lá em cima, como se as águas não tivessem baixado, ainda.

O pior é que ninguém conseguiu uma explicação plausível sobre o que aconteceu nas cabeceiras do rio no Peru.  Ouvimos falar que o Madre de Diós teve a maior enchente dos últimos cem anos e só! O que mais se viu foi autoridade falando que as hidrelétricas Girau e Santo Antônio, recém-construídas em Rondônia, não tiveram nada a ver com transbordamento. Até a Presidenta, que sobrevoou a região atingida num helicóptero, se apressou em negar qualquer influencia das barragens das usinas.

Mas eu li pelo menos dois artigos de estudiosos, afirmando que não se pode descartar, pelo menos, um agravamento da inundação. Afinal, as usinas enfiaram no leito do Madeira toneladas de cimento, pedra e aço, e esse entulho só pode ter atrapalhado o escoamento natural pela calha do rio.

Com relação à sustentabilidade, pensei que o Acre aproveitaria a crise de abastecimento para provar que é possível recorrer a formas alternativas de sobrevivência. Se me chamassem a opinar sobre o assunto, eu diria que na Rio Branco dos anos cinquenta a gente se virava nos trinta. Faltava pão, comíamos macaxeira cozida, pão de milho, banana comprida (cozida ou feito mingau), bejú, farofa com banha de porco, jerimum...

O governador Tião Viana agiu como um herói dos trópicos, querendo apagar centelhas por todos os lados, brigando contra a força da natureza. Quase esqueceu que tinha acabado de concluir o trecho Rio Branco- Cruzeiro do Sul da 364 acreana, garantindo tráfego no inverno. Quando lembrou, mandou vir gasolina e gás de Manaus, utilizando balsas até Cruzeiro, e de lá, a estrada com trinta pontes até Rio Branco. Seria como se os macapaenses precisassem se valer de produtos importados de Caiena, via BR-156.
Caminhões de combustível vieram do Peru (Foto: Arison Jardim)

O pior de tudo, acho, foi que a população de um modo geral se mostrou fragilizada, em pânico, correndo para fazer estoques antes que o vizinho saísse na frente. Tem consumidor que comprou tanta caixinha de leite que parte delas pode estar apodrecendo. E outros talvez precisem abrir uma vendinha de gás de cozinha. Ninguém pensou em improvisar um fogão a lenha no quintal, juntar  pedaços de pau entulhados na rua, inventar um chá das cinco para substituir o café sumido.

Pior do que o pior de tudo foi não refletir sobre o recado que a natureza ofereceu com a tragédia. Seria tão fácil, com a ajuda da Internet, saber dos monstros que estão se formando pela aí, no mundo! Li que, na Groelândia, o gelo tá derretendo com velocidade imprevista, fazendo o nível do mar subir mais rápido do que supunham os cientistas. Está dito que se o gelo continuar derretendo assim, num tempo estimado em décadas, nem tantas, toda a massa gelada vai virar água e fazer o nível do oceano subir 7 metros.

Isso seria suficiente para deixar debaixo d’água 80 das 100 maiores cidades do mundo, alertam os pesquisadores. Quanto ao Rio Madeira, será que tem algum monstro se formando nas cabeceiras?

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

DEUS NOS ACUDA!

Elson Martins


As alagações não são novidades  na Amazônia. E no Acre temos notícia de que no passado aconteceram algumas maiores que as que se vê nos invernos da atualidade. Uma vez eu entrevistei um idoso de Tarauacá, no vale do Juruá, e ele contou que seus avós falavam de um dilúvio que invadiu a floresta assustando até os macacos. Estes, coitados, são sempre lembrados nas tragédias que viram piada. No tempo da malária braba, se dizia que eles trocavam um cacho de banana por um comprimido de Aralem na fronteira com a Bolívia. Imagino que nas inundações preferem sacos encauchados.

O problema é que hoje tem mais gente a ser acudida nas áreas urbanas e isso agita os segmentos políticos, a mídia e, claro, as famílias socialmente desarrumadas que moram nos bairros atingidos. Tanto que já contamos com alguns “bruxos” fazendo previsões e manchetes que ignoram os macacos. Um deles é o doutor professor da Universidade Federal do Acre (UFAC), David Friale, especialista em climas que acerta nas previsões de chuvas, temporais e friagens.

Mais recentemente um outro professor, o Reginâmio Bonifácio de Lima, licenciado em história e doutor em Teologia apareceu com previsões nem tanto científicas quanto as do Friale, mas que em 2008, contrariando as previsões oficiais, alertou que as águas subiriam muito em 2009 e acertou: 1.500 famílias tiveram que abandonar suas casas naquele ano.

Da mesma forma, contrariando as expectativas, ele descartou alagação em 2013, mas advertiu que em 2014 o aguaceiro poderia atingir 60% da capital.

Reginâmio, 32 anos, acreano de Rio Branco, é especialista em Cultura, Natureza e Movimentos Sociais na Amazônia e atua como pesquisador e policial  na diretoria de Ensino da Polícia Militar do Acre. Também lidera o “Grupo de Pesquisa Sobre Terras e Gentes: Amazônia em Foco, que publica livros na área de história e estudos culturais, entre os quais “Memórias de Velhos”.
Rio Madeira, foto de Sérgio Vale

Ele encabeça um grupo de estudiosos  que inclui a esposa, Maria Iracilda, os irmãos Pedro e Regineison e a especialista em história e cultura Lelcia Maria Monteiro de Almeida. Reginâmio recorre a estudos feitos pelo professor Antônio Monteiro, da Universidade de São Paulo (USP), que permite previsões bastante confiáveis; à Prefeitura de Rio Branco que disponibiliza mapas obtidos por satélite; ao Ministério de Ciência e Tecnologia e ao Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) que também fornecem pistas.

Nas suas fontes “confiáveis” estão os velhinhos da floresta. Essa turma tem entre 90 ou cem anos de idade e sabe coisas “do Acre da velha” que beiram a precisão. Eles sabem que quando as formigas ficam agitadas na floresta é sinal de muita água. E que os jabutis tratam com antecedência de subir os barrancos mais altos quando o inverno vem com força. Os mais sofisticados se guiam pelas safras de manga e outros frutos: se são grandes num ano, tem alagação no outro.

As previsões para 2014, entretanto, oferecem elementos novos que, certamente, as formigas e os jabutis desconhecem. A Organização das Nações Unidas divulgou ano passado que o aquecimento global até o final do século 21 será “provavelmente superior” a 2 graus, superando o limite considerado seguro pelos especialistas. E que até 2100 o nível do mar deve aumentar perigosamente de 45 a 82 centímetros; e o gelo do Ártico poderá diminuir até 94% durante o verão local. Isso pode significar que também o gelo dos Andes derreta em nossa proximidade, gerando enchentes capazes de encobrir cidades amazônicas como Manaus, Belém e Macapá, para citar somente capitais.

Mas isso são previsões remotas, ainda, e quem sou eu pra me arvorar a “bruxo” e sair assustando as pessoas! De qualquer modo, é novidade que fortes chuvas nas cabeceiras do Rio Madre de Dios, no Peru,  estejam influindo na alagação do Rio Madeira em Rondônia. Tanto que a BR-364 foi interrompida e o Acre permanece sem contato terrestre com o mundo, sem gasolina etc.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

ELSON MARTINS E O VARADOURO

Um pouco sobre um dos mais importantes e respeitados jornalistas do Acre, Elson Martins, um dos cabeças do histórico jornal acreano Varadouro.

Acesse aqui Almanacre, de Elson Martins.

sábado, 21 de setembro de 2013

SAMAÚMA

Elson Martins


Enorme, ela caiu do céu numa tarde quente de verão amazônico imersa numa nuvem de algodão. Eu a vi pousar no meio de um lago cercado de floresta densa. Deslumbrado, acompanhei sua decida suave e então a coloquei na palma da mão, plantando-a, cuidadosamente, num vaso com estrume.

Eu morava na Chácara do Ipê, condomínio afastado do centro de Rio Branco, numa casa com quintal amplo e piscina, que vendi (1991) a um amigo. Da piscina, observei o floco branco caindo do céu azul.

A cena era comum nos seringais: identifiquei a sementinha no meio do floco e a retirei para plantar. Depois, voltei ao banho e ao trabalho. Três meses depois, minha mulher me chamou atenção: “A semente nasceu!”.

A pequena samaúma estava com 30 centímetros de altura, mas já com ares de rainha. Escolhi um lugar no quintal, longe da casa, transplantando a muda para a terra. E a pequena árvore cresceu.

Ao vender a casa fiz exigência: “Vamos colocar no contrato que é proibido derrubar a samaúma”. A tal clausula nunca existiu de verdade, mas o novo proprietário passou a cuidar da ceiba pentandra (como os cientistas denominam a espécie) com zelo e carinho.

A árvore cresceu imponente e bela, destacando-se dos velhos ipês que cercam a residência. Tanto que algumas mentes temerosas começaram a assustar o novo proprietário: “Derruba, ela vai acabar com o teu muro... A raiz não resiste a uma tempestade”!
Imagem de uma Samaúma. Foto de Fernando Júnior
Pode ser, e não vou desejar um mal desse ao amigo. Mas acho que ele pode deixá-la chegar à fase adulta, como um monumento que mostrará, orgulhoso, aos convidados e às crianças. Tem tempo para isso, o que um bom técnico poderá atestar instruindo sobre como preservá-la sem riscos.

Sei que a samaúma atinge 60 metros de altura, possui um tronco com diâmetro de três metros e meio e uma copa de 22 metros. Suas raízes não penetram o solo a fundo, mas tecem uma malha à cata de húmus com alguns tentáculos de mais de 500 metros, que servem também de alicerce.

Possuindo fibras delicadas, dos galhos às raízes, chamadas sapupemas, de onde se extrai uma água cristalina boa para beber, a samaúma poderia ser uma árvore sagrada da Amazônia. Ela cresce nas margens dos rios, junto aos lagos ou no coração da mata densa, servindo de bússola para os povos da floresta.

Na minha infância, sempre tive olhos para essa árvore que voa. Ficava abismado com a semente preta e minúscula (também comestível) à semelhança de um amendoim torradinho. A semente paira sobre a floresta e os rios na sua nave tenra, sabe-se lá quanto tempo. Como se a mãe natureza mandasse espalhar suas rainhas pelas florestas do mundo, plantando-as nos locais mais inacessíveis ao homem.

Os índios Kaxinauá (Huni Kui) afirmam que a samaúma tem espírito, ou que o espírito vive dentro dela. Apenas os pajés têm o direito de apreciá-la de perto. Os não-índios costumam descansar no seu dorso e imaginar seu voo, certamente, à procura de um lugar fértil na terra e na consciência das pessoas!


P.S. Desengavetei o texto após ter assistido a reportagem (do post anterior. Veja abaixo.) com o Arquilau, amigo que "herdou" a tarefa de preservar a samaúma, e que ao longo dos anos vem transformando espaços de sua casa num museu a céu aberto da história acreana.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

BOLERO NO COLÉGIO

Elson Martins


A revitalização em 2006 do Colégio Acreano, construído há 70 anos, faz um bem enorme a alma dos seus ex-alunos. A minha, por exemplo, transborda de orgulho porque passei a década de cinquenta dentro da instituição: fiz o antigo primário no Grupo 7 de Setembro (que funcionava pela manhã), depois o ginásio e o primeiro ano científico no mesmo prédio. Saí de lá, em 1958, “desasnado” por mestres como Florentina Esteves, Geraldo Mesquita, João Coelho, Rufino (aulas de Latim), Miguel Ferrante, José Potyguara, entre outros. Nunca esqueci a figura do João Bracinho, o mais perene fiscal de sala e de corredores.

Fui colega de classe ou contemporâneo de gente que faz sucesso mundo afora. Posso citar alguns nomes próximos como Edílson Martins, jornalista e escritor que alguns pensam ser meu irmão; Odacyr Soares, também jornalista, que se enfiou na política tornando-se senador pelo Estado de Rondônia; o líder estudantil e político Elias Mansour (falecido), um dos mais brilhantes alunos do colégio; Flora Valladares Coelho, ex-presidente do Banco da Amazônia e que integra hoje a equipe do governo da floresta; a colunista social Marlize Braga; o advogado e escritor Joaquim Nogueira, com dois livros recentes lançados pela Companhia das Letras, em São Paulo.
Instituto Getúlio Vargas, atual Colégio Acreano (Acervo Patrimônio Histórico)

Colégio Acreano após revitalização (Acervo Secom)
Não é exagero afirmar que o CA funcionava como uma universidade. Para ingressar no Ginásio, os alunos saídos do primário enfrentavam rigoroso exame de admissão. A maioria frequentava o cursinho preparatório do médico Marinho Monte, que funcionava na Rua Benjamin Constant, onde hoje está localizada a Secretaria da Fazenda. Os bem-sucedidos na prova escrita ainda tinham que se submeter a uma sabatina oral de português, história, química e física.

Mas a seleção premiava os competentes, fossem pobres ou ricos. Aos eliminados, restava aguardar o ano seguinte ou tentar duas outras opções de nível secundário: a Escola Normal Lourenço Filho, que formava professores; e a ETCA (Escola Comercial) para contabilistas. Não havia ainda universidade. Após o segundo grau, os alunos pegavam o avião da FAB para o Rio de Janeiro; ou navio tipo gaiola, até Manaus ou Belém.
Alunos do Colégio Acreano na década de 40 (Acervo Patrimônio Histórico)

A história do CA tem passagens de muito brilho. O colégio era bom em tudo: nos desfiles de 7 de Setembro, então, mexia com o coração da cidade de Rio Branco. Lembro que a mãe da jornalista Rose Farias, Maria Celeste (atualmente professora de Letras na UFAC), foi uma baliza lindíssima e competente. Morríamos de inveja do Aramis (Sarará) escolhido como seu par nos desfiles. A escolha era feita pelo técnico de Educação Física Walter Felix, o Té, rigoroso na disciplina: ele ficava possesso com quem errava o passo ou ria enquanto marchava.

Uma de suas “vítimas” foi o Edílson Martins, hoje jornalista, escritor e produtor de vídeos para a televisão. Nosso simpático Come-Açúcar (seu apelido na época) tinha traços africanos com cabelos enrolados e lábios grossos, além do quê, era um poço de emoções. Nos desfiles não se continha ao passar em frente ao palácio do governo vestindo o uniforme de gala que lembrava o de um almirante. A emoção era tanta que ele não conseguia juntar os lábios deixando a impressão de riso. O instrutor Té, que nunca entendeu esse sentimento “almático”, o repreendia aos berros.

Eu tomei gosto pela leitura e tive o primeiro contato com o jornalismo no Colégio Acreano. Quando faltava algum professor, íamos para a biblioteca onde não se podia dar um pio. Li Euclides da Cunha, Guimarães Rosa e clássicos franceses e russos nesse confinamento instrutivo. Com o Edílson Martins e o Odacyr Soares, fizemos o jornalzinho estudantil “O Selecionado” que chegou a publicar reportagens e entrevistas despertando interesse até fora do meio estudantil.

Às sextas-feiras, as últimas aulas cediam tempo a um show “lítero-musical” no auditório, onde também eram exibidos filmes bang-bang antiquérrimos, aos sábados. Cansei de ouvir a Clícia Montenegro recitar “Navio Negreiro”, do poeta Castro Alves. Ali apareceram também alguns conjuntos musicais. Lembro de um formado por alunos do 3o ano do curso científico. O hoje engenheiro Fernando Castro era membro de um desses conjuntos.

Aos domingos, durante o verão, turmas de alunos e professoras desciam ou subiam o rio Acre fazendo piqueniques nas praias ou nos seringais próximos.

Portanto, e apesar de sisudo – com professores que davam aulas vestindo paletó e gravata, com inspetores plantados em cada sala de aula, o carimbo de “presente” ou “ausente” na carteirinha valendo pontos para aprovar ou desaprovar os alunos no final do ano –, o Colégio Acreano sabia incentivar o lazer e a cultura.

Eu mesmo aprendi a dançar valsa, bolero e samba-canção em sala de aula, em sessões preparatórias para o baile de formatura do Ginásio. Entre as professoras de bolero guardo na memória a performance da colega Marlize Braga (hoje colunista social), com as curvas e o charme dos seus 18 anos.


N.E - O texto acima foi escrito antes do Colégio Acreano completar 80 anos, em 17 de julho de 2013.