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sábado, 25 de fevereiro de 2017

EZRA POUND: dois poemas

ALBA
Ezra Pound (1885-1972)

Enquanto o rouxinol à sua amante
Gorgeia a noite inteira e o dia entrante
Com meu amor observo arfante
Cada flor,
Cada odor,
Até que o vigilante lá da torre
Grite:
            “Levante, patife, sus!
                Vê, já reluz
                     A luz
                     Depressa, corre,
                     Que a noite morre...” p.102


SOIRÉE
Ezra Pound (1885-1972)

Ao ser informado de que a mãe escrevia versos,
E de que o pai escrevia versos,
E de que o filho mais novo trabalhava numa editora,
E que o amigo da filha segunda estava escrevendo um romance,
O jovem peregrino americano
Exclamou:
            “Eta penca de gente sabida!” p.103


POUND, Ezra. Poesia. Introdução, organização e notas de Augusto de Campos; traduções de Augusto de Campos... [et al.]; textos críticos de Haroldo de Campos. São Paulo: HUCITEC; Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1993.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

E ASSIM EM NÍNIVE

Ezra Pound (1885-1972)


“Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

Vê! não me cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou um poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

Não é, Raana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.”


POUND, Ezra. Poesia. Introdução, organização e notas de Augusto de Campos; traduções de Augusto de Campos... [et al.]; textos críticos de Haroldo de Campos. São Paulo: HUCITEC; Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1993. p.52

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

CANTO CXX (excerto)

Ezra Pound (1885-1972)


Tentei escrever o PARAÍSO

Não se mova
            Deixe falar o vento
                        esse é o paraíso.

Deixe os deuses perdoarem
            o que eu fiz
Deixe aqueles que eu amo tentarem perdoar
            O que eu fiz. 

POUND, Ezra. Os cantos. trad. José Lino Grunewald. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p.797

sexta-feira, 24 de maio de 2013

AQUILO QUE AMAS

Ezra Pound





Aquilo que amas muito sempre fica,
                                                           O resto é ralé
Aquilo que amas muito não será tirado de ti
Aquilo que amas muito é tua vera herança



POUND, Ezra. Os cantos. trad. José Lino Grunewald. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p.545

quinta-feira, 7 de março de 2013

CANTO CXV

Ezra Pound


Os cientistas em terror
            e para a mente européia
Wyndham Lewis escolheu a cegueira
            antes do que ter sua mente parada.
Noite sob o vento entre garofani,
            as pétalas estão quase tranquilas
Mozart, Linnaeus, Sulmona,
Quando os amigos de alguém se odeiam
            como pode haver paz no mundo?
Suas rudezas divertiam-me nos verdes anos.
Uma pele de flor que feneceu
            porém a luz canta eterna
um lívido brilho sobre pântanos
            onde o feno de sal sussurra às mudanças das marés
Tempo, espaço,
            nem vida nem morte é a resposta.
E do homem buscando o bem,
            fazendo mal.
In meine Heimat
                        onde andavam os mortos
                                   e os vivos eram feitos de cartão.


Pound, Ezra. Os cantos. [trad. José Lino Grunewald]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p.789.

** Fiz uma viagem nesse livro de Pound, um dos maiores marcos da literatura no século XX. Em A arte da poesia, Pound dizia: "A função da literatura como força geratriz digna de prêmio consiste precisamente em incitar a humanidade a continuar a viver; em aliviar as tensões da mente, em nutri-la, e nutri-la, digo-o claramente, com a nutrição de impulsos." E isso expressa bem a própria obra de Ezra Pound.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O QUE AMAS DE VERDADE PERMANECE - Ezra Pound

O que amas de verdade permanece,
O resto é escória
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
Mundo de quem, meu ou deles
ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado
A formiga é um centauro em seu mundo de dragões.
Abaixo tua vaidade, nem coragem
Nem ordem, nem graça são obras do homem,
Abaixo tua vaidade, eu digo abaixo!
Aprende com o mundo verde o teu lugar
Na escala da invenção ou arte verdadeira,
Abaixo tua vaidade,
Paquin, abaixo!
O elmo verde superou tua elegância.
“Domina-te e os outros te suportarão”
Abaixo tua vaidade
Tu és um cão surrado e largado ao granizo,
Uma pega inchada sob um sol instável,
Metade branca, metade negra
E confundes a asa com a cauda
Abaixo tua vaidade
Que mesquinhos teus ódios
Nutridos na mentira,
Abaixo tua vaidade,
Ávidos em destruir, avaro em caridade,
Abaixo tua vaidade,
Eu digo abaixo.
Mas ter feito em lugar de não fazer
isto não é vaidade
Ter, com decência, batido
Para que um blunt abrisse
Ter colhido no ar a tradição mais viva
Ou num belo olho antigo a flama inconquistada
Isto não é vaidade.
Aqui, o erro todo consiste em não ter feito.
Todo: na timidez que vacilou.




REFERÊNCIA
POUND, Ezra. Poesia. (Introdução, organização e notas de Augusto de Campos; traduções de Augusto dos Campos… [et al.]; textos críticos de Haroldo de Campos). São Paulo: HUCITEC; Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1993.