Mostrando postagens com marcador JOSUÉ DE CASTRO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador JOSUÉ DE CASTRO. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A FALÁCIA DA SECA COMO CAUSA DA POBREZA NO SERTÃO

Darcy, Milton, Florestan e Josué de Castro são pensadores brasileiros que me instigam bastante. Quando li Geografia da Fome fiquei impressionado. Primeira vez no Brasil o problema da fome sendo levado a sério. Josué de Castro hoje parece ser um pensador esquecido. Nas escolas, nas universidades, nos meios de comunicação nada mais se fala sobre ele. Todo mundo se liga mesmo é na bunda das panicats. O nome de Josué de Castro está ligado ao combate da fome no Brasil, e depois, no mundo, quando assumiu a FAO. Será que a fome está superada? Este silêncio, será o da covardia? Selecionei a seguir um trecho em que ele desmitificava as causas da fome no Nordeste, sobretudo na área de sertão.


Pelo Brasil afora se tem a ideia apressada e simplista de que o fenômeno da fome no Nordeste é produto exclusivo da irregularidade e inclemência de seu clima. De que tudo é causado pelas secas que periodicamente desorganizam a economia da região. Nada mais longe da verdade. Nem todo o Nordeste é seco, nem a seca é tudo, mesmo nas áreas do sertão. Há tempos que nos batemos para demonstrar, para incutir na consciência nacional o fato de que a seca não é o principal fator da pobreza ou da fome nordestinas. Que é apenas um fator de agravamento agudo desta situação cujas causas são outras. São causas ligadas ao arcabouço social do que aos acidentes naturais, às condições ou bases físicas da região.

Muito mais do que a seca, o que acarreta a fome no Nordeste é o pauperismo generalizado, a proletarização progressiva de suas populações, cuja produtividade é mínima e está longe de permitir a formação de quaisquer reservas com que seja possível enfrentar os períodos de escassez – os anos das vacas magras, mesmo que no Nordeste já não há anos de vacas gordas. Tudo é pobreza, é magreza, é miséria relativa ou absoluta, segundo chova ou não chova no sertão. Sem reservas alimentares e sem poder aquisitivo para adquirir os alimentos nas épocas de carestia, o sertanejo não tem defesa e cai irremediavelmente nas garras da fome. (p.242)

(...)

A luta contra a fome no Nordeste não deve, pois, ser encarada em termos simplistas de luta contra a seca, muito menos de luta contra os efeitos da seca. Mas de luta contra o subdesenvolvimento em todo o seu complexo regional, expressão da monocultura e do latifúndio, do feudalismo agrário e da subcapitalização na exploração dos recursos naturais da região. (p.243)

A meu ver todo o sistema de fatores negativos que entravam as forças produtivas da região são oriundos da arcaica estrutura agrária aí reinante. Todas as medidas e iniciativas não passarão de paliativos para lutar contra a fome, enquanto não se proceder a uma reforma agrária racional que liberte as suas populações da servidão da terra, pondo a terra a serviço de suas necessidades. (p.244)



CASTRO, Josué de. Geografia da fome (dilema brasileiro: pão ou aço). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. (A primeira edição do livro é de 1946)

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O ACRE E A GEOGRAFIA DA FOME

Josué de Castro (1908-1973)


Dos retirantes que, acossados pelo flagelo, em suas múltiplas investidas, se dirigiram para a Amazônia atraídos pela miragem do ouro branco calcula-se que meio milhão foi dizimado pelas epidemias, pelo paludismo, pela verminose e pelo beribéri. (...)

A Amazônia, ou melhor, o Acre, que era seu ponto de atração mais forte, foi o grande sorvedouro de vidas sertanejas: “O Acre é como outro mundo: pode ser muito bom mas quem vai lá, não volta mais”, diz em tom melancólico um personagem de A Bagaceira, que assim fala mas que também acaba partindo passivamente para o inferno verde.

Uma das causas desta absurda mortandade dos sertanejos nordestinos no vale amazônico era absoluta incúria com que se procedia à imigração do flagelado para a nova área. Afirmava Euclides da Cunha que não conhecia na história exemplo mais anárquico de emigração do que a realizada desde 1789 entre o Nordeste e a Amazônia.

Escrevendo sobre Euclides da Cunha, o escritor Silvio Rabello retratou a improvisação da colonização amazônica com as seguintes palavras: “O sertanejo que se dispusera a penetrar na Amazônia dificilmente conseguia adaptar-se às condições nosológicas da região. Em regra, sucumbe às febres ou ao regime de carência. A terra recém-aberta ao povoamento estava longe de ser um leito macio para seus desbravadores. É ainda um pantanal que espera os mais elementares cuidados de engenharia sanitária. A umidade e o calor são ali meios de cultura ideal aos germes mortíferos. Por outro lado, nenhum esforço realiza o colono para adaptar-se à sua nova condição de vida. Continua com os seus antigos hábitos: a mesma alimentação, o mesmo vestuário, o mesmo tipo de habitação. A terra e o homem não se aproximam nem se entendem reciprocamente.”

Ainda por ocasião da chamada batalha da borracha, que se desenvolveu durante a última guerra, dos 30.000 nordestinos que foram levados como soldados desta batalha, afirma-se que um número impressionante deles pereceu, abandonado nas zonas dos seringais. O fato alcançou tais proporções que levantou grande celeuma na Assembleia Nacional.

Depoimento interessante a respeito são também o discurso pronunciado pelo Deputado Paulo Sarasate e o informe prestado pelo Sr. Firmino Dutra, então presidente do Banco da Borracha, perante a Comissão de Investigação Parlamentar, e no qual opina ser o desastre desta mortandade oriundo da falta de adaptação racional desta gente jogada sem nenhuma preparação nos perigosos igarapés da Amazônia. Numa reportagem sobre o assunto, dos Jornalistas David Nasser e Jean Manzon, lê-se o seguinte: “A guerra terminou. Os cearenses que tinha partido não voltaram. Uns voltarão, talvez, porque, dos 54.000 soldados da borracha – segundo os dados apresentados na Assembleia Nacional Constituinte pelo Deputado Paulo Sarasate –, a maior parte dorme à sombra das florestas amazônicas. Morreram longe dos seus, por um sonho de riqueza, pela esperança de melhores dias. O Exército da Borracha ainda hoje moribundo, espalhado, derrotado, faminto e errante, como em terra inimiga, perdido entre as árvores enormes, afogado nos pântanos do deserto verde, definitiva e inapelavelmente vencido. O treme-treme, a terçã maligna, a disenteria amebiana, a fome, a absoluta falta de recursos eram mais fortes que a coragem, a dedicação, a bravura e a teimosia dos homens do Ceará, da Paraíba do Norte, da Bahia e do Rio Grande do Norte.”


CASTRO, Josué de. Geografia da fome (dilema brasileiro: pão ou aço). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. p.221-222

> A primeira edição de Geografia da Fome é de 1946.
> Para quem desconhece a vida e a obra de Josué de Castro, e sua importância, no Brasil e no mundo, em relação à problemática da fome, veja aqui o documentário “Josué de Castro: Cidadão do mundo”, de Silvio Tendler, já postado anteriormente neste blog.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

JOSUÉ DE CASTRO – Cidadão do Mundo (filme de Sílvio Tendler)

“A humanidade se divide em dois grupos: o grupo dos que comem e o grupo dos que não dormem com receio da revolta dos que não comem.”

Josué de Castro
Geopolítica da Fome

O médico, geógrafo, sociólogo e político Josué de Castro, foi pioneiro no combate à fome no Brasil e no mundo. Há 40 anos, apresentou proposta de ações de incentivo à agricultura familiar e à criação dos restaurantes populares. Foi presidente do Fundo para a Agricultura e Alimentação da Organização das Nações Unidas (FAO/ONU) e indicado por duas vezes ao Prêmio Nobel da Paz. Escreveu o livro Geografia da fome, publicado em mais de 25 línguas.