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sábado, 24 de setembro de 2016

TRÊS POEMAS DE PAUL GÉRALDY

EXPANSÕES
Paul Géraldy (1885-1983) 

Eu gosto, gosto de você!
Compreende? Eu tenho por você uma doidice...
Falo, falo, nem sei o quê,
mas gosto, gosto de você
Você ouviu bem isso que eu disse?...
Você ri? Eu pareço um louco?
Mas que fazer para explicar isso direito,
para que você sinta?... O que eu digo é tão oco!
Eu procuro, procuro um jeito...
Não é exato que o beijo só pode bastar.
Qualquer coisa que me afoga, entre soluços e ais.
É preciso exprimir, traduzir, explicar...
Ninguém sente senão o que soube falar.
Vive-se de palavras, nada mais.
Mas é preciso que eu consiga
essas palavras, e que eu diga,
e você saiba... Mas, o quê?
Se eu soubesse falar como um poeta que sente,
– diga! – diria eu mais do que
quando tomo entre as mãos essa cabeça linda
e cem, mil vezes, loucamente,
digo e repito e torno a repetir ainda:
Você! Você! Você! Você!... p.16-17


EXPANSIONS
Paul Géraldy

Ah! je vous aime! Je vous aime!
Vous entendez? je suis fou de vous, je suis fou...
Je dis des mots, toujours les mêmes...
Mais je vous aime! Je vous aime!...
Je vous aime, comprenez-vous?
Vous riez? J'ai l'air stupide?
Mais comment faire alors pour que tu saches bien,
pour que tu sentes bien? Ce qu'on dit est si vide!
Je cherche, je cherche un moyen...
Ce n'est pas vrai que les baisers peuvent suffire.
Quelque chose m'étouffe, ici, comme un sanglot.
J'ai besoin d'exprimer, d'expliquer, de traduire.
On ne sent tout à fait que ce qu'on a su dire.
On vit plus ou moins à travers des mots.
J'ai besoin de mots, d'analyses,
Il faut, il faut que je te dise...
Il faut que tu saches... Mais quoi!
Si je savais trouver des choses de poète,
en dirais-je plus - réponds-moi -
que lorsque je te tiens ainsi, petite tête,
et que cent fois et mille fois
je te répète éperdument et te répète :
Toi! Toi! Toi! Toi!...


SERENIDADE
Paul Géraldy (1885-1983)

Que foi que você disse, há pouco, ao despedir-se?
Que nós não nos gostamos mais?… Gostamos, sim!
Você chorou? Por que você há de ser assim?…
Mas se eu digo que sim! Não ouviu o que eu disse?…
Seja mais simples, mais humana! Não complique
as coisas! Hoje em dia, entenda bem, já são
ridículas demais essas preocupações
de se escrever, sob pretexto de ser “chic”,
com maiúsculas só, Amor e Coração.
Usamos expressões inúteis, expressões
que atrapalham até… Nós dizemos: o meu,
o nosso Coração… E fazemos questão.
Se a gente não tivesse essa preocupação,
simplificava muito as coisas, compreendeu?
Não existe o que é nosso: existe eu e você.
Sim, um eu e um você sem nada de especial.
A gente embriaga-se de frases afinal,
e vive exagerando tudo, para quê?
Se a realidade nunca alcança uma ilusão…
Por favor, deixe o seu, deixe o meu Coração!
Vamos ser nós, só nós!… Sim, é verdade, agora,
quando a gente se vê, já não é como outrora,
não se embaraça mais… Mas é assim mesmo… O quê?
Mas não há nada, aí, de trágico! Você
e eu estamos mais calmos só. É natural.
É o hábito. Nós já nos habituamos. E,
se é sem paixão que nós nos vemos, cada qual,
quando o outro não está, sente-se mal, tão mal,
e aborrece-se, e sofre muito, e fica tão
desgraçado… Mas isto é alguma coisa, então! p.30-32


SÉRÉNITÉ
Paul Géraldy

Qu’est ce que tu m’as dit encore, en me quittant:
que’l on ne s’aimait plus? ...Mais si, mais si, on s’aime!
tu as pleure? tu seras donc toujours la meme?
Mais puisque je te dis qu’on s’aime! tu m’entends?
Sois donc plus simple! il faut toujours que tu compliques
les choses! dis-toi donc qu à notre epoque, enfin,
cela devient par trop poncif et ridicule,
sous pretexte qu’on est des amants un peu fins,
d’ecrire Amour et Coeur avec des majuscules.
Nous employons des mots qui servent a rien,
et qui sont tres génants..et dangereux! On pose!
On dit: mon coeur , notre Coeur... On y tient.
je te jure que’l on s’en passerait tres bien,
et que ce la simplifierait beaucoup les choses.
il n y a pas nos Coeurs: il y a toi et moi, oui, toi et moi,
qui n’avons rien d’extraordinaire.
Mais on se grise avec des mots, on s’exagere
l’importance de tout, et puis on s’aperçoit
que la realite n’est pas a la hauteur...
je t’en supplie, laissons mon Coeur, laissons ton Coeur!
soyons nous!... Eh! bien, oui, c’est vrai, quand on se voit,
on n’est plus tres troublé.. C’est moins bien qu’autrefois.
tu ne t’affoles pas.. Moi non plus. Eh bien, quoi?
Il n y a là rien de bien tragique. Nous sommes
un peu calmés? Mais c’est tout naturel, cela.
C’est l’habitude. On est habitué. voilà.
Si nous nous retrouvons sans passion, en somme,
chaq un de nous s’ennuie quand l’autre n’est plus là.
On se croit malheureux, on n’a de gout à rien,
on se sent seul ... Eh ! bien, mais c’est deja tres bien!


ABAT-JOUR
Paul Géraldy (1885-1983)

Você pergunta porque eu fico sem falar...
Porque este é o grande instante em que
existe o beijo e existe o olhar
porque é noite... e esta noite eu gosto de você!
Chegue-se bem a mim. Eu preciso de beijos.
Ah! se você soubesse o que há, esta noite, em mim
de orgulhos, ambições, ternuras e desejos!...
Mas, não, você não sabe, e é bem melhor assim...
Abaixe um pouco mais o “abat-jour”! Está bem...
É na sombra que o coração fala e repousa:
tanto mais os olhos veem,
quanto menos se veem as coisas ...
Hoje eu amo demais para falar de amor.
Venha aqui bem perto! Eu queria
ser hoje, seja como for,
aquele que se acaricia...
Abaixe ainda mais o “abat-jour”.
Vamos ficar sem dizer nada.
Eu quero sentir bem o gosto
das suas mãos sobre o meu rosto!...
Mas quem está aí? Ah! a criada
que traz o café... Não podia
deixar aí mesmo?  Não importa!
Pode ir-se embora!... E feche a porta!...
Mas o que é mesmo que eu dizia?
Quer... agora o café?  Se você preferir...
Já sei: você gosta bem quente.
Espere um pouco! Eu mesmo é que quero servir.
Está tão forte!... Assim? Mais açúcar? Somente?
Não quer então que eu prove por
você?... Aqui está, minha adorada...
Mas que escuro! Não se enxerga nada...
Levante um pouco esse “abat-jour”. p.35-37


ABAT-JOUR
Paul Géraldy

Tu demandes pourquoi je reste sans rien dire ?
C'est que voici le grand moment,
l'heure des yeux et du sourire,
le soir, et que ce soir je t'aime infiniment !
Serre-moi contre toi. J'ai besoin de caresses.
Si tu savais tout ce qui monte en moi, ce soir,
d'ambition, d'orgueil, de désir, de tendresse, et de bonté !...
Mais non, tu ne peux pas savoir !...
Baisse un peu l'abat-jour, veux-tu ? Nous serons mieux.
C'est dans l'ombre que les coeurs causent,
et l'on voit beaucoup mieux les yeux
quand on voit un peu moins les choses.
Ce soir je t'aime trop pour te parler d'amour.
Serre-moi contre ta poitrine!
Je voudrais que ce soit mon tour d'être celui que l'on câline...
Baisse encore un peu l'abat-jour.
Là. Ne parlons plus. Soyons sages.
Et ne bougeons pas. C'est si bon
tes mains tièdes sur mon visage!...
Mais qu'est-ce encor ? Que nous veut-on ?
Ah! c'est le café qu'on apporte !
Eh bien, posez ça là, voyons !
Faites vite!... Et fermez la porte !
Qu'est-ce que je te disais donc ?
Nous prenons ce café... maintenant ? Tu préfères ?
C'est vrai : toi, tu l'aimes très chaud.
Veux-tu que je te serve? Attends! Laisse-moi faire.
Il est fort, aujourd'hui. Du sucre? Un seul morceau?
C'est assez? Veux-tu que je goûte?
Là! Voici votre tasse, amour...
Mais qu'il fait sombre. On n'y voit goutte. 
Lève donc un peu l'abat-jour.


GÉRALDY, Paul. Eu e você. Tradução Guilherme de Almeida. São Paulo: Editora Nacional, 1983. (18.a edição)

terça-feira, 29 de abril de 2014

SORTE

Paul Géraldy (1885-1983)


Podíamos jamais nos conhecer talvez!
Meu amor, imagine, pois,
tudo isso que a Sorte nos fez
para estarmos aqui, para sermos nós dois!

“Nós fomos feitos um para o outro” – diz você.
Mas pense no que foi preciso se interpor
de coincidências, para que
pudesse haver apenas isto: o nosso amor!

Que antes de unir nosso destino vagabundo,
vivemos longe um do outro, e sós, e separados,
e que é tão longo o tempo, e que é tão grande o mundo,
e a gente era capaz de não ter-se encontrado.

Você nunca pensou, meu romance bonito,
e que este amor correu de risco e indecisões
quando, ao encontro um do outro, em torno do infinito,
gravitavam à toa os nossos corações?

Você não sabe então que era incerta essa estrada
que conduziu nossos ideais,
e que um capricho, um quase nada
podia não nos ter juntado nunca mais?

Nunca lhe confessei esta coisa esquisita:
quando avistei você pela primeira vez,
a princípio nem vi que você era bonita...
Não reparei quase em você.

Sua amiga me atraiu bem mais, com seu sorriso.
Foi só muito depois que cruzamos o olhar...
Nós podíamos não ter lido nada disso:
Você, não compreender, e eu, nem sequer ousar.

Que seria de nós se, aquela noite, alguém
viesse buscar você antes? Ou
se, entre luzes, você não corasse também
quando eu quis ajudar a pôr o seu “manteau”?...

Pois foram essas razões, lembra-se ainda?...
Um atraso, um impedimento,
e nada existiria deste encantamento,
desta metamorfose linda!

Nunca aconteceria o amor que aconteceu.
Você não estaria agora em minha vida...

Meu coração, meu coração, minha querida!
Penso naquela doença ainda
de que você quase morreu...


CHANCE
Paul Géraldy

Et pourtant, nous pouvions ne jamais nous connaître !
Mon amour, imaginez-vous
tout ce que le Sort dû permettre
pour que l'on soit là, qu'on s'aime, et pour que ce soit nous ?
Tu dis : "Nous étions nés l'un pour l'autre." Mais pense
à ce qu'il a dû falloir de chances, de concours,
de causes, de coïncidences,
pour réaliser ça, simplement, notre amour !
Songe qu'avant d'unir nos têtes vagabondes,
nous avons vécu seuls, séparés, égarés,
et que c'est long, le temps, et que c'est grand, le monde,
et que nous aurions pu ne pas nous rencontrer.
As-tu jamais pensé, ma jolie aventure,
aux dangers que courut notre pauvre bonheur
quand l'un vers l'autre, au fond de l'infinie nature,
mystérieusement gravitaient nos deux coeurs ?
Sais-tu que cette course était bien incertaine
qui vers un soir nous conduisait,
et qu'un caprice, une migraine,
pouvaient nous écarter l'un de l'autre à jamais?
Je ne t'ai jamais dit cette chose inouïe :
lorsque je t'aperçus pour la première fois,
je ne vis pas d'abord que tu étais jolie.
Je pris à peine garde à toi.
Ton amie m'occupait bien plus, avec son rire.
C'est tard, très tard, que nos regards se sont croisés.
Songe, nous aurions pu ne pas savoir y lire,
et toi ne pas comprendre, et moi ne pas oser.
Où serions-nous ce soir si, ce soir-là, ta mère
t'avait reprise un peu plus tôt ?
Et si tu n'avais pas rougi, sous les lumières,
quand je voulus t'aider à mettre ton manteau ?
Car souviens-toi, ce furent là toutes les causes.
Un retard, un empêchement,
et rien n'aurait été du cher enivrement,
de l'exquise métamorphose !
Notre amour aurait pu ne jamais advenir !
Tu pourrais aujourd'hui n'être pas dans ma vie !...
Mon petit coeur, mon coeur, ma petite chérie,
je pense à cette maladie
dont vous avez failli mourir...

GÉRALDY, Paul. Eu e você. Tradução Guilherme de Almeida. São Paulo: Editora Nacional, 1983. (18.a edição) p.40-43
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Paul Géraldy, pseudônimo de Paul Lèfevre, parisiense nascido em 1885, apesar de ser muito conhecido como dramaturgo era também poeta. Seu trabalho mais conhecido é “Toi et Moi”, Eu e Você, publicado em 1912. No Brasil, a obra foi traduzida por Guilherme de Almeida (1890-1969), o príncipe dos poetas brasileiros, que sobre a obra ressaltou: “O ‘Toi et Moi’ (...) é, todo ele, um ‘tête-à-tête’, uma conversa íntima de namorados falada e escrita, em verso livre, na língua mais própria para a familiaridade amorosa: em francês.”