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terça-feira, 25 de julho de 2023

REMATE DE MALES: Mário de Andrade


POEMAS DA AMIGA

(1929-1930)

 

a Jorge de Lima

 

I

 

A tarde se deitava nos meus olhos

E a fuga da hora me entregava abril,

Um sabor familiar de até-logo criava

Um ar, e, não sei porque, te percebi.

Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.

Estavas longes, doce amiga; e só vi no perfil da cidade

O arcanjo forte do aranhacéu cor-de-rosa

Mexendo asas azuis dentro da tarde.

 

II

 

Si acaso a gente se beijasse uma vez só...

Ontem você estava tão linda

Que o meu corpo chegou.

Sei que era um riacho e duas horas de sede,

Me debrucei, não bebi.

Mas estou até agora desse jeito,

Olhando quatro ou cinco borboletas amarelas,

Dessas comuns, brinca brincando no ar.

Sinto um rumor...

 

III

 

Agora é abril, ôh minha doce amiga,

Te reclinaste sobre mim, como a verdade,

Fui virar, fundeei o rosto no teu corpo.

Nos dominamos pondo tudo no lugar.

O céu voltou a ser por sobre a terra,

As laranjeiras ergueram-se todas de-pé

E nelas fizemos cantar um primeiro sabiá.

 

Mas a paisagem logo foi-se embora

Batendo a porta, escandalizadíssima.

 

IV

 

Ôh trágico fulgor das incompatibilidades humanas!

Que tara divina pesa em nosso corpo vitorioso

Não permitindo que jamais a plenitude satisfeita

Descanse em nosso lar como alguém que chegou!...

 

Não tenho esperança mais nas vossas revelações!

Vós me destes o amor, me destes a amizade,

E na experiência de minha doce amiga me destes

Mais do que imaginei... Mas a volta foi cruel.

 

Eu sofro. Êh, liberdade, essência perigosa...

Espelhos, Pireneus, caiçaras e todos os desesperos,

Vinde a mim que outros agora aboiam pra eu marchar!

 

Tudo é suavíssimo na flora dos milagres...

Um pensamento se dissolve em mel e à porta

Do meu coração há sempre um mendigo moço esmolando...

 

Eu saí da aventura! Eu fugi da ventura!

Nós não estamos na cidade nem no mato.

Nós rolamos na ânsia dos fabulosos aeroplanos,

E vos garanto que agora não acabaremos mais!

 

V

 

Contam que lá nos fundos do Grão-Chaco

Mora o morubixaba chiriguano Caiuari,

Nas terras dele nenhum branco não entrou.

São planos férteis que passam a noite dormindo

Na beira dum lagoão, calmo de garças.

Enorme gado pasta ali, o milho plumeja nos cerros,

E os homens são todos bons lá onde o branco não entrou.

 

Nós iremos parar nesses desertos...

Viajando através de fadiga e miséria,

Os dias ferozes nós descansaremos abraçados,

Mas pelas noites suaves nossos passos nos levarão até lá.

E ao vivermos nas terras do morubixaba Caiuari,

Tudo será em comum, trabucaremos como os outros e por todos,

Não haverá hora marcada pra comer nem pra dormir,

Passaremos as noites em dança, e na véspera das grandes bebedeiras

Nos pintaremos ricamente a riscos de urucum e picumã.

Pouco a pouco olvidaremos as palavras de roubo, de insulto e mentira,

A terminologia das nações e da política,

E dos nossos pensamentos afinal desertarão as profecias.

Oh, doce amiga, é certo que seriamos felizes

Na ausência deste calamitoso Brasil!...

Fecho os olhos... É pra não ver os gestos contagiosos...

Ando em verdades que deviam já não ser do tempo mais...

A nossa gente vai muito sofrer e tenho o coração inquieto.

 

VI

 

Nós íamos calados pela rua

E o calor dos rosais nos salientava tanto

Que um desejo de exemplo me inspirava,

E você me aceitou por entre os santos.

 

Erguer do chão um toco de cigarro,

Fuma-lo sem saber por que boca passou,

A terra me erriçava a língua e uma saliva seca

Poisando nos meus lábios molhados renasceu.

Todos os boitatás queimavam minha boca

Mas quando recomecei a olhar, ôh minha doce amiga,

Os operários passavam-se todos para o meu lado,

Todos com flores roubadas na abertura da camisa...

O Sol no poente, de novo aurorai e nativo,

Fazia em caminho contrário um dia novo;

E as noites ficaram luminosamente diurnas,

E os dias massacrados se esconderam no covão duma noite sem fim.

 

VII

 

É hora. Mas é tal em mim o vértice do dia

Nesta sombra... Porque serás mais que os rapazes,

E bem mais, muito mais do que as amantes?...

Sombra!... Sombra de cajazeira perfumada,

Saudando a minha inquietação com a tua delícia!

Eu poderia dormir no teu regaço, ôh mana...

Abri-vos, rincões do sossego,

Não cuideis que é minha amante, é minha irmã!

 

Porém é muito cedo ainda, e no portão do Paraiso

O anjo das cidades vigia com a espada de fogo na mão.

 

VII (bis)

 

É uma pena, doce amiga,

Tudo o que pensas em mim.

Eu sei, porque acho uma pena

Também o que penso em ti.

Mesmo quando conversamos,

E uma pena, outras conversas

De olhos e de pensamentos.

Andam na sala, dispersas.

 

VIII

 

Gosto de estar a teu lado,

Sem brilho.

Tua presença é uma carne de peixe,

De resistência mansa e um branco

Ecoando azuis profundos.

Eu tenho liberdade em ti.

Anoiteço feito um bairro,

Sem brilho algum

 

Estamos no interior duma asa

Que fechou.

 

IX

 

Vossos olhos são um mate costumeiro.

Vossas mãos são conselhos que é indiferente seguir.

Gosto da vossa boca donde saem as palavras isoladas

Que jamais não ouvi.

Porém o que eu adoro sobretudo é vosso corpo

Que desnorteia a vida e poupa as restrições.

Oh, doce amiga! vossos castos espelhos de aurora

Despejam sobre mim paisagens e paisagens

Em que passeio feito um rei sem povo,

Cortejado por noruegas, caponetes e caminhos,

— Os caminhos incompetentes que jamais não me conduzirão a alguém!...

 

X

 

Os rios, ôh doce amiga, estes rios

Cheios de vistas, povoados de ingazeiras e morretes,

Pelo Capibaribe irás ter ao Recife,

Pelo Tietê a São Paulo, no Potengi a Natal.

Pelo Tejo a Lisboa e pelo Sena a Paris...

 

Os rios, ôh minha doce amiga, na beira dos rios

E a terra de povoação em que as cidades se agacham

E de-noite, que nem feras de pelo brilhante, vão beber...

Pensa um bocado comigo na vasta briga da Terra,

E nas cidades que nem feras bebendo na praia dos rios!

Insiste ao pé de mim neste meu pensamento!

E os nossos corações, livres do orgulho,

Mais humilhados em cidadania,

Irão beber também junto das feras.

 

XI

 

A febre tem um vigor suave de tristeza,

E os símbolos da tarde comparecem entre nós;

Não é preciso nem perdoar nem esquecer os crimes

Pra que venha este bem de sossegar na pouca luz.

 

É a nossa intimidade. Um fogo arte, esquentando

Um rumor de exterior bem brando, muito brando,

E dá clarões duma consciência intermitente.

A poesia nasce.

Tu sentes que o meu fluido se aninha em teu colo e te beija na face,

E, por camaradagem, me olhas ironicamente.

Mas estamos sem mesmo a insistência dos nossos brinquedos.

E o vigor suave da febre

Não intimida os nossos corações tranquilos.

 

XII

 

Minha cabeça poisa nos seus joelhos,

Vem o entre-sono, e é milagroso!

A vida se conserva em mim doada pelos seus joelhos,

E sou duma inimaginável liberdade!

 

Ôh espíritos do ar que os homens adivinham,

Dizei-me o que se evola do meu corpo!

Essa outra coisa vaporosa e brancacenta

Que não é fumo, nem echarpe,

Não tem forma porém não se desmancha

E baila no ar...

 

Todos os adeuses, todos os espelhos e girandolas

Voltijam no espaço que se enche e esvazia

Num tremor avido a esfolhar-se em pregas sem dureza...

Abre a rosa oculta em sinais,

Manhãs em vésperas de ser,

Pireneus sem desejo, enquanto à espreita,

Os objetos em torno me invejam

Buscando me prender na miséria da imagem...

Oh espíritos do ar, dizei-me a rosa incomparável

Que se evola reagindo em baile no ar!

Baile! Baile de mim no entre-sono!

Não é uma alma, não é um espírito do ar, não é nada!

E a outra coisa que baila, que baila, que baila,

Livre de mim! gratuita enfim! fútil de eternidade!

 

Ôh, brinca, brinca, minha melodia!

Sabiá da mata que canta a mei-dia!

Olha o coco, Sinhá!

 

ANDRADE, Mário de. Remate de Males. São Paulo: Eugenio Cupolo, 1930. p. 147-174

quarta-feira, 10 de maio de 2017

JOROBABEL

Mário de Andrade (1893-1945)


Um choro aberto sobre o universo desaba
A badalar... Um choro aberto sobre a Terra
Em bandos de ais... Guaiar profético se expande...
Anda fraco no mundo o agouro da miséria...

Job abúlico baba o fel que o devora... Hirta
A multidão que despareceu Abel...
Um choro... E a vida excessivamente infinita!...
Clamor! Ninguém se entende! Um Deus não vem!... Babel!...

Babel! Um choro aberto sobre a confusão
Das raças! Babel! Os sinos em arremessos
Bélicos! Badalar dos sinos! Multidão
Hirta! Jerusalém incendiada... Rebate

Babel! Jerusalém! Jorobabel! Babel!
Batem os bronzes bimbalhando! Pobre Job
Sem ouro, multidão devora e baba o fel!...
Um choro aberto de entes misérrimos...


ANDRADE, Mário de. Poesias Completas. Edição crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1987. p.143

domingo, 7 de maio de 2017

AGORA EU QUERO CANTAR*

Mário de Andrade (1893-945) 


Agora eu quero cantar
Uma história muito triste
Que nunca ninguém cantou,
A triste história de Pedro,
Que acabou qual principiou.

Não houve acalanto. Apenas
Um guincho fraco no quarto
Alugado. O pai falou,
Enquanto a mãe se limpava:
– É Pedro. E Pedro ficou.
Ela tinha o que fazer,
Ele inda mais, e outro nome
Ali ninguém procurou,
Não pensaram em Alcebíades,
Floriscópio, Ciro, Adrasto,
Que-dê tempo pra inventar!
– É Pedro. E Pedro ficou.

Pedrinho engatinhou logo
Mas muito tarde falou;
Ninguém falava com ele,
Quando chorava era surra
E aprendeu a emudecer.
Falou tarde, brincou pouco,
Em breve a mãe ajudou.
Nesse trabalho insuspeito
Passou o dia, e nem bem
A noite escura chegou,
Como única resposta
Um sono bruto o prostrou.

Por trás do quarto alugado
Tinha uma serra muito alta
Que Pedro nunca notou,
Mas num dia desses, não
Se sabe porquê, Pedrinho
Para a serra se voltou:
– Havia de ter, decerto,
Uma vida bem mais linda
Por trás da serra, pensou.

Sineta que fere ouvido,
Vida nova anunciou;
Que medo ficar sozinho,
Sem pai, mesmo longínquo, sem
Mãe, mesmo ralhando, tanta
Piazada, ele sem ninguém…

Pedro foi para um cantinho,
Escondeu o olho e chorou.
Mas depois for divertido,
Aliás prazer misturado,
Feito de comparação.
O menino roupa-nova
Pegava tudo o que a mestra
Dizia, ele não pegou!
Porquê!… Mas depois de muito
Custo, a coisa melhorou.

Ele gostava era da
História Natural, os
Bichos, as plantas, os pássaros,
Tudo entrava fácil na
Cabecinha mal penteada,
Tudo Pedro decorou.
Havia de saber tudo!
Se dedicar! Descobrir!
Mas já estava bem grandinho
E o pai da escola o tirou.
Ah que dia desgraçado!
E quando a noite chegou,
Como única resposta
Um sono bruto o prostrou.

Por trás da escola de Pedro
Tinha uma serra bem alta
Que o menino nunca olhou;
Logo no dia seguinte
Quando a oficina parou,
Machucado, sujo, exausto,
Pedrinho a escola rondou.
E eis que de repente, não
Se sabe porque, Pedrinho
Para a serra se voltou:
– Havia de ter por certo
Outra vida bem mais linda
Por trás da serra! pensou.

Vida que foi de trabalho,
Vida que o dia espalhou,
Adeus bela natureza,
Adeus, bichos, adeus, flores,
Tudo o rapaz obrigado
Pela oficina, largou.
Perdeu alguns dentes e antes,
Pouco antes de fazer quinze
Anos, na boca da máquina
Um dedo Pedro deixou.
Mas depois de mês e pico
Ao trabalho ele voltou,
E quando em frente da máquina,
Pensam que teve ódio? Não!
Pedro sentiu alegria!
A máquina era ele! a máquina
Era o que a vida lhe dava!
E Pedro tudo perdoou.

Foi pensando, foi pensando,
E pensou, que mais pensou,
Teve uma ideia, veio outra,
Andou falando sozinho,
Não dormiu, fez experiência,
E um ano depois, num grito,
Louca alegria de amor,
A máquina aperfeiçoou.
O patrão veio amigável
E Pedro galardoou,
Pôs ele noutro trabalho,
Subiu um pouco o ordenado:
– Aperfeiçoe esta máquina,
Caro Pedro! e se afastou.

Era um cacareco de
Máquina! e lá, bem na frente,
Bela, puxa vida! Bela,
A primeira namorada
De Pedro, nas mãos dum outro,
Bela, mais bela que nunca,
Se mexendo trabalhou
O dia inteiro. Nem bem
A noite negra chegou,
O rapaz desiludido
Um sono bruto prostrou.

Por trás da fábrica havia
Uma serra bem mais baixa
Que Pedro nunca enxergou,
Porém no dia seguinte
Chegando pra trabalhar,
Não se sabe porque, Pedro
Para a serra se voltou:
– Havia de ter, decerto,
Uma vida bem mais linda
Por trás da serra, pensou.

Ôh, segunda namorada,
Flor de abril! cabelo crespo,
Mão de princesa, corpinho
De vaca nova… Era vaca.
Aquele riso que faz
Que ri, nunca me enganou…
Caiu nos braços de quem?
Caiu nos braços de todos,
Caiu na vida e acabou.

Com a terceira namorada,
Na primeira roupa preta,
Pedro de preto casou.
E logo vieram os filhos,
Vieram doenças… Veio a vida
Que tudo, tudo aplainou.
Nada de horrível, não pensem,
Nenhuma desgraça ilustre
Nem dores maravilhosas,
Dessas que orgulham a gente,
Fazendo cegos vaidosos,
Tísicos excepcionais,
Ou formando Aleijadinhos,
Beethovens e heróis assim:
Pedro apenas trabalhou.
Ganhou mais, foi subindinho,
Um pão de terra comprou.
Um pão apenas, três quartos
E cozinha, num subúrbio
Que tudo dificultou.
Menos tempo, mais despesa,
Terra fraca, alguma pera,
Emprego lá na cidade,
Escola pra filho, ofício
Pra filho, um num choque de
Trem, inválido ficou.

– Sono! único bem da vida!…

Foi essa frase sem força,
Sem História Natural,
Sem máquina, sem patente
De invenção, que por derradeiro
Pedro na vida inventou.
E quando remoendo a frase,
A noite preta chegou,
Pedro, Pedrinho, José,
Francisco, e nunca Alcebíades,
Um sono bruto anulou.

Por trás da morada nova
Não tinha serra nenhuma,
Nem morro tinha, era um plano
Devastado e sem valor,
Mas um dia desses, sempre
Igual ao que ontem passou,
Pedro, João, Manduca, não
Se sabe porque, Antônio,
Para o plano se voltou:
– Talvez houvesse, quem sabe,
Uma vida bem mais calma
Além do plano, pensou.

Havia, Pedro, era a morte,
Era a noite mais escura,
Era o grande sono imenso;
Havia, desgraçado, havia
Sim, burro, idiota, besta,
Havia sim, animal,
Bicho, escravo sem história,
Só da História Natural!…

Por trás do túmulo dele
Tinha outro túmulo… Igual.


ANDRADE, Mário de. Poesias Completas. Edição crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1987. p.372-377
* O poema não tem título: “Agora eu quero cantar” é o primeiro verso do poema, publicado originalmente em “Lira Paulistana” (1945).