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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

UM JOVEM SERINGUEIRO: Minhas aventuras juvenis nos rios de Tarauacá

Txai Antônio Macedo
CRÔNICAS INDIGENISTAS

O marinheiro...

De meus 14 aos 17 anos de idade passei trabalhando como marinheiro nas embarcações da Empresa Leal Maia & CIA na cidade de Tarauacá. Era um tipo de embarcação conhecido na região como ‘batelão’, que pode chegar até vinte toneladas, como era o caso dos batelões: Ramos, Asa Branca e Canoa Muru. Havia também as ‘lanchas’ (barcos de grande porte), que iam de quarenta e cinco até sessenta toneladas,  como as lanchas Jaminawá (45 toneladas) e Rio Tauarí (60 toneladas). O trabalho consistia em subir e descer os rios e igarapés, percorrendo varadouros e varações. Nossa missão era abastecer cem seringais pertencentes à Empresa Leal Maia & CIA LTDA e muitos outros que tinham sua produção financiada por esta empresa. Era nossa missão: escoar a produção recebida dos seringais, transportando-a para a cidade de Tarauacá, de onde seguiria para Manaus e Belém.

Era uma missão espinhosa, cheia de dificuldades. Nós, por pura responsabilidade adquirida de berço, tínhamos que tomar conta e dar conta, sempre da melhor forma possível, mesmo que fosse trabalhando só mesmo na fé e na coragem, como se poderá observar no conjunto dos fortes e episódios que narrarei em seguida.

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A festa da casa de Chico Abreu

Em 1969, aos 17 anos de idade, eu fazia parte da equipe que tripulava a Canoa Muru, pertencente à frota de embarcações da Empresa Leal Maia & CIA LDTA. Subi o rio Muru partindo da cidade de Tarauacá e seguindo até o Seringal Ceci (ou Novo Porto), chegando à última colocação deste rio, denominada Colocação Serrinha.Nós havíamos passado doze dias subindo o rio usando um motor Wisconsin americano de 22 HPs. Já fazia um tempo que os motores de combustão haviam chegado na região. Na viagem, eu estava acompanhado de Raimundo Felix, José do Áureo e Roberto Moreira. Eu era um sujeito novo. Os outros que me acompanhavam já eram bem mais velhos.

No Seringal Ceci fomos convidados para uma festa na casa de seu Chico Abreu e, assim sendo, fui participar da bem comentada festa. O varadouro que nos foi ensinado para chegar à colocação onde se daria a comemoração era ‘serrado’*, sujo, e tinha muita taboca. Festeiro, levei minha calça de linho, minha camisa de ‘tremendão’ e um pacote de cigarros Continental com filtro. Ao chegarmos na festa logo percebemos que a animação estava por conta do sanfoneiro Tineu e sua harmônica de oito baixos. Olhei toda movimentação e logo identifiquei duas moças jovens como sendo mesmo as mais bonitas daquele lugar. Tratava-se de Maria, filha da dona Maura, e, Isabel, filha de seu Chico Abreu. Também tinham muitos rapazes, dois dos quais eram corpulentos que cantavam e tocavam pandeiro junto ao sanfoneiro. Eu e meus companheiros tínhamos acordado de ficarmos tranquilos, já que cada um daqueles moços tinha um terçado metido na cinta. Caso precisassem sacar essas armas, puxariam por cima do lombo. Por isso, cada movimento era muito delicado, especialmente, para quem vinha de fora, como era o nosso caso.

Meu bom senso me orientava a dividir os cigarros com os homens jovens da festa, e assim fiz, dando uma carteira de cigarros para cada rapaz, separando uma que coloquei no bolso.

A festa teve início e seguiu seu ritmo até certo ponto numa normalidade, e eu ‘caí no samba’. As duas moças bonitas, Maria e Isabel, logo partiram na minha direção e meus colegas mais vividos ficaram expressamente preocupados, mas eu não devia me negar às chamadas daquelas moças, uma vez que valia a pena correspondê-las e, afinal de contas, eram duas. Claro que eu não estava ali para casar, mas, também, não podia e nem devia me furtar de corresponder ao gracejo delas. A noite estava bonita, com um céu lindo cheio de estrelas. A floresta circundava o terreiro da casa e a festa, com a presença daquelas moças, se encontrava bem animada pelo sanfoneiro.

Os ‘cantadores’ eram da própria localidade, de colocações vizinhas à casa da festa. Lá pelas tantas horas da noite, Tineu e um outro morador daquele seringal, de nome José Acácio, começaram uma teima, e não sei por qual cargas d’água, começaram uma discussão. E isso virou uma briga onde cada um puxou seu terçado e partiram pra cima um do outro. ‘Faca vai e faca vem’, o alarido era grande, mulheres e crianças gritavam como se o mundo fosse mesmo acabar ali. De súbito, os atores da briga pularam no terreiro e, com o clarão da lua, dava para ver o clarear das facas quando tentavam alcançar um aos outro com a ponta das mesmas. Eu e meus colegas nos escondemos atrás de uma palheira de Ouricuri. Os briguentos vinham jogando faca um no outro e nós, enquanto isso, perdíamos a festa diante daquelas atitudes ignorantes e impositivas.

Nem pensei na hipótese de voltar da festa para o nosso barco, pois, achava desumano voltar pelo tabocal naquela hora da noite. Então tomei uma decisão: dar um soco em um dos homens que estava brigando. Assim eu fiz, e quando o briguento caiu no chão do terreiro foi que pude ver que se tratava de Antonio Abreu, filho do dono da casa e irmão de Isabel. Que bosta! Izabel era uma das moças que me cortejava ali. O sanfoneiro José Acácio e Tineu é que vinham jogando suas facas em Antonio Abreu quando caiu do soco que levou de mim. José Acácio estancou quase em cima do Antonio Abreu com sua faca na mão, mas não o furou, pois ele já havia levado um soco e agora estava se levantando e sacudindo a poeira.

Eu já tinha batido mesmo, e achava que a coisa era mesmo séria, daí fui pra cima e chamei a atenção dos briguentos, lembrando aos mesmo que havia sido eles que foram ao nosso barco nos convidar para aquela festa, e por isso mesmo, não deviam ser eles, a fazer tamanha baderna prejudicando a realização da festa que estragaria a boa vontade dos outros participantes que foram para se juntar naquela diversão. Eu, ao perceber que aqueles dois homens fortes que cantavam e batiam pandeiro não haviam entrado na briga procurei fazer um acordo com Tineu, Antonio Abreu e José Acácio, para acabar com abriga e continuar a festa. Acordo feito, Tineu voltou a tocar a sanfona e a festa teve continuidade. Contudo, Antonio Abreu, foi ao interior da casa trouxe uma rede e a atou no meio da sala onde estava acontecendo a dança. Foi a gota d’água. Eu só tinha 17 anos, mas mesmo assim não deu para engolir tal desaforo praticado por Antonio Abreu contra a vontade da maioria dos festeiros que ali se encontravam.

Eu não tinha uma faca, especialmente porque era uma festa, mas Roberto Moreira, meu companheiro na missão tinha uma peixeira na cintura. Tomei a peixeira de Roberto e cortei os punhos daquela rede e, quando Antonio veio em cima, peguei o atacante e o joguei no chão, e foi aí que fui conhecer os dois homens fortes. Trava-se de José Machado e Afonso Machado. Os dois eram irmãos e eram também meus primos, e eu antes nem sabia que José Machado e Afonso Machado eram também parte daquela família de Antonio Abreu. Eu, na verdade, ali não conhecia praticamente ninguém.

Os mesmos se aproximaram para perto de mim, se identificaram como meus primos, filhos de minha tia Nazinha e meu tio Bí Machado. Aproveitaram para me pedir para soltar Antonio, que por sua vez não era apenas irmão de Isabel, era também, cunhado de José Machado. Ficou mais difícil ainda, quando Tineu decidiu que não tocaria mais naquela noite. Então, eu falei: “Olhem aí meus camaradas, me desculpem pela arruaça, mas a festa tem que continuar”. Como eu ainda estava com a faca de Roberto Moreira na mão, coloquei a lâmina da faca sobre o fole da sanfona e ordenei que Tineu tocasse pelo resto da noite. Tudo funcionou às mil maravilhas, para nossa grande satisfação e alegria de todos que participavam da festa. O que não dava era para retornar ao barco naquela hora da noite pelo varadouro, em meio ao grande tabocal que margeava o rio.


Viagem dos perigos

A viagem infelizmente foi cheia de situações perigosas, as quais, querendo ou não, tivemos que encarar, conforme você poderá ver a seguir nos próximos passos desta viagem ainda infante. Na mesma viagem, um dos membros de nossa equipe tinha que varar das cabeceiras do rio Muru para o alto rio Humaitá, tendo por referência nesse rio a colocação Baixa Verde, para onde alguém tinha que ir buscar a borracha.

Ninguém da nossa equipe queria fazer aquela varação, visto que os índios brabos (isolados) viviam pelas imediações e já haviam esquartejado várias pessoas naquele trajeto.

Lembrei-me de um marreteiro de jóias que, se não me engano, era Nelson seu nome, ao buscar atravessar aquela varação em busca de vender jóias em troca de couros de fantasia (couro de gato e onça) havia sido morto, esquartejado e pendurado nas árvores ao longo do varadouro e isso havia sido praticado pelos mesmos índios brabos das cabeceiras do rio Humaitá. Esta história ficou bem conhecida nas cidades de Tarauacá, Cruzeiro do Sul e Feijó. Não tenho muita certeza disso, mas me parece que aquele marreteiro era procedente da região de Cruzeiro do Sul. Tive então que tomar a decisão de fazer a tal varação e fui com a pura fé em Deus.

Eu ia buscar a borracha da colocação Baixa Verde situada nas margens do alto rio Humaitá.

No dia seguinte, com uma estopa nas costas portando um pacote de bolacha, uma lata de leite moça, uma garrafa de cachaça Cocal, uma carteira de cigarros Continental no bolso e uma peixeira de doze polegadas na cintura, às 6:00h da manhã, chamei o seringueiro Raimundo de tal para me ensinar a boca do caminho. Me entreguei a Deus e me botei a caminhar.

Quando atingi as primeiras três horas de caminhada pela temida varação comecei a encontrar os primeiros sinais deixados pelos índios brabos ao longo do trajeto. Muitas cruzes colocadas nas árvores em homenagem às pessoas mortas e esquartejadas naquela travessia.

Entre uma dose e outra de Cocal, às três horas da tarde cheguei à margem do Igarapé Taraiá, e, para minha surpresa, os índios brabos tinham acabado de passar ali subindo por dentro do Igarapé, há alguns minutos. A água do Igarapé descia barrenta, a margem estava repleta de rastos ainda molhados. Cruzei o Igarapé por dentro e apressei meus passos buscando chegar ao Rio Humaitá. Caminhei, caminhei, e o dia de que eu precisava tanto foi sendo empurrado pela noite, que já tomava conta da floresta. Os animais que habitam o universo cósmico daquela região começavam a cantar os mais diversos ritmos, notas e cânticos diferenciados.

Meus nervos sempre na flor da pele, já é noite na floresta e eu finalmente desemboco na colocação Baixa Verde situada às margens do Rio Humaitá às 18:30h.

Nessa colocação moravam as famílias de seu Antônio da Áurea, seu irmão Nestor Braga e Pichola, filho de seu Nestor. Cheguei com tempo somente de tomar um banho no rio Humaitá, jantar na casa do seu Nestor, e passar minha rede armada na sala da casa do Pichola, que havia casado há poucos dias. Naquela noite fui acordado às pressas e tirado da minha rede por Pichola e sua esposa que me arrastaram para dentro do quarto de sua casa onde eles dormiam. Pichola então me explicou baixinho o que estava acontecendo. Dizia: “Os índios brabos seguiram você e estão todos aqui em volta da casa”. Esses índios imitavam os animais com os mais variados cânticos da fauna local.

Aos poucos, nós ali reunidos dentro do quarto, os índios se afastaram, tudo foi voltando ao normal e eu fui dormir o resto da noite dentro do quarto com o casal de jovens recém-casados.

Pela madrugadinha, acordo, olho para a cama de envira do casal e não vejo o Pichola. Sua esposa também já estava acordada e logo veio me informar que ele já tinha saído para cortar sua estrada de seringa. Fiquei um pouco parado, com vergonha de ainda não ter a mesma coragem do Pichola. Pedi à sua mulher uma espingarda. O dia amanheceu e eu fui caçar. Andei por mais ou menos uma hora na floresta e ai lembrei-me dos índios e seus barulhos no decorrer da noite. Fiquei pensando: “e se eles me alcançam ainda na varação”? Virei para trás e, chegando à casa, entreguei a espingarda para a Babosa, esposa do Pichola, e pedi um terçado, que ela prontamente me entregou.

Seu Antonio, seu Nestor e Pichola todos estavam no toco em suas estradas de seringa. O rio estava com suas águas muito baixas, o que não me permitia descer com a borracha que fui ali buscar. Então peguei toda a borracha entregue pelos produtores, enfiei todas numa corda que eu trazia comigo, fiz um cordão de borracha, e em seguida, transformei o cordão numa balsa de borracha. Amarrei-o a um tronco, e durante dois dias, por iniciativa própria, trabalhei preparando um terreno para que seu Nestor plantasse 4.000 pés de tabaco. Até ali eu não sabia o que eu seria no futuro, mas de uma coisa eu tinha certeza: havia sido criado na floresta para ser um trabalhador destemido e participativo.

No terceiro dia, os seringueiros mais uma vez estão nas estradas cortando suas seringas e o rio começa a aumentar suas águas. Não pensei duas vezes. Peguei minha rede, um pouco de farinha, pulei em cima da balsa de borracha com um varejão nas mãos e desci rio abaixo. Ao longo do rio Humaitá, por sinal, naquela época, ainda bem desabitado, possuía uma riqueza muito grande de peixe e caça.

Eu tinha que navegar em cima daquela balsa e sempre muito atento a tudo: aos animais, às cachoeiras, aos balseiros de pausadas no leito do rio, e ainda, aos índios brabos que a qualquer instante podiam aparecer por ali.

Naquele dia, por volta das 17:00h da tarde, ali descendo ao sabor da correnteza das águas, comecei a ouvir gritos que começaram longe e aos poucos foram se aproximando, e na minha cabeça, além dos gritos soava um barulho que também ficava cada vez mais próximo na medida que a balsa ia descendo as curvas do rio.  De repente, olhei para o lado do rio pelo qual eu descia por ele. Foi aí que pude ver dois homens remando a todo vapor gritando e pedindo para que eu saísse de cima da balsa para o barranco do rio. Esperei um pouco mais e pude ver que era seu Antonio da Áurea e seu Nestor Braga. Pulei na água e fui para o barranco somente a tempo de eles chegarem aonde me encontrava. Foi aí que os dois senhores passaram a me explicar que aquele barulho que eu ouvia era a Cachoeira do Nego Teixeira. E que, caso eu não tivesse lhes atendido, poderia ter sido tragado pela famosa cachoeira. Acompanhamos a queda da balsa de borracha nessa cachoeira e, mesmo sendo borracha, a balsa passou um bom tempo até que boiasse no lado de baixo dela.

Logo abaixo tinha um tapiri improvisado por Nego Teixeira e aquele já era o terceiro feito ali por ele. Os índios brabos haviam tocado fogo nos dois primeiros edificados naquele local. Os dois senhores, Antonio da Áurea e Nestor Braga, cada um tinha a sua espingarda na mão. Um ficou na frente e o outro atrás do tapiri montando guarda e me mandaram dormir. Graças a Deus, foi uma noite tranquila, e logo pela manhã, aqueles senhores decidiram me acompanhar até as próximas colocações encontradas ao longo do rio.

Depois de mais dois dias descendo o rio, eles me largaram dizendo não haver mais tanto perigo. Desci mais três dias até o rio desaguar no rio Muru logo acima da sede do Seringal Repouso, onde depositei a borracha até o nosso barco chegar das cabeceiras desse rio.


Borracha do Igarapé Taraiá

Na minha primeira noite na sede do Seringal Repouso, fui jantar com o seringalista Abel Mendes. Meu pai me falava que este senhor era seu filho, portanto, era meu irmão.

A maior parte da borracha que Abel tinha para entregar para a CIA se encontrava nas colocações de centro do seringal, numa distância de quatro horas de varadouro para chegar ao local situado nas margens do pequeno Igarapé Taraiá que, por sua vez, era divisor das águas entre o rio Humaitá e o rio Iboiaçu. O igarapé estava seco. A borracha pesava 2.500 Kg. Eu, Ribamar do Zé do Carmo e Raimundo Ludovico precisávamos retornar para a sede do barracão levando esta borracha.

Nossa equipe não tinha levado rancho (comida) e ao chegar ao local onde estava a borracha, a colocamos toda na corda e descemos dois dias e meio igarapé abaixo.

Antes de completar três dias, sem comer, andando por dentro de um igarapé, decidimos guardar a borracha para rebuscar no dia seguinte. Colocamos todas as bolas de borracha na sapopemba de uma árvore de sapota e ganhamos a floresta afora até chegar ao varadouro, e em seguida, pegamos uma varação e saímos numa colocação que o dono da casa acabava também de chegar da estrada trazendo um porco do mato (caititu) nas costas.

Nossas tripas estavam enrolando, pois, estávamos com uma fome bastante forte. Enquanto a senhora da casa preparou um batido de lombo de caititu, eu encontrei um cacho de banana colônia no bojo da fornalha do defumador da colocação. As bananas estavam tão maduras que já estavam pintadinhas e eu confesso, comi quatorze bananas daquelas e em seguida comi a melhor refeição que já fiz na minha vida: Batido de caititu com farinha de mandioca. Pense que delícia, especialmente, para nós que já estávamos no terceiro dia de fome!

Antes de deixar as borrachas eu encontrei uma ata nativa** e nós dividimos essa fruta por nós três. Depois de toda essa refeição, caminhamos ainda por duas horas e meia para chegar ao Barracão, e no dia seguinte, voltamos para buscar a borracha com ajuda de uma canoa. Trabalhando muito e sem tempo para estudar nada, pois a nossa vida no interior era linda, mas muito difícil, fiquei nessa firma trabalhando nessas atividades até completar 18 anos de idade.


Antônio Batista de Macêdo, o Txai Macêdo, é sertanista da FUNAI e uma figura importantíssima para o indigenismo e para os povos indígenas no Acre. Juntamente figuras como com Txai Terri, Dedê Maia foi (e continua sendo) uma memória viva do que foram os anos de luta, desafios, vitórias, alegrias e tristezas em prol das questões indígenas nesse rincão da Amazônia. Vivas a esse grande txai, cuja história merece ser contada e recontada por quem  admira e conhece o seu trabalho. 
 (Jairo Lima).


 * Fechado pelo mato.
 ** Uma fruta parecida e um pouco menor que o Biribá, é fruta da família do Conde. - Conheça a página do Crônicas Indigenistas no Facebook (clique aqui). Lá encontrará, além de nossos textos, várias e diversificadas informações. Vale a visita.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU (Parte 5)

Txai Antônio Macêdo
CRÔNICAS INDIGENISTAS

Da colocação Currimboque a cidade de Tarauacá

Diante a situação de saúde da minha mãe e por necessidade de que seus filhos frequentassem escolas, meu pai decidiu voltar da colocação Currimboque para a cidade de Tarauacá. Nessa época eu estava com doze anos de idade...

Nosso retorno foi muito trabalhoso, pois, assim como foi quando nos mudamos para a colocação, tivemos que levar todas nossas ‘tralhas’ nas canoas igarapé abaixo a até desaguar no Rio Muru outra vez. E assim descemos o igarapé São José, matando paca para fazer nosso rancho da viagem.

Pernoitamos a última noite de descida na colocação de seu José de Castro. Quando chegamos nessa colocação recebemos a notícia de uma festa que aconteceria naquela noite, na casa de seu Agenor Moura, localizada na margem do Rio Muru e logo abaixo da foz do Igarapé São José. Eu e meus irmãos ainda nos animamos para chegar a festa naquela noite, mas meu pai e minha mãe não permitiram, por isso nos acalmamos e ficamos conformados com a decisão. No dia seguinte saímos na confluência do rio Muru e dali era só descer até a cidade. Mal havíamos começado a descida, e, ao cruzar com outros viajantes, logo ficamos sabendo dos boatos da festa.

Cito como exemplo o que aconteceu entre os seringueiros Valdir Machado e Francisco Felizardo...

Valdir namorava uma moça de nome Maria Moura que, por sinal, era a mais bonita do seringal Colombo. Valdir já era criminoso: Havia matado Nicodemos, um grande valentão ‘de má conduta’, segundo os mais velhos me contavam. - Do outro lado da história tinha o Francisco Felizardo, que também já havia matado outro seringueiro.  Ambos eram apaixonados por Maria Moura e de forma alguma, Francisco Felizardo aceitava o namoro de Valdir Machado com sua ‘pretendida’.

Ambos se toparam na noite da festa, na casa de seu Agenor Moura, que era o genitor de Maria Moura. Mal se encontraram, os dois pretendentes decidiram travar travar um duelo sangrento:   brigaram muito e, em dado momento, utilizando as temidas ‘facas peixeira de 12 polegadas’ furaram e se cortaram mutuamente, até morrerem caindo um para cada lado.

Maria Moura, dona de muita beleza, continuou sua vida, vindo, tempo depois, a se casar com um novo e sortudo homem da região.

A descida continuou até voltarmos para a cidade, onde nos hospedamos em uma casa alugada. Minha mãe foi logo cuidar de fazer o tratamento com o Dr Tomé, alcançando, ao término desse, sucesso em recuperar sua saúde. Quanto a mim, fui estudar no jardim da infância do Grupo Escolar João Ribeiro.

Vejam bem: naquele tempo não se diziam muitos dos termos e palavras que se ouve hoje em dia. Muito menos nos seringais.

Assim, quando entrei na escola começou o jogo das novas palavras e de outros acontecimentos muitas vezes inevitáveis…

Um belo dia, logo de manhã, no decorrer dos primeiros dias de aula, comecei a ouvir coisas totalmente desconhecidas na sala de aula - e confesso que eu não entendia bulhufas de nada. Era algo como um ronco muito forte que entrou em funcionamento na proximidade da escola e, quando aquilo aconteceu, me assustei e quis saber das outras crianças do que se tratava, e logo me responderam que era um caminhão. Mas, eu ainda não sabia o que era um caminhão e nem o que era uma garagem. Acontece que nessa manhã um caminhão, que naquele dia estava sem o escapamento,  foi posto em funcionamento dentro da garagem que se localizava logo atrás da minha escola.

Claro que insisti perguntando aos coleguinhas o que era aquilo. Eles foram compreensivos e objetivos, me explicando sobre o caminhão “que ia sair da garagem e que ia devorar toda cidade”!

Assustado fiquei: Caminhão? Garagem? - O complemento “devorar toda cidade” invadiu a minha cabeça, e eu fiquei preocupado com minha mãe, e minhas irmãs, que podiam ser todos devorados pelo bicho que eu ainda não conhecia. Esse bendito caminhão, foi o terror que invadiu os meus pensamentos naquele dia.

O que fiz? Respondo: Abandonei a sala de aula e de forma disparada sai na carreira para alcançar minha família antes de serem devorados por aquele bicho desconhecido.
A casa onde minha família morava ficava a uns dois quilômetros da sede da escola. Corri, corri e chegou um momento que minha aflição era tanta, que me urinei por completo, vindo a me agarrar no tronco de uma cajarana, localizada a beira da rua Constância de Menezes, pela qual eu ia correndo.

Chegando em casa, muito apavorado, peguei minha mãe pela beira do vestido e minhas irmãs e sai arrastando casa afora, puxando um ‘um cordão de mulheres’. Meu objetivo era atravessar o Rio Tarauacá na confluência com o Rio Muru, me embrenhar floresta à dentro, até chegar onde se encontrava meu pai, que nesse dia estava numa colocação na margem do rio, em frente a aldeia Kaxinawá da foz do igarapé do Caucho.  Eu procurava meu pai para com ele somar qualquer esforço que fosse necessário contra o bicho-caminhão, que estava saindo da garagem, e segundo aqueles meninos da escola, ia devorar toda cidade.

Durante minha aflição eu havia gritado muito com minha família, para que corressem junto comigo, mas eles não conseguiam entender nada do que realmente estava acontecendo. Até que de súbito apareceram os vizinhos de minha mãe e, ao entenderem o que se passava e perceberem o que estava acontecendo na minha cabeça, no meu estado nervoso, me convenceram a sossegar, me explicando o que era um caminhão, desmentindo aquilo que os meninos da escola, os meus colegas, ainda desconhecidos, haviam me falado.

A cidade era para nós um abismo, e a floresta era a nossa verdadeira casa. O que mais eu ficaria fazendo ali? Procurei convencer meu pai a me levar pra floresta de volta pra casa onde nasci e fui criado até irmos pra cidade. Foi quando ele decidiu me levar dali e voltei para morar com meu pai, junto aos Huni Kuin do Caucho.

E novamente comecei uma nova diáspora: da cidade de Tarauacá a aldeia Kaxinawá do igarapé do Caucho...

Tudo ali andava muito bem entre nós e os indígenas, todos estes vizinhos do meu pai. Eu e ele morávamos sozinhos e trabalhávamos para manter a minha mãe morando lá na cidade com minhas irmãs, que ainda eram menores nessa época. Meu irmão mais velho, Raimundo Batista de Macêdo já havia se casado e morava relativamente perto de mim e meu pai. E nesta convivência cheguei aos treze anos de idade.

Neste local trabalhávamos com criação de animais e agricultura, vivendo praticamente junto com o povo indígena Kaxinawá da aldeia Foz do Igarapé do Caucho, no Rio Muru. Ali vivi até meus quinze anos de idade, e sempre estudando com a professora Diva, na escola que ficava na colocação 18 Praias.

Numa noite de festa na aldeia Kaxinawá da Boca do Igarapé do Caucho, na casa de Chico Luiz, filho do velho Tuxaua Luiz Francisco. Essas festas eram animadas pelos bons sanfoneiros Isídio e Simão, dois irmãos nordestinos que moravam na  cidade de Tarauacá, e que quando contratados pelos indígenas iam tocar na aldeia. Mas, nesse dia, o medo tomou conta de todos os presentes, pois, o policial Pedro Leonel e seu irmão Pedro Dá, os quais se diziam donos do Seringal Tamandaré, que era totalmente ocupado pelos Kaxinawá, invadiram a aldeia, armados e tomaram tudo que os índios tinham em suas casas: Espingardas, machados, terçados, enxadas dentre outros pertences dos índios.

Meu irmão mais velho, Raimundo Batista de Macêdo, aquele que havia feito o patrão tirar sua conta corrente numa barra de sabão*, e João Herculano, enfrentaram os patrões policiais e fizeram eles devolverem tudo que estavam levando dos índios, pois,  aquele ato praticado pelo policial era imoral e meu irmão e seu amigo não aceitaram isso. A coragem desse meu irmão era grande e o seu senso de humanidade era bem maior, no entanto, sua atitude naquela situação foi muito perigosa para todos que se encontrava naquela Aldeia.

Mas esse enfrentamento começou com minha intervenção, pois, fiquei tremendamente preocupado e, mesmo ainda criança, não aguentava ver aquela injustiça contra os pobres índios, nossos amigos. Por isso, quando vi o policial fazendo aquela arbitrariedade contra eles, não me contive e procurei meu irmão, que também estava na festa. Mostrei e ele o que estava acontecendo e, sem medir o esforço, foi pra cima do policial, que naquele instante, apontou sua arma para ele. Nesse momento, meu irmão encostou seu punhal no peito do policial e falou: “Aperta o gatilho, porque vou derramar tuas tripas, ou então, entregue os pertences dos índios”. - Eu vi que uma arma estava apontada para o meu irmão e fui chamar o João Herculano para ajudar. João tirou o revólver da mão do policial com um pequeno golpe com o pé na mão do arrogante.

Eu fui crescendo naquela aldeia, junto com seus ocupantes, conhecendo seus costumes e tradições, que era diferente, mas, fui aprendendo e, também ensinando os txais conforme seu próprio modo de vida naquele lugar.

Anos depois, após concluir o segundo ano primário, fui morar novamente na cidade de Tarauacá, para estudar com a professora Ritinha Catão, no Grupo Escolar João Ribeiro, escola essa que até os dias atuais está localizada na Praça Valério Caldas de Magalhães no centro da cidade. Foi nessa escola onde cursei até a 4ª série primária.

No fundo dessa praça funcionava o bar do seu Julebaldo que, também uma sorveteria. Eu e meu irmão Luiz Gonzaga Caetano Barbosa íamos para a escola, mas, nenhum de nós tinha dinheiro no bolso para comprar um picolé. Os filhos dos moradores mais antigos ali da cidade compravam picolé sorvete, e a gente ficava olhando aquilo com água na boca, pensando como seria gostoso poder também conseguir uns.

Meu irmão um pouco mais encapetado do que eu, levava para a escola uma sonrisal no bolso do uniforme, e nas primeiras vezes que ele fez isso eu não sabia das suas  atitudes, e olha  que ele era um ano mais novo de que eu. Só que depois descobri, e pude perceber qual seu engenhoso plano. Pois bem…

O caso é que como ele (Gonzaga) não podia comprar um picolé, esperava que os filhos das famílias mais ricas da cidade comprassem, para que ele pudesse tomar o picolé das mãos dos garotos ricos.

Quando ele pegava o picolé saia correndo e a meninada corria atrás. Ele ai, quebrava o sonrisal e colocava um pedacinho da pílula na boca, e caia no chão espumando pelos cantos da boca, tempo suficiente, para que eu chegasse e afastasse a meninada de cima dele, dando petelecos, tendo como pretexto que ele estava supostamente passando mal. Era perigoso, mas que foram engraçadas aquelas terríveis proezas aprontadas pelo Gonzaga, a isso foram. Os meninos que perderam os picolés quando aquilo acontecia, ficavam muito assustados temendo terem causado um por terem derribado o Gonzaga.

Da Escola na cidade aos seringais do Rio Iboiaçu no alto rio Muru.

Eu ainda contava só 14 anos quando meu pai juntamente com o velho Chagas Kaxinawa, a quem eu chamava de companheiro, decidiram subir o Rio Muru praticamente todo, e em seguida, subir o Rio Iboiaçu até o seringal São João. Meu pai me levou para esta viagem com ele. Nossa canoa tripulada somente por mim, meu pai e o Chagas Kaxinawá, era uma canoa feita de tábuas, com capacidade para mil e quinhentos quilos de carga.

Nossa viagem era tangida a remo, faia, sisga e varejão. Passamos 11 dias subindo o Rio Muru e 04 dias subindo o Rio Iboiaçu, 15 dias varejando na popa daquela canoa.

Desenrolamos muitas curvas, estirões e cachoeiras até chegar ao seringal denominado São João. Nesta viagem, ainda ajudei meu pai e o companheiro Chagas a montar uma armadilha para pegar um Gato Maracajá; e pegamos aquele Gato muito bravo.

Na verdade, tratava-se de uma caçada, que eu terminei também transformando em uma pescaria. Tanto tinha muita caça na floresta deste lugar quanto tinha muito peixe no Rio Iboiaçu.Ali peguei o primeiro Jundiá manteiga, o Jundiá amarelo, também pesquei Jau ou Jundiá Açu, Piroaca, surubim, Caparari, Pirapitinga, Bacu e Bacurana.

No Rio Iboiaçu, meu pai localizou em uma cachoeira o casco de uma tartaruga gigante quase do tamanho de uma canoa. O casco estava quebrado, e havia sido por conta da atividade madeireira antes realizada ao longo daquele Rio. Uma grande tora de madeira que descia no rio bateu-se no casco da antiga tartaruga quebrando o casco da mesma, que ficou ali mesmo, e deve está lá até hoje.

A viagem não logrou muito êxito pensando do ponto de vista dos caçadores adultos, mas, para mim, apesar do cansaço foi quando peguei os maiores peixes que conheci até ali. Passamos ali duas semanas na floresta do Iboiaçu.

Matamos quase nada de caça, deu água no Rio, e então meu pai decidiu junto com o companheiro Chagas ir baixando, e fomos embora pra casa. Eu já estava com saudades da minha mãe, apesar de estar gostando de estar naquela aventura. Meu pai sábio o quanto era é que não perdia aquela oportunidade de aproveitar as águas grandes dos rios, para que pudéssemos chegar para nossa casa rápido, e ao sabor da correnteza das águas. E assim foi feito.

...No Acre, especialmente, na cidade de Tarauacá, além de seringueiro fui também agricultor, estivador, marinheiro prático trabalhando nas embarcações marítimas, vivi um tempo como pescador, e depois de ser basicamente forçado a servir ao Exército brasileiro, fui operador de máquinas pesadas e mecânico de autos-motores. 



Antônio Batista de Macêdo, o Txai Macêdo, é sertanista da FUNAI e uma figura importantíssima para o indigenismo e para os povos indígenas no Acre. Juntamente figuras como com Txai Terri, Dedê Maia foi (e continua sendo) uma memória viva do que foram os anos de luta, desafios, vitórias, alegrias e tristezas em prol das questões indígenas nesse rincão da Amazônia. Vivas a esse grande txai, cuja história merece ser contada e recontada por quem  admira e conhece o seu trabalho. (Jairo Lima)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU (Parte 4)

Txai Antônio Macêdo 
Crônicas Indigenistas


Ainda na colocação Currimboque: Promessa feita, dádiva recebida e sacrifício pago

Num daqueles ‘dias de branco’ -  como costumavam dizer os seringueiros adultos -, sai para cortar minha estrada de seringa, São José ‘de cima’ (lembrem-se disso: toda estrada tem seu próprio nome) e no decorrer do trabalho, naquele dia, adquiri uma febre fortíssima.

Ocorre que eu havia passado por baixo de um pé de Palmari e não vi a árvore, e por isso, ganhei aquela famigerada febre. Para aumentar minha má sorte naquele dia caiu uma forte chuva, e eu ainda estava longe de casa. Tive que sobreviver toda aquela chuvarada com a febre que me atacava de forma quase intolerável. Cheguei na casa de meus pais usando uma ‘muleta’  improvisada, feita com pau de caneleiro, e sem querer deixei minha mãe muito assustada, especialmente, ao me ver andando apoiado nessa muleta.

Passado mais de um mês, minha mãe, senhora Carmina Caetano Barbosa, que era uma pessoa muito religiosa e sempre bem motivada pela fé cristã, diante da situação que ela me via ali, aleijado da perna direita, devido ao choque térmico ocasionado pela febre e a chuvarada que tomei na estrada de seringa, caiu de joelhos ao chão e pediu a Santa Maria da Liberdade que intercedesse junto ao Criador pela cura da minha perna direita, que, ao que parece, já estava ‘encolhida’ há mais de 40 dias.  
Santa Maria da Liberdade

Ela prometeu para a santa que, se a minha perna voltasse a se movimentar como era antes, ela me mandaria a pé da colocação Currimboque  até o túmulo dessa jovem santificada para banhar minha perna na terra da sepultura dessa ‘santa’, que era uma moça já morta há muitos anos, e que havia sido ‘santificada’ pela população dos seringais. Assim, quarenta dias depois, comecei a movimentar minha perna e todos os outros seringueiros que me viam não se cansavam de dizer: Olhe o menino! Ficou bom da perna dona Carmina, a senhora foi atendida.

O verão chegou, e uma caravana de romeiros vinda de toda bacia do Rio Muru se deslocava para o local onde se encontrava a sepultura da santa milagrosa. Minha mãe que, já havia ouvido falar muito bem da referida moça que se santificou, não perdeu tempo: Logo preparou uma farofa daquelas muito deliciosa e duradoura, colocou-a em um saco encauchado com látex de seringueira e me ordenou acompanhar os romeiros para pagar a sua promessa.

Não discuti e nem pensei duas vezes: Coloquei a rede num saco. O saco numa estopa. Minha faquinha na bainha. A bainha no cinturão e fui caminhando por vinte e dois dias pelos varadouros da floresta, para cumprir a promessa feita por minha mãe, banhando-me na terra solta da sepultura da Santa. - Durante a caminhada junto à caravana de romeiros, compartilhei com eles momentos bons e momentos de sérias dificuldades, apresentadas ao longo dos varadouros, às vezes limpos ou, na maioria dos casos, com mata ‘serrada’.

Como a natureza é rica, e ao mesmo tempo cheia de surpresas. Passamos por muitas colocações das bacias dos Rios Muru, Rio Envira e Rio Paraná do Ouro. Dessas recordo de algumas como: Morada Nova, Cius, Vai quem quer, Sobral, Mato Grosso, Tianguá, Chato, Alto do bode, Alto Bonito e Paraná do Ouro. - Recordo-me dessas localidades pela importância que cada local desses teve para nossa viagem, pois, eram locais onde buscávamos informações sobre os varadouros, recebíamos refeição caseira e gratuita, tomávamos água de fontes e igarapés tiradas de potes de cerâmica. Eram locais onde descansávamos à noite, para, no dia seguinte, darmos continuidade de nossa viagem.

Mas, teve uma vez que andamos um dia inteiro na floresta, sem água para beber, pois, todos os poucos e pequenos igarapés estavam secos, mas, ainda assim, todos nós estávamos determinados a continuar nossa caminhada passando muitas vezes por dentro de capoeiras de antigas malocas, antes pertencentes a grupos indígenas já exterminados pelas “correrias”, praticadas por seringalistas como o Pedro Biló na bacia do alto rio Envira, Paraná do Ouro, rio Humaitá, rio Muru, rio Tarauacá, rio Jordão, rio Iboiaçu, rio Tejo, Paraná do Machadinho e rio Breu.

Depois deste dia de sede, esforço altamente controlado, fomos pernoitar na casa de um dos filhos de Pedro Biló, de nome Francisco Biló. Este senhor era um dos filhos que se juntava a seu pai, como um dos grandes matadores de índios.

Na moradia de Francisco Biló tinha água boa e abundante. Os donos da casa não estavam presentes na noite que chegamos nesta colocação mas, a decisão unânime de nossa caravana foi acampar ali naquela noite. Eu, deitado na rede ficava pensando nas aflições vividas pelos grupos indígenas quando eram atacados pela “correria” de Pedro Biló, e nós estávamos exatamente na casa do filho dele. De tanto pensar nisso, o sono ainda estava distante, embora estivesse enfadado de caminhar.

Durante a noite, a sede do dia anterior começou a aparecer. Foi quando me levantei para ir até uma talha grande de cerâmica antiga, que ficava sobre um cepo localizado no cantinho da parede de paxiúba. Para minha tristeza terminei encostando a barriga na talha, que por sua vez tombou e esfarelou-se no terreiro da casa: Meu Deus! E agora? - Eu, e os outros integrantes da caravana de romeiros ficamos muito preocupados com o acontecido, e todos se perguntavam: E agora? Quando o dono da casa chegar o que vai acontecer?

Antes da meia noite a família da casa chegou, e eu, tomando à frente de todos, me levantei da rede e expliquei para o dono da casa o que havia acontecido com a talha de cerâmica dele. Ele entendeu e, graças a Deus, nos perdoou sem promover qualquer alarde. Depois disso fomos dormir.

Eu, deitado na minha rede, ficava com minha cabecinha, de apenas onze anos, dando voltas e voltas no mundo da imaginação e das lembranças. Recordações das grandes histórias que me eram contadas pelo o seringueiro Rufino Coelho, vulgo Muru, um senhor que chegou à casa dos meus pais quando eu ia fazer meu primeiro aniversário e terminou ficando junto com nossa família para o resto da vida dele, vivendo muitos anos junto a nós.

Muru dizia que até chegou a ser recrutado para participar de turmas de correrias, onde viu muitas desgraças praticadas contra os povos indígenas brabos (isolados), naquela época.

Entre estas histórias, Muru me contava sobre as “correrias” praticadas por um homem, se não me engano este era procedente do Maranhão, de nome Maximiano da Fonseca, que, e seu nefasto negócio, contava com as participações de chefes de correrias vindo do Peru, conhecidos pelos nomes de Dom Elias, Dom Abudy e Dom Eloy.

Segundo a história do Muru, Maximiano da Fonseca era um homem cheio de mistérios e poderes: Chegava numa casa de família com sessenta homens em sua turma, pedia água recebia e dava os sessenta copos d’água para seus companheiros, mas, o único que os donos da casa viam era ele. Noutro ‘causo’ diziam que ele entrava sozinho numa maloca Indígena no meio da noite, cortava as cordas dos arcos e as molas de rifles em poder dos índios. Fazia tudo sem ser visto pelos índios, para, em seguida, com seus companheiros atacar essas malocas às cinco da manhã. Nestes ataques, as índias novas eram pegas e amarradas para trazer e entregar aos patrões nos barracões. Tais presas eram depois vendidas pelos patrões aos seringueiros e certas delas eram presenteadas a outros patrões. Bom e, assim passei a noite revivendo tudo aquilo que me era contado antes pelos seringueiros.

Finalmente o sono me venceu.

No dia seguinte a farofa de todos que integravam a caravana já estava no fim e, exatamente no entardecer deste dia, chegamos à sede do Seringal Liberdade, na margem esquerda do Rio Envira, de nome indígena Henê-Bariá ou Pixiã, na língua indígena Huni kuin. É lá onde se localiza o túmulo da Santa Maria da Liberdade e naquela noite de nossa chegada, logo à tardinha, cumpri minha missão de ir até o túmulo e me banhar com a terra da sepultura da Santa, com a qual a minha mãe tinha feito a promessa. Em seguida, me banhei nas águas do Henê-Bariá e, depois desse banho, veio o chamado para a nossa caravana, para a refeição da noite.

No jantar, eu comi carne de carneiro pela primeira vez. Até então, eu achava que aquele animal não era para agente comer e não me sentia convidado pelo o apetite mas, finalmente, comi aquela carne na janta, até porque sentia necessidade de repor minhas energias dispensadas durante os primeiros onze dias de caminhada pela floresta. Outro motivo, além da fome, eu não podia fazer feio na casa alheia como, por exemplo, pedir outro tipo de comida que não fosse o prato oferecido pela família, que nos recebeu e nos abrigou para o jantar da família.

Depois do jantar começaram muitas conversas sobre essa santa, que era uma linda jovem nascida e crescida no seringal, onde foi assassinada no local onde fica sua capela. Contaram que o irmão de Maria tinha um amigo e queria que a jovem namorasse o referido rapaz, e que, depois de um tempo viesse casar-se. Só que Maria não tinha o mesmo propósito, e por isso, não aceitou a indicação feita por seu irmão, que ao se sentir contrariado diante de seu amigo, pegou uma arma e atirou na irmã, vinda a mesma a falecer.

Depois da morte da jovem, logo santificada, o seringal Liberdade passou a ser um local de muito destaque, tão importante que, até hoje todos os anos é muito frequentado por diversos romeiros tanto do Acre quanto de fora do Brasil, que lá vão pagar suas promessas naquele local, e tem outros que vão ali para conhecer a história envolvendo aquele episódio.

Após pagar minha promessa voltei caminhando mais onze dias, junto com a mesma caravana que minha mãe havia me entregado. Chegando em casa minha querida mãe nos recebeu com uma mesa sortida de muitas comidas, todas produzidas com a devida qualidade da arte culinária de minha mãe e minhas irmãs.

Dou um salto na minha história, rompendo com a narrativa...

Talvez por conta desta importância, que, muitos anos depois, quando ocorreram os estudos de identificação e delimitação das terras indígenas Kulina do Rio Envira e Kulina do Igarapé do Pau, a faixa de terra que compreende a área do seringal Liberdade ficou fora dos limites das terras indígenas, respeitando o credo católico, o recanto sagrado e o livre arbítrio dos romeiros católicos que se apegam a jovem assassinada e santificada. E, revoltados com o fato desta faixa de terra ter ficado fora dos limites dos territoriais indígena, alguns Kulina (Madija), chegaram a furar os olhos da imagem de massa da santa colocada na capela pela Igreja Católica em homenagem a santa santificada. Isto foi feito quando os Padres levaram o corpo da jovem Santa para Roma.

Em 2010, enquanto realizava levantamento junto aos povos indígenas do rio Envira, para suprir o Plano de Mitigação e Compensação nas terras indígenas da área de influência direta e indireta de abrangência dose impactos da BR-364, parei nesse seringal e aproveitei para renovar meus votos junto a santa, que morreu pela liberdade de escolha. Nessa visita eu estava acompanhado eu Gessé-la, Maiane, Jucelino, Francisco Apurinã e Vanderlei o motorista de nosso barco fretado na cidade de Feijó no Acre.

Nessa viagem eu pude registrar outra versão da história, sobre a morte da jovem, contada pelo nosso barqueiro Vanderlei:

“Eu era criança quando ouvia a minha mãe contar que um marreteiro (comerciante itinerante) de nome desconhecido parou no seringal atualmente denominado de Santa Maria da Liberdade, com objetivo de apresentar e comercializar seus produtos. Naquela oportunidade o marreteiro foi convidado pelo dono da casa, pai da jovem para almoçar ali. Como de costume, este comerciante estava de posse de um revólver de calibre 38, o qual deixou sobre a mesa da sala. Nesse recinto estava a jovem de 16 anos, e a moça, sem noção do que poderia ocorrer, pegou a arma que estava carregada e brincando apontou para o rapaz, apertando o gatilho por várias vezes, sem que a arma realizasse qualquer disparo, Todavia, o jovem para quem Maria apontava a arma, era aquele que seu irmão queria que fosse seu namorado. Neste momento, o irmão da jovem pegou a mesma arma e falou: – vou mostrar como se atira. - E acabou que dessa vez a arma disparou contra a adolescente, ocasionando o falecimento dela. Antes da sua morte, enquanto agonizava, pediu para não fazerem nada contra o rapaz, pois ele não havia feito aquilo com o propósito de atirar nela, era tudo brincadeira.

Após alguns dias de seu enterro, o local onde ela foi sepultada começou a inspirar cheiro de flores, e todos que por ali passavam percebiam que se tratava de um túmulo diferente. Aquela notícia chegou até ao conhecimento dos padres do município de Feijó, que vieram para fazer uma inspeção e se surpreenderam ao constatar que a jovem falecida, havia se santificado.”

Deixo aqui essa história da jovem santificada, que me ajudou a fazer minha perna direita voltar a funcionar. O resto da história continuará no texto seguinte, ainda na colocação Currimboque.


Antônio Batista de Macêdo, o Txai Macêdo, é sertanista da FUNAI e uma figura importantíssima para o indigenismo e para os povos indígenas no Acre. Juntamente figuras como com Txai Terri, Dedê Maia foi (e continua sendo) uma memória viva do que foram os anos de luta, desafios, vitórias, alegrias e tristezas em prol das questões indígenas nesse rincão da Amazônia. Vivas a esse grande txai, cuja história merece ser contada e recontada por quem  admira e conhece o seu trabalho. (Jairo Lima)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU (Parte 3)

Txai Antônio Macêdo
Crônicas Indigenistas

A vida na colocação Currimboque

Ali era louco, era inóspito, como se dizia lá: "Tudo no bruto há 18 anos". 

A colocação Currimboque, onde estávamos morando e trabalhando, fazia já dezoito anos que não era habitada por ninguém. Por isso, tudo ali já havia regenerado, mas foi preciso trabalharmos muito para edificar casa de morada, defumadores, galinheiros, cercado para jabutis, roçados e reabertura das estradas de seringa.

Nossa colocação distava cerca de seis horas da sede do Barracão Colombo localizado na margem direita do Rio Muru. As colocações que se avizinhavam eram: Cius, com seis horas de viagem a pé já nas águas do igarapé Ciús, pertencente às águas do Rio Envira; Cocal com quatro horas de viagem a pé; Campos da Cruz, com duas horas de viagem a pé e; Paiol da Lama, com três horas de caminhada pela floresta.

Em alguns finais de semana aparecia lá na nossa casa o seu Antônio Bento, da colocação Campo da Cruz e o Chico Mano, da colocação Paiol da Lama. Estas visitas eram uma boa maneira de sair da rotina e do isolamento, que eles viviam em suas moradias, para vir conversar com meu pai, mesmo tendo sido um homem que enquanto criança 'veio de fora'. Meu pai era um cidadão bem informado, sabia ler e escrever e, por sinal, escrevia muito bem. O mais importante é que ele era possuidor de uma caligrafia muito bonita, que ficava mais bonita ainda quando ele utilizava uma pena e um tinteiro.

Além das vantagens de ser ali um lugar novo e farto, muitas eram as 'desvantagens' contidas nas conversas de finais de semana, entre a minha família e os seringueiros vizinhos. Aqueles senhores e senhoras não escolarizados contavam histórias de onças, de Mapinguarí, da Mãe da Seringueira, da Mãe D’água. Tinham também histórias das pautas que seringueiros tiravam com o capeta, para tirar mais látex e produzir mais borracha. Alguns contavam histórias sobre cangaço. Falavam das histórias do Honorato Cobra Grande, do boto que saia das águas e ia para as festas para namorar as moças.

Falavam de almas e de mistérios da mata como, por exemplo, da Caipora, que eu acho que também se confunde com o Caboquinho da Mata. Tinha muita história sobre o 'tempo dos coronéis de barranco' e de alguns homens valentes. Falava-se sobre panemas colocadas por outros seringueiros que invejavam os caçadores mais felizardos.

Os seringueiros costumavam pedir ajuda de outros seringueiros, sobre como o que fazer para se livrar das panemas e, também, para devolver o mal aos invejosos que fizeram maldades. Eu sei que existem várias maneiras de resolver este tipo de situação. Como se trata de segredos da cultura da floresta eu prefiro manter oculta, mas, afirmo que existe e funciona.

Falava-se muito das correrias praticadas contra os índios, ditos 'brabos' e da tara das balanças utilizadas pelos Barracões da região, e de como alguns seringueiros colocavam barro, cocão, machado, pedra ou farinha de mandioca na borracha para pesar mais.

Uma conversa bem presente era a cobrança de renda das estradas de seringa, os altos custos das mercadorias (que naquela época já era consumido nos seringais), a falta de assistência médica, as visitas dos mateiros florestais e, também, da briga que porventura houvesse acontecido na festa da casa de alguém. Claro que apareciam conversas sobre algum rapaz ter roubado a filha de alguém conhecido.

Quando os assuntos dos adultos se esgotavam, meu pai tinha um enorme prazer de me colocar para falar para os adultos e crianças presentes sobre a história da descoberta do Brasil, que naquela época eu sabia decorada e hoje já nem me lembro tanto, até porque confundem invasão com descoberta.

Fui uma criança que não teve adolescência...

No primeiro ano vivendo nesta colocação, eu acompanhava meu pai nas atividades das estradas de seringa. Atividade essa que veio a ser minha profissão inicial, na qual eu era chamado de 'seringueiro toqueiro', ou 'seringueiro mirim'. Nesse tempo eu já contava com meus oito anos de idade.

Do segundo ano em diante já passei a assumir cortar*, vindo a colher em duas estradas de seringa onde eu ficava acompanhado só por Deus mesmo. Estas estradas eram conhecidas pelos nomes de São José 'de Cima' e São José 'de Baixo', pois as mesmas ficavam ao longo de um igarapé chamado São José. Então, pensando bem, eu realmente nunca estava só com Deus, pois, estava sempre junto a São José.

Aos oito anos de idade eu já tinha: faca de bainha; terçado 127; raspadeira; poronga; cabrita; faca de seringa; estopa; balde feito de frande de lata de banha de porco; saco encauchado; capanga de cartuchos e; minha mucal (espingarda) calibre 20. Eu assumi cortar e colher essas duas estradas de seringa para substituir o meeiro Chicó, que trabalhava de meia com meu pai**.

A borracha produzida pelo Chicó tinha muita água, na balança ela quebrava muitos quilos, entre uma pesada e outra. Por isso, meu pai passou a desconfiar do trabalho dele, passando a prestar mais atenção o que estivesse acontecendo. Assim, descobriu-se que Chicó varava as estradas e colocava água no látex, para que meu pai pudesse achar que ele tirou a mesma quantidade de do leite de seringa, que meu pai conseguia tirar de cada estrada em cada dia de corte.

Eu Vivi a verdadeira aventura de um seringueiro mirim, que por sua vez já havia lido e decorado grande parte do livro Páginas Brasileiras.

Em muitas ocasiões, trilhando a minha estrada de seringa, ou nos varadouros por onde andava, me recordava temerosamente daquelas histórias contadas pelos adultos sobre o Mapinguari, a Mãe da Seringueira, os índios brabos e, especialmente, quando me dava conta de que uma onça acabara de passar por cima de meus rastros na estrada de seringa, e que isso tinha acontecido ali, naquele mesmo dia ou há poucos minutos. Era pavoroso quando eu via uma cobra na floresta, eu tomei muitos sustos apavorantes, e quando ouvia o grito de algum animal que ainda não era de meu conhecimento, confesso que eu ficava com os nervos à flor da pele.

Meu maior temor era que a qualquer momento eu viesse encontrar um animal furioso, ou mesmo uma desumana assombração. Eu ficava na espreita, com medo de topar com um índio brabo. Nossa! Índio brabo! Isso tudo era demais para mim naquela época.

Mas nesse trabalho tinham coisas lindas também.

Eu ficava maravilhado quando encontrava bandos e bandos de macacos-prego, cairara, guariba, barrigudo, macaco-preto, macaco-da-noite, macaco-de-cheiro, zog-zog, parauacu, bigodeiros e soin. Os Soins são tão bonitinhos.

Eu ficava muito tempo só olhando os animais: bandos de araras; papagaios; jacus; mutuns; inambus; nambu galinha; nambu azul; nambu macucal; nambu relógio; nambu preta; surulinda e; Tucanos. Pasmava quando conseguia ver um Gavião Real.

Nossa colocação ficava num local de muita fartura, porque, além de outros abundantes recursos naturais, tinha muita caça, e até por isso mesmo tinha muita onça: onça pintada da malha grande; onça pintada da malha pequena; onça preta; onça vermelha e falavam até de onça branca.

Tinha tanto Jabuti naquela floresta que em três meses nós juntamos cento e sessenta jabutis, e a gente criava alguns num cercado feito de ripas de paxiúba ao lado de nossa casa. Alguns jabutis dependendo da quantidade de malhas que ele possui no casco podem ser, ou não, mandingueiros (representantes de ciências ocultas especiais para o caçador). Neste caso específico, tal jabuti é colocado num chiqueiro feito na sapopemba e passa ser alimentado com comidas especiais como: fígado de caça, Jaracatiá, cajarana, cajuzinho, ubaia, jenipapo, dentre outras comidas.

Tinha muito peixe no Igarapé São José, que era grande cheio de pedras e cachoeiras e de difícil navegação. Minhas duas estradas de seringa margeavam este Igarapé. Achava fantástico quando eu me aproximava cautelosamente da beira de um daqueles lindos poços para ver abaixo das águas cristalinas repletas de peixes curimatã, pirapitingas e matrinchãs malhadas. Eu ficava encantado de olhar tanta beleza e riqueza ali à luz dos meus lindos olhos esverdeados, até pela cor das plantas silvestres ciliares daquele majestoso Igarapé, circundado pela floresta e com o nome de São José.

Naquele tempo que fui seringueiro, dos meus oito aos doze anos de idade, ainda pude ver e viver o 'cativeiro' e a coação aplicada pelos seringalistas contra os seringueiros. Uma situação nunca dá para esquecer.

Pude ver que a ignorância ali no mundo dos seringais superava o saber, visto que a escola para quem vivia e trabalhava na floresta não existia. Eu já sabia ler e escrever o meu nome, mas, é porque aprendi com meu próprio pai, o meu grande professor.

Os patrões eram cruéis, arrogantes e prepotentes. Mas, haviam homens que não aceitavam tais crueldades, ficando simplesmente quietos, parados, de braços cruzados. Eu vi, por exemplo, meu irmão mais velho, Raimundo Batista de Macêdo, fazer um desses patrões, de nome Francisco Ribeiro, 'tirar' sua 'conta corrente' em cima de uma barra de sabão zebu.

Os patrões roubavam nos preços dos bens industrializados, através da tara das balanças, na cobrança de renda e na hora de extrair a conta corrente de um seringueiro. Pagavam a borracha produzida sem qualquer tabelamento, e tudo ficava ao bel prazer dos deles. A desinformação gerava uma bruta ignorância nos seringais deixando as pessoas um tanto selvagem mesmo.

Certo dia, quando já era adolescente – palavra que só viemos ouvir muito tempo depois que conhecemos cidade, até porque você saía de menino para homem, fiquei muito apavorado com o que ouvi na floresta. No entanto, não se devia voltar para casa falando de algo que lhe assustara e não explicar aos outros do que na verdade se tratava, pois, quem se assustasse tinha a obrigação de verificar, olhar de perto para contar de certo, o que era aquilo que lhe botou tanto medo. Então, joguei o medo fora e fui olhar para ter certeza do que se tratava.

Olhem leitores, estes momentos, para uma criança na floresta não é nada fácil. Moral da história: tratava-se de um casal de jabutis fazendo amor em meio a sombra do verde pálido, num universo quase inteiramente livre, não fosse pela minha penetra presença morrendo de medo naquela localidade.

Principalmente, até descobrir que se tratava de um casal de jabutis fazendo amor selvagem. Quando meus olhos viram aquilo apesar da tara demonstrada pelo jabuti em cima da jabota, vi que se tratava de um sério caso de amor e fui me retirando, mas, o meu coração continuava batendo ligeiramente apressado. Porém, como já faltava pouco para chegar a casa, fui me acalmando e já cheguei no meu lar pronto para contar aquela história a meus pais e aos meus irmãos. Engraçado, todos riram muito, e para mim, aquilo era realmente algo muito estranho.

* Cortar – termo usado para definir a extração do látex, através dos cortes típicos feitos pelos coletores seringueiros;
** O Meeiro é um seringueiro mantido pelo seringueiro titular da colocação, e produz a borracha sob a responsabilidade do Titular. Este ganha a metade da produção do ano de safra. Era como um seringueiro agregado, e era mantido com comida, roupa lavada e dormida na casa que trabalha.

Antônio Batista de Macêdo, o Txai Macêdo, é sertanista da FUNAI e uma figura importantíssima para o indigenismo e para os povos indígenas no Acre. Juntamente figuras como com Txai Terri, Dedê Maia foi (e continua sendo) uma memória viva do que foram os anos de luta, desafios, vitórias, alegrias e tristezas em prol das questões indígenas nesse rincão da Amazônia. Vivas a esse grande txai, cuja história merece ser contada e recontada por quem  admira e conhece o seu trabalho. (Jairo Lima)

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