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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

MINHA VIDA NO SERINGAL

José Ribamar Bessa Freire
site Taqui Pra Ti
O padre Fritz viajava em desobriga por seringais do Acre e pernoitou no tapiri de um caboco às margens do rio Tarauacá, onde jantou farofa de tartaruga preparada no casco dela, na própria gordura, com muita cebola, cheiro-verde e pimenta murupi ao molho de tucupi. Completou com arabu, o mujangué grudento feito com ovos crus de tracajá misturados com farinha d´água e açúcar. No dia seguinte, cedinho, antes de tomar o chibé nosso de cada dia, experimentou um desconforto intestinal. Toda vez que se sentia pressionado – era o caso – alternava o francês e o alemão, as duas línguas faladas na sua Alsácia natal. Perguntou ao caboco:
- Ich möchte kacken.  Je veux chier. Où est-ce que je peux vider la cage du jacu?
O humilde anfitrião ficou com cara de égua, porque só havia entendido a última palavra, jacu - um pássaro de cauda longa, pescoço esticado, papo vermelho, plumagem escura salpicada de escamas brancas. Ah, também havia ouvido falar em chier, no rio Xié, que corre no alto Rio Negro. O padre Fritz traduziu então ao português do Acre que ele dominava muito bem depois de anos de desobriga:
- Meu filho, onde é que eu posso esvaziar a gaiola do jacu?
A resposta demorou.  O padre que estava muuuuuuuito apressado, foi, então, mais explícito:
- Eu quero tirar a tartaruga do casco, entendeu? Quero fazer o parto da sucuri, mas tem que ser rapidinho, me entende?
O caboco, que havia entendido muito bem o eufemismo, se desculpou:
- Reverendo, aqui não tem sentina não, a gente faz coco no bananal – disse, apontando na direção do igarapé.
O padre saiu correndinho, fazendo barulho como um motor de popa. Mal sabia que o bananal ficava muito longe. No caminho, parou numa ponte alta sobre o igarapé, se contorcendo todo. Olhou de um lado, olhou de outro, não havia viva alma. O jacu soltou um pio sonoro e plangente. Era o último aviso. Foi então que ele, no sufoco, decidiu esvaziar a gaiola ali mesmo. Justamente quando estava obrando, com a veia do pescoço tufada, um casal passou por baixo da ponte remando uma igarité. De lá, olharam pra cima: a bundona branca do padre resplandecia como uma lua cheia iluminando o rio Reno.
Quem conta o fato de forma mais contida do que esta minha versão é Ocirema, que descreve a reação das pessoas na canoa:
- A mulher olhou pra cima e disse: “Bom dia, seu padre!”. O padre não teve alternativa, a não ser ficar e responder do mesmo lugar. E os viajantes prosseguiram com toda naturalidade.
O padre também prosseguiu e concluiu o parto da sucuri. Não foi - digamos assim - um parto natural. Mas o jacu ficou aliviado.

O baú misterioso

Com bom humor e refinamento, Ocirema Levy Rabello escreveu o livro “Minha vida no seringal”. O caso do padre, no qual acrescentei uma pimentinha, é um dos tantos ocorridos na floresta, nas margens dos rios Tarauacá, Envira e Jurupary, onde ela viveu parte de sua vida.
Entre uma história e outra, que prendem a atenção do leitor, a autora vai pincelando o quadro cultural dos seringais, o dia-a-dia na floresta. Descreve como era o parto no barracão – parto de gente, não da sucuri – as brincadeiras de crianças, o namoro, o casamento, as relações familiares, os usos e costumes, as coisas do sexo e os assédios, a condição feminina e a própria morte.
Nada escapa aos olhos atentos e à memória viva de Ocirema. O cotidiano em um seringal, a comida e a cozinha, as doenças e as formas de curá-las com a farmácia da mata, o lazer, as condições de transporte fluvial, os crimes bárbaros, a loucura e os doidinhos, a relação com a natureza. Ela fala dos índios Kanamari com muito respeito, lembrando que eram bons, leais e solidários.
Seus personagens, embora pareçam saídos de um romance de Garcia Marques ou de um conto de fadas cabocas, são vivos, de carne e osso, como Nancy, a megera e Judith, a louca.
A viúva Nancy tinha um baú misterioso, trancado a sete chaves. Vocês não podem nem imaginar o que tinha lá dentro! Sua enteada de 12 anos, queria porque queria descobrir o segredo do baú e como era maltratada pela madrasta, tentou se vingar misturando no café dela pó de pata de aranha, mas o veneno era fraco e a velha, dura de queda, escapou. Quem acabou xeretando foi Maud, a irmã da autora:
- Num belo dia em que a mulher foi passear, Maud achou um jeito de destrancar o baú e lá dentro, entre outras coisas, encontrou para seu espanto um esqueleto de criança, um esqueleto de cobra e um ressequido órgão genital masculino.
A quem pertencia o dito cujo? Por que guardar “aquilo”? Ninguém sabe, nem nunca saberá.

Pimenta no jacu

Outra história é a de Judith, que enlouqueceu. Viajou a Manaus para se tratar. No barco, tentou estrangular Fátima, filha de Ocirema, que fugiu para o camarote.
- Deitei Fátima no beliche, e eu, com muito sono, já me preparava para dormir, quando Judith empurrou a porta do camarote e entrou. Ela estava nua, enrolada num cobertor molhado e com uma faca na mão.
O que aconteceu? Só posso revelar aqui que a Judith torou o dedo do taifeiro com a faca. Se você quiser saber o final, leia o livro, que tem valor documental, de memória, podendo servir de fonte inestimável para historiadores, antropólogos, sociólogos e outros pesquisadores, além de deliciar o leitor comprometido com a boa literatura. Toda a produção da metade dos membros da Academia Amazonense de Letras não vale uma página da Ocirema.
Passei por Manaus em junho de 1996 e li num jornal local que o livro seria lançado no Tribunal Regional do Trabalho. Fui lá conhecer a jovem escritora, com 86 anos, sete filhos, 26 netos e 27 bisnetos. Nem desconfiava que Ocirema era avó de uma ex-aluna, que reencontrei no evento. Publiquei então essa crônica, que agora atualizo. A autora faleceu em Manaus, aos 95 anos, em 9 de fevereiro de 2005. Fica aqui a homenagem a quem soube fazer uma etnografia despretensiosa do seringal e nos divertir, lutando contra o esquecimento. Até o padre Fritz deve ter gostado do livro. A pimenta, que no jacu dos outros é refresco, fica por minha conta.
 
P.S. Ocirema Levy Rabello: “Minha vida no seringal”. Manaus. Prograf. 1996. 111 pgs. Supervisão editorial: Isabella Benarrós. Maió rapoio: Zazá e Cláudio Limongi Batista.

CAIO E A ONÇA DO PANTANAL

- Prazerzão! Caio.
A funcionária concursada da SESAU, Lúcia Wanderley acabava de conhecer seu futuro esposo. Simpático, ele conquistou toda a família com sua voz e seu violão. De dia era bancário, de noite músico. Em anos de namoro, era Caio pra lá, Caio pra cá. Na hora do casamento, o padre perguntou se ela aceitava como legítimo esposo Jacinaguara Sabino. Lúcia ficou estarrecida. Sentiu-se enganada. Namorara um Caio e casava com um Jacinaguara. E na época não havia nem Procon para reclamar. Ela só deu o “sim”porque amava o rapaz de verdade. Descobri tudo no domingo passado, tomando um porre com Caio num bar. “Isso é estelionato”- eu disse. Foi ai que ele confessou a troca de nome por razões de ordem prática: “Caio é general romano. Jacinaguara é nome de onça da novela do Pantanal”. Ficou Caio.

P.S. - Essa não é uma história de seringal, mas está aqui porque foi publicada na época junto com a crônica.

domingo, 19 de abril de 2015

FALTA UM JURUNA NO CONGRESSO

José Ribamar Bessa Freire


Hoje, 19 de abril, Dia do Índio, protestos pipocam aqui e ali por todo o Brasil contra Proposta de Emenda Constitucional - a PEC 215 - que pretende transferir do Executivo para o Congresso Nacional o poder de demarcar terras indígenas, quilombolas e unidades de conservação. Na prática, esta PEC inviabiliza a demarcação das terras que garantem não apenas a existência dos índios, mas também a qualidade de vida dos brasileiros que ficam assim desprotegidos no campo ambiental.

No início da semana, cerca de 1,5 índios participaram em Brasília da Mobilização Nacional e ao passarem diante do Congresso apontaram para o prédio suas flechas e bordunas, tocaram maracás e apitos, gritando "Fora PEC 215". Eles sabem que tal proposta coloca a raposa cuidando do galinheiro. Muitos deputados da comissão especial que analisou a PEC 215 foram financiados por empresas do agronegócio e da mineração, por madeireiras e bancos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

No Congresso, as raposas felpudas defendem descaradamente os interesses de quem financiou suas campanhas milionárias, algumas com mais de um milhão de reais. A bancada ruralista, fortalecida com a nomeação da senadora Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura, já está decidindo sobre as terras indígenas, antes mesmo da votação da PEC, contrariando a Constituição de 1988. Do total de 988 terras indígenas, 323 estão sem qualquer providência e 146 ainda em estudos para identificar, segundo dados do COMIN/CIMI.

Bancada da flecha

No Congresso Nacional é possível encontrar bancadas de A à Z para defender todo tipo de interesse: a bancada do Agronegócio, do  BBB (Bala, Boi e Bíblia), do Cimento e até uma Frente Parlamentar em defesa dos Povos Indígenas, bastante combativa, mas até mesmo nela não é possível ouvir a voz solitária de qualquer índio. Não existe um só índio entre os 513 deputados e os 81 senadores, o que debilita e envergonha a democracia brasileira, considerando que os índios totalizam quase um milhão de pessoas, segundo o último Censo do IBGE.

Inexiste a bancada do arco e flecha. Na história do Brasil, o único deputado indígena foi Mário Juruna, filho de um chefe Xavante da aldeia Namunkurá (MT), que só começou a falar português aos 18 anos, quando entrou em contato com a sociedade regional de Barra do Garça. Ficou conhecido porque por onde andava levava um gravador que registrava o que diziam as autoridades, para mostrar que quase nunca cumpriam a palavra empenhada. Usava o gravador como detector de mentiras.

Filiado ao PDT do Rio de Janeiro, Juruna, eleito com o apoio de Darcy Ribeiro e Brizola, exerceu seu mandato na legislatura de 1983 a 1987. No Congresso, criou a Comissão Permanente do Índio e deu maior visibilidade aos problemas que enfrentavam os povos indígenas. Teve a coragem de denunciar publicamente o empresário Calim Eid que lhe ofereceu grana para votar em Paulo Maluf, candidato à eleição indireta à presidência da República.

No exercício de seu mandato, um dia Mário Juruna marcou audiência com o ditador de turno, general Figueiredo, para cobrar dele o não pagamento da dívida externa brasileira e as demissões do presidente da Funai e do ministro Delfim Neto - o gordinho sinistro. Nenhuma de suas reivindicações foi atendida. No Rio de Janeiro, na ausência de Brizola no Palácio Guanabara, Juruna sentou na cadeira do governador e "assumiu o poder" por duas horas, declarando que "índio não quer apito, quer o poder".

O único contato pessoal que tive com Juruna foi em julho de 1980, quando ele ainda não era deputado. Convidei o líder xavante à minha casa, depois do encontro dos índios com o Papa João Paulo II em Manaus. Lá, comentei que eu seria preso se desse uma porrada no ministro Mário Andreazza, mas se o autor fosse ele, Juruna, nada lhe aconteceria, uma vez que os índios eram considerados inimputáveis, o que só seria modificado em 2002 com a aprovação do novo Código Civil. Ele percebeu que eu estava brincando e riu, graças a Deus. Graças a Deus? 

O extermínio

Nos tempos bicudos em que o Rio de Janeiro manda para a Câmara de Deputados alguém do calibre intelectual e do estofo moral do Eduardo Cunha (PMDB, vixe, vixe), não há mesmo lugar para Mário Juruna. Maltratado por grande parte da mídia, ridicularizado por não falar o português como língua materna, folclorizado, Juruna não conseguiu ser reeleito e acabou morrendo em 2002 no ostracismo. De lá para cá, apesar de tentativas de alguns outros índios em diferentes estados brasileiros, ninguém mais foi eleito. Faz falta uma voz como a de Mário Juruna.

A voz do índio foi ouvida no plenário da Câmara e depois no Senado em duas sessões solenes realizada na última quinta-feira (16) em homenagem ao Dia do Índio. Além de Marina Silva e de parlamentares de diferentes partidos, ocuparam a tribuna Raoni, Aritana, David Yanomami, Sonia Guajajara, Neguinho Truká, João Tapajós, Lindomar Terena e outros. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, se pirulitou da sessão, que não foi transmitida ao vivo pela TV Camara, como é de praxe.

Hoje, o que ecoa, de forma dominante, no plenário do Congresso Nacional é a voz do ex-prefeito do Rio de Janeiro, Paulo de Frontin (1860-1933), duas vezes senador e patrono da Engenharia Brasileira. Ele foi nomeado pelo presidente da República para presidir  as comemorações dos 400 anos do Brasil. No dia 4 de maio de 1900, abriu a Sessão Magna do Quarto Centenário, com um discurso inesquecível, que já citamos aqui em outras ocasiões, com a grafia da época.

"O Brasil não é o índio. Descoberto em 1500 pela frota portugueza, o Brasil é a resultante directa da civilização occidental, trazida pela immigração, que lenta, mas continuadamente, foi povoando o sólo (...) Os selvícolas, esparsos, ainda abundam nas nossas magestosas florestas e em nada differem dos seus ascendentes de 400 anos atrás; não são nem podem ser considerados parte integrante da nossa nacionalidade; a esta cabe assimilá-los e, não o conseguindo, eliminá-los”.

O espantoso é que essa não era a voz de um zé mané qualquer. Era a voz de um político, que foi senador e prefeito da capital da república. O alarmante é que ele não falou isso num bate-papo em um boteco, mas num discurso oficial, em meu e em teu nome, para celebrar os 400 anos da pátria. É isso que a PEC 215 quer fazer com os índios: assimilá-los e não conseguindo, eliminá-los. Tudo isso, para abocanhar as terras indígenas. Resta saber se o Brasil vai permanecer calado diante desse crime.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

MARINA: DRAGÃO VERDE E AVÓ DO MUNDO

JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE


Ilmo. Sr. Prof. Dr. Rogério de Cerqueira Leite
Saudações

Inspirado no bolero de Waldick Soriano, escrevo esta carta, mas não repare os senões, para dizer o que sinto sobre o artigo de sua autoria Desvendando Marina, na Folha de S. Paulo, dia 31 de agosto, no qual declara: "Não me sinto confortável em ter como presidente uma pessoa que acredita concretamente que o Universo foi criado em sete dias há apenas 4.000 anos aproximadamente". Para lhe dar algum conforto, mostro que não é bem assim e assinalo três imprecisões no seu discurso.

A primeira está na contagem do tempo. Nota-se que de física V.S. entende muito, por isso ocupa merecidamente um lugar no Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia. Mas de criacionismo, necas de pitibiribas. Quem leu os Anais do Antigo Testamento do anglicano James Ussher sabe muito bem que o mundo, criado num domingo à tarde, no dia 23 de outubro de 4.004 a.C, às 14h30, completa 6.018 anos entre um turno e outro das eleições. Tem, portanto, mais de 2.000 anos do que foi calculado por V.S.

A segunda imprecisão: sua crítica ao criacionismo tem como referência uma versão única prestigiada pela escrita, que parte do pressuposto de um Deus masculino como criador do universo. Isso é uma construção judaico-cristã que não pode ser generalizada para todas as culturas, especialmente para as da oralidade. Foi criada por machões incongruentes. Sem útero, como pode Deus parir gente? Para os Tukano – não o PSDB, mas o povo do Rio Negro (AM)  – quem criou o universo foi a Avó do Mundo, a Yepá-Bahuári-Mahsô. Quer saber como foi?

Filho da música

Foi assim. No princípio, o mundo não existia, só havia escuridão e o espaço vazio e triste, o espaço frio e sem ideias, como no horário eleitoral. Eis que surge a Ye´pá, dentro de uma nuvem branca, de brilho intenso, dançando, embalada por cantos sagrados. A música, em forma de redemoinho de vento, abraça, beija e acaricia o corpo da avó do mundo, penetra sua carne, seus ossos e até seus pensamentos e a engravida, fazendo aumentar a temperatura ambiente.   Esse ato amoroso intenso, realizado num clima extremamente quente, provoca uma enorme explosão com um grande estrondo, gerando raios que formam um círculo rosado da cor de jenipapo, todo iluminado. No meio da luz aparece sentada num banco uma mulher grávida de música. É a Avó do Mundo que cria a Casa da Terra, parindo os primeiros seres como narra Gabriel Gentil em Mito Tukano: Histórias proibidas do Começo do Mundo. Ou seja, somos todos filhos da música que fecundou a Avó do Mundo, incluindo aqui – incrível! – os físicos, os matemáticos e todos os representantes do núcleo duro da ciência, mesmo os que ignoram o fato.

A terceira imprecisão é a sua visão fundamentalista sobre ciência. Não me sinto confortável com o inventário que V.S. faz de "todo o patrimônio intelectual que a humanidade acumulou durante séculos", limitando-o exclusivamente ao campo da ciência. Deste patrimônio, onde só cabe a "montanha de dados cientificamente incontornáveis", V.S elimina a literatura, a música, a poesia, o mito e a religião, além de outras instituições igualmente respeitáveis como a fofoca e a jogada-de-conversa-fora.

Este discurso excludente de uma arrogância incomensurável assusta, porque vê a ciência – mais grave ainda uma forma de fazer ciência – como o único procedimento válido para a obtenção de conhecimentos, que seriam eternos, definitivos, o que evidencia incapacidade de ler outras linguagens simbólicas.

V.S. incursiona no campo médico para diagnosticar "uma desordem do desenvolvimento neural" de Marina, criada pela "perversão intelectual do fundamentalismo cristão". E conclui de forma contundente, esperando convencer os leitores da Folha de S. Paulo,  de cujo conselho editorial V.S. faz parte: "Essa é a razão por que espero que Marina não ganhe esta eleição".

O mito

Eu ouvi bem? V.S. falou de "razão"? Será que o pensamento racional, o método e as técnicas científicas suplantaram mesmo o mito e a religião? – pergunta Lévi-Strauss, que vê, sem ironias, a grandeza do Ocidente no pensamento científico, mas chama a atenção para a função do mito na contemporaneidade e mostra como a própria ciência produz mitos para explicar aos não-cientistas verdades inacessíveis ao leigo – big-bang, universo em expansão, etc. Depois de estudar mitos indígenas, ele concluiu em História de Lince que "de modo mais inesperado, é o diálogo com a ciência que torna o pensamento mítico novamente atual". O mistério do big-bang está dentro do mito tukano. Precisa apenas saber lê-lo.

Quem sabe ler e concordou com esse olhar foi um matemático e físico da Universidade da Califórnia, Brian Swimme, autor de vários livros sobre o tema, entre os quais The Universe Story e The Universe is a Green Dragon. Este seu colega escreveu que hoje os cientistas começam a perceber as limitações do texto científico para dar conta do universo e que a linguagem que consegue melhor expressar sua grandiosidade é a linguagem poética, metafórica, que afirma que o universo é um dragão verde.

V.S. conhece muito bem a história social da ciência que nos mostra como o conhecimento científico é resultado de uma acumulação de erros. Essa é, aliás, a grandeza da ciência. Por isso, nela confiamos, mas sempre relativizando. O que é verdade hoje, amanhã pode não ser. Lembro que dois grandes cientistas do séc. XIX, o botânico Martius e o zoólogo Spix, que viajaram em 1819-1820 pelo rio Amazonas, consideraram "fantasioso" o mito Tikuna de origem da vida, que fala de um único ser saído da água e do qual descendem os demais. A ciência da época – foi antes de Darwin e sua teoria da evolução – achava que o homem tinha aparecido no planeta acabado, já pronto.

Hoje, o biólogos ensinam nas universidades que toda a vida existente na terra descende de um único ancestral, de um organismo unicelular que deu origem a todas as espécies vivas, visão mais próxima do mito Tikuna do que da ciência de Martius e Spix. Além do caráter provisório da ciência, o fato mostra que em nossos países "se vê cada vez mais claro que a compreensão do mundo é muito mais ampla que a compreensão ocidental do mundo" – como quer Boaventura de Souza Santos, que considera a negação de outros modos de produzir conhecimento como "epistemicídio".

Rogério epistemicida

Considerada incapaz por V.S. para presidir o Brasil, além do mais Marina está sendo acusada de fundamentalista, homofóbica, cúmplice do capital financeiro e até mesmo protetora de torturadores. O título da matéria na FSP afirma: “Em novo recuo, marina agora defende anistia a torturadores da ditadura". Quando li seu conteúdo, constatei que não era bem aquilo. Os jornalistas pediram, no final da entrevista, que ela dissesse apenas "sim" ou "não" para perguntas no formato "pinga fogo". Revisão da Lei da Anistia? – indagaram. Ela respondeu "não", como Dilma e Aécio. Só isso. Não lhe foi permitido discutir a questão.

Desconfio de tudo aquilo que a mídia anuncia que Marina disse, fez ou fará. Só aceito aquilo que eu puder ouvir de sua voz de taquara rachada e se puder identificar o contexto que lhe dá significado. Não adianta Marina esclarecer que separa fé e religião, na hora de editar eles dão outra interpretação. O Jornal da Globo insistiu várias vezes para saber se ela consultava a Bíblia antes de tomar suas decisões. Além da falta de respeito, William Waack perdeu uma oportunidade de nos apresentar e criticar o programa de governo da candidata. Preferiu folclorizar.

Prezado prof. Rogério, não tenho medo de votar em Marina pelas razões que V.S. alega. Se fosse assim não teria votado no Lula todas as vezes em que ele se candidatou. Sinceramente, estou vagando e andando se Marina acredita que Deus criou o mundo, se Dilma reza para Nossa Senhora Aparecida e vai ao Templo de Salomão, se o pastor Everaldo, escondido, recebe mensagens da pomba gira, se o FHC é ateu ou se na hora de fazer sua primeira comunhão, Rogério Leite acreditava que Deus estava presente na hóstia consagrada, até porque a gente muda como mostram suas propostas em relação ao pré-sal e ao pró-álcool.

O que me interessa é saber o que os candidatos pretendem fazer com o Brasil e, mais especificamente, com as terras e as culturas indígenas – um tópico que não foi ainda abordado por nenhum deles e que é extremamente importante porque as sociedades indígenas constituem um indicador extremamente sensível da natureza da sociedade que com elas interage. No meu entender, é na política indigenista que cada candidato vai mostrar sua cara. Este locutor que vos fala, que é um analógico confesso por limitações genéticas e epistemológicas, espera de lideranças intelectuais, especialmente nos núcleos duros da ciência, um comportamento mais rizomático em relação aos saberes outros. Não seja um epistemicida ingrato, Rogério, reconheça que o big-bang é produto de um ato amoroso e agradeça ao povo Tukano o fato de ser filho da música.

Atenciosamente,
Taquiprati, filho da musica e da avó do mundo.