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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

MUDANÇA

Matias Aires (1705-1763)


Não somos firmes no amor, porque em nada podemos ser constantes: continuamente nos vai mudando o tempo; uma hora demais é mais em nós uma mudança. A cada passo que damos no decurso da vida, imos nascendo de novo, porque a cada passo imos deixando o que fomos, e começamos a ser outros: cada dia nascemos, porque cada dia mudamos, e quanto mais nascemos desta sorte, tanto mais nos fica perto o fim que nos espera. A inconstância, que é um ato da alma ou da vontade, não se faz sem movimento; a natureza não se conserva e dura, senão porque se muda e move. O mundo teve o seu princípio no primeiro impulso que lhe deu o supremo Artífice; a mesma luz, que é uma bela imagem da Onipotência, toda se compõe de uma matéria trêmula, inconstante e vária. Tudo vive enfim do movimento; a falta de mudança é o mesmo que falta de vida e de existência, assim a firmeza é como um atributo essencial da morte.


AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.115

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O AMOR

Matias Aires (1705-1763)
O amor não se pode definir; e talvez que esta seja a sua melhor definição. Sendo em nós limitado o modo de explicar, é infinito o modo de sentir; por isso nem tudo o que se sabe sentir, se sabe dizer: o gosto e a dor não se podem reduzir a palavras. O amor não só tem ocupado e há de ocupar o coração dos homens, mas também os seus discursos; porém por mais que a imaginação se esforce, tudo o que produzir a respeito do amor, são átomos. Os que amam não têm livre o espírito para dizerem o que sentem; e sempre acham que o que sentem é muito mais do que o que dizem; o mesmo amor entorpece a ideia, e lhes serve de embaraço: os que não amam, mal podem discorrer sobre uma impressão que ignoram; os que amaram, são como a cinza fria, donde só se reconhece o efeito da chama, e não a sua natureza; ou também como o cometa que, depois de girar a esfera, sem deixar vestígio algum, desaparece.


AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.107
* Imagem: detalhe da escultura O beijo (1889), de Rodin.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A IGUALDADE DOS HOMENS

Matias Aires (1705-1763)


Caminhamos com pressa e com gosto para o fim; semelhantes aos rios, que apressadamente correm para o mar, donde perdem a doçura, e a acabam. (...) O homem muda de lugar, mas não muda o ser de homem; em toda a parte é o mesmo, em nenhuma é mais nem menos; pode parecer maior, mas ser, não. O sol ao meio-dia brilha mais, não porque deixe de ser o mesmo, nem porque então tenha mais luz, mas porque esta faz mais efeito em um lugar, que em outro; no ocaso, e no oriente é o mesmo sol e a mesma luz, mas não parece o mesmo. Assim são os homens: em qualquer parte que os ponham, todos são iguais e uniformes; a diferença que há entre eles, não tem outro fundamento que o que vem da preocupação e do conceito; são duas coisas, e ambas vãs, porque nenhuma tem realidade. A fortuna pode armar o homem com hieroglíficos e adornos figurados, mas não o pode armar senão por fora; quem levantar as roupas, há de ver o engano e a suposição: não há de achar mais do que um homem como os outros, cujo ornato é pura fantasia, arbitrária, artificial e separável; a fortuna pode vestir, não pode formar; sabe fingir, mas não sabe fazer. O mesmo obséquio todo se compõe de um cerimonial imaginário, mudável, de instituição nacional e variante. O incenso que algumas vezes é símbolo da vaidade e da lisonja, primeiro que exale o seu perfume, arde, e no ar se extingue e se consome. Tudo o que nos recreia e nos atrai é exalação e fumo; por isso o emprego da vaidade toda consiste em dar substância às vozes, entidade ao modo, e corpo ao vento.


AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.92 e 95

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A CORRUPÇÃO DO HOMEM

Matias Aires (1705-1763)


A corrupção das gentes está tão espalhada, que faz parecer virtude uma obrigação que se cumpre, uma dívida que se paga, ou uma verdade que se diz. As cousas não se regulam pelo que deviam ser, mas pelo que poderiam ser; isto é, o depósito se entregou, podendo-se negar; a dívida que se podia não pagar, e se pagou; a verdade que se disse, podendo-se esconder; e assim a privação do vício serve de virtude atual; e de alguma sorte, para ser um homem virtuoso, não é necessário que faça algum ato de virtude, basta que não faça algum de vício; e de algum modo também, o ser leal não depende do exercício da lealdade, basta que se não exercite alguma aleivosia. O mundo está tão pervertido, que a bondade dos homens não se tira da razão de serem bons, mas da razão de não serem maus: o nome da virtude não vem da virtude presente, mas do vício ausente; o merecimento das coisas não se toma pelo que são, nem pela forma que têm, mas pelo que não são, e pela forma contrária que não têm. Daqui vem que uma ação é louvável, só porque não é repreensível. Aquele meio de não ser nem uma coisa nem outra, parece que o não há já; ficaram os extremos, e extinguiu-se o meio.


AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.178-179

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

PASSADO, PRESENTE, FUTURO

Matias Aires


Olhamos para o tempo passado com saudade, para o presente com desprezo, e para o futuro com esperança: do passado nunca se diz mal; do presente continuamente nos queixamos, e sempre apetecemos que o futuro chegue: o passado parece-nos que não foi mais do que um instante; o presente apenas o sentimos; e julgamos que o futuro está ainda mui distante. Para dizermos bem do tempo, é necessário que ele tenha passado, e para que o desejemos é preciso considerá-lo longe. A vaidade faz-nos olhar para o tempo que passou, com indiferença, porque já nele fica sem ação; faz-nos ver o presente com desprezo, porque nunca vive satisfeita; e faz-nos contemplar o futuro com esperança; porque sempre se funda no que há de vir; e assim só estimamos o que já não temos; fazemos pouco caso do que possuímos; e cuidamos no que não sabemos se teremos. 


AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.61

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O HOMEM NÃO VEM AO MUNDO MOSTRAR O QUE É, MAS O QUE PARECE

Uma página memorável de Matias Aires, certamente uma das melhores que li nos últimos anos, de imagens significativas, sentido profundo e inquietante.


Nascem os homens iguais; um mesmo e igual princípio os anima, os conserva, e também os debilita e acaba. Somos organizados pela mesma forma, e por isso estamos sujeitos às mesmas paixões e às mesmas vaidades. Para todos nasce o sol; a aurora a todos desperta para o trabalho; o silêncio da noite anuncia a todos o descanso. O tempo que insensivelmente corre, e se distribui em anos, meses e horas, para todos se compõe do mesmo número de instantes. Essa transparente região a todos abraça; todos acham nos elementos um patrimônio comum, livre e indefectível; todos respiram o ar; a todos sustenta a terra; as qualidades da água e do fogo a todos se comunicam. O mundo não foi feito mais  em benefício de uns, que de outros, para todos é o mesmo; e para o uso dele todos têm igual direito; ou seja pela ordem da natureza, ou seja pela ordem da sua mesma instituição; todos achamos no mundo as mesmas partes essenciais. Que coisa é a vida para todos mais do que um enleio de vaidades e um giro sucessivo entre o gosto, a dor, a  alegria, a tristeza, a aversão e o amor? Ainda ninguém nasceu com a propriedade de insensível; a vida não pode subsistir, sem estar subordinada às impressões do gosto e do sentimento. Todos nascemos para chorar e para rir; a circunstância de chorar mais, ou menos, resulta de cada um de nós. A violência e a vaidade das nossas paixões nos fazem apetecer, e quem apetece, já se expõe aos delírios do riso e às amarguras das lágrimas; esse mesmo apetecer ainda só por si é uma espécie de sentimento e de prazer; a imaginação nos antecipa tudo, por isso o nosso contentamento, ou a nossa pena, chegam primeiro do que o seu objeto, e este quando vem, já nós estamos, ou abatidos de tristeza, ou cheios de alegria: somos tão sensíveis, que os sucessos para nos moverem não é necessário que estejam em nós, basta que os vejamos de longe; a nossa sensibilidade tem maior força na nossa mesma apreensão; daqui vem que no mal que se espera, ou se receia, não pode haver alívio, porque o pensamento Ihe dá uma extensão maior; em lugar, que o mal que já se sente, pode consolar-se, porque então se vê que tem limite. As coisas parecem que se espiritualizam para se entregarem a nós assim que as imaginamos; ou ao menos para que a eficácia delas se incorpore em nós, muito antes que elas cheguem; e deste modo as coisas antes que as tenhamos, já são nossas; e quando a causa se apresenta, já temos sentido os seus efeitos; por isso desconhecemos tudo o que vimos a alcançar, e nos parece que há falta naquilo que vimos a conseguir: as coisas, quando chegam, já nos acham saciados; porque o desejo é uma espécie de gozar mais ativa e mais durável, mais forte e mais contínua; daqui procede o ser tão deleitável a esperança, porque é uma espécie de possessão daquilo que se espera. Quem imagina o que deseja, tudo pinta com cores lisonjeiras e mais vivas; por isso a verdade é grosseira e mal polida; tudo o que descobre, é sem adorno; antes faz desvanecer aquela aparência feliz, com que os objetos primeiro se deixam ver na ideia, do que se mostrem na realidade. Todas estas propensões e inclinações se encontram em cada um de nós; e assim devia ser, porque as variações do tempo, da idade, da fortuna e dos sucessos, a todos compreende, e a todos iguala; só a vaidade a todos distingue, e em todos põe um sinal de diferença e um caráter de desigualdade, e por mais que a terra fosse feita para todos, nem por isso a vaidade crê que um homem seja o mesmo que outro homem. É sutil a vaidade em discorrer; por isso nos inspira que há desigualdade no que é igual; que há diferença no que é o mesmo; e que há diversidade donde a não pode haver: mas que importa que a vaidade assim discorra, se sempre é certo que os homens todos são uns, e que os não há de diferente fábrica; e que tudo quanto a vaidade ajunta ao homem é emprestado, fingido, suposto e exterior. Tirada a insígnia, o que fica é um homem simples; despida a toga consular, também fica o mesmo. Se tirarmos do capitão a lança, o casco de ferro, e o peito de aço, não havemos de achar mais do que um homem inútil e sem defesa, e por isso tímido e covarde. Os homens mudam todas as vezes que se vestem; como se o hábito infundisse uma nova natureza: verdadeiramente não é o homem o que muda, muda-se o efeito que faz em nós a indicação do hábito. Debaixo de um apresto militar concebemos um guerreiro valoroso, debaixo de uma vestidura negra e talar, o que se nos figura é um jurisconsulto rígido e inflexível; debaixo de um semblante descarnado e macilento, o que descobrimos é um austero anacoreta. O homem não vem ao mundo mostrar o que é, mas o que parece; não vem feito, vem fazer-se; finalmente não vem ser homem, vem ser um homem graduado, ilustrado, inspirado; de sorte que os atributos com que a vaidade veste ao homem, são substituídos no lugar do mesmo homem; e este fica sendo como um acidente superficial e estranho: a máscara, que encobre, fica identificada e consubstancial à coisa encoberta; o véu, que esconde, fica unido intimamente à coisa escondida; e assim não olhamos para o homem, olhamos para aquilo que o cobre e que o cinge; a guarnição é a que faz o homem, e a este homem de fora é a quem se dirigem os respeitos e atenções; ao de dentro não; este despreza-se como uma coisa comum, vulgar e uniforme em todos. A vaidade e a fortuna são as que governam a farsa desta vida; cada um se põe no teatro com a pompa com que fortuna e a vaidade o põem; ninguém escolhe o papel; cada um recebe o que lhe dão. Aquele que sai sem fausto, nem cortejo, e que logo no rosto indica que é sujeito à dor, à aflição e à miséria, esse é o que representa o papel de homem. A morte, que está de sentinela, em uma mão tem o relógio do tempo, na outra tem a foice fatal, e com esta, de um golpe certo e inevitável, dá fim à tragédia, corre a cortina e desaparece: a fortuna e a vaidade, que vêem desbaratada a cena, caídas por terra as aparências, prostrados os atores, emudecido o coro, trocados os clarins em flautas tristes, os hinos em trenos, os cânticos em elegias, e em epitáfios os emblemas; as rosas encarnadas convertidas em lírios roxos, os girassóis em desmaiadas açucenas, entrelaçados os louros no cipreste, os cajados confundidos com os cetros, e com o burel a púrpura; a vaidade, pois, e a fortuna, que em menos de um instante viram desvanecidos os triunfos da vida pelos triunfos da morte, precipitadamente fogem, e deixam um lugar cheio de horror e sombras, e donde só reina o luto, a verdade e o desengano. Assim acaba o homem, assim acabam as suas glórias, e só assim acaba a sua vaidade. 


AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.84-88

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

SOBRE A VAIDADE DOS HOMENS

Matias Aires (1705-1763)


Sendo o termo da vida limitado, não tem limite a nossa vaidade; porque dura mais do que nós mesmos, e se introduz nos aparatos últimos da morte. Que maior prova do que a fábrica de um elevado mausoléu? No silêncio de uma urna depositam os homens as suas memórias, para a com a fé dos mármores, fazerem seus nomes imortais: querem que a suntuosidade do túmulo sirva de inspirar veneração, como se fossem relíquias as suas cinzas, e que corra por conta dos jaspes a continuação do respeito. Que frívolo cuidado! Esse triste resto daquilo que foi homem já parece um ídolo colocado em breve mas soberbo domicílio, que a vaidade edificou para a habitação de uma cinza fria, e desta declara a inscrição o nome e a grandeza. A vaidade até se estende a enriquecer de adornos o mesmo pobre horror da sepultura. 


AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.23

> Matias Aires Ramos da Silva de Eça nasceu em São Paulo e faleceu em Lisboa. É o mais importante filósofo brasileiro do século XVIII, e um dos únicos. De grande erudição, estudou na Faculdade de Direito de Coimbra, depois em Madri, Baiona e na Sorbonne, em Paris. É considerado o primeiro moralista de nossa história literária.