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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

JOSÉ LOPES MARQUES: Cinco sonetos sobre o silêncio

A semântica do silêncio

 

Tem a alma a fome do sentido,

Que a palavra, às vezes, pode dar

Mas quando o limite tem lugar,

É o silêncio que ecoa seu gemido.

 

O silêncio capaz de restaurar

As chagas do mistério malferido

Escutar com a alma o não ouvido,

Dando ao ser a semântica salutar.

 

Fecha a alma as janelas para o mundo

E viaja ao recôndito da existência,

Pra poder contemplar seu submundo.

 

O silêncio nem sempre é a ausência,

É sentido num nível mais profundo,

Que confere ao mistério coerência.

 

Juazeiro do Norte – CE, novembro de 2020

 

Os dois silêncios

 

Que sentido um silêncio pode ter,

Como espelho que mostra a intenção?

Pode expor a divina compaixão

Ou o lodo voraz do nosso ser.

 

O silêncio de Cristo é o perdão,

Que a palavra não pode descrever,

No de Judas remorso ao perceber

Uma angústia tomando o coração.

 

No silêncio o sofrer não se evita:

Um silêncio se entrega ao ofensor

E no outro há o rancor que precipita.

 

Há no mestre um silêncio vencedor,

No discípulo uma consciência aflita,

Por ter sido tão pobre em seu amor.

 

Juazeiro do Norte-CE, dezembro de 2020

 

O silêncio dos amigos de Jó

 

Sete dias ficaram sem falar,

Tomados do pasmo angustiante,

A miséria do amigo era cortante,

E a razão não podia penetrar.

 

A palavra emudece nesse instante,

Não traduz o que à alma faz sangrar,

Contemplar em silêncio e prantear,

Eis enfim, o discurso edificante.

 

Não ouses falar quando o tormento,

Extrapola a fronteira do sentido.

Nesta hora silêncio é entendimento.

 

Seja o choro o som a ser ouvido,

Que expressa o mais puro sentimento

E emenda o que foi na dor partido.

 

Juazeiro do Norte-CE, dezembro de 2020

 

O silêncio de Deus

 

O limite soterra a finitude,

Quando a voz do Eterno silencia.

A dor é o não-ser que angustia,

Faz soprar turbilhões de inquietude.

 

Um véu negro confunde a luz do dia,

Vaga a alma em febril incompletude,

Bebe o cálice amargo em solitude,

No silêncio sem cor, sem companhia.

 

Um silêncio que reduz e que conflita,

Quer a alma razões de seu tormento,

Por que Deus emudece se ela grita?

 

É somente no último momento,

Quando frágil, sedenta, tão aflita,

Que o mistério se faz contentamento.

 

Juazeiro do Norte-CE, dezembro de 2020

 

O silêncio de Abraão

 

Nem se fez a aurora ao despertar,

Deixa Sara em sono venturoso,

E inicia o caminho tortuoso,

Sem palavras que o possam explicar

 

No caminho um silêncio imperioso.

Ele pode, em vão, tentar falar,

Pela lógica verbal justificar,

Num discurso sem som, escandaloso.

 

Pode até ir com outros no caminho,

Mas na fé do indivíduo, o atributo,

É somente ter Deus como vizinho.

 

O ancião segue a estrada resoluto,

Sabe: o salto de fé se faz sozinho,

Ante Deus, em silêncio absoluto.

 

Juazeiro do Norte-CE, dezembro de 2020

 

José Lopes Marques é natural de Tarauacá-AC. Formado em Teologia pelo Seminário Batista do Cariri (2002), em Filosofia pela Universidade Federal do Pará (2008), especialista em Ensino de Filosofia (UFC, 2012), mestre (2016) e doutor (2019) em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará. É professor efetivo EBTT no Instituto Federal do Ceará (Campus Cedro), atuando nos níveis técnico, graduação e na especialização. Atua ainda como professor colaborador no Seminário Batista do Cariri e na Faculdade Batista do Cariri. Editor do Manifesto Originalia: Revista de Ensaios Teológicos. É autor de Diário de Sonhos do Doutor Satírico (All Print, 2013) e Vestígios de Deus: o problema da fundamentação racional para a existência de Deus (Peregrino, 2020).

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

JOSÉ LOPES MARQUES: Sete Sonetos Sobre A Arte Poética

Analogia vital

Não faz o poeta a poesia,
já o poema está feito dentro dele,
por mais que pelo seu nascer anele,
só na hora ideal ele irradia.

O poeta lhe sente à flor da pele
e do seu nascimento sente o dia,
quando o verso rompe a placenta fria,
que prazer o poeta encontra nele.

Há poemas que choram ao nascer,
outros surgem de modo tão silente,
alguns, mortos, não sentem o viver.
           
Há os que surgem prematuramente,
gêmeos pode o poeta conceber,
como a vida o poema é um presente.

Tarauacá - AC, agosto de 97.


A alma da poesia

Pode ter o poema rica rima,
Verso, ritmo, métrica e elisão,
se não tem sentimento tudo é vão,
não há forma perfeita que o redima.

Sem a ternura o verso fica órfão
mesmo sendo a estrutura obra prima
é preciso o desejo que imprima
na palavra sentido e sensação.

Necessita o poema do exagero,
da figura que as sensações enlaça
tem de haver o início e o derradeiro.

Sem ironia o verso perde a graça,
sem o símbolo será prisioneiro,
sem a imagem seu brilho logo passa.

Crato – CE, agosto de 2000.


O ourives da palavra

O poeta trabalha a pedra bruta,
Para nela uma joia encontrar,
Joia rara e de brilho singular,
Onde a arte no Belo se transmuta.

Solitário e incansável ele labuta,
Colocando cada pedra em seu lugar,
Com o fogo do ratio a queimar,
Quer encontrar a pureza absoluta.

Consumando sua nobre trajetória,
Ornamenta a joia calmamente,
Pra o que ver não tirá-la da memória.

Quando, enfim, surge a joia reluzente,
O artesão contempla a sua glória,
Glória efêmera buscada novamente.

Belém-PA, dezembro de 2007.


Soneto dedicado a um vampiro

O poeta, vampiro da existência,
Suga o sonho, ternura e sofrimento,
Suga a vida, a morte e o movimento,
Não se farta, essa é sua penitência.

Parasita do medo e do tormento
Tem a fome das Eras em sua essência,
Desespero, angústia e violência,
O sensível é, enfim, seu alimento.

O líquido venoso da emoção,
Fortalece o espírito do poeta,
Sem a Dor só lhe resta a inanição.

Nas sombras, espreita o que lhe afeta,
Esse algoz sanguessuga da Paixão,
Sua alma é feliz quando inquieta.

Belém-PA, setembro de 2008.


O sentido da banalidade

Rato defeca em um quintal,
Desenhando uma tela do excremento,
Cão sem dono no lixo bolorento,
Pensa ser seu latido musical.

Um Asno perdido e desatento,
Declamando o poema do jornal,
Esculpe no vômito um Animal,
Dizendo que é Belo o purulento.

Entra em cena a razão do sanatório,
Na comédia absurda e sem sentido,
Celebrando o vil riso provisório.

Banal arte onde o Feio é preferido
E no caos tem o Belo o seu velório,
Já o Artista está sendo consumido.

Porto Alegre – RS, outubro de 2013.


Sondagem psicológica do poeta

O poeta é em si desvelamento,
Permanece, contudo, indecifrável,
O seu verso tão claro é inefável,
Fortaleza vagando pelo vento.

Na palavra ferina é amável,
E na indiferença é sentimento,
É ternura no verso violento,
No limite se faz interminável.

É sozinho entre gentes a vagar,
Na derrota o poema faz vencer,
Tudo e nada no verso têm lugar.

Se quereis o poeta compreender,
Suas Faces precisas contemplar,
Para ver a Antítese do seu ser.

Vitória – ES, outubro de 2018


A perdição do poeta

O poeta é o ser que está perdido
Entre a arte e a miséria da existência,
Entre o eterno e a fria contingência,
Entre o Escuro e a busca do sentido.

Percorre o caminho da transcendência,
No mundo onde tudo é corrompido,
Tão sozinho, em percurso indefinido,
Oscilando entre o tudo e a impotência.

Direis: o poeta é inconstante,
E nunca conquista qualquer meta,
Perdido que anda a cada instante.

Contudo, o que a Luz da arte afeta,
Saberá que esta Perdição Constante
É o Supremo Encontro do poeta.

Belém-PA, dezembro de 2007.


José Lopes Marques é natural de Tarauacá-AC. Formado em Teologia pelo Seminário Batista do Cariri (2002), em Filosofia pela Universidade Federal do Pará (2008), especialista em Ensino de Filosofia (UFC, 2012), mestre (2016) e doutor (2019) em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará. É professor efetivo EBTT no Instituto Federal do Ceará (Campus Cedro), atuando nos níveis técnico, graduação e na especialização. Atua ainda como professor colaborador no Seminário Batista do Cariri e na Faculdade Batista do Cariri. Editor do Manifesto Originalia: Revista de Ensaios Teológicos. É autor de Diário de Sonhos do Doutor Satírico (All Print, 2013).