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quarta-feira, 27 de maio de 2020

A Carta

Jorge Araken Filho

(Toca a campainha em uma pequena casa no Engenho de Dentro, bairro de classe média, um recanto especial, quase uma viagem ao Rio antigo, um pequeno paraíso urbano, repleto de construções dos séculos XVIII e XIX, algumas bem preservadas, a maioria em ruínas. Era o Carteiro à porta. Corria o ano de 1995.):

— Bom dia, Casemiro! Tenho uma carta registrada, com aviso de recebimento, oriunda de Lisboa, Portugal, para você. Só recebe Cartas do exterior, ultimamente, hein?! Pelo jeito, tá podendo...

— Que nada, Seu João! É um tio que tenho em Portugal. Eu sequer sabia da sua existência, até que o meu pai entrou em contato com ele alguns meses antes de morrer.

— Parente é parente, Casemiro! Ruim com eles, pior sem eles... Mas você ainda é muito jovem para entender o que estou dizendo. Só espero que não venha a compreender tarde demais... Não leve a mal as minhas palavras sem sentido; sou apenas um velho caduco. Aliás, eu me aposento daqui a um mês.

— Que boa notícia, Seu João! O senhor merece descansar.

— É verdade! Foram 45 anos de trabalho. Já passei até do tempo. Mas vou sentir saudade dessa vida agitada, das conversas e cafezinhos nas casas. Só no subúrbio, os carteiros têm esse tipo de intimidade com os moradores. Na zona sul, ao contrário daqui, só temos acesso aos porteiros, e mal. Ninguém nos oferece um cafezinho com bolo. No natal, então!... uma pobreza só. As madames não sabem que os carteiros existem. Acham que as cartas caem do céu. Viram o rosto, quando nos veem na rua. Aqui, não!... Tem gente boa, como você, Casemiro, que conversa e dá bom dia quando a gente passa; pessoas simples que sabem o nome do carteiro.

— Os ricos são assim mesmo, Seu João! Vivem com o rei na barriga, sempre insensíveis aos pobres e necessitados. Só nos toleram e, mesmo assim, por necessidade, quando andamos de cabeça baixa, mendicantes e servis, dando o sangue para que eles fiquem ainda mais ricos. O nosso consolo é que eles morrem e apodrecem exatamente como nós, os pobres: sem um puto no caixão... Já viu como é um caixão de rico, Seu João? É de madeira boa, ornado de flores perfumadas, mas o defunto serve de alimento aos vermes do mesmo jeito que nós...

— Você tem toda razão, meu jovem! O papo está muito bom, mas eu tenho muita encomenda hoje. Casemiro, por favor, anote o número da sua identidade e assine as duas vias.

— Obrigado, Seu João!

Enquanto fechava a porta, quase de forma maquinal, Casemiro fez uma pequena pausa no nome do remetente: “Antônio Gonçalves, Advogado”:

— Puta que o pariu! Advogado? Deve estar cobrando alguma dívida daquele tio filho da puta. Nunca deu notícia. Só apareceu na hora da morte do meu pai, como urubu atrás de carniça. Coitado desse Advogado! No mínimo levou um cano desse tio safado e está imaginando que ele se escondeu aqui no Brasil e, ainda por cima, na minha casa. Ou pode ser armação dos dois... Na certa já souberam da morte do meu pai e imaginam que ele me deixou alguma coisa de herança, além dessa casa velha no subúrbio. — Pensou, fechando o semblante.

Depois de alguns instantes de hesitação, decidiu rasgar a carta. Suas mãos apertaram-se em torno do envelope branco, com o timbre do Escritório de Advocacia. Mas a curiosidade o venceu, ao menos por alguns segundos. Ele abriu, com cuidado, o envelope, examinando-o contra a luz, para não destruir o seu misterioso conteúdo.

Dentro do envelope, dobrado de forma cuidadosa, havia uma Carta, escrita à mão, em letrinhas miúdas:

“Lisboa, 12 de agosto de 1995.

Senhor Casemiro Rodrigues de Moura:

Cumpro o doloroso dever de informar a Vossa Senhoria o falecimento, nesta Cidade de Lisboa, do Senhor José Rodrigues de Moura, irmão do vosso pai, Honório Rodrigues de Moura...”

Com o rosto crispado de ódio, quase colérico, ele interrompeu a leitura, arremessando a carta na pequena mesa de centro:

— Que tio que nada! Depois que o meu pai morreu, no ano passado, ele começou a me mandar cartas. Ainda bem que nunca li. É mais uma para o baú. Nunca teve a gentileza de visitar o meu pai ou de vir ao Brasil para me conhecer! Agora, que o cara morreu, vem esse advogado com conversa fiada: “Doloroso dever”?! Doloroso pra quem? Deve estar cobrando a grana do caixão. Ele que se foda! Já foi tarde... Bem que eu falei ao meu pai para não se comunicar com ele. Nunca se interessou por nós! Só na hora da morte é que se lembram dos parentes no Brasil? Só pode ser merda! Ninguém sai correndo atrás de você pela rua pra dar alguma coisa. Só pra cobrar...

A carta permaneceu no sofá por alguns dias, aguardando, serenamente, o destino que lhe seria reservado: o lixo ou o velho baú de memórias, onde já repousavam outras quatro Cartas do seu Tio José, enviadas nos meses que antecederam a sua morte em Lisboa. Uma semana depois, Casemiro resolve jogá-la no baú que herdara da mãe, já falecida. Outras cinco cartas, enviadas, depois, pelo Escritório do Advogado, tiveram o mesmo destino.

Aos trinta anos, Casemiro não tinha parentes vivos, ao menos que conhecesse. A sua vida era solitária, com raros momentos de alegria, dividindo-se entre o trabalho, numa pequena fábrica de tecidos, e a pequena casa que herdara do pai. Ele nunca teve amigos ou qualquer coisa parecida com uma vida social. Vivia deprimido em seu mundo de delírios e autopiedade.

(Passam-se vinte primaveras. Corria, agora, o ano de 2015. Envelhecido, com o rosto enrugado, Casemiro está em casa, largado no velho sofá.):

— Finalmente, depois de tantos anos de covardia e medo, tomei a decisão mais importante da minha vida: estou pronto para morrer! — Ele diz a si mesmo, em voz alta, esperando, talvez, a confirmação piedosa do seu próprio inconsciente.

Num movimento brusco, ele se levantou do sofá, decidido a comprar veneno de rato, o meio mais inteligente que encontrou para encerrar os seus tormentos. Não queria que fosse rápido demais, a ponto de impedi-lo de repassar o filme da sua existência, nem lento demais, a ponto de lhe conceder o tempo necessário para adiar o destino desejado. — Veneno é ótimo! — Disse, resoluto.

Vestiu uma camisa vermelha e saiu apressado, temendo, talvez, que a súbita coragem se transformasse em medo da morte. O apego à vida pode ser forte, como o diamante, quando a morte se torna real e palpável, algo com cheiro e sabor. É ilusão desejar a morte e esperá-la carinhosa e doce... Quando o suspiro final deixa de ser um evento caótico, em um futuro incerto e distante, e se torna uma certeza do presente, uma singularidade que, por escolha própria, eu crio nas curvas do espaço-tempo, um buraco negro que me devora antes do tempo que traçara como meu destino, a vida se torna sedutora, estranhamente bela e cheia de recompensas invisíveis. O cheiro de carne apodrecida faz-nos reféns da existência. Morrer por vontade própria é mais difícil do que parece...

Já melancólico, perdendo o ímpeto inicial, ele pensa sobre a vida que deixara escapar por entre os dedos, em algum ponto obscuro do caminho. Não que se considerasse um santo injustiçado, um ser humano bondoso que sofreu nas mãos do destino — pelo menos, não mais. Esse tempo da sua imaturidade já cessara.

Nos últimos meses, deprimido e em crise existencial, com o sentimento de culpa minando o seu ego diminuído, ele começou a se considerar responsável por tudo que passara na vida. Sabia, porém, que muitas dessas decisões — que tomou no passado — foram definitivas em suas consequências, pois criaram a sua própria dinâmica, depois que ele, com alguma atitude imatura, ativou a reação em cadeia que o levou ao ponto do espaço-tempo em que estava aprisionado nesta fase da vida.

— O que eu mudaria se pudesse voltar à infância? — É o que ele se indagava nesse ponto em que a vida, lentamente, se consumia na depressão! Os pensamentos viajam ao sabor dos ventos, buscando, nas correntes de ar mais quentes, a lufada de maturidade que pudesse elevá-lo à existência idílica, de grandes feitos, que imaginava na adolescência. Acabou sonhando a vida sem viver os sonhos! Para ser sincero, ele não sabia dizer se algo realmente mudara com a crise existencial, ou se apenas se tornara consciente de uma realidade opressiva que não conseguia mais modificar.

Depois que perdeu a capacidade de tecer os fios invisíveis da ilusão, a única certeza que ainda sobrevivia à depressão e à melancolia, diante de tantas que abandonara, era sobre o desejo de renunciar à vida.

Reduzida a sua existência a alguns pontos no tempo, ele podia apontar os raros instantes em que fora ele mesmo a resposta aos seus dilemas. Na maior parte do percurso, aceitou — anestesiado — a resposta que o mundo lhe dera; caminhou por sendas invisíveis que não traçara; deixou que a ilusão o carregasse pelos braços; fechou os olhos ao tempo que passava ligeiro, sempre iludido com os anos que ainda lhe restavam para mudar o destino.

Apesar de tudo, o tempo correu inclemente — com passos leves e distraídos —, mostrando-se arredio à autopiedade que o seu ego, crispado de dor, construíra como defesa contra a realidade. Os segundos dissolveram-se em minutos; os minutos, em horas; as horas tornaram-se dias; os dias escorreram em meses; os meses, em anos; e as décadas foram se sucedendo, tornando-se memórias nostálgicas dos dias vividos na escuridão. Arrependia-se mais dos silêncios e omissões covardes do que das ações e reações instintivas; lamentava o que deixara de fazer pelo simples medo de fracassar, as palavras que não dissera e os gestos que ficaram presos na renúncia...

Distraído com os urubus que chafurdavam no lixo, Casemiro sentia, no fundo da alma, que algo andava muito errado em sua cabeça: um ser que se fantasiava de humano, mas não conseguia apontar, em sua personalidade, cinco traços de se orgulhasse, verdadeiramente; um pobre diabo que se abandonara no deserto, para ser devorado pelos abutres, e não tinha vontade de procurar o oásis da sua própria redenção. Alguém assim, tão amargurado e melancólico, cáustico e pessimista, só poderia estar doente. Ele bem o sabia, tinha consciência de que algo terrível permanecia submerso em sua mente atormentada. Mas, por algum motivo oculto e reprimido, ele não buscava tratamento. Era como se desejasse rasgar com gilete a sua pele já ferida. Não queria ser curado... Acho que só a necrose do tecido o seduzia...

Agora, refazendo com a mente os caminhos que escolhera trilhar; olhando com a razão o que a busca inútil do prazer não lhe permitira ver, ele percebeu que a vida passara por ele em algum ponto da estrada. Cruzaram-se — cabisbaixos, talvez — nos instantes de contemplação narcísica do espelho, nos momentos em que mirava os seus próprios pés ou, ainda pior, enquanto se buscava nas pessoas que percorriam a estrada no sentido oposto. Tantas vezes se deteve com elas, tantas vezes se projetou em seres humanos banais e pequenos, que sempre acabou retornando a um ponto anterior da trilha, a um lugar qualquer, estranhamente parecido com as suas vivências do passado. Na sua mente acorrentada e nostálgica permanecia, apenas, a sensação das experiências dolorosas que se repetiam todos os dias, como o "replay" maldito de uma cena impregnada de sofrimento, que a memória não já sabia distinguir entre passado e presente. No meio desse "déjà vu" melancólico, indiferente à sua cegueira existencial, a vida costumava repetir o passado. Ele já assistira a esse filme... Por mais que criasse ilusões idílicas de felicidade, o final nunca mudava: era uma tragédia.

As recordações, agora mais reais do que nunca, congelaram-se no passado nostálgico, transformando em dor o presente e contaminando, com lufadas depressivas, o caminho a ser trilhado.

Lembrava-se dos sonhos da adolescência e juventude, do que abdicara por escolha própria, enquanto acusava o mundo das suas próprias renúncias:

— Faço, hoje, cinquenta anos! O que eu tenho para comemorar? Só a coragem de tomar a decisão definitiva, a solução final para o meu fracasso existencial: não sou nada, não tenho nada a perder, nem ninguém para prantear a minha morte sem glória! Não farei falta nesse mundo! Sequer perceberão que abandonei a vida num dia de outono... Trágica ironia! O meu corpo queimará por dentro, como uma chama sedenta, que busca o derradeiro átomo de oxigênio; o veneno me fará agonizar, até o suspiro final, quando a respiração se tornará rápida e opressiva. A espuma e o sangue escorrerão pelo canto da boca. — Ele pensava, mirando o chão a cada passo do seu corpo letárgico.

Enquanto caminha pelas ruas do Engenho de Dentro, onde vivera desde o nascimento, Casemiro mergulha na melancolia depressiva, desfazendo, lentamente, as memórias do tempo perdido:

— O que eu fiz de bom, nessa vida? Na infância, sonhei que seria um grande cientista, rico e famoso por suas descobertas notáveis. Na adolescência, já me contentava em ser advogado. Acabei numa pequena fábrica... E o pior é que não consigo mais culpar o meu pai pelo destino que eu mesmo criei. Tá certo, ele foi uma merda de pai! Mas eu também não fui o filho que imaginava ser. Tive até chance de ser advogado, mas parei de estudar. Fui renunciando, pouco a pouco, a todos os sonhos. Com o passar do tempo, apenas sonhava a vida, ao invés de viver os sonhos.

Absorto em seus delírios, Casemiro passa por uma loja de celulares:

— Que porra de vida! Depois de trinta anos me matando naquela fábrica, ela vai à falência e os donos ainda somem com o dinheiro. Todo mundo de smartphone, e eu aqui, sem nada. Nem a grana do FGTS eles depositaram... Tô ferrado! Mas ainda tenho alguns Reais no bolso. Ainda bem que morrer é barato... O enterro não é comigo... Foda-se quem se incomodar com o meu corpo apodrecendo!

De repente, ele se dá conta de que não sabe onde encontrar veneno de rato:

— Espera aí! Onde eu compro essa porra? Em supermercado deve ter... Nunca morri antes nem matei ratos. Deveria ser mais fácil encontrar essas coisas... Você quer se matar, toma a decisão mais difícil da sua vida, justamente a de extingui-la, e ainda tem que ficar procurando veneno? Isso é cruel demais! Deveriam facilitar o nosso trabalho... — Ele balbuciava para si mesmo.

Mergulhando, novamente, em suas memórias, ele começa a pensar nos raros amores que tivera na vida:

— Um cara que permaneceu virgem por 25 anos deve ter algo muito errado na cabeça! Passei a vida me buscando nas mulheres que cruzaram os meus caminhos, como a metade podre de uma laranja que busca a sua metade sadia, mas sempre acabei prisioneiro da ilusão de que era amado. Só tarde demais descobria que a outra metade era tão podre quanto eu...

Ele chega ao maior Supermercado do bairro. Depois de percorrer alguns corredores, finalmente encontra o setor dos venenos. Escolhe um ao acaso, e fica satisfeito, quando vê a imagem de uma caveira na embalagem:

— Que bom! Esse deve matar rápido. Com essa caveira na caixa, deve ser ótimo. “Isca de alta atratividade e palatabilidade”. — Ele lê na embalagem. — Esse é dos bons! Já me atraiu e ainda é gostoso... Levarei três caixas, para agir mais rápido. — Um sorriso diabólico ilumina o seu rosto. Ele conta o dinheiro, para saber se tem o suficiente.

No caminho de casa, vai observando cada esquina, cada ponto da vidinha sem graça que teve nos últimos 50 anos, o tempo que viveu no Engenho de Dentro:

— Esse filho da puta nunca mais irá me ver! — Ele murmura, ao ver o português da padaria. De repente, cruza com a Dona Alzira, a fofoqueira do bairro:

— E aí, Casemiro? Você não trabalha mais não?

— Estou matando ratos...

— Mate os lá de casa também! — Ela afirma, com uma sonora gargalhada.

Retomando os últimos passos da sua vida, Casemiro observa as crianças na rua, soltado pipa:

— Tenho pena dessas crianças! A vida toda pela frente. Eu é que sou feliz. A minha existência, em breve, se tornará apenas um punhado de ossos e cabelos, enterrados em um cemitério qualquer da Cidade e esquecidos pelos vivos. Tudo o que sofri, eles ainda irão sofrer. Pobres diabos! Tantos suplícios por viver...

Finalmente em casa, ele tranca a porta e prepara o veneno. Para se certificar do resultado, ele lê atentamente as instruções:

— Quer dizer que demora de dois a sete dias? Puta que o pariu! Vou passar sete dias morrendo? E de hemorragia? Caralho! Coragem, Casemiro! Pior do que passar sete dias morrendo seria passar mais vinte ou trinta anos vivendo... Já sei... Tomarei as três caixas de uma vez, para fazer efeito mais rápido.

Ele faz um suco com o veneno, tomando-o de uma só vez:

— Saúde! E não é que é gostoso mesmo?! “Alta palatabilidade”... Há, há, há... — Ele diz, com uma gargalhada convulsiva, após a última gota de veneno percorrer a sua garganta. — Agora é só esperar! Mas vou tomar banho antes. Quero morrer limpo.

Algumas horas depois, já vestindo o terno do enterro, com uma gravata cor de rosa e florida, Casemiro começa a sentir os efeitos do veneno. Para se distrair — a espera da morte é angustiante —, ele abre o velho baú, lançando ao chão o seu conteúdo. Lá estavam alguns bibelôs, herdados da mãe, e velhos livros do seu pai. No meio deles, revê as Cartas do passado. Curioso, começa a ler a primeira que o Advogado lhe enviara vinte anos antes:

“Lisboa, 12 de agosto de 1995.

Senhor Casemiro Rodrigues de Moura:

Cumpro o doloroso dever de informar a Vossa Senhoria o falecimento, nesta Cidade de Lisboa, do Senhor José Rodrigues de Moura, irmão do vosso pai, Honório Rodrigues de Moura.

Em seu leito de morte, o Senhor José Rodrigues, com quem mantive amizade por mais de vinte anos, chamou-me para redigir um Testamento e comunicar as suas disposições de última vontade, rogando-me que fossem cumpridas logo após o sepultamento, que ocorreu ontem, no Cemitério dos Prazeres, na parte ocidental de Lisboa, na Freguesia da Estrela.

A primeira deliberação do Testamento é no sentido de que Vossa Senhoria — seu único parente vivo — seja imediatamente comunicado da morte, acrescendo-se à missiva a informação de que fora somente há um ano, pouco antes, portanto, da morte do irmão, Honório Rodrigues de Moura, que o testador viera a saber da existência de um sobrinho, ainda vivo, no Brasil. A doença do vosso tio, que permaneceu internado por dois anos, impediu-o de viajar ao Brasil, para conhecer o único do seu sangue ainda com vida.

Quanto ao irmão Honório, disse o Senhor José Rodrigues, no leito de morte, que lamentava não ter sido informado, alguns anos antes, de que seu irmão vivia no Brasil. Depois que o vosso pai deixou Portugal, ainda na juventude, sem deixar endereço ou destino, os irmãos perderam contacto. Por sorte, o Senhor José transformou o antigo endereço da família em escritório, o que permitiu ao vosso pai localizá-lo alguns meses antes de falecer. Não chegaram a se ver, como era desejo de ambos, mas seu pai, pouco antes de morrer, pediu ao irmão que cuidasse do filho, Casemiro. A morte do vosso pai, no Brasil, foi comunicada ao irmão pelo Médico que acompanhou o tratamento do câncer.

Estando, também, doente, e em estágio terminal, o Senhor José não conseguiu viajar ao Brasil, para as cerimônias fúnebres do irmão, Honório Rodrigues, nem para realizar o sonho de conhecer o sobrinho. Enviou, contudo, algumas Cartas registradas, com aviso de recebimento, mas não obteve resposta, apesar de ter sido confirmado o efetivo recebimento por Vossa Senhoria.

O testamento foi devidamente registrado em Cartório, na Cidade de Lisboa, Portugal, sendo nomeado, como Executor, o Advogado Antônio Gonçalves, este que subscreve a presente missiva, profissional com Escritório na Capital portuguesa.

Entre ações ordinárias e preferenciais de dez Empresas, bens móveis e imóveis, contas bancárias, joias e fundos de investimentos, o Senhor José Rodrigues de Moura deixou, em Testamento, para Vossa Senhoria, na condição de único herdeiro, a quantia aproximada de novecentos milhões de dólares americanos...

Ele interrompe a leitura e solta um grito lancinante:

— Novecentos milhões de dólares? Por que eu não li essa maldita carta? Puta que o par...

Uma golfada de sangue o interrompe. A respiração torna-se pesada e difícil. Entre convulsões ritmadas, Casemiro cai sobre a mesa. Um último e profundo suspiro põe fim à sua vida. Pelo canto da boca, escorre uma espuma esbranquiçada que logo se torna vermelha. Seus olhos permanecem abertos...

 

F I M

 

Post Scriptum: a tela que ilustra o presente Conto é “O Suicida”, de Édouard Manet, impressionista francês que, nas suas obras, costumava visitar o realismo.

 

Nota: Leia outros textos do autor aqui:

http://jorgearakenfilho.blogspot.com/

quinta-feira, 16 de junho de 2016

TEMPOS GRANDIOSOS E DIFÍCEIS, PARA HOMENS BANAIS E PEQUENOS!

Jorge Araken Filho 


Otto Eduard Leopold, Príncipe de Bismarck, Duque de Lauenburg, também conhecido como o Chanceler de Ferro do 2º Reich, disse, com mal disfarçada amargura e certo toque de cinismo, que as “leis são como salsichas. Melhor não saber como são feitas”. 

Ando pensando na frase de Otto Von Bismarck, antiga, porém atual, nesses tempos difíceis que atravessamos na “pátria educadora”, época sombria, de eleições desconstruídas no Parlamento, na calada da noite — não necessariamente em consonância com o voto popular, expresso pela maioria nas urnas —; tempos difíceis em que políticos, notoriamente antiéticos, não só na essência, mas nos métodos, manipulam o Conselho de Ética, e até se sentem com força de prescrever regras para medir a ética alheia. Os bons e os maus andam de mãos dadas, muitas vezes em posições trocadas. O lobo pode estar vestido de vovozinha...

Quem eu vejo na grande mídia, serviçal de poderes obscuros, dando lições de ética, chafurda na lama com os porcos, e não me refiro aos de quatro patas, deliciosamente puros e inocentes, mas aos de dois pés e muitos neurônios, todos voltados para projetos pessoais de riqueza e poder.

Quando o destino conspira com o caos, trazendo em seus ventos o obscurantismo e a mediocridade, as pessoas querem acreditar em alguma coisa, para sobreviver todos os dias, sem desistir. Não raro, infelizmente, acreditam no salvador da pátria, o herói sem caráter do nosso e de todos os tempos, o Macunaíma que se alimenta da ignorância de uns e do silêncio complacente de outros.

Prefiro manter distância dos santos infalíveis e seus dogmas imutáveis. Esses são os verdadeiros heróis sem caráter desse mundo de seres imperfeitos, os Macunaímas das redes sociais, que propagam verdades absolutas num mundo de relatividades.

Esse estado de estupor e embrutecimento — uma descrença absoluta em tudo e em todos os que não são o espelho onde projetamos os nossos desejos, uma revolta indiscriminada contra tudo que contraria os nossos interesses mesquinhos —, obscurecendo a razão e abrindo feridas incuráveis, acabará semeando o destino que tanto deveríamos evitar.

Mas essa é a maior das compulsões humanas, uma autocondenação atávica do Homo sapiens: repetir e repetir novamente experiências antigas, mesmo as mais penosas, sem se recordar do paradigma histórico que a gerou, mas, ao contrário, tendo a estranha e nítida impressão de que se trata de algo novo, expressão de novos tempos, ou seja, de algo que encontra o seu significado e razão de ser nos eventos atuais. Contudo, estamos apenas repetindo o passado doloroso, cutucando feridas que pareciam cicatrizadas.

Mas o que fazer com a névoa da desesperança, essa estranha sensação de inutilidade e impotência que nasce da desilusão? Tudo parece fora do seu curso, agora, diante dessa onda de intolerância disfarçada de limpeza ética.

“Hard times” (“Tempos difíceis”), diria Charles Dickens!

E o mais triste é saber que confiaram aos porcos a tarefa de limpar o chiqueiro... 


Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.
Acesse aqui a página do autor.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

“ESSE CARA SOU EU”

Jorge Araken Filho


A você que se pergunta quem sou eu, para escrever tantas tolices, eu diria o seguinte: eu sou eu mesmo e minhas próprias circunstâncias, e não o que um publicitário qualquer, em Nova Iorque ou em Londres, pensa ou diz que sou! 

“Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo!” — Disse a jovem paquistanesa Malala Yousafzai, símbolo da resistência contra o “taliban”, depois de sobreviver a um ataque em Outubro de 2012. (Para conhecê-la, visitem o endereço: http://www.publico.pt/mundo/noticia/malala-esteve-na-onu-e-apelou-a-educacao--para-todos-e-a-tolerancia-1600126) 

Aluno sempre serei... Professor não tenho capacidade de ser, mas escuto os meus mestres... A caneta é o meu computador... Só me falta acreditar que posso mudar o mundo. Mas “esse cara sou eu”.

 Na verdade, sou fruto do que li e do que vivi, sou filho dos meus sentimentos, medos, desejos, senso ético, herança genética, exemplos familiares e interações sociais, sejam essas experiências positivas ou negativas. Não sou santo, nem demônio, na verdade sou um pouco dos dois, meio Doutor Jekyll, meio Senhor Hyde. 

Sou essa “metamorfose ambulante”, indefinível, meio louco, por vezes insensato, que mistura Machado com Proust, mas não se esquece de Sartre; que almoça com Victor Hugo e janta com Kafka; que sonha com Freud e se alimenta de Saramago, mas celebra com Vinícius a “Receita de Mulher”, e ainda sonha com aquela “Mulher sem Pecado”, de Nélson Rodrigues, trajando, quem sabe, o seu lindo “Vestido de Noiva”. 

Acreditem no que vou dizer: eu sobrevivi ao “Ulisses”, de James Joyce, fui ao “Inferno”, ao “Purgatório” e ao “Paraíso”, com Dante, conheci o amaldiçoado “Doutor Fausto”, de Goethe, e o doce “Menino de Engenho”, do tristemente esquecido Zé Lins do Rego. Confesso, entretanto, que aprendi a ler nos gibis e nos contos de Perrault, de Andersen e de Grimm, para viajar com o “Pequeno Príncipe”, nas asas do “Correio do Sul”, na doce companhia de Saint-Exupéry e seu pequeno avião. Na verdade, só queria passar cem anos na solidão dos Buendía, com Gabriel García Márquez. Bem sei que estou a meio caminho do fim, mas vou continuar nas trilhas do Rocinante, lutando contra moinhos de vento, com o engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha. Vou expiar meus “crimes” e, quem sabe, receber o merecido “castigo”, com Dostoiévski. 

Não quero ser pretensioso, nem arrogante, mas não troco a “Ilíada” e a “Odisseia” pelo Instagram, nem pelas fotos da última balada. A culpa, bem o sei, é dos meus pais, que me enfiaram nos livros ainda criança, “punindo-me” com educação e cultura! Agora é tarde para esquecer os livros. 

Eu quero é me deliciar com a “Divina Comédia”, aprender, com Ivan Fiodorovitch Karamazov, que sou “plenamente mortal”, que não existe ressurreição, para poder, enfim, aceitar a morte com altivez e tranquilidade. 

Compreender, finalmente, que não há razão para reclamar que a vida é um só instante e que, por isso, devemos amar de verdade, sem esperar recompensa. 

Prefiro viver as angústias da guerra e da paz, com Leon Tolstói, do que perder tempo com as “delícias” do Michel Teló. Amo Baudelaire e Rimbaud, não tolero mexericos de aldeia e desprezo quem procura a minha alma no tênis que calço, imaginando que os caminhos da minha existência foram traçados pela Nike, em alguma fábrica da China. 

Que me perdoe o Rei Roberto Carlos, mas “esse cara sou eu”, ser humano cheio de falhas, quase sempre solitário, permanentemente insatisfeito, que nasceu para ser apenas humano, alguém que se olha no outro, para ver a si mesmo! 

Estou longe da beleza de Apolo, não tenho a força de Hércules, nem conheço os caminhos do coração feminino e, muito menos, os segredos da sedução! 

Não tenho respostas, e mal comecei a descobrir as perguntas, mas “esse cara sou eu”! 


JORGE ARAKEN FILHO, apenas um coletor de palavras sem lar.
http://jorgearakenfilho.blogspot.com.br 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

GRITOS E LAMENTOS

Jorge Araken Filho


Quero te encontrar nos teus desvios e atalhos, nos vãos e reentrâncias dos teus desencontros, nas palavras que não disseste, nos enganos e desenganos da tua existência humanamente medíocre, no reflexo do teu Narciso, no eco das tuas dores surdas.

Mas não me tome por um louco enamorado do teu vulto de fantasma: não vou devolver teus lamentos e rancores, não vou ecoar teu grito de agonia. Vou transformá-los em leves sussurros, que o tempo haverá de dissipar.


*Texto retirado da página do autor:

segunda-feira, 27 de julho de 2015

A GAROTA DE SAQUAREMA E A LENDA DO SURFISTA PRATEADO

Jorge Araken Filho


Solitário, em tempos de crise existencial, busco na paz da natureza um refúgio para as emoções que não sou capaz de expressar, uma fala para os sentimentos que se represaram na realidade, aprisionados pelo silêncio das palavras que não foram ditas. Nesse paraíso de sons e cores, busco oxigênio para os afetos que sufoquei no limbo do inconsciente, uma gratificação ilusória para os desejos que não ousei experimentar na realidade.

Nesse contemplar do belo, do efêmero, viajo na companhia dos pássaros, enfrentando esse temor pegajoso e disforme de conhecer o que sou por baixo da persona de conveniência que me veste no teatro da vida.

Mas é melhor gritar no meio dos pássaros, soltar os meus sintomas ao lado das orquídeas do que acumular lixo emocional e andar por aí, de mau humor, reclamando do destino que eu mesmo criei. Cansei de despejar os meus dejetos nas pessoas que amo.

Um dia desses, mais uma bela tarde do inverno tropical, caminhava por uma pequena estrada de terra, cercada de palmeiras e bromélias, últimos vestígios da Mata Atlântica em Saquarema, região dos Lagos do Rio de Janeiro.

Enquanto as folhas serpenteavam, arrancadas pelo vento traiçoeiro, que vinha do mar, os meus sintomas caíam dos seus refúgios, soltando-se do inconsciente, misturando o real e o imaginário, o simbólico e o concreto, numa metamorfose dos signos e significantes da minha existência, que foram sendo progressivamente ampliados pelos novos significados que a maturidade me impôs.

O meu mundo real, agora, depois de ver a criatura no espelho, parece a mistura do imaginário dos meus devaneios com os símbolos da linguagem que reaprendi na catarse dos personagens que aprisionava nas sombras, como personas estranhamente familiares, que reconheci no espelho, falando com os comigos de mim mesmo.

Begônias solitárias, algumas orquídeas e velhos cipós cercavam o caminho desse paraíso perdido, no litoral de Saquarema.

Jacarandás seculares, testemunhas silenciosas da biodiversidade da Mata Atlântica, cochichavam a minha presença com jequitibás-rosas e cedros:

— Lá vem aquele bicho doido, que fala sozinho! — sussurrava uma velha figueira, cansada da maldade dos homens, mas ainda enérgica, com grandes raízes, que afloravam, aqui e ali, no solo encharcado por um olho d'água ao lado da estrada.

Um pequeno beija-flor de peito verde e cauda alaranjada, sem se dar conta daquele ser humano indigno, que caminhava perdido, batia as suas asas aflitas, sugando, com rara felicidade, o néctar de uma camélia branca que insistia em ser bela, apesar do negrume dos meus tormentos.

Como seria a minha vida, se a sede de poder e bens materiais, a cobiça por reconhecimento e aceitação encontrassem numa bromélia atraente e acolhedora o ninho para descansar meus dilemas, o néctar para saciar meus desejos?

Perdido em pensamentos desconexos, que flutuavam, com estranha nitidez, em tempos passados, eu mergulhava, em progressões ritmadas pelo som da natureza, nas memórias das pessoas amadas, que enterrei ainda vivas, mas que, malogrado a minha injustiça, deixaram marcas no meu coração.

Completamente absorto, escutava o eco distante de ondas ferozes, que quebravam na areia, levantando breves redemoinhos na água, que divisava ao final da trilha estreita, que se afunilava a cada passo, como se a natureza retomasse seus domínios do homem.

O sol, que se refugiava do dia, cansado, iluminava o horizonte, com suas cores difusas, tons indistintos de vermelho e laranja, que tingiam as águas agitadas do Atlântico.

Egoísta, mesmo sem consciência disso, só desejava aquela solidão momentânea, que me concedia alguns minutos de contemplação do belo, sem me preocupar com os meus cabelos, com as minhas roupas ou com o meu jeito descuidado de falar sozinho, desafiando os seres invisíveis que me atormentam.

Mas o destino é caprichoso e sorrateiro...

Distraído por um canário, que atravessou o meu caminho, não percebi um vulto que acabara de sair de uma casa. Só o percebi depois de alguns segundos, quando passei em frente ao portão de madeira maciça, com a singela inscrição: "paraíso perdido". Aquele vulto não me viu, seguindo o caminho do mar azul turquesa.

Era um belo exemplar do sexo feminino, longos cabelos loiros, soltos ao vento, olhos azuis (assim os imaginei à distância), curvas perigosas, protuberâncias monumentais, vales profundos, reentrâncias e concavidades que me enfeitiçavam com o seu doce gingado, aquela malemolência cruel, quase sádica das mulheres que herdaram a beleza de Afrodite, mas possuem a impura concupiscência das sereias, que enfeitiçam os guerreiros e entorpecem os sábios.

Nem sábio, nem guerreiro, eu não passava de um menino, com seus carrinhos de plástico, diante daquela sereia que atormentava os navegadores incautos e solitários, inebriados por seu canto melódico. Sem a força de Odisseu, a caminho de Ítaca, sem a intercessão de Atena, acabei cativo da bela ninfa de Saquarema. Com ela, a Calipso da minha Odisséia, passaria sete anos perdido... Pobre Penélope! Haveria de permanecer, pelo resto das suas noites, frias e solitárias, desfazendo a mortalha, à minha espera, enquanto eu me deliciava com a encantadora Calipso, a ninfa do mar de Saquarema.

Ela caminhava, distraída, fumando seu beck, sem perceber que eu me aproximava, hipnotizado por seus encantos, derrapando os olhos pedintes e cobiçoso em suas curvas salientes e bem definidas.

Suas pernas, e que pernas... A obra mais divina da criação, longas e graciosas, grossas e firmes como um carvalho, voluptuosas como as de Afrodite. Não, que Afrodite que nada! Eram como os ébanos divinos das passistas de Escolas de Samba! Os seios eram majestosos, eretos e arredondados, daqueles de proporções hercúleas, que enchem bocas famintas de meninos fogosos. . . Nem vou falar do lindo bumbum, de boca gulosa, com um talho divino, que formava um vale profundo entre os Apalaches...

Precisaria de um livro inteiro para descrevê-la. Diria o poeta Austin Henry Dobson, no poema "To a Greek Girl": "a Dream of form in days of thought" ("um sonho de forma em dias de pensamento"). E que formas...

Nem os meus pensamentos mais longínquos e fantasiosos a teriam imaginado em traços mais perfeitos, nem nos meus delírios de prazer solitário, a cinco dedos, haveria de buscar inspiração em uma beleza assim tão delicada, quase divina, a serpente do paraíso, que oferece aos caminhantes solitários o fruto proibido, que dá voz ao inconsciente e desperta a libido sublimada pelos fracassos na arte do amor.
E como balançava aquele doce poema em forma de Ninfa. . . Parecia não perceber os mortais, como eu, que a seguiam, hipnotizados por seu canto silencioso, feito de gestos, aparentemente descuidados, quase imperceptíveis aos olhos femininos, mas vivamente capturados pelos sentidos de fera dos homens enjaulados em seus hormônios.

Ela talvez não tivesse consciência dos feromônios que marcavam seus passos de gata no cio, algo que sentia nas golfadas de ar, que invadiam os meus pulmões. Tá bem! Posso estar exagerando um pouquinho. Perdem-me, contudo, o eventual exagero! Aquele vapor barato, um leve odor de sândalo, que se misturava com a brisa do mar, deve ter entorpecido os meus sentidos, que nunca foram muito confiáveis diante de fêmeas no cio, principalmente dessas dançarinas do efêmero, musas dos poemas eternos, que carregam esses grandes e profundos apêndices no dorso.

Éramos só nós dois naquela estrada deserta, um paraíso perdido, com raras habitações, quase sempre de alto padrão, ocupadas pelos nobres da Cidade Maravilhosa, nos feriados e meses de verão.

Ela saiu de uma casa da praia, misto de sítio e Jardim do Éden, com árvores frutíferas e belas flores. No centro do terreno, numa parte mais elevada, ao final de uma grande alameda de plátanos e palmeiras imperiais, havia uma casa de dois pisos, com uma ampla varanda que a circundava.

A doce Calipso não percebeu que eu vinha ao longe, distraída, talvez, pela difícil tarefa de acender seu baseado. A brisa insistente, que vinha do mar, caprichosa e irritante, parecia ter vontade própria, brincando, teimosamente, com a chama do seu pequeno isqueiro prateado, que refletia a luz do sol nos meus olhos.

Logo que ela se virou em direção à praia, vi, por cima dos seus ombros, a fumacinha da paz, que subia, iluminada pelo sol, que baixava, sonolento, às nossas costas: "habemus cannabis" — pensei, sorrindo.

Ela seguia em direção à praia, com passos curtos e ritmados, enquanto desfrutava, em silêncio profundo, os efeitos inebriantes do seu pescador de ilusões. Nada melhor do que o Rio de Janeiro e seus encantos, para saborear pecados e aventuras que fazem da vida esse maravilhoso e caótico conto de fadas e duendes, de princesas e sapos, de monstros honrados e heróis sem caráter. Prefiro pecar sem pudor do que morrer de tédio no paraíso. Só percebi a felicidade, quando parei de julgar!

O meu plano era apenas caminhar pela estrada de terra que margeia a praia. Era... Antes de me encantar com aquele corpo dourado, a deliciosa e suculenta maçã do amor proibido... Finalmente entendi o Vinicius e sua Garota de Ipanema. Sem inspiração não nascem poemas, não se pintam quadros...

As palavras começaram a surgir, revoltas, sem forma, como as ondas do mar que divisava ao longe. Mentalmente, comecei a escrever este conto de uma tarde de verão... Escritores, como eu, encontram gratificação para os desejos mais profundos, mais secretos e proibidos nos personagens, que soltam, ao longo da narrativa, os instintos reprimidos pelo medo de enfrentar as sombras do inconsciente.

Continuei andando na direção daquela doce garota e seu balançar, que era muito mais que um poema, diria o bom e velho “capitão do mato Vinicius de Moraes, Poeta e Diplomata, o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô”.

Mantive alguns metros de distância, para que os meus olhos traidores, cheios de verdade, não desfizessem as minhas ilusões de perfeição divina.

Depois de acender seu beck, a musa do paraíso perdido, com um leve menear da cabeça, enfim percebeu, visivelmente surpresa, que alguém se aproximava. Ela deve ter estranhado aquele penetra em sua festinha solitária. A estranheza inicial logo se transformou em incômodo.

Ela acelerou o passo, mas não conseguia desvencilhar-se do seu "perseguidor" (um ato falho, talvez). Por mais que as suas pernas se esforçassem para vencer o terreno, eu continuava por perto, devorando, com os olhos gulosos, cada pedacinho daquele corpo dourado. Antes que você pense algo terrível sobre mim, vou me defender, suspeitamente, embora, de certas insinuações: ando rápido, mesmo quando não tenho nada a fazer. Acredite, se quiser...

Continuei no meu ritmo, mas sempre me aproximando da loira misteriosa. Não sei exatamente o que se passava na cabecinha daquela Eva e seu cigarrinho proibido. Talvez pensasse em estupro ou, pior ainda, que eu fosse algum conhecido. Poderia ser alguém a revelar a indiscrição daquele cigarrinho mágico, o fruto proibido do paraíso, que inebriava um casal de pintassilgos pousados em uma mangueira anciã.

Sem diminuir o passo, ela olhou para trás, fixando-se nos meus olhos, para desvendar as intenções ocultas do seu estranho "perseguidor". Não me reconheceu, como era de se esperar. Embora eu sempre caminhasse por ali, nunca havia cruzado os seus caminhos. E teria me lembrado daquela ninfa, se os nossos olhares, mesmo por um breve instante, houvessem se encontrado.

Diante da dúvida, ela apertou o passo e, quando nada lhe restava, a não ser o desespero, começou a correr.

Hesitei de início, sem saber como reagir. As palavras não saíam da garganta, sufocadas pelo despertar de um sonho.

Ela deu um grito, que rompeu o silêncio da tarde:

— Pedro, me espera!

Os canários permaneceram mudos, testemunhando o horror daquela jovem feiticeira do amor.

Com o coração palpitando, quase saindo pela boca, continuei a caminhar. Sem entender os motivos, diminuí o passo, culpando-me, talvez, por tê-la assustado, ou entorpecendo-me, quem sabe, por acordar tão subitamente da ilusão do amor correspondido (eu a imaginava num longo beijo, trocando os doces e inebriantes fluidos do amor).

Os meus pés pareciam ter vontade própria, seguindo adiante, enquanto o diabinho do ouvido esquerdo, ardilosamente disfarçado de anjo, me dizia para voltar no meu próprio rastro.

Depois de alguns segundos de lenta agonia, percebi que tínhamos companhia: a cerca de duzentos metros estava um rapaz alto, sem camisa, com uma longa prancha de surfe, que a aguardava no portão de uma bela casa de frente para o mar.

Ela correu em busca do herói, desesperada pelos braços fortes e acolhedores daquele jovem, que a recebeu com certa perplexidade. Eles se abraçaram, com um beijo no rosto, trocando algumas palavras, que não pude ouvir. O cigarrinho encantado, abandonado durante a corrida para a salvação, ainda soltava seus vapores, em ondas que serpenteavam no ar, levadas pela brisa úmida do oceano.

Ao passar pelo casal, pensava no medo profundo, quase histérico, que a violência causa nos seres humanos, transformando em malfeitores hediondos os mais inofensivos animais, como eu. Será que sou mesmo inofensivo, começo a me perguntar...

Naquele instante, nasceu um herói. Eu poderia ter esclarecido o engano daquela jovem, mas deixei que o herói do paraíso perdido, o Odisseu da minha Calipso, desfrutasse sete anos de prazer na ilha de Ogígia.

Mas, enfim, o que seria do herói sem o vilão? Alguém consegue esquecer de Darth Vader, do Coringa ou de Hannibal Lecter? E do coiote do desenho animado? São todos vilões, seres que odiamos amar ou que amamos odiar. Por que eles permanecem em nossos corações, muitas vezes até mais do que os heróis?

Ora, porque esses pontos fora da curva, esses rebeldes incompreendidos, arquétipos da maldade, representam as nossas sombras, o submundo de crueldade que preferimos ver nos outros, e não em nós.

Inicia-se, na fantasia que dialoga com o nosso próprio mundo psíquico, uma verdadeira batalha épica que reproduz, através dos arquétipos humanos do herói e do vilão, do bem e do mal, a luta entre os princípios do prazer e da realidade, entre o id e o superego, pelo controle do ego e do que vai se tornar consciente.

De um lado, a complexa maldade dos vilões, seres de inteligência maquiavélica, com desejos impulsivos e inesperados, além de profundo desprezo por convenções sociais e limites éticos. Estes representam o nosso próprio id, que é governado pela busca do prazer.

De outro, a tediosa moralidade dos heróis, figuras simples, em sua infinita nobreza, com preocupações éticas e morais, atitudes sempre bondosas e sem o calor do inesperado. Estes representam o papel do superego, que simboliza a realidade e seus limites.

Através deles, exorcizamos de nós mesmos, através das lendas e mitos, e em nome do princípio da realidade, os nossos próprios demônios.

O vilão começa vencendo, ou seja, o id obtém prazer nas suas vitórias fugazes, mas, ao final, o bem prevalece, com a derrota do mal, mesmo provisória, que satisfaz o superego e suas preocupações morais.

Em meio a essa batalha épica, o ego do leitor ou espectador das lendas e mitos consegue conciliar as suas forças internas, harmonizando o prazer com a realidade. Mais que isso, gratifica as pulsões mais primitivas e os desejos reprimidos no inconsciente, experimentando o prazer possível diante das exigências castradoras do superego, descarregando, assim, a pressão interna.

Na verdade, só desprezamos os vilões, porque eles se identificam com uma certa criatura que reprimimos dentro de nós mesmos...

Preferi criar o herói, tornando-me o vilão...

Passei tão próximo daquele Tarzan e sua Jane, que conseguia escutar a respiração do herói e da mocinha indefesa, a virgem dos lábios de mel (aceite, que é melhor: o conto é meu, portanto ela era virgem e gostosa). Com uma leve contração dos lábios, tentava manter o ar de mistério, para não demonstrar a excitação da minha libido naquele encontro furtivo. Não sei exatamente o porquê, mas fazia esforço, para não dar pistas do meu desejo de fazer amor com a Eva do paraíso perdido.

No mais profundo e respeitoso silêncio, contudo, prossegui no meu caminho, olhando as ondas que lambiam a areia da praia.

Só um coração partido consegue entender a poesia daquela musa de Saquarema, a mulher do corpo dourado que nunca toquei. Se a houvesse tocado, o encanto se desfaria nas areias daquela praia deserta, e ela, a etérea e indefinível sereia, que foi a razão de tantos naufrágios em corações humanos, deixaria de ser um sonho para se tornar uma realidade muito distante das minhas fantasias.

E assim nasceu a lenda do surfista prateado de Saquarema...

Quanto a mim, já que não pude ser o herói, tornei-me o vilão...