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sábado, 19 de junho de 2021

A LEI DO RETORNO

Leila Jalul


Entrevistada por uma moça que fazia doutorado, me foi perguntado sobre onde nasci, idade, filiação etc. Vamos chamar de ficha técnica. Nasci no Acre, mas gostaria de ter nascido nas Rochosas. O calor daqui arrebenta com os meus fogachos.

Nem só por esta razão. Sempre fui medrosa, espantada, ouvidos sensíveis, pavor de cobra, de macaco gogó de sola, aranha caranguejeira, calango elétrico e briba, vulga taruíra ou “largatixa”. Tudo isso tinha de monte por aqui. Sem contar com as assombrações e fogos-fátuos nada raros de aparecerem.

As assombrações nem sempre eram de verdade. Vez por outra, o Duca, irmão da Dona Consuelo, resolvia fazer marmotagens na Floriano Peixoto, colocando uma capa preta fingindo ser visagem. Quase causa uma tragédia com ele mesmo. Por pouco não levou um tiro do Doutor Matoso, o boticão.

Nem por todo esse acumulado de problemas, deixei de gostar da minha casa e dos meus amigos. Não temia sair depois de escurecer. Nas cercanias, fui vendo, ouvindo e sentindo o passar dos dias, as meninas ficando moças, os meninos criando bigodes e engrossando a voz. Poucas ambições, muitos sonhos e desejos.

Na pauta, martelava a ideia de aprender violão. Aprender violão com o Professor Aníbal Brasil, o Dilermando Reis do Acre. Era o professor da Zilde, filha do Seu Sabino e da Marísia Castro, filha do Zé Fontenele mais a Dona Marieta Mapirunga. E cadê dinheiro para pagar o professor? Não me deram crédito, nem violão!

Tudo bem, pensei, tem gente que toca de ouvido, tem gente que toca por música, eu vou aprender de olho. E ficava ali, horas seguidas escutando Abismo de Rosas e a Marcha dos Marinheiros. No meu primeiro salário, um violão preto e verde. Aprendi pouco, mas sabia dar o tom.

Acontece que, nem preciso falar, instrumentos de corda e sopro atraem cobras. E eis que, num belo dia, depois dos exercícios noturnos, me aparece uma surucucu facão. Saiu de debaixo do sofá, fingindo que não me conhecia. Não deu outra. Fiz o escândalo.

– Pai, pelo amor de Deus, corre aqui. Uma cobra. É surucucu facão. Venha logo!

– Calma, minha filha, não tenha medo, uma cobra não morde a outra!

A bicha foi embora, sem nem olhar para trás.

Não muito tempo depois, Seu Manoelzinho, correndo para pegar de cinta meu irmão, cai certinho no canil de um vira-lata doido, chamado Tigre. Arrebentou-se todo, mordidas nas pernas, nos braços, um terror. Teve até que baixar hospital.

Lá fui saber o que tinha acontecido. Deu pena de ver. Ainda na maca, voz de anjo, me diz:

– Veja, minha filha, que cachorro mais infeliz! Olhe o estado do seu pai.

Cuidei dele como devia, claro! Porém, não perdi a oportunidade.

– Pois é, papai, o senhor veja como são as coisas. Uma cobra não morde a outra, mas os cachorros, quando se estranham, fazem um estrago, né?

 

LEILA JALUL, poeta, cronista e contista, é autora de “Suindara” (2007), “Das cobras, meu veneno” (2010), “Minhas vidas alheias” (2011), “Luzinete: um angu de caroço?” (2014) e “Memórias andantes” (2015).

sábado, 12 de dezembro de 2020

ARAKEN, O SHOWMAN

 Leila Jalul

 Para o Mestre JORGE ARAKEN FARIA DA SILVA, com amor

 

O Acre era tão feio, tão feio, tão longe, tão longe, que um acreano metido a carioca falou: “Se cu tivesse cu, o Acre era o cu do cu do cu”. Expressão chula, nojenta, descabida e honesta, do seu ponto de vista, pelo menos. Não gostei de repeti-la, mas, se não repeti-la, como expressá-la? Assim foi dito, assim foi escrito. E pronto! Não há em mim qualquer vocação para o escatológico. Para a verdade, isso sim.

Um detalhe é preciso dizer: até hoje, tudo que possui o autor da límpida tradução da terra em que nasceu, tudo o que sua família parasita possui, saiu daqui, ou do cu, como preferir o leitor. E o metido continua aqui, mamando, enganando, se locupletando e todos os “andos” que se possa imaginar. Ingratidão? Não. Oportunismo, carreirismo? Sim.

Mas quero falar mesmo é de um carioca. Recém-formado bacharel, que não pensou nem uma, nem duas, nem três vezes e veio. Veio para ficar. Para estudar, para se firmar na vida, deixando para trás Ipanema, Leblon, Copacabana, princesinha do mar. Nem precisou tomar água barrenta de rio nenhum para ficar, apenas vislumbrou um futuro profissional que almejava.

Uns o julgavam maluco. Não diziam por medo ou respeito, mas o julgavam. Sua inteligência privilegiada, sua capacidade de escrever brincando com as letras, entretextando Castro Alves com Clóvis Bevilácqua, Chico Buarque com Salomão, o Rei David com Amaury Mascaro do Nascimento. Era um escrever fluindo, sem decoreba, na base da citação acertada e encaixada para cada crime, cada caso de amor, cada relatório oficial, maçantes para uns, peças literárias para outros.

Desejoso de aproveitar cada minuto da sua vida operante, cada minuto das suas férias, nunca se recusou a estar em cursos e plateias, com o intuito de aprender. E, nessa busca, foi parar num encontro sobre turismo no Brasil, num tempo que já vai longe, mas não tão longe que não se possa enxergá-lo.

O auditório queria saber sobre Amazônia. Lugar de índios, analfabetos, pobreza, malária e todo um elenco de desgraças. O povo do sul sabia pouco ou quase nada de Brasil. Sabia pouco, ou quase nada até dos lugares onde nasceram. Paulista era paulista. Mineiro comia pão de queijo. Catarinense era alemão. E fim.

No tal encontro sobre turismo, frequentado por futuros agentes de viagens, dispostos a investir numa reluzente fatia de mercado não explorado, e conhecer potenciais, lá estava Jorge Araken.

Pelas intervenções, e que não foram poucas, imagino, pelas variáveis apresentadas de conhecedor de algo fora do eixo sul-sudeste, eis que se encontra numa situação dramática. Falta um expositor e a platéia pede que ele faça as vezes de. Araken não era, nem é, homem de fugir da raia. Sem roteiro, sem slides, sem projetores, pede, em alta voz, a cada um dos presentes o uso da imaginação.

– Fechem os olhos. Abram apenas no final, e se pensem dentro de um navio. Saímos de São Luis e, em breve, aportaremos em Belém. Chegamos ao porto. Desçamos. Estamos no mercado Ver-O-Peso. Sintamos o aroma das ervas, dos banhos, das morenas. Ouçam a música. É Fafá cantando “Pauapixuna”.

E mais:

– Seguimos para Manaus. Apertem mais os olhos. Estamos na Zona Franca. Apertem mais também as bolsas e as carteiras. Tem muita porcaria para vender. Sedas chinesas, aparelhos eletro-eletrônicos. Não se entusiasmem. De noite iremos ao Teatro Amazonas. Assistiremos a uma opereta desconhecida. Todos gostarão. Depois encontraremos Márcio Souza, Leandro Tocantins e o Arthur Cezar Ferreira Reis. Eles têm o que contar, com fidelidade, sobre a Amazônia de ontem e de hoje. Agora se faz noite. No mais tardar, pela manhã, estaremos em Porto Velho. Logo depois, Rio Branco, no Acre.

O povo, de olhos fechados, acompanhava tudo. Se estivesse lá, inquieta como sou, diria:

– Moço, pelo amor de Deus, acabe logo com essa aflição.

Tudo bem. De olhos fechados, já fora do navio, de ônibus, a viagem entre Porto Velho e Rio Branco durou mais de nove horas. Evidentemente, tudo no imaginário da platéia embevecida. Araken, o showman, não sabendo mais o que fazer para hipnotizar os seus escutas, chegando ao Acre, apenas ressalta o bucolismo local e faz a seguinte proposta:

– Gente, estou e estamos todos cansados. Vamos dormir? Amanhã a gente segue caminho.

E se foram acomodar no Hotel Inácio, filho único do George Pinheiro, até então.

Agora, quem fala sou eu. Eu, Leila, seu querer de sempre.

– Araken, me perdoo por te trair. Me alegraria ter te tirado do vexame. Porém, como? Aqui não tinha Gameleira, nem Canal da Maternidade, nem Mercado Velho revitalizado. Aqui só tinha imaginação e amor pela terra dos meus pais e pela terra que elegeste para viver. Você é um carioca, maneiro! Você é o cara!

Como finalização apoteótica, a platéia do encontro de turismo, aplaudindo de pé, olhos abertos, seguiu viagem de volta cantando:

“Peguei um Ita no norte

E vim pro Rio morar

Adeus, meu pai, minha mãe. 

Adeus Belém do Pará”.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

MI MARIDO ME OLVIDÓ

 Leila Jalul

 

Ler, ler, ler mais, foi a estratégia que usei para escapar da solidão em uma terra sem televisão. Lá pelos 17 anos, associei-me ao Clube do Livro. Não conhecia autores, não tinha indicações, o jeito era escolher pelo título.

Pelo correio chegavam pacotes e mais pacotes com meus eleitos. Gabriel García Marquez, Daniel Scorza, Carlos Fuentes e muitos simpatizantes do realismo fantástico. Aqui, acolá, um Jung, um Marx, um Freud. Era raro, mas lia. Ler não é bem o termo. Era uma verdadeira comilança de letras. E assim “li” Dr. Fausto, um castigo infausto, mas li. Crime e Castigo, Bom Dia para os Defuntos, entre outros, cuja escolha dos títulos revelava o tenebroso gosto de sofrer que me rondava.

Quando cansada da seriedade e da escuridão dos personagens, era na Corin Tellado e em outros ilustres novelistas açucarados que encontrava abrigo. Isso foi no tempo da febre dos livros de bolso. Não passei as páginas apenas dos melosos. Para distrair as ideias, não evitei Giselle, a Espiã Nua que Abalou Paris, os de faroeste (TEX), os de grandes tons de sacanagem, tipo Cassandra Rios e M.A. Camacho. E assim circulava entre o Marquês de Sade, Du Barry, Pompadour, Vargas Llosa, Oscar Wilde e o seu Retrato de Dorian Gray, até chegar no famoso Joyce e seu confuso Ulisses confuso.

Dos açucarados, guardo na memória, com saudade, a inveja que tinha dos personagens. Até hoje, acreditem, lembro de uma delas. Falo de uma noiva abandonada às vésperas do casamento. Já tinha até o bolo em camadas, com aquele casalzinho bizarro trepado na cumeeira e arrodeado de botões de rosas e mugues.

Não preciso contar da aflição da noiva desmanchada em lágrimas. Eu lia e chorava, também a ponto de ter que tomar 60 gotas de Gotas Preciosas, tudo para abrandar meu sofrimento, já que, pelo da noiva, nada podia fazer. Até hoje, se chorar muito, se me empanturro de sentimento ruim, tenho tendência a devolver para a natureza o favo de fel que mal-me–fez. Gotas Preciosas é um excelente remédio!

O caso desta moça, especialmente desta, acabou com meu sistema nervoso. Imaginem, até o bolo já estava pronto! Não é um crime? Pensem bem! Já se imaginaram numa catástrofe dessa monta?

Não lembro, não consigo lembrar, de jeito e maneira, quem era o autor ou autora da obra que tanto desgosto me causou. Acho que era a Corin Tellado. Que importa? Importa contar o final da novela que, por dever do contrato prévio com os leitores, foi feliz. Os pais dela, passado o impacto que o canalha, cachorro, safado, sin verguenza causou à filha, não contaram duas vezes e despacharam a menina para um Cruzeiro Marítimo. Destino? Adivinhem!

Ibiza, queridos, Ibiza! Teria melhor lugar no mundo para curar dor de abandono do que Ibiza? Duvido!

A menina entrou de corpo, alma e hímen no convés do luxuoso navio, ainda “consternada” (essa palavra me persegue! Carajo!), é bem verdade, mas esperançosa. A lembrança do maligno ainda era forte. Daria certo?, pensava com aguda tristeza.

Graças ao Bom Jesus dos Navegantes, deu. Ela, graças à sua beleza, também deu. E deu muito! Deu o resto da viagem toda.

Numa úmida e escura noite de mar abusado, saiu ao convés para respirar. Trajava um vestido esvoaçante, em tom lilás. No pescoço uma linda écharpe que o vento, venturosamente, tratou de levar. Ia baixar-se para apanhá-la quando o cavalheiro de terno escuro, que também tomava uma frescurinha, antecipou-se. O resto, todos podem e devem antecipar. Camarote de amantes é como sacrário.

Después que mi marido mi olvidó, fiz três cruzeiros, na esperança de encontrar uma alma generosa que me pudesse encarar (ou seria ancorar?). Estive em Buenos Aires, Fernando de Noronha e Búzios. E nada... Só vale Ibiza...

Melhor esquecer...

 

PS. MI MARIDO ME OLVIDÓ é mesmo o título de um romance de Corin Tellado. Pedi emprestado.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

ONDE ANDA LUZIA?

Leila Jalul

O clima do Acre, sempre afirmei, é mórbido. Mas, para minha satisfação, as pessoas, muitas delas, são maravilhosas.
Vivi o inferno enquanto se esgotavam meus hormônios. Ou ficava no ar condicionado, ou ficava no ar condicionado. Do tempo das queimadas, nem gosto de falar.
Quando entediada de estar trancafiada, tomava coragem e dava uma chegadinha breve até o portão. E foi num desses dias que vi uma moça com sua bebezinha no colo. Pareciam ofegantes. Ela andava rápido. Ainda assim, cumprimentei-a e perguntei se não queria um copo de água, ou um ligeiro banho na criança. Às duas da tarde, por Deus, ninguém merecia aquele castigo. A criança estava em brasas, com a cabeça pingando suor.
Seu nome era Luzia. Mariane era o da filha. Estava vindo ‘de a pé’, com a inocente no colo, desde um lugar que se chama Vila Acre, próximo ao restaurante da Dona Bela. Longe pra caray! O destino delas era o bairro São Francisco, longe pra caray!
Ela aceitou. Estavam sem almoço, sedentas e cansadas. Após o banho, Valdenice, minha anja, arrumou o prato da moça e perguntou o que deveria ser servido pra neném. Luzia pediu uma caneca. Machucou uma banana, colocou leite e, com uma colherinha, tentava fazer a tadinha engolir aquela coisa, mais ou menos como se alimentam passarinhos ou periquitos abandonado. Não conseguiu.
Levei-as para o quarto. Armei uma rede, fiz a Mariane dormir e pedi da farmácia uma mamadeira para que a pequena tomasse seu leitinho, como mandam os usos e costumes. Resolvido o problema, passei a conversar com Luzia.
Contou-me, então, que Mariane, ainda que com quatro meses, só mamava no peito.
E veio a revelação de Luzia, que me fez revoltar e amaldiçoar a raça masculina desumana. Levantou a blusa e mostrou-me os mamilos em carne viva, inflamados e purulentos. Com mau cheiro, inclusive. Aos prantos, disse-me:
- Dona Leila, meu namorado, com ciúmes da Mariane, esfregou pimenta malagueta nos meus peitos, só para a Mariane não mamar.
- Luzia, você denunciou esse filho da puta?
- Não, senhora. Apenas fugi e vou pra casa de minha mãe. Ele é violento. Vou ficar escondida por lá.
- E suas roupas? E as coisinhas de Mariane?
- Deus dará um jeito. Onde cabem dois, cabem dez. Luzia mostrou-se forte e muito corajosa.
Bem, para encerrar, pedi que Luzia e Mariane passassem uns dias comigo, até providenciar o necessário para que, por pelo menos três meses, não passassem fome, dormissem no chão ou ficassem nuas, a depender somente da pobre mãe, coletora de lixo no Bairro São Francisco.
Fiz isso e vim pra Bahia. De vez em sempre, lembro-me dela e de Mariane que, a esta altura do tempo, deve estar uma mocinha bonita.
Vida besta, sô!

terça-feira, 27 de novembro de 2018

TOTÓ DAS TETEIAS

Leila Jalul

“Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação.” Isso aí aspeado é do Fernando Pessoa. Fiz questão de colocar essa afirmação logo na abertura de meu livro Suindara, talvez antevendo que as firulices que tenho rememorado seriam postas em dúvida.
Li a palavra TRIBUZANA no texto do amigo Eurico, o homem de Tabuí. Era o mote que faltava para falar de mais uma, a do Totó das Teteias.
Faz parte do meu show, antes de começar a escrever, olhar-me no espelho onde não mais me enxergo (tenho problemas com as vistas), e, tal qual adolescente, ficar a procurar um cravinho aqui, uma espinita ali. Tudo na base do tateado. Cutucando, cutucando, as palavras pelas quais procuro, por dizerem, ao pé da letra, sobre o que quero escrever, vão surgindo, surgindo, até poder sentar e armar a escrita. Tenho em minha mente algumas palavras que não dispensarei em textos futuros. O som delas é bonito demais da conta. Espiem estas: osmose, medieval, emblemático, incipiente, circunspecto, arrebol, chauvinista, exógeno, caudaloso. Não são lindas? Tem outras também lindas e insinuantes, mas não quero desgastá-las nas citações. O segredo, segundo dizem, é a alma do negócio!
Totó das Teteias era sargento do Batalhão de Engenharia, num distante pedaço da Amazônia. Moreno, olhos verdes, pele curtida de sol, era chegado numa tribuzana.
Pronto! Aqui começa a história propriamente dita.
Sabedor de sua beleza, Totó tinha o péssimo habito da gabolice. No mercadão Marechal Rondon, todos os dias, juntava-se aos bruacos aposentados e de paus murchos, só para contar sua última aventura com as mulheres. Toda mulher que "comia" era representada num colar de botões que pendurava no pescoço. Não era um colar qualquer, com qualquer botão. Não. Tudo tinha ordem, cor e simbologia. Um botãozinho cor de rosa, por exemplo, queria dizer que pegou uma teteia virgem. Um botão marrom, grande, queria dizer que pegou uma coroa desgastada e "arrombada", como fazia questão de enfatizar. E ali, no senadinho dos aposentados babões, ia explicando, com riqueza de detalhes, suas orgias com as belezuras dependuradas no pescoço.
- Ó - dizia -, esse aqui é da Tonha Nepomuceno. Comi ontem.
Uma trabalheira danada. Estava para pedir uma talhadeira e um auxiliar para ajudar na tarefa. Com 19 anos, aqui por essa bandas, não existe mais esse negócio de virgem, mas era, era de verdade! Dureza, senhores! Dureza de vida!
- Ó – continuava –, esses dois aqui, representam mãe e filha. Foi na semana passada. Não tinha contado para vocês por achar que duvidariam. Esse é da Maria Lopes, que foi mulher daquele turco safado daquela merda de loja na ladeira de Nossa Senhora da Glória. E esse, pequenininho, é da Marilúcia, a filha dela com pai desconhecido. A menina não é do turco, de jeito e maneira. Se fosse, a deixaria pra depois, sabe como é? Quem tem aquilo, tem medo! Não é que tenha medo, mas, é melhor deixar quieto, principalmente com gente que a gente não conhece a ruindade. Estou certo?
A moçada aposentada ia ao delírio quando Totó descrevia umas posições quase tipo missão impossível. Vez por outra, Tenório do Boi levantava para verter água, não sem antes pedir:
- Aguenta um tempo, Totó, que volto num relâmpago!
Ninguém reparou nos olhos do Miguel, da banca de abacaxi. Eu, sim. Ninguém se aluiu que ele deu uma saidinha e voltou, sem nada falar. Eu, sim. Fazia de conta que não estava ouvindo nada, mas vi uma coisa estranha no brilho dos seus olhos. Coçava o bigode, alisava a faca, cortava uma rodela de abacaxi para a freguesa, vendia, recebia, passava troco e sentava.
Na volta de Tenório do Boi, devidamente mijado, a conversa de Totó das Teteias voltou ao ponto onde havia sido interrompida.
– Pois é, primeiro dei um trato na Maria Lopes. A veinha tava perfumadinha, gostosinha e arrumadinha. Teria ficado com ela a tarde inteira, mas, o diabo do cramulhão atentou e ela teve que sair, para entregar umas costuras. Fiquei deitado e aí, sem conter minha bicha quieta, lembrei da menina. Fui lá e...
Entrou nos detalhes, mas não vou aqui repetir. É nauseabundo. Olhei pro Miguel, mas ele desviou e apenas puxou um fôlego comprido.
Na época, a mania dos valentões era assistir o Ringo e os dólares furados. Qualquer banana com vontade de ser macho, vivia a repetir: My name is Ringo!
Terminada a conversa, já pelas 9 da manhã, Tenório pergunta se não tinha medo de bolinar menor.
– Tenho nada! Se eu não comer, a terra come! Afinal, amigo Tenório, my name is Totó das Teteias!
Nisso, levanta-se Miguel. Pé ante pé, caminha até onde está o morenão e, de chofre, pergunta:
– Como é teu nome, cabra?
– Totó das Tetéias.
– Era.
Dois estalidos secos. Um tiro no peito e outro no pescoço. Totó caiu já do outro lado das trevas, arrodeado de botõezinhos e botõezões.
Miguel acha o de Marilúcia, sopra, beija, limpa na perna da calça, guarda–o carinhosamente no bolso da camisa suada e sai, como se não tivesse acontecido nada.
Tudo foi verdade, e dou fé. Eu estava na cidade e fui a última freguesa que comprou dois abacaxis de puro mel, depois da prova servida na pontinha da peixeira afiada e colocada, com ternura, em minha boca.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

MÃE NHÁ EUGÊNIA

Leila Jalul

Os negros que conheci na minha infância, invariavelmente, eram empregados domésticos ou seringueiros. Assim foram o velho Bahia, (da Bahia, só o nome), o seu Teodorico Francisco do Sacramento, o João Mulato, Benedito e Deolinda, tios de minha mãe, Antonio Lopes, Nhá Eugênia e Irineu Serra. Destes, apenas Antonio Lopes era cearense, de Quixeramobim. Os demais vieram diretamente do Maranhão. Alguns eram quilombolas nas terras de Sarney.
         Como os antigos sabem, nas casas dos grandes comerciantes e seringalistas, havia empregado para tudo. Sem salário, de preferência. Eles ganhavam um teto, uns molambos para vestir, uma rede para embalar o corpo e as saudades e o apelido de “agregado”. Empregados remunerados só os de balcão e os que sabiam ler e escrever, ainda que um tiquim de nada. Não errando no troco e nas anotações de borrador, já tava de bom tamanho.
Mãe Nhá Eugênia, por economia, era lavadeira e torradeira de café na casa do meu avô. Em dias marcados, acendia o fogo de lenha a céu aberto, pegava o tisnado torrador feito de metade da lata de querosene de vinte litros, a pá, os grãos e lá se ia para a tórrida função. O café, já catado e esquentado ao sol, era medido numa lata de banha, misturado ao açúcar gramixó, na proporção correta e, pá pra lá, pá pra cá, mexia os grãos, ao som dos estalidos da lenha. A fumaça invadia seu rosto. Algumas fagulhas iam parar em seus braços e mãos, sem direito a reclamação.
– Nhá, deixa eu ajudar um pouquinho?
– Sai daqui, traste, cê qué ficá preta como a Nhá?
– Nhá, deixa eu bater no pilão? Só um pouquinho, deixa?
– Sai daqui, diacho! Minina impertinente qui tu é! Sai daqui ou tu qué ficar feia como a Nhá?
Nhá mostrava sempre os braços musculosos para mostrar que tinha forças, apesar dos não sei quantos anos. Com ela aprendi a dar um beliscão no músculo até subir aquela bolotinha: o mosquito, dizia ela. Dizia, ainda, que precisava ser forte, até achar os filhos que se haviam embrenhado nos seringais e não davam notícias.
De todos ela lembrava. No entanto, era pela filha Florinda o choro que derramava.
– Fia, desde que a danada ajuntou-se com aquele desgramado, fie duma égua, que num se alembra mais da mãe. Num sei se tem minino, minina, num sei. Nhá, com a força do Pai do céu, ainda vai saber. Desalmada...
O tempo passando e Nhá já não era mais a negra forte. Vovó foi notando que ela não estava bem. Sempre acordava antes do sol, mas foi ficando devagar, levantando com dificuldade, dizendo coisa sem coisa. Foi ficando biló, peidadinha da cabeça. Passou a tremelicar que nem vara verde.
Uma noite, lembro como se hoje fosse, já com meus 9 anos, acordei com Nhá Eugênia andando e falando sozinha. As palavras eu não compreendia, porém, lá no seu resmungo, ouvi o nome de Florinda, ou Flô, como chamava sua “minina”.
O café já não torrava. A roupa não mais lavava. As tarefas foram passadas para Iracy, a arrumadeira. E Nhá Eugênia dizia, quando o juízo voltava:
– Ô minina Iracy, prestenção, a roupa do seu Ibrahim tá ficando uma mundiça! Esferga a folha do mamoeiro, minina! Tu é braba dimais! Tescunjuro! A gente insina, insina e o diacho num aprende! Vôte!
Num dia qualquer de 1957, Nhá procurou a desalmada Florinda. Passou a noite procurando. Deve de ter achado. Não acordou. Só pode ter achado...

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

FAÍSCA

Leila Jalul

Aconteceu comigo. Houvesse sido contado, dificilmente acreditaria.

Era 24 de dezembro, justo na véspera do aniversário de Jesus. O ano? 81 ou 82, creio eu.

Por volta das 22 horas, quando a cidade já se preparava para as festas, chega um carro oficial à minha porta, com uma ordem expressa, entregue em mãos pelo motorista. Dali, de imediato, deveria ir receber um alvará de soltura, já combinado entre meu chefe e o juiz, sem que houvesse qualquer tipo de procedimento jurídico aplicável. Tudo feito ‘de boca’, entre autoridades. Tudo elaborado nas coxas, para libertar um funcionário da empresa, por causa de um rapapé que acabou em grossa pancadaria e lesão corporal de natureza ‘razoavelmente’ grave.

Fui. De má vontade, mas fui. Peguei o alvará com o porteiro e rumei para a delegacia onde, segundo meu chefe, o plantonista estaria esperando.

Que plantonista? Qual delegado? Na delegacia, além de dois desordeiros e do meu ‘cliente’, apenas um vigia cochilando numa cadeira caindo aos pedaços.

Acordei-o e perguntei onde se encontrava a autoridade de plantão. Falei a razão de ali estar e mostrei o alvará.

- Olhe, dona doutora, a senhora pode aguardar ali na saleta. O delegado saiu pra jantar e disse que logo voltaria.
- Muito obrigada!

Dito isto, voltou a cochilar. Fiquei ali, com cara de paisagem, à espera do delegado. E este, arrotando peru e cheirando a Sidra Cereser, nó de gravata desfeito, apareceu já no amanhecer do dia.

‘Cliente’ solto, ordem cumprida, fui pra casa dormir. Antes, porém, combinei com ele uma solução para o problema que motivou seu recolhimento ao xadrez. Deixaríamos passar o dia de Jesus e, logo nas primeiras horas do dia 26, na sede da empresa, nos encontraríamos e passaríamos a régua no triste caso.

O resumo do entrevero: meu ‘cliente’ era caçador, tido e reconhecido dos melhores. Fez amizade com um português, também caçador dos bons e pediu-lhe emprestado uma cadela de nome Faísca, verdadeira águia na arte de achar e nocautear qualquer bicho do mato. Do tatu ao veado de capoeira.

De bom grado, pela amizade, o lusitano cedeu e emprestou a quatro patas, não sem antes avisar que aguardava a devolução imediata, tão logo retornasse da mata.

O resultado da caçada foi tão produtivo que meu ‘cliente’, de má fé, além de não cumprir o trato, passou a evitar o português. Sempre uma desculpa esfarrapada, uma escapulida, uma mudança de calçada, tudo para não devolver a cadela Faísca. E nessa demora, também de má fé, patrocinou o acasalamento da boa menina caçadora com um galgo, igualmente bom de caça. Isso levou meses, é bom que se diga.

Mesmo prenhe, o português exigiu-a de volta e, com paciência e educação, ainda prometeu ao meu ‘cliente’ que dividiria com ele as crias que escolhesse, machos ou fêmeas, que fossem. A cadela, a estas alturas, estava bem longe da confusão, escondida na casa de um parceiro de safadeza do meu ‘cliente’, já parida e alimentando seus filhotes, sem que o português soubesse do fato.

A ruindade de caráter do meu ‘cliente’ optou pela negativa e apelou para a ignorância. Daí, para as vias de fato foi um pulo. Levou a pior o pobre português, até por conta da idade.
Finalizando o episódio: no dia, hora e local marcados para a devolução do animal, saí com meu ‘cliente’ para a casa do português. Ele carregava nas mãos uma frágil caixa onde se encontrava a pivô da confusão. Estava sério, parecendo raivoso. No trajeto, nada falou, embora eu puxasse conversa e desse-lhe uns conselhos, coisa bem normal entre patrono e ‘cliente’.

Diante da residência do ofendido, chamei-o e fomos recebidos de forma séria, porém amigável. Não houve tempo para mais nada. A caixa foi jogada aos pés do português. Caiu aberta. Dentro dela, pesada e fria, estava Faísca, esfaqueada na parte frontal, pouco acima dos olhos.

Meu ‘cliente’ saiu em disparada e tomou rumo na estrada. Atônitos, eu e o português apenas nos entreolhamos. Com o animal em seus braços, olhar carinhoso, falou: vou enterrá-la. E saiu.

Enquanto ele enterrava Faísca, ali mesmo, enterrei minha carreira na área penal.

Ele chorou a amiga. Eu chorei a maldade.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

A LÍNGUA É O CHICOTE DA BUNDA. Ô SE É!

Leila Jalul

Zacarias e Mansueto, dois tomadores de branquinha, decidiram viajar para conhecer de perto a tal de Tabuí, tão cantada em prosa e verso.

Lá, segundo pensavam, seriam os reis do pedaço. Afinal, quem saía de Barranco Alto, nas Alterosas, teriam mais inteligência que os pobres nativos da tal Tabuí.

Os dois, mal se aposentaram da prefeitura, deram uns beijos tortos e de raspão nas respectivas patroas e filhos e, de posse de uns panos de bunda, um bom pedaço de fumo de rolo, uma lata de Neston lotada de farofa de frango, uma sacola de torresmo e duas garrafas de pinga, partiram rumo ao desconhecido.

E andaram, andaram e andaram, sempre ‘de a pé’, que cansaram. A pinga acabou. O fumo de rolo acabou. Torresmo e farofa de frango, também. Acabou tudo!

- Vamos voltar pra trás, compadre Mansueto? Saporra de Tabuí não existe não!

- Não, compadre Zacarias. Já que tamos aqui, vamos até mais na frente um pouco. Tá vendo aquelas luzes? Deve ser uma cidadezinha qualquer. A gente para, compra mais umas pingas, tenta esvaziar o tanque do sexo, come umas comidinhas, compra umas bolachas e segue adiante.

E lá chegaram. Entraram num boteco, mataram a fome de comida, tomaram todas e se danaram a contar lorotas pros frequentadores do local.

Mansueto, depois de um arroto, muito falante, apresentou-se como um fazendeiro próspero, dono de mais de quatro mil cabeças de gado de corte. Já Zacarias, mais comedido, gabou-se de ser representante de uma concessionária de carros impostados. Mentiram até perder de vista a razão. Aliás, só os dois falavam. O resto do povo escutava, com clara desconfiança. Resto do povo é modo de dizer. Não havia mais que seis pessoas ouvindo os fanfarrões.

Quando a cachaça atingiu o córtex do cérebro, num arroubo, Mansueto grita: oi, gente boa, nós tamos atrás de uma porcaria de lugar que se chama Tabui. Cêis sabem onde fica? Dizem que lá é terra onde todo mundo dá. O padre dá, a mulher do prefeito dá, o xerife dá, as meninas dão e nós tamos numa seca danada!

De repente, do fundo do bar, uma voz de autoridade se levanta e dá ordem de prisão aos dois.

Adivinhem quem era o delegado?

Passada a carraspana, os dois foram expulsos de Tabuí. Será que terão coragem de voltar?