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quarta-feira, 19 de abril de 2017

O HERÓI (1967)

Altino Machado (1924-2011)

Com cento e cinquenta e três mil quilômetros quadrados, bem maior do que Portugal, situado no Centro-Oeste brasileiro, vizinho da Bolívia e Peru, confinando com os estados de Rondônia e Amazonas, o Acre é o maior produtor de borracha do país. Borracha nativa, extraída da majestosa seringueira, Hevea brasiliensis, filha da Amazônia gigantesca, de quatro milhões e meio de quilômetros quadrados, mais da metade da área do Brasil, país amazônico. O Acre ocupa um canto dessa região pátria; ele é todo floresta, com pequenas clareiras e poucas cidades incipientes, pequeno arquipélago no imenso mar de mata verde; cidades ilhadas pela selva espessa, fechada, indevassável. Nessa selva, de onde sai a borracha, vive o pigmeu-gigante, vive e trabalha, livre-escravo, o seringueiro, o herói – herói da Amazônia-acriana!
Fotografia presente no livro O seringal e
o seringueiro (1956) de Arthur
Cezar Ferreira Reis.
O seringueiro em geral provém do Nordeste – nordestina é a origem histórica do Acre. O homem começa a trabalhar bem moço, à roda dos dezoito anos, senão antes... Trazido pelo seringalista, o proprietário do seringal, ele é encarregado de explorar determinada área, a “colocação”, de limites fluidos, sem demarcação. Ali permanece com a mulher, nova, muitas vezes com treze anos, mas já mulher, que ele traz de sua região, a namorada, agora esposa. Sua tarefa é o corte da árvore e o recolhimento do látex. São aproximadamente cento e vinte “madeiras” ou seringueiras, naturais, situadas no meio da mata ciclópica. De início, ele já deve ao patrão o preço da mudança, por aquele fixado arbitrariamente, e contabilizado unilateralmente em seus livros. A dívida é acrescida de juros periódicos, sem controle e ciência do seringueiro, que jamais dela se libertará, por impagável...
Constrói, ele mesmo, seu barraco – toras de palmeira fincadas no chão e cobertas com suas próprias folhas; inteiramente aberto por causa do calor equatoriano, o barraco não tem paredes; apenas soalho e teto, sendo acessível, pois, às feras, aos mosquitos e tudo o mais. Nele viverão todos da família, em comum, na promiscuidade da intimidade forçada. Ali se dorme, se come, se cozinha, se toma banho. Os filhos assistem aos pais se amando, tudo prematuramente, mas, para eles, absolutamente natural. No barraco se arma a rede; uma para começar, do casal, e, a cada nove meses, mais uma para a criança que nasce...
O casal terá inúmeros filhos: dez, doze, até dezoito! Muitos morrerão, outros sobreviverão, numa demonstração de resistência do gênero humano. em dez ou quinze anos, ambos estarão velhos, desdentados, impaludados, com vermes, se não tuberculosos. As filhas maiores serão cobertas pelo próprio pai; novas crianças surgirão. A miséria vai aumentando em progressão geométrica, a desnutrição é crônica, a mortalidade impressionante.
Só, absolutamente só, sem ver ninguém, sem contato com a chamada civilização, desassistido inteiramente, isolado naquele mundo primitivo, distanciado centenas e centenas de quilômetros da povoação, contando somente consigo, o seringueiro-herói é um pigmeu ante o gigantismo da mata, do cumaru-ferro, da bela castanheira, rainha da floresta pelo seu porte; da seringueira, sua conhecida companheira de trabalho, na medida em que ele dará a base de seu sustento; de milhares de espécimes vegetais que formam a maior reserva florestal do mundo!
Além de pigmeu, frente a cenário de tal jaez, cósmico, que o deslumbra, maravilha, fascina, e a um tempo o atemoriza e o acachapa, ele é também um gigante, pela tarefa que exercita, pela luta homérica contra a natureza hostil, os animais ferozes, o ilhamento, o mosquito e o pior: o homem! O homem que o explora!
Livre, naquele cenário sem limites, sente-se dono de tudo, sem dono aparente ao seu redor, sem controle visível! Ao mesmo tempo em que se sente liberto, é manipulado por cordões invisíveis, a distância; é escravo eterno do homem que o trouxe, a quem ficará devendo pelo resto da vida, por mais que venha a produzir, e de quem dependerá, doravante, para o fornecimento de gêneros, de ferramentas, de munição para a defesa pessoal e a caça. O homem é o escravizador para o qual trabalha, árdua, asperamente, de doze a dezoito horas por dia, durante o ano todo, sob o sol e a chuva, são ou doente, queira ou não queira, sem qualquer proteção legal, sob pena de sucumbir, de não produzir o esperado, de não ter o que comer.
O trabalho do seringal tem mão única: só entrada; não há saída, a não ser pela morte do seringueiro. Gigante-pigmeu, liberto-escravo, ele é o herói da Amazônia-acriana!
O seringueiro Severino deixa o barraco bem cedo, antes do sol aparecer. A mulher, Raimunda, o sacode forte para acordá-lo. Faz poucas horas que se deitou, fizeram amor, como o fazem quase todas as noites. Desta vez foi com ela, Raimunda, e não com a Maria, filha já moça e mãe de dois filhos dele, seu pai. Severino acorda resmungando; ainda é noite escura, mas se levanta, emborca o café ralo que ela requentou, pega a matula embrulhada numa folha de bananeira, guarda-a na bolsa de pano de saco, a tiracolo. Põe fumo no bolso da calça rota com a qual dormiu e trabalha. Apanha a poronga e a coloca na testa acendendo a vela que lhe iluminará o caminho. Enfia na cintura a faca afiada e põe a carabina de caça às costas; apanha, ainda, o balde e as canequinhas de latão, beija a mulher, olha os oito filhos ainda adormecidos, os filhos-gêmeos, e sai para iniciar a faixa diária.
Ainda pela “penetração”, trilha batida pelos seus próprios pés, chatos, grandes e grossos, descalços, no meio da selva misteriosa. Segue cantando modinhas do Nordeste que aprendeu menino, bem como o “salvelindo” e o “ouviram do Ipiranga”, de que se recorda vagamente; sabe que eram músicas importantes, mas ignora por quê. Segue também falando sozinho, em voz alta, para manter-se acordado. Vai à procura das “madeiras”, distanciadas umas das outras, obrigando-o a andar em ziguezague. Não há ordem na localização das árvores, não se trata de plantação artificial. Cuida-se de seringal nativo: uma aqui, outra acolá, mais uma, mais outra, alhures, perdidas em meio à mataria compacta. Em cada seringueira, faz o corte: um risco com a faca especial, e finca uma caneca na base do risco. Nela pingará o látex branco que a árvore suará. Leva mais de quatro horas para perfazer o percurso, de aproximadamente sessenta “madeiras”, que corta em dias alternados. Na vez seguinte serão outras sessenta.
Severino anda, salta obstáculos, pula, tropeça, cai, arranha-se, corta-se, machuca-se em espinhos e farpas, sopra o ferimento, estanca o sangue com o látex, mas não esmorece. Foge das cobras, quando não abate para comer; tem gosto de peixe. Evita as feras maiores trepando nas árvores e esperando que se afastem. Procura caçar bichos comíveis: além das cobras, citadas, veados distraídos, caititus roncadores, pacas mansas, antas preguiçosas, todos de gosto excelente. Caça também aves: galinhas selvagens, pombos, patos, papagaios. Tudo vai para a panela em casa. Macacos, lagartos e até gaviões, em último caso, quando a fome é grande e não consegue coisa melhor. peixes, só nos igarapés longínquos, pois inexistem em sua “colocação”. De vez em quando adentra mais na floresta e os localiza pelo ruído da água fria correndo; são lindos e refrescantes. Então, ele se farta em banhar-se; pesca uma ou outra qualidade de pequenos peixes, que corta, limpa, e come ali mesmo, cru e sem sal. Leva outros para a família. À hora do almoço, quando já completou a volta, “poronga” apagada, pois é dia alto, cerca das nove horas, senta-se num tronco caído e come e macaxeira que trouxe, pedaço de rapadura, alguma farinha – a matula que a Raimunda preparou. Raimunda, a heroína! Neste momento, ele se lembra da mulher e conversa com o eco da floresta:
– Raimunda, bonita de cara e boa de bunda!
– A minha Raimunda, boa parideira, boa cozinheira, boa companheira! Boa mulher... Boa na rede, boa no amor, boa de bunda, a Raimunda.
– A Raimunda, a Raimunda, boa de bunda, boa, boa...
E dá o grito final:
– Raimunda, Raimundinha! Espere por mim, Raimunda...
Seu pensamento divagava. Lembrou-se do aviador, que estivera no barraco certa vez e levava a segunda filha para a cidade, prometendo arranjar-lhe bom emprego e bom casamento... Já era mais que hora. Ela ia completar quinze anos, ainda era virgem. Não sei, não...
– Eu já estava de olho nela; também, com aquele corpo, andando nuazinha o dia todo, como aguentar?... – pensou e falou, alto.
Soube, meses depois, que a segunda filha, a Rosa, morava numa casa bonita, de Madame Fifi. Mudara de nome, passando a chamar-se Dedê. Era muito requisitada, muito valorizada!...
Ele gostava mesmo era de ouvir aviador contar coisas sobre a cidade grande: muita gente, todos ricos e chiques, muitas casas, automóveis, cinema – coisa difícil de acreditar... Algum dia ainda viajaria para Rio Branco; teria dinheiro no bolso e passaria um mês pegando mulher nova... Nunca vira mulher de cabelo vermelho, como lhe falara o aviador – “rúvia” ou “ruiva”, não tinha certeza. O aviador lhe dissera que elas são de fogo. Deixam o homem louco... Ele não queria morrer sem pegar uma...
De repente, ele se levanta e recomeça o périplo no mesmo sentido, agora para recolher o conteúdo das canequinhas, que já devem estar cheias. Despeja no balde que se vai enchendo e ficando pesado. Esta parte do trabalho demora de quatro a cinco horas. Finda a tarefa na floresta, inicia a marcha de volta ao barraco, andando muito cuidado para não entornar o vasilhame cheio de líquido branco e gosmento. No barraco ainda trabalhará mais duas ou três horas, na defumação do material.
A volta é festejada por todos; os filhos correm ao seu encontro, a mulher o saúda e lhe oferece mais café ralo e requentado. Relatam as labutas do dia: plantaram milho, capinaram ao redor do barraco, carpiram a macaxeira, colheram feijão, mataram um galo, velho e doente, para a canja das crianças. Ele se dirige ao “fumador”, pequeno alojamento onde acende o fogo, finca o “bastão” numa forquilha e vai girando-o sobre o próprio eixo, derramando nele, devagar, o precioso látex do balde, látex que se coagula na fumaça, que vai direto à sua cara e lhe intoxica os pulmões... Aos poucos se vai formando a “péla”, bola oval de finas camadas – peles – que chegará a pesar sessenta quilos e que de branca passa a marrom-escura, quase preta. Tem cheiro forte e enjoativo de borracha queimada. De quatro em quatro meses, mais ou menos, o patrão lhe enviará o aviador, aquele que avia as mercadorias: sal, óleo, açúcar, sabão em pedra, velas, munição, panelas, vestidos, remédios para maleita, xarope para tosse e até brinquedos. Ele permuta as “pélas” por mercadoria. É a forma de controle de seu trabalho. O aviador avalia, por critérios subjetivos e peculiares, quanto mercadoria corresponde a produção. Antes, queixa-se de que a borracha caiu de preço no mercado, enquanto os produtos que traz subiram... Tudo trazido de longe, pela tropa, em lombos de burros cansados. Tantas “pélas” correspondiam a quantas mercadorias, ao seu talante!...
O aviador em geral pernoita no barraco, escolhendo uma das filhas ou um dos filhos do seringueiro, ou mesmo sua mulher, que levará para a rede. Há o conformismo, que faz parte do preço. A dependência é absoluta, total. Símbolo do patrão, preposto do seringalista, o aviador é recebido com respeito e temor, naquelas paragens perdidas; é o homem importante e poderoso vindo da civilização, que sabe das coisas, que manda e desmanda... Seu poder, naquele instante, é absoluto. Daí a adulação, o servilismo, a rendição. Ou paga o preço ou não leva. De posse das “pélas”, o aviador as entrega ao seringalista, que as acumula na cidade, em seu imenso depósito de alvenaria, coberto de zinco. Em seguida, são embarcadas para as máquinas de benefício, em Manaus ou Belém. Tudo, após reivindicar e obter do Governo aumento de preço da borracha, do qual só ele, seringalista, se locupletará... O herói, o seringueiro, permanece à margem, ignorado, abandonado, no isolamento absoluto, prisioneiro que é da maravilhosa mas desumana floresta virgem. Enquanto isto, o seringalista-proprietário reside e investe seus milhões no Rio, em Manaus ou Belém, quando não em Paris, como ocorria no primeiro quarto do século, época em que a borracha valia ouro. Não havia, também, a borracha sintética.
Severino estava, há muito tempo, de marcação com aquela onça-pintada. Sentia sua proximidade, mesmo que muitas vezes não a avistasse. Em mais de uma ocasião cruzara com ela; era das grandes, ele fugira, embora tentasse abatê-la. Duas vezes o tiro falhou; três outras teve a impressão de acertar; supusera-a pelo menos ferida. Cada vez que surgia, porém, ela demonstrava estar intacta, intocada, e feroz! Ele, sempre prevenido, conhecia o local em que ela costumava aparecer, trazia a espingarda já engatilhada. A fera era manhosa, matreira. Não se aproximava mais do que lhe fosse possível para escapar incólume. Ambos se pressentiam, ambos se temiam, ambos se respeitavam. Ambos queriam surpreender um ao outro, ambos queriam matar, o quanto antes. Uma, a fera, para comer. O outro, o homem, para se ver livre dela e tirar-lhe a pele, valiosa, para negócio.
Numa tarde, Severino se antecipara: trepara numa árvore alta e conhecida e permanecera absolutamente imóvel por mais de duas horas, no aguardo da pintada. Subitamente, ela veio chegando, macia e ondulante, luzidia, como se nada quisesse, como se não o tivesse visto... Ele armou a carabina, apoiou-a num galho e ficou dormindo na mira, esperando que chegasse ao alcance do tiro. Desta vez, não erraria. Poucos metros antes do alvo, ela estacou, cheirou o ar e olhou diretamente na direção dele, nos olhos dele, com a pata dianteira ainda levantada. Ficaram a se olhar, longos e inacabáveis minutos, um com medo do outro. Parecia namora da morte... Ele, apontando, dedo no gatilho, olho na mira, imóvel; ela, mirando-o com ódio, presas arreganhadas, segura pela distância. Os fatos se deram no mesmo instante: puxou o gatilho ,o tiro soou; ela saltou de lado e fugiu, desaparecendo na vegetação cerrada. Severino desceu da árvore. Havia perdido mais aquele tiro, mas confiava que ainda a mataria. Era questão de tempo. Reencetou o trajeto, em demanda das “madeiras” para o corte. Não mais a avistou naquele dia, nem nos próximos. A onça sumira.
Tempos depois, novo encontro. Desta vez, fatal. Ele cansado, mal dormira. Tivera violenta crise de maleita, febre altíssima, os comprimidos haviam terminado; debatera-se na rede a noite toda, noite de apenas quatro ou cinco horas. Viera trabalhar, pois estava com uma produção mínima e o aviador passaria em breve; urgia aumentar o número de “pélas”. Mesmo exausto, mantinha-se atento e vigilante; a pintada poderia aparecer. Tinha certeza de que ela não desistiria enquanto não o comesse... Ele também não desistiria; pegá-la-ia antes.
Estava acostumado a andar dormindo, embora acordando ao menor ruído, fosse de canto de passarinho, de assobio de macaquinhos, ou de cobra sibilante. A onça era absolutamente silenciosa. Quando ele acordou de todo, alertado pelo perigo próximo, ou antes pelo subconsciente, viu-a na árvore baixa, à esquerda, pronta para o bote. Pareceu-lhe entrever um sorriso de vitória em seu olhar vermelho de ódio; ela o surpreendera...
Estacando de pronto, puxou a espingarda em gesto reflexo e, mesmo sem apontar, atirou, quase à queima-roupa, pois ela já saltara, rasgando seu peito com a patada. Homem e onça caíram; ela por cima, pesadíssima, a esmagá-lo, mordendo-o e arranhando-o. Ele ainda conseguira tirar da cintura a faca pontuda e cravá-la na garganta da fera, cortando a jugular. Foi seu último gesto. O látex do balde se espalhou pelo chão, tinto de sangue. Ouviu-se terrível grito de dor, que se fundiu com o tremendo urro da fera agonizante. Os sons ressoaram na floresta – deveriam ecoar por todo o Brasil, como grito de alarme e brado de alerta –, espantando pequenos animais e chegando ao pobre barraco, longínquo. Barraco ao qual Severino, o herói, não mais voltou...
Dias mais tarde, passou o aviador. Sabendo da tragédia, arrebanhou a produção existente, como pagamento adiantado, levando de volta à cidade a família de Severino. O barraco teria que ser desocupado; outro homem viria nele morar, continuando a faina. Apanhou Raimunda, Maria e os filhos, após pernoite, conduzindo-os até a cidade grande, em cujas ruas eles passaram a viver, mergulhados na indigência. Os homens a esmolarem, as mulheres a se prostituírem...

MACHADO, Altino. A figura refletida: contos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.189-199

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

GESSY

Altino Machado (1924-2011)


Com um metro e oitenta e dois, pernas finas, desengonçado, tamanho de homem e vestido como menino, de calças curtas, sentia-se ridículo; era o costume da época, só veio a vestir as calças compridas ao completar catorze anos, para seu alívio e de suas gambás de galgo.

Adorava visitar sua irmã mais velha, morando com seu marido e filhos em Vila Mariana, sobretudo para brincar com as sobrinhas, três anjos peraltas, olhos de anil. Tomava dois bondes, descia na rua Carlos Petit, andava duas quadras a pé e chegava à casa, recebido com beijos e amor, lanches e petiscos.

Nessa rua, andava atento, olhando para a janela de um sobrado na qual vira uma menina de tranças negras, presas com fita vermelha, que o olhara, disparando-lhe o coração. Lá estava ela mais uma vez! Pequena deusa emoldurada pela esquadria, debruçada no parapeito, sorrindo-lhe e, quando quebrou a esquina, acenando. Amiudou as visitas. Os pais estranharam tanta frequência, pois era tão longe; deram-lhe, porém, liberdade porque afirmava que ia “ajudar a irmã”...

Na ida e na volta, via-a, sorriso inocente na boca jovem, olhos imensos, prometedores. Arranjava pretextos vários para ir à esquina, vê-la; de permeio, olho nos olhos da janela... Logo se fez amiga da casa, quase vizinha; aos 10 anos, foi-lhe fácil cativar as garotas; era só ele chegar e ela aparecia correndo. Chamava-se Gessy.

Ficavam mudos, trocavam olhares apaixonados, que falavam muito. Aproveitando as paradas do bonde sacolejante, escrevia-lhe bilhetinhos, garatujados às pressas, com afeto imenso. Dizia que a amava! Repetitivos, traduziam bem o seu sentir: te amo, te amo, te amo!

Mal chegava, esperava ansioso oportunidade de enviar o “novo” bilhete, que lhe queimava o bolso da calça. Ela o apanhava sorrindo, corria e se trancava no banheiro, para a leitura. Jamais respondeu, não era preciso. A resposta transparecia no brilho do olhar, na doçura da voz, no carinho dos gestos.

Na emoção da adolescência, primeiros pelos despontando, fala de taquara rachada, jeito desajeitado de não ter onde pôr as mãos, cabeça cheia de fantasia, ele a amava. Pensava nela o dia inteiro: Gessy, Gessy, Gessy!

Em tarde primaveril, alma florida, ânimo colorido, chegou à casa; em dois minutos ela, que lhe sorrira da janela, surgiu, dissimulada.

– Oh! que surpresa!

Vestido branco, meia soquete, sapato pajem, cortara as tranças, trazia os cabelos repartidos de lado, fivela dourada à cabeça. Estava linda!

– Deixaram a porta do céu aberta, você fugiu? – perguntou-lhe embevecido. A resposta foi o mais radioso olhar. O encantamento começou, o mundo girava, ele levitava, imantado pela menina morena. A sua Gessy!

Naquele dia feliz, ao lhe dar o papelzinho, fê-lo de forma estabanada, deixando-o cair. Imediatamente, num reflexo recíproco, ambos se abaixaram para apanhá-lo; as testas se tocaram, as bocas rentes, as mãos se encontraram no bilhete tombado. Agachados, frente a frente, joelhos afastados para equilíbrio do corpo, o vestido curto subiu e ele viu as grossas coxas luzidias, roliças e, ao fundo, vislumbrou a calcinha branca!

Tudo se seu num átimo, mas foi um momento eletrizante, eterno. Olharam-se nos olhos e fundiram-se apaixonados. Ao se levantar, rapidamente, roçou de leve seus lábios no dele e disparou correndo para ler o papelucho. Poucos meses mais, o cunhado e família se mudaram. Ele nunca mais viu a Gessy.

Recentemente, quarenta anos passados, voltou à rua onde moravam seus pais, de onde partia, menino, para aquela casa da irmã, a ver sua Gessy. Tudo mudado. Apenas poucas árvores, de níveas magnólias, que colhia para sua mãe, ainda subsistem, resistindo ao desgaste do tempo. Tomou dois ônibus em demanda da antiga rua Carlos Petit, de recordações inesquecíveis.

O retorno melancólico, em busca do encantamento vivido, foi vão. O bom cunhado não mais existe, como inexiste o bonde, tão romântico. O trecho da Vergueiro desapareceu com as obras do Metrô e a casa da irmã foi demolida. Só a janela mágica permanece intocada, fechada e vazia, triste e sombria...

Nada sabe da Gessy. Resta-lhe a esperança de fazê-la saber que conserva a trança negra recebida na longínqua tarde de primavera. Que ainda sente o suave roçar dos lábios dela e que o instante de enlevo e amor ficou, indelével, guardado dentro dele e perdura vivo, até hoje. Gessy.


MACHADO, Altino. A outra Gessy (contos). São Paulo: Clube do Livro, 1988. p.174-176

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José Altino Machado nasceu em Taubaté no dia 21 de fevereiro de 1924, e faleceu no dia 09 de maio de 2011 em São Paulo. Era formado em Direito pela Universidade de São Paulo (1947); foi Governador do Território do Acre (1961), durante o governo do Presidente Jânio Quadros e Deputado Federal também pelo Acre, exercendo o mandato de 1963 a 67. Membro da Academia Paulista de Letras, foi autor de 4 livros, com um total de 82 contos editados. Além de ter sido conselheiro e presidente do Tribunal de Contas do município de São Paulo.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A GRANDE LUTA – Altino Machado

Entrou no quarto cuidadosamente, procurando não ser pressentido, buscando recantos escuros próximos à cortina da janela e ficou quieto, imóvel, certificando-se de não ter sido visto. Após alguns minutos, adquiriu confiança. O casal permanecia na cama conversando sobre assuntos banais: filhos malcriados, empregada desordeira, problemas com o chefe na repartição, programa para o fim de semana. Tudo revelava não terem sequer suspeitado de sua presença. Mais adiante, viu quando se acarinharam, beijaram-se rapidamente, deram-se boa noite e apagaram o abajur de cabeceira. Continuou estático atrás da cortina, aguardando; não tinha pressa, a noite apenas começava e até clarear o dia poderia agir, desde que tomasse as cautelas necessárias, não se expondo ou cometendo imprudência.

Cerca de uma hora mais tarde, ouviu o ronco de ambos, voltados um para o outro na cama larga. Sentiu segurança e saiu da posição, postando-se ao lado do guarda-roupa, perto dos dois que dormiam profundamente. Abeirou-se, em seguida, do criado-mudo, iluminado pelo mostrador fosforescente do rádio-relógio. Continuavam inertes e ele se aventurou. Bem de leve, pousou na mão da mulher, sempre dava preferência ao sangue feminino, achava-o mais puro, mais ralo, mais doce. O do homem parecia-lhe grosso, pesado, de difícil absorção; a pele da mulher era, por outro lado, mais fina, lisa, delicada; o ferrão entrava sem risco de quebrar-se. No homem, a pele era áspera, os pêlos atrapalhavam. O local predileto era o colo, de preferência os seios, embora fosse difícil encontrá-los expostos, mormente na época de frio. No calor, por vezes deparou corpos desnudados e pôde escolher à vontade o ponto da picada.

A mão se mexeu e ele saiu, rápido, antes que o esmagasse. Todo cuidado era pouco. Voltou para o teto, longe do alcance; evitava precipitar-se. Meia hora mais, novamente desceu, aterrando o braço dobrado, fora do lençol verde. Nenhum movimento. Espichou o ferrão e começou a introduzi-lo, vagarosamente, num poro mais largo, na parte inferior do antebraço, sobre tênue veia azul. De súbito: plaft! Um tapa forte, a luz foi acesa, formou-se um burburinho, mal teve tempo de safar-se, o vento da mão impulsionou-o para baixo, ele assentou-se ao pé da cama.

– Tem pernilongo no quarto, querido.

– Onde? Não senti nada.

– Pois eu senti, estava me picando. Vamos procurá-lo, não consigo dormir com esses miseráveis chupando a gente!

– Tudo bem, deixe-me pôr os óculos. Apanhe a toalha de rosto no banheiro, umedeça-a; logo mato esse bicho desgraçado.

Rente ao chão, ele estava apavorado. Fora armadilha, ela fingira estar dormindo. Quase foi apanhado... Exatamente como na noite anterior, traidora, falsa! Ela me paga, pensava; se escapar desta, chupo-lhe todo o sangue. Ouviu barulho, os dois andavam pelo cômodo, sacudindo cortinas, afastando móveis, iluminando todos os cantos com luz forte.

– Olhe ali! Dê-me rápido a toalha, vamos antes que fuja!

– Onde?

– Aqui. Ah! você demorou, ele fugiu; veja do outro lado, deve estar passando por baixo.

Realmente, voara com risco de vida sob a cama e se escondera atrás da porta que dava para o corredor. Acreditava que não o procurariam lá; pelo menos não o fizeram na noite passada.

De repente, mexeram a porta e ele se viu exposto, no claro, inteiramente a descoberto. Passaram a jogar toalha dobrada, chinelos, paletó de pijama, até camisola ela tirou, transformando-a em petardo. Quase foi atingido, mas escapou pelo túnel escuro e sombrio do corredor. Assustado, pensou: ainda bem que não se valeram das armas químicas; limitaram-se à bateria antiaérea...

– Vamos dormir, meu bem. Acho que o matamos. Amanhã comprarei nova bomba de inseticida.

– Não suporto o cheiro do produto, prefiro o pernilongo.

– É, mas não há outro jeito...

Distante, no fundo do corredor, ele recordava os conselhos da mãe: não tenha pressa, não esmoreça, prefira o escuro e evite os ouvidos. O homem tem nos ouvidos o ponto mais sensível do corpo: o cérebro humano deve se localizar nos ouvidos. O rosto do homem é região acidentada, a montanha principal é o nariz, com duas cavernas profundas; as orelhas, onde ficam os ouvidos, vêm em seguida: duas abas grandes, radares poderosos, que detectam o zumbido e acionam braços e mãos para a morte. Os olhos são sensíveis mais inofensivos; a boca é cavidade perigosa, aprisiona os insetos descuidados que nela adentram à procura da língua, saborosa. Os homens são brutos e nada inteligentes. Bastariam cortinados e os pernilongos morreriam de fome; mas são comodistas, acham que junta poeira e preferem guerrear. Quando não matam logo – o homem só pensa em matar –, insistem na batalha até ficarem cansados e caírem no sono, entregando-se. Aí tudo fica bem. O ferrão entra fácil, o sangue escorre que é uma beleza!

Achava que aquele momento chegara e se preparava para a sucção. Achava mais: como é fácil lutar contra o homem; ele repete a mesma técnica todas às noites: atira tudo que tem à mão. Certa vez arremessaram-lhe um despertador, que não o alcançou e se desfez todo; teve pena. Difícil é lutar contra a largatixa, esta sim, sabida e viva, ardilosa e inteligente. Dificílima a luta contra a deusa-aranha, que tece sua teia invisível. Não há pernilongo que lhe escape, quando faminta. Já a papa-mosca é esperta, mas dá para se defender. Depois do homem, é o adversário mais burro...

Após longo tempo, retornou ao dormitório. Os roncos se reativaram, fortíssimos. Exaustos, rendiam-se. Então, ele esnobou. Esticou o ferrão e o introduziu lentamente no pescoço do homem, chupou meia gota de sangue grosso. Logo em seguida, com toda calma, outra meia gota do lindo colo feminino...

Afinal, deixou o quarto, voando solto e feliz, zumbindo forte, realizado com a vitória, pesado, barriga cheia de sangue, que digeriria pela semana inteira. Voou ao encontro dos seus, orgulho e certo de que seria recebido como herói: derrotara o homem, ganhara a grande luta da noite...

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MACHADO, Altino. A figura refletida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

***
Nota: Prestamos aqui nossa homenagem póstuma a José Altino Machado, falecido na segunda-feira última (09/05) em São Paulo. Nascido em Taubaté no dia 21 de fevereiro de 1924, era formado em Direito pela Universidade de São Paulo (1947); foi Governador do Território Acre (1961), durante o governo do Presidente Jânio Quadros e Deputado Federal também pelo Acre, exercendo o mandato de 1963 a 67. Membro da Academia Paulista de Letras, foi autor de 4 livros, com um total de 82 contos editados. Veja mais aqui.