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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

...E MANDEI VIR A “CABOCA”

Océlio de Medeiros (1917-2008)


Muita gente trazia antigamente
boi-bumbá do Piauí,
rede e renda do Ceará,
ou “polacas” da zona.
Mas no Acre tudo agora é diferente,
há mais mulher do que homem
não se corta borracha
e só se pensa em gado.
Os seringais agora são fazendas,
“paulistas” são gaúchos,
goianos, cuiabanos,
zebuzeiros, pés-duros...
E como sinto falta do velho Acre,
daqueles coronéis,
daqueles seringueiros
e também de acreanos,
mandei vir de Belém minha caboca
para matar saudades,
tentar salvar a raça e refazer meu povo.
Que venha de Belém, de Santarém,
do Marajó, das Ilhas,
e até de Cametá,
mas que seja “caboca”.
“Caboca” que não tenha pitiú,
“caboca” cuia-pitinga,
cheirando a vindica
ou mucura-ca-á
tome banho de cheiro
com “macaca poranga”,
que creia em uirapuru
e tema “ulho de buto”...


MEDEIROS, Océlio de. Jamaxi: A Poesia do Acre. Rio de Janeiro: Arquimedes Edições, 1979. p.277

terça-feira, 3 de novembro de 2015

SOU FRONTEIRA

Océlio de Medeiros (1917-2008)


Acreana, sou fronteira,
no Noroeste encravada,
seringueira guerrilheira
não mais luto, estou calada.

No lado de cá descaso,
ou me junto, bebo e danço,
no de lá de novo caso,
é só subir o barranco.

A minha irmã é a Bolívia
e o Peru é meu irmão,
mas sou filha da lascívia
e a ambos dou meu coração.

Na fronteira eu tenho ficha,
desde a guerra com meu “guasca”,
com a Bolívia tomo “chicha”,
com o Peru eu bebo “uasca”.

Sob o meu verde colchão,
tenho o peito recoberto,
como terra sou ilusão,
sob o húmus sou deserto.

Meu peito todo riscado,
fui borracha, fui castanha,
nos seringais do passado
minha estória foi façanha.

Sou peito lanhado a faca,
do machado que me corta,
tiram meu couro, sou vaca,
meu sangue o Brasil exporta.

Xapuri, 1942


MEDEIROS, Océlio de. Jamaxi: a poesia do Acre em três tempos. Rio de Janeiro: Arquimedes Edições, 1979. p.310-311

sexta-feira, 27 de junho de 2014

AO POETA ACREANO J. G. DE ARAÚJO JORGE

Océlio de Medeiros (1917-2008)


Lembrei-me do teu pai ao vir à sua cidade
que para mim se abriu como um baú antigo:
li poeirentos jornais da sua mocidade
e me contou sua saga o mais dileto amigo...

Viveu sob os padrões da velha austeridade,
foi senhor da justiça e após foi seu mendigo:
a infância no teu berço não te dá saudade
e as angústias paternas ainda as tem contigo...

Foi aqui que nasceu teu coração de esteta
naquele acre começo ao sol do Acre inclemente
que exilando o teu pai a ti te fez poeta!

Se das mágoas paternas flora a tua semente,
nas líricas corolas do teu amor de asceta
retribuis com poesia a ingratidão da gente!...

Tarauacá, 1972


MEDEIROS, Océlio de. Jamaxi: a poesia do Acre em três tempos. Rio de Janeiro: Arquimedes Edições, 1979. p.127

terça-feira, 15 de outubro de 2013

OCÉLIO E A ACADEMIA ACREANA

Trecho de A REPRESA (1942), de Océlio de Medeiros, em que narra, com todo aquele seu estilo irreverente e recheado de humor, os primórdios da Academia Acreana de Letras.


Muita coisa houve em Rio Branco durante os últimos meses. Preto Limão, o velho Preto Limão, que andava cambaleando bêbado pelas ruas e que as mães chamavam para que levasse num saco os filhos malouvidos, morreu num banco de Praça. Morreu feliz, sem saber porque tinha nascido, sob o frio da madrugada e a mortalha da noite estrelada. A lua ria-se dele lá de cima, no seu arco de luz, como na bandeira turca. O Eliezer e o Armando Braga, os únicos boêmios, foram fazer uma serenata na madrugada do outro dia, bebendo e cantando modinhas, diante da cova do Preto Limão. Quem passasse a essa hora, haveria de ouvir, como a voz do luar, aquela canção de saudade, acordando a alma do Preto Limão.

Preto Limão morreu. Casou-se a Osvaldina, filha do seu Ângelo, com o Joca, filho do Pereira, o par mais falado de Rio Branco. Suicidou-se o Pedro Morais num domingo. Nessa tarde não tocou a retreta. Nasceu na segunda quinzena a filha do sírio Fecuri. A Marina foi deflorada. A Lindalva arranjou um novo amante. Mas o acontecimento principal foi a ideia de o Felipinho fundar a Academia Acreana de Letras. Só a existência do poeta Juvêncio justificava a existência da Academia.

Felipinho rsolveu ir pedir o apoio do Juvêncio. O poeta já namora as glórias acadêmicas. O Felipinho botou a roupa que usava sempre quando ia empreender alguma coisa. Era um fato amarelo, de linho barato comprado no Safa, que harmonizava perfeitamente com a pele palustre. O Pai Irineu, chefe da uascar, disse a Felipinho que o amarelo era a cor que lhe daria êxito em tudo.

O “Hotel Madri”, parte integrante das tradições de Rio Branco, fica do lado da Perdição. Um anúncio novo, afixado numa das prateleiras, melhor o define: hotel familiar... Outro, escrito em letras vermelhas, o completa: “Só é permitida a entrada de mulheres depois das dez horas...” E ainda há um na parede do mictório, com esses caracteres reservados: “Por favor, não jogue o algodão na bacia...”

O Felipinho, sacudindo com a costa das mãos o pó das ruas que sujava o seu fato canário, entrou por uma ala de bilhares, cumprimentando academicamente um antigo contrabandista de cocaína. No quarto, o último do corredor, o poeta, sentado numa rede de varandas vermelhas, continuava o primeiro e o único pifão de sua vida, começado aos 18 anos, quando aluno faltoso da Faculdade de Direito do Recife, onde se bacharelou, vindo daí para o Acre afim de ser promotor público de Abunã. A sua voz arrastada recitava:

– Bendita seja, preguiça amada,
tu que não queres que eu me ocupe em nada!
– Teu filho é belo, é forte, é louro?
Mais uma rês votada ao matadouro!...

O ambiente do cubículo, que Amadeu Aguiar nos seus artigos chamava de Tebaida, causou um asco secreto em Felipinho. Uma cama de casal, velha e imunda, mostrava à guisa de lençol uma riquíssima pele de vicunha, que tinha sido presente de rico ganadeiro da Bolívia. Uma cômoda tosca, com coluna de tripé, servia de pedestal ao busto do cantor das Acreanas, feito em barro bruto pelo seu colega de letras e de farras Amanajós Santiago. No chão, como cuspidelas de mulher grávida, várias pilhas de livros se espalhavam. Em cima de uma mesinha, o retrato da colação de grau, de borla e capelo, caindo a cabeça e o bigode sobre o punho da mão direita fechad, numa atitude de pensador profundo. Dispostos sobre um pano de rendas que nunca tinha sido lavado, viam-se inúmeros postais de mulheres nuas. Na parede, repousando sobre dois pregos, o espadim com que Juvêncio namorava a futura Academia Acreana de Letras: uma lâmina de pau lavrado, feita talvez de caixão de cebolas, com uma copa de couro de boi...

Felipinho tornou-se íntimo, puxando uma cadeira furada. Olhou para um dos travesseiros da cama. Viu lá a boneca de pano, dessas que, de passagem para o Rio, se compram em Fortaleza.

– Que história é essa, Juvêncio? Então depois de velho você deu para brincar com boneca?

– Que nada, rapaz! Essa boneca é a presença, é a saudade de Laura! – suspirou o Juvêncio, num sorriso safado em que exibia as suas gengivas desdentadas.

– Mas quem é essa Laura de que você tanto fala? perguntou o Felipinho.

– É essa monstruosidade que está aí! respondeu o poeta, apontando para um retrato em que se via uma cara de quitandeira, gorda como um balaio. Ela hoje está velha, – desculpou-se o Juvêncio – está acabada, está como eu... Mas debaixo de toda essa gordura, de toda essa feiura e de toda essa velhice, eu sinto a Laura de ontem, aquela Laura que era três vezes mulher!...

Felipinho ainda deu uma prosinha. Juvêncio mostrou-lhe as últimas produções. Versos em que o álcool trabalhava tanto como o talento. Os nomes mais imorais, como pinceladas de piche, cortavam a conversa. Felipinho aproveitou a oportunidade:

– A propósito, Juvêncio. Venho pedir o seu apoio para a fundação da nossa “Ad immortalitatemzinha”... Você já está para morrer e precisa entrar na Academia...

– Eu, morrer?! Engana-se quem pensa que eu depois de morrer queira entrar na Academia ou no céu! Jamais suportaria o ambiente chato do Céu, com S. Pedro fazendo rabujices e doze mil virgens entoando cânticos sacros. Jamais!... Quando morrer, quero ir é para o Inferno! Isto sim! Aí encontrarei todas as almas devassas, todas as pecadoras, todas as mulheres perdidas, todas as prostitutas do mundo! E é aí que eu vou gozar de verdade!...

A figura de Juvêncio fez o Felipinho experimentar a emoção do romancista que encontra um tipo. Baixo e magrelo, desdentado e franzino, talvez não fosse capaz de resistir ao discurso do Prof. Cazuza, se esse fosse o escolhido para saudá-lo... Sardas e pinguinhos azuis salpicavam-lhe o rosto encarquilhado. E, pelo canto dos lábios sórdidos, escorriam, como um arco de ferro incandescente, as pontas ruivas do bigode...

Amadeu Aguiar escreveu nesse dia na primeira página do “O Acre” um esboço crítico biográfico, onde dizia que o poeta Juvêncio se deixara levar pela sedução dos barrancos do Acre. “Remanescente de maior talento de uma geração, – afirmou ele – plagiou a glória das cigarras, sempre cantando, e viveu o destino dos copos de botequim, sempre se enchendo de álcool, numa bebedeira que só terminará com a morte. Admiravelmente filósofo no seu lirismo, inspirado sempre no ceticismo de uma região onde nem a própria terra inda se fixou, anda agora no refúgio do seu passado e na degradação do seu talento... Só teve, na vida, dois amigos: um rato branco, que conserva com o maior carinho numa gaiola de arame, e o Coronel Epaminondas Martins. Seu maior desejo é, quando essas duas criaturas morrerem, enterrá-las lado a lado. E haverá de escrever, na lápide da sepultura do rato, o seguinte epitáfio: aqui jaz o homem que não me furtou...”

O Juvêncio recitou alguns dos últimos sonetos de sua lavra. As palavras, ao sairem da bocarra desdentada, adquiriam uma tonalidade cava, como se viessem do fundo de uma montanha. No fecho de outro colocava toda a sua emoção de ébrio. E, depois da última rima, se exaltava:

– Que tal Felipinho?! Formidável, não! Sim, formidável! Então este último versp abafa! Poesia é isso, meu amigo! É filosofia, é calor de gênio!...

O Felipinho sacudia a cabeça, como um papavento. Talvez estivesse com o pensamento longe, numa carne seca do jantar, quando o poeta recitava. Jamais deixava de elogiar, com a sua vozinha fanhosa e inspiradora de eterna piedade:

– É só você quem pode fazer essas belezas, meu grande Juvêncio. Só você e nem mais ninguém. O Mário fica longe, muito longe com os “Painéis da Nossa Terra”...

O Juvêncio foi remexer uma gaveta velha. De dentro tirou uma folha amassada de papel de carta, com alguns borrões de tinta e duas manchas de vômito.

– Sabe que estou me dedicando ao teatro-charada? É uma nova invenção literária! Ouve só esta peça-síntese, conforme a batizou o Mário. O cenário é uma sacristia. Os personagens são Deus Nosso Senhor, o Professor Pangloss e Jesus Cristo. É antes de cair o pano.

Deus Nosso Senhor: – Como vai a terra, Pangloss? Que me conta o teu espírito?

Pangloss, coçando a careca: – Quem afirma que tudo vai bem diz apenas uma asneira, Senhor! É preciso afirmar que tudo vai pelo melhor!

Deus Nosso Senhor a Jesus Cristo: – Então, Meu Filho! Prepare-se para voltar novamente à terra! O planeta está abandonado até agora!

Jesus Cristo, de joelhos: – Sim, Meu Pai! Irei novamente! Mas, por piedade, não me deixe nascer no Acre!...

O Felipinho estourou na gargalhada da sua vida.

– Está formidável, simplesmente formidável! Está até genial! Ser gênio é dizer coisas que só um entende! Está formidável...

Felipinho entrou no assunto. O Juvêncio achou ótimo a ideia. Olhou para o espadim de pau. Apresentou uma condição:

– Pode contar comigo. Mas na condição de eu não ser apontado como o responsável pela fundação do que o Mário chamará de sodalício... E nem que eu seja escolhido para fazer o discurso de instalação...


MEDEIROS, Océlio de. A Represa (romance da Amazônia). Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores, 1942. p.165-174

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Série A POESIA ACREANA > OCÉLIO DE MEDEIROS

“Passei este domingo de chuva refrigerado na poesia do Acre em três tempos, tão variada de notas e cores, e de tão vivo testemunho humano e social”.

Carlos Drummond de Andrade
sobre o livro "Jamaxi: a poesia do Acre"


Océlio de Medeiros (1917-2008) sintetiza uma das mentes mais brilhantes e irreverentes de sua época. Acreano de Xapuri, viveu em Belém, onde concluiu os estudos primários e secundários, ingressou na Faculdade de Direito, e iniciou a vida no magistério e no jornalismo (“Folha do Norte” e “O Estado do Pará”), além de atuar na militância estudantil contra a ditadura do Estado Novo, que o obrigou a transferir-se para o Rio de Janeiro. Aí continuou a exercer o jornalismo e aperfeiçoou seus conhecimentos pedagógicos com o grande expoente da Escola Nova, Lourenço Filho. Em 1939, ao retornar ao Acre, onde permanece por dois anos, dirige o Departamento de Educação e Cultura, preside o Conselho Técnico de Educação, leciona aulas de Pedagogia e dirige o jornal oficial “O Acre”. Em 1942, retorna ao Rio de Janeiro, devido “os reflexos negativos das perseguições locais que sofreu em virtude de sua vida de solteiro adolescente no Acre”. A partir de então, começa a projetar-se nos setores do Serviço Público, da literatura especializada administrativa e da política partidária.

Como técnico de administração do DASP chegou a exercer várias funções de assessoria, tanto no Poder Legislativo como no Executivo. Transferido do DASP para o Ministério da Fazenda, foi designado para servir na Delegacia do Tesouro Brasileiro no Exterior em New York (1950-1955). Aí fez diversos cursos e obteve o título de mestre pela The New York University. De volta ao Brasil, em 1955, pouco tempo depois, candidata-se a deputado federal pelo Estado do Pará, exercendo o cargo ativamente de 1959 a 1963, quando teve o mandato cassado pelo golpe militar de 1964. No auge das perseguições militares, em 1972, retorna ao Acre, onde permanece por um período de 10 anos, e, como advogado, assume a defesa dos posseiros e seringueiros espoliados em todo o Acre pelos fazendeiros “paulistas”. Ameaçado de morte retorna ao Rio de Janeiro.

No campo literário, a obra de Océlio de Medeiros é vasta. Escreveu diversos livros no setor de literatura especializada, em decorrência do seu cargo de técnico de administração, entre os quais: “Territórios Federais”, “Administração Territorial”, “O Governo e a Administração dos Territórios Federais”, “Reorganização Municipal”, “O Governo Municipal no Brasil”, etc., além de escrever vários opúsculos e de colaborar em diversas revistas técnicas, anais e em suplementos de diversos jornais.

Como literato e poeta sua presença também foi marcante, destacando-se, sobretudo pelo “Jamaxi: a poesia do Acre”, lançado em 1979. Porém, já havia iniciado seu labor literário com a histórica obra “A Represa” (1942), o primeiro romance acreano escrito por um acreano. Na Coleção Cantos Acres, reuniu seus trabalhos dispersos em 7 volumes, intitulados: “Cantos Primitivos”, “Cantos Guerrilheiros”, “O Canto Brabo”, “Cantos Épicos a Xapuri e Odes Idílicas a Rio Branco”, “Cantos e Ecos”, “Diáspora no Espaço Interior” e “Só Brasília: Superquadras, Poemas Psicodélicos e Poemas Verdes”. Além disso, escreveu “Após os Balaços, baladas para Chico Mendes” e “Desde quando o verde era mais verde” (1990). Recentemente, organizada por seus familiares e amigos, foi relançada um conjunto de sua obra enfeixada em 10 livros, que se inicia com “Só Sonetos” e se encerra com “Bolpebra, opereta bagunçada e mirações acres”.

Dentre as obras poéticas, merece uma atenção especial o livro “Jamaxi: a poesia do Acre”, que, à época, recolhia toda a produção poética do autor, ainda inédita, com trabalhos escritos a partir de 1937 até 1974. Em “Jamaxi”, percebe-se como o poeta passa do sofrido mundo interior para a poesia social. O professor, o militante, o político dão vozes ao poeta, que ergue seu grito pelo homem, pela terra e pela liberdade.

A obra, como faz questão de ressaltar o poeta, não é poesia regional. Compreende três fases da vida do Autor – hoje, ontem e anteontem: “É muito mais que regionalismo, apesar das suas manchas paisagistas e das provincianas manifestações naturalistas. É sobretudo, em três tempos, a poesia do agro, do azedo, do acérrimo, na expressão de sentimentos, que nas províncias são tão universais quanto nas metrópoles. Daí porque, ao tomar o Acre não só no sentido de uma fronteira geográfica, mas também, no de sua própria acepção etimológica, de adjetivo substantivado, estes inéditos, aqui enfeixados, expressam a vivência do Autor nas suas intermitências poéticas, nas fases mais críticas em que mais versejou”.

Para Océlio de Medeiros, na explicação dos três tempos de sua poesia, o “Hoje” é a piedosa visão da conflitante paisagem humana, que a tudo continua a esmagar, nesse aceleramento desenvolvimentista, externamente financiado, que visa menos ao homem comum do que à emergência de uma sociedade oprimida como potência intermediária neste hemisfério, onde ressurge a era das ditaduras messiânicas. “Ontem” é a evocação da fase intermédia entre o presente e o passado, quando as ânsias de liberdade de expressão tomaram vários caminhos. “Anteontem” é a saudosa visão do mundo morto, quando o vale era mais verde, a vida era mais cor-de-rosa e começaram a morrer de tísica os últimos românticos.

Océlio de Medeiros, a meu ver, escreveu páginas clássicas para as letras acreanas que muito engrandecem a literatura brasileira de modo geral, como demonstra o poema “Jamaxi: a poesia da miração do Acre”, em que o lirismo, em forças telúricas e sociais, desponta fartamente como em águas de repiquete, a revelar a força e os encantos do poeta. Poeta, aliás, cuja obra precisa ser sempre revisitada, pela relevância do pensamento, ainda precisa ser estudada, divulgada e dissecada. Por enquanto, a este que foi o mais combatido, combativo e irreverente dos poetas acreanos, presto minha eterna reverência.

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"E se a poesia é antes de tudo uma libertação espiritual na realidade que estimula a fuga, cumpre aos poetas reconhecer nessa dramaticidade toda a sua crueza, e não fantasiá-la."

Océlio de Medeiros

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JAMAXI: A POESIA DA MIRAÇÃO DO ACRE
Océlio de Medeiros

Fui além do Xapuri
buscar poemas dispersos
e trago em meu jamaxi
flores, frutos, alguns versos...

Jamaxi ou jamaxim
– escreva como lhe apraz –
o que importa para mim
é o que do Acre dentro traz.

Jamaxi , cesto ou paneiro,
de cipó trançado e feito,
é a carga que o seringueiro
traz nas costas presa ao peito.

Ao seu peso recurvado,
nele transporta o que quer,
vem do centro carregado,
volta levando o que der.

O meu jamaxi encerra
um passado que é presente,
angústias da minha terra,
misérias da minha gente.

Borracha, couro ou castanha,
decepções, desenganos
e as flores que a gente apanha
na vida ao passar dos anos.

As rimas soltas ao chão
vim colhendo com carinho:
são as trovas que o coração
desfolhou no meu caminho...

Seringueiro, traz aqui
do mundo que me extasia,
dentro deste jamaxi
o meu fardo de poesia.

Poesia é aquela maneira
de ver tudo diferente:
é o leite da seringueira,
é o jorro de uma nascente...

Pode ser subjetiva
ou surrealista paisagem,
mais concreta e objetiva,
ou mesmo metalinguagem.

Não é a forma que a encerra,
mas o que brota da mente:
imagens da minha terra,
paisagens da minha gente.

De qualquer sentido é a voz
ecoando na alma a esmo:
é o que está dentro de nós
e não no ser em si mesmo.

No brejo uma feia jia
sob um lírio coaxa amor:
onde é que está a poesia
na rã ou na bela flor?

Não és só sentido ou instinto,
não és somente animal,
sentes também o que eu sinto,
distingues o bem do mal.

A fonética ainda engasta
no verso a palavra rara,
mas se a rima se desgasta
no concreto o poeta pára...

Não se encerra a poesia
na forma condicionada,
conteúdo que extasia
– jamais se contém em nada!

Sem liberdade que o arrima
o poeta se deforma:
camisa de força é rima
e prisão perpétua é forma.

Estrangula-se na mente
a idéia não captada:
não encontra continente
na palavra limitada.

Ritmo é o som da essência
que só sente o coração,
são palavras com cadência
ou silêncios de emoção.

Acre tem sentido vário,
é agro, é azedo, é irritante.
Diz ainda o dicionário:
é forte, é mordaz, é picante...

Território e agora Estado,
mas seja o que é ou que for,
acre é o mundo amargurado,
vida azeda, espinho em flor...

Mas Acre é também poesia,
é a luz solar desmaiando
é a noite apagando o dia
é o céu de estrelas brilhando.

É o povo que em versos cantos
e a terra que não maldigo,
tem feitiço, tem encanto,
é o meu reencontro comigo.

E daqui para adiante,
esvazio meu jamaxi,
poesia do Acre distante
nos poemas que escrevi.


CANTOS GUERRILHEIROS
Océlio de Medeiros

São cantos brabos, poemas livres, odes
a tudo o que senti na infância acreana,
até o primeiro amor da adolescência,
que líricos sonetos me inspirou...
A terra foi o meu ventre e os rios, meus seios,
comi barro enlameado, águas suguei
e enchi meu coração de amor e ódio...
A terra é a minha carne e os rios o meu sangue,
cipós se esgalham fora do meu crânio...
Lianas, meus cabelos, crescem soltas
sobre as minhas encostas e o meu tronco...
Os galhos, – são os meus braços, – e as raízes,
– meus pés e minhas pernas, – me sustentam,
firmando-me no solo que me nutre...
Me alimento de lama, lodo, folhas
e há tijuco em minha alma, que é o limo
dos mais fundos peraus, junto ao barranco!
As canaranas crescem no meu peito
e musgos amaciam meu coração...
No fundo dos meus olhos há paisagens
e imagens primitivas da floresta...
É uma fonte cantando sob frondes...
É um rio de águas barrentas serpenteando,
na selva a abrir caminho em meio às árvores!...
É a seca, é a alagação, é o repiquete!...
São balseiros descendo a corretenza,
ou várzeas cultivadas nas vazantes...
No fundo dos ouvidos ainda ecoam
os cânticos das raças massacradas;
as tabas mortas de índios dizimados;
os disparos dos papos-amarelos
e gemidos dos que fugiam, com saldos,
dos seringais sem Deus, sem Lei, sem Pátria,
mas que foram fortins em pé de guerra;
os Senhores da Prata combatendo
e osCoronéis do Estanho derrotando...
A lama que comi vomito em versos:
se a gente pensa como a gente vive,
eu que o Acre sofri, só penso este Acre...
Os meus versos são livres como o vento
nos primeiros poemas primitivos!
E cada canto é a bárbara expressão
dos ritmos que ouvi desde o começo:
um canto do Acre ao longe, um poema BRABO!
Do peito que rasguei saem os meus ritmos!
São os gemidos da terra em suas mensagens,
e os vômitos do povo em suas angústias:
– um Canto do Noroeste, um CANTO ACREANO,
num canto da Fronteira, um CANTO LIVRE!


CANTO DE NÚPCIAS
Océlio de Medeiros

Fui buscar nas constelações as mais lindas estrelas
para o meu manto de mago.
Fui buscar nas felpudas nuvens os macios chumaços
para fazer teu colchão.
Fui buscar no firmamento os retalhos mais azuis
para fazer teu lençol.
Fui ao fundo do mar buscar os mais suaves musgos
para o teu travesseiro.
Trouxe à superfície calma do oceano as ondas
para balançar teu sono.
Retirei da garganta dos uirapurus o canto
para eu te fazer dormir.
É da seda das brumas o teu véu de noiva, que eu
costurei com finos fio do luar desfeito.
Era da alva corola das orquídeas raras a tua grinalda
de pétalas que eu tirei sorrindo.
Por fim pedi à noite um pouco do seu escuro
para envolver a alcova de sutil penumbra.
Pedi ao tempo que parasse nesse instante
e o tempo parou,
parou,
parou,
até que amanheceu.

* * *

Eu sem meu manto de mago,
E tu despida de brumas,
Nós dois como crianças num colchão de nuvens,
num lençol de algas, nossas cabeças sonhando sobre
musgos.
E ambos despertamos para a vida!

Rio Branco, 1971


O QUE RESTOU
Océlio de Medeiros

O nosso velho amor!... Que está restando agora
de mim, de ti? De mim, a bronzea enrijecida
apolínea figura que se foi na aurora
do teu ventre exraizada em nossa despedida?

O nosso velho amor!... Que está restando agora
de ti, de mim? De ti, a Vênus esculpida
em curvas de alabastro que eras tu outrora
e cuja carne é agora flor emurchecida?

O que restou de mim, de ti, – quando é sumida
a libido do corpo à arrefecente idade –
restou em ti e em mim, é o que restou da vida...

São cinzas, nada mais, do amor da mocidade,
e na nossa quaresma onde o passado é a ermida
o coração só tange os dobres da saudade...

Rio Branco, 1974


ACRE: VOLTA À VIDA SIMPLES
Océlio de Medeiros

O meu caleidoscópio é o pensamento,
que imagens do Acre forma em minha mente:
é o rio que dobra um porto lamacento...
é o barranco... é a floresta... é a minha gente...

Mas sinto mais sua falta no momento
em que a gente por algo se ressente:
por qualquer coisa brigo, me apoquento,
e um nada faz ferver meu sangue quente!...

Meu corpo é a Terra do Acre enrubescida
na luta dos meus pais e antepassados...
é o povo... é a sua borracha... é a sua lida...

Por isto do Acre sinto impregnados
meu sangue, minha carne, minha vida
e o tempo em que fui gente em dias passados...


OLHANDO O RIO
Océlio de Medeiros

No alpendre, em minha casa, à tarde quente,
à sombra da mangueira que deleita,
costumo olhar o rio descendo em frente
e que lembra uma estrada liquefeita...

O rio suave escorre o suor plangente
do fim crepuscular, que a tarde enfeita:
suas águas passam, como passa a gente
na vida, que é ilusão em rio desfeita.

No leito do destino se desfia
cada vida, descendo em sua corrida
para a morte, que é o fim da vã porfia...

Águas rolando são a nossa vida,
que é como um rio correndo noite e dia,
e nunca volta ao ponto de partida...


O POVO ACREANO
Océlio de Medeiros

Sarapatel de tipos diferentes,
de raças e de sangues,
panelada da terra,
buchada ou maniçoba,
procede o povo do Acre da violência
da conquista da selva,
do domínio dos rios,
da ambição, da aventura.
Dos quatro cantos vieram várias levas
dos homens sem mulheres,
nortistas, nordestinos,
heróis do Paraguai,
foragidos do horror da Cabanagem,
da guerra de Canudos
e da maior das secas,
desde o devassamento.
Dos quatro cantos vieram logo atrás
dos homens da borracha
as caboclas e as brancas
para a rede das índias.
Os brabos e as mulheres que o seguiram,
as Donas do Ceará
e as Sinhás do Pará
abriram seringais.
Depois, quando a borracha foi pneu,
“polacas” foram polens,
sementes e matrizes,
que criaram raízes.
Foi assim que nasceu da descendência
da gente aventureira
o povo da fronteira
do noroeste acreano.
Nasceu mamando leite de seringa
e comendo borracha,
guerreando a Bolívia
e quebrando castanha.

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REFERÊNCIAS:
MEDEIROS, Océlio de. Só Sonetos – feixe I. Brasília: MacPaper Gráfica, 2005.
--------------------------------. Jamaxi: A Poesia do Acre. Rio de Janeiro: Arquimedes Edições, 1979.
--------------------------------. Cantos Guerrilheiros. Brasília, 1974.
---------------------------------. Após os balaços, baladas para Chico Mendes. Brasília: ME PLANALTO, Prosa e Poesia, Editora.