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terça-feira, 14 de abril de 2015

Série CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE DJALMA BATISTA

HOMENAGEM AO DR. ASSIS VASCONCELLOS PELOS ESTUDANTES ACREANOS DA CAPITAL AMAZONENSE


Das homenagens que foram prestadas ao Dr. Assis Vasconcellos, honrado Interventor Federal do Acre, quando de sua passagem pela capital amazonense, destacamos a que foi feita pelos estudantes acreanos, da qual foi orador oficial, o inteligente seabrense – Djalma Accioly da Cunha Batista, cujo vibrante discurso publicamos abaixo:


“Sr. Interventor Assis Vasconcellos.
A mocidade estudantil acreana, em Manaus, vem trazer-vos as mais expressivas e sinceras homenagens.

Na vossa pessoa de lutador em prol de nossa terra gloriosa e querida, para cujo governo interventorial foste em boa hora escolhido, escarna-se neste momento, todo o nosso Acre, que está esquecido, mas nunca, jamais derrotado.

A epopeia verdadeiramente heroica que culminou com o 17 de Novembro de 1903, quando o gênio de Rio Branco, o imortal chanceler, fez valer os direitos do Brasil à região acreana, no tratado de Petrópolis, essa epopeia não foi senão o prólogo de outra que se processou nestes trinta anos que se sucederam.

A nossa história, portanto, tem no Acre uma fonte de heroísmo e de glórias. Para a imortalidade, foi lá que ecoaram por todo o Brasil, os nomes e os feitos imarcessíveis de Plácido, o caudilho indomável e invencível; de Antunes Alencar, de Clínio Tavares Brandão, de Francisco Mangabeira, de Epaminondas Jácome e de tantos outros. O desbravamento do rincão mais moço do Brasil é outra página fulgurante no desenrolar da nossa civilização.

Descendentes que somos desse pugilo de bravos, nós também nos capacitamos nas maravilhosas pugnas pelo saber, para continuarmos amanhã a obra que os que mourejam no Acre realizam com coragem, denodo, patriotismo e sacrifício.

O vosso encontro com a autoridade suprema do país, o Sr. Presidente Getúlio Vargas, dentro em breves dias, faz descortinar um horizonte muito amplo, límpido e estrelado para a nossa gleba.

O Acre não pede favores.

Reclama o que tem direito.

Que o governo federal nos proporcione algo dos milhões que arrecadou proveniente da nossa borracha, da nossa castanha e dos nossos outros produtos, para que possamos reerguer, mostrar que no Acre há possibilidades e há realizações.

De que nos serve o Acre como está, com um governo sem a necessária independência de ação, que só a autonomia pode dar; com insignificantes doações orçamentárias?

Precisamos de navegação eficiente e acessivo; precisamos de braços novos, de corrente migratória intensas, de quem vá, garantido pelo poder público, como se fez nos Estados do Sul, explorar as nossas riquezas, amanhar o solo, agricultar as nossas terras, desenvolver a pecuária; precisamos de médicos, de higienistas, de remédios para o saneamento da região e a fim de que, restaurando o físico, seja levantado o moral de nossa gente; precisamos de técnicos que venham organizar as nossas indústrias; precisamos de escolas e de ginásios para que neles os acreanos se instruam e se eduquem suficientemente, dilatando a sua visão, que só o contemplar da imensidade das nossas selvas, torna limitada, estreita; precisamos, sobretudo, salvar a borracha, manufaturando-a aqui mesmo para o abastecimento do Brasil e desafixia do nosso comércio honrado.

Tudo isso vós o sabeis, há de se fazer mais cedo ou mais tarde. O Acre há de ter a sua autonomia, há de receber o que lhe é devido; há de solucionar todos os problemas de magna importância.

A mocidade estudantil acreana, em Manaus, tem certeza, porém, que sabereis defender o Acre e o seu povo, está convicta que conhecereis precisamente as nossas necessidades.

E por essa razão vos considera talhado para pleitear e conseguir do Sr. Presidente Getúlio Vargas, tudo que o Acre precisa.

Aceitai, portanto, os nossos saudares, com a expressão verdadeira e eloquente da nossa afeição, da nossa amizade e do nosso amor para com a gleba em que se nos descerraram as pálpebras no primeiro momento de nossa existência, e como o testemunho espontâneo, e sincero, do nosso respeito, da nossa admiração e da nossa solidariedade com a pessoa do preclaro e digno Interventor Assis Vasconcellos.

Jornal A Reforma, 22 de outubro de 1922 (Num. 733, Ano XVI)

quinta-feira, 5 de março de 2015

MÚSICA E POESIA

Djalma Batista (1916-1979)


Vale a pena assinalar, neste final de ano, que a poesia e a música tiveram uma rentrée auspiciosa em nossa capital.

Nada menos de cinco poetas estrearam em livro. E quando os poetas falam é preciso escutá-los, porque lhes pertence o segredo das previsões e por eles bradam os anseios coletivos.

A música, por seu turno, que de há muito se refugiara na garganta dos uirapurus e dos rouxinóis do rio Negro, ressurgiu triunfalmente, com o concerto recente do Coral João Gomes Júnior e da Orquestra Sinfônica do Amazonas, em organização.

Saudemos, quanto merece, o surto artístico, que representa, de certo, o prenúncio de melhores dias para a vida da inteligência no Amazonas!

Nunca nos faltaram poetas, e bons poetas, valendo citar, dos mais novos, Sebastião Norões, Oseas Martins, Áureo Mello, Djalma Passos e aquele inditoso Paulo Monteiro de Lima. Muitos outros existem, e aparecem constantemente nos suplementos domingueiros, mostrando que a chama tem estado sempre viva.

Não tínhamos tido, porém, o lançamento em livro de tantos quantos os deste ano, iniciando com os voos impressionantes do Pássaro de Cinza, de Farias de Carvalho, que é um artista inspirado, seguido pelos poemas de Antisthenes Pinto, em Sombra e Asfalto.

O que mais me impressionou foi a floração de uma autêntica poesia de maturidade, nos livros de Edmundo Canamari; Benjamin Sanches e Raimundo Ramos Coelho. Amigo dos três, que são todos de minha geração, não lhes conhecia as tendências poéticas e me regozijei deveras com a sua revelação, por traduzir aspectos que exaltam mais ainda a personalidade de cada um deles: Canamari, homem de estudos sérios e bem orientados; Sanches, industrial e comerciante devotado aos seus labores; Coelho, servidor da Justiça, fiel ao seu ofício, por uma herança honrosa.

Não seria justo dizer que os poetas estreantes são grandes e notáveis: não sou crítico literário, e abomino os elogios gratuitos e imoderados. Não seria justo, também, negar-lhe o mérito, denunciando esquírolas porventura existentes nos trabalhos divulgados.

Sou um homem sensível à beleza, e pude me comprazer com enleantes versos de Folhas d´alma, Argila e Vereda de sonhos, além dos dois volumes a que me referi anteriormente. Encontrei, neles, momentos de alta poesia, revelando uma inspiração que me emocionou e comoveu. E não há poesia onde falta a emoção.

Canamari verbera contra o “mundo estranho, sem flores e sem poesia... de angústia e tirania...”. É o tema social, preocupação de nossa época. Sanches, ao evocar os Sargaços, fala de “Gosto na mucosa do pensamento, – como saber de ontem que foi amanhã...”.

Pinto, na sua serenidade, acredita na Mãe eterna: “A mão que sinto – hirta sustém o mundo”. Coelho, que é legitimamente um passional, celebrando A Chuva, acha que “as gotas na janela, rutilando – lembram colar de lágrimas caídas – dos olhos tristes de u´a mulher chorando...”. Farias, na largueza de suas imagens, considera as mãos de Neruda “como pétalas da rosa branca universal da paz!”.

Repito: os poetas são precursores. Depois deles virão os romancistas (onde estão os fixadores da vida na Amazônia, que não publicam os seus romances?).

Temos tido, na verdade, na literatura regional, principalmente escritores descritivos e ensaístas. Precisamos urgentemente dos criadores.

 o –

O que conseguiu, na noite de 23, no Teatro Amazonas, o maestro Nivaldo Santiago raia pelo milagre. Um grande coral, de quatro vozes mistas, e conjunto sinfônico, numa terra onde o estudo da música entrou para os currículos escolares, mas saiu do coração do povo, deram ao numeroso público que felizmente lá ocorreu a estranha sensação de que algo de novo e surpreendente estávamos assistindo!

Também não vou cair no louvor desmedido, mas é impossível calar diante daqueles artistas em potencial, que o maestro Santiago reuniu, estimulou e disciplinou. Houve números de uma beleza penetrante, como a Marta, de Moises Simons, que teve como solista Pedro S. Amorim, acompanhado pelo Coral e pela Orquestra.

A senhora Manoela Araújo tem uma voz melodiosa e cantou trechos de responsabilidade, com grande sucesso, agradando de verdade. Duas sopranos, inteiramente desconhecidas como tal, as senhoritas Francisca Bandeira e Cleomar Feitosa, se revelaram. Sobretudo o conjunto de vozes e sons foi a grata surpresa da noite que bem poderia ter sido de grande gala.

Estou certo de que a iniciativa de alto sentido artístico do maestro já não poderá fenecer. O povo julgou-a e lhe deu a consagração de suas palmas, que representam compreensão e solidariedade. O governo, que não é mais que um instrumento do povo, obedecerá à sua imposição, dando ao Coral e à Orquestra Sinfônica o apoio material de que precisam.

E o sonho de um amazonense idealista, que estudou na Itália, lutou em São Paulo, deixando tudo pela terra natal, já está sendo uma autêntica realidade a música, a divina música, que Carlos Gomes semeou em Belém e Joaquim Franco em Manaus, voltou a fazer parte do espírito da planície.

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Bendito ano de 1957, que se encerra com música e poesia!


Artigo escrito por Djalma Batista no final de 1957 (O Jornal, 23 dez.) saudando as artes. E louvando igualmente os homens e as mulheres que galhardamente as produziam. (Blog do Coronel Roberto)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

DJALMA DA CUNHA BATISTA

Djalma Batista, então presidente da Academia Amazenense de Letras, recebe cumprimentos do governador do Amazonas Danilo Areosa. (Foto: Blog do Coronel Roberto)










DADOS PESSOAIS
Nascido em 20 de Fevereiro de 1916, em Tarauacá, Acre.
Filho de Gualter Marques Batista e Francisca Acioli da Cunha Batista.
Casado com Gilda Lomongi Batista.

FORMAÇÃO
1. Curso primário no Grupo Escolar João Ribeiro e no Colégio São José, em Tarauacá, Acre.
2. Curso secundário no Colégio Dom Bosco, em Manaus (1929-1933).
3. Curso médico na Faculdade da Bahia (1934-1939).

VIDA UNIVERSITÁRIA
1. Interno no Sanatório São Jorge, da Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Ferroviários do Leste Brasileiro, Bahia (1936-1938).
2. Interno, por concurso de provas, da 1.a Cadeira de Clínicas Médica da Faculdade de Medicina da Bahia (Serviço do Prof. Armando Sampaio Tavares) – (1939).
3. Assistente do Laboratório de Pesquisas Clínicas do Prof. Jorge Leocádio de Oliveira, Bahia (1939).
4. Orador oficial da Sociedade Acadêmica Alfredo Brito (1938).
5. Orador da turma de médicos de 1939.


BATISTA, Djalma da Cunha. O Complexo da Amazônia: análise do processo de desenvolvimento. Rio de Janeiro: Conquista, 1976. p.13

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

HOMEM, AMAZÔNIA E ECOLOGIA: A CONTRIBUIÇÃO DO PENSAMENTO DE DJALMA BATISTA

Isaac Melo


Pode-se, sem falso louvor, situar Djalma Batista entre os grandes estudiosos amantes da Amazônia; um amazonófilo, utilizando-se, aqui, da expressão cunhada por Gilberto Freyre para se referir a Leandro Tocantins. A ecologia, posteriormente a integrar as ciências ecológicas, passou a ganhar feições próprias, como ciência, a partir do século XIX, adquirindo expressiva força na década de 1960, com o advento dos movimentos ambientais. Apesar de ser alvo de estudos desde tempos remotos, como os desenvolvidos, na Grécia antiga, por Hipócrates e Aristóteles, referentes à história natural, só mais recente o nosso “grande lar” passou a ser objeto de atenção e estudo científico.

A Amazônia, enquanto grande reserva natural do planeta, desde a lenda das amazonas, propagada pelo relato de Frei Gaspar de Carvajal, em 1542, sempre atraiu sobre si a curiosidade exploratório-científica, sobretudo nos séculos XVIII e XIX, exemplificada, entre outras, pelas clássicas expedições naturalistas de La Condamine (1735), Alexandre Rodrigues Ferreira (1786), Martius-Spix (1817-1820), Bates-Wallace (1848), Agassiz (1865-1866). Inicialmente a natureza exercia o predomínio sobre o fator humano. Aquela era maior do que este, e o absorvia. Daí a expressão de Euclides da Cunha, em princípio do século XX, inebriado pela grandiosidade da selva frente ao homem: “O homem, ali, é ainda um intruso impertinente”. Porém, com o aumento do fluxo humano, entre outros, proporcionado pela migração, somado ao aperfeiçoamento da técnica que permitiu desenvolver novas tecnologias, a Amazônia passou a sofrer considerável impacto sobre o seu meio natural. O que antes parecia ser inviolável, indobrável, mostra-se um complexo sensível às intervenções humanas desmedidas. A Amazônia passa então a necessitar ou a exigir uma ética que regule e oriente o agir humano sobre ela. A ecologia ou as ciências ecológicas vem colaborar, nesse primeiro momento, para tal reflexão, ao conceber o homem em interação com toda a biosfera.

Djalma Batista (1916-1979) encontra-se entre aqueles que vem colocar a Amazônia na grande pauta da reflexão nacional e mesmo internacional, num momento em que a própria Amazônia passa a ser alvo da cobiça internacional, frente ao descaso governamental brasileiro, que, pode-se afirmar, não sabia como integrá-la ao restante do país. Cientista, pesquisador, escritor, literato, homem de profunda cultura, Djalma, arguto nas observações e rigoroso nos registros, distancia-se do pensamento romantizado acerca da Amazônia para lançar um olhar mais acurado e crítico, com embasamento científico, às grandes questões que se apresentavam à complexa realidade amazônica.

Médico formado pela famosa Faculdade de Medicina da Bahia (1939), quando de seu retorno à Amazônia, aos 23 anos, lança-se ao estudo dos diversos problemas que assolavam a região, entre os quais, as doenças tropicais, a hanseníase e a tuberculose, onde alcança resultados notáveis. Quando mais adiante assume a direção do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), de 1959 a 1968, irá reclamar a necessidade do desenvolvimento tecnológico da região aliado ao desenvolvimento cultural de seus habitantes.

A Amazônia de Djalma ainda é, em grande parte, desconhecida cientificamente, por isso ele afirmava que “a Amazônia, se não é o infinito, é pelo menos o indefinido” (2003, p.65), por isso a necessidade de pesquisadores para descerrar o ‘véu de Ísis’ que envolvia a região, hoje, em parte, desnudada pelos modernos satélites que exibem, com precisão, detalhes dos lugares mais remotos da planície amazônica. Por isso afirmava que a natureza amazônica não estava suficientemente conhecida e estudada, o que ainda persiste.

Djalma não encarava a Amazônia segundo os critérios tradicionais da geografia física, política ou continental, mas a partir da geografia humana. Logo percebeu o ponto nevrálgico da ocupação amazônica. Para ele, toda a história da Amazônia tinha sido, até aquele momento, uma colonização desorganizada, em que a produção extrativa era a base de todo erro estrutural da economia, devido sua condição arcaica. Compreendia que todo o processo de ocupação tinha sido uma aventura, a serviço de empreendimentos mercantis, que começaram desde a primeira hora. “A ocupação da Amazônia, nos moldes de uma política meramente imediatista, é propriamente um crime”, ressaltava o cientista (cf. 1976, p.128).

Acerca do boom gomífero, a borracha, Djalma afirmava que esta era o verdadeiro símbolo da Amazônia, contemporaneamente, cujas oscilações constituiram o fluxo e o refluxo das marés sociais e econômicas. Entrevia, no entanto, a transposição desse símbolo para o rio, em perene movimento, sempre adiante, a insinuar, a exemplificar, a impor a atividade. Hoje diríamos as rodovias, e mesmo, o transporte aéreo. Segundo ele, o alvorecer promissor de um ciclo de cultura na Amazônia, proporcionado pela borracha, não correspondeu totalmente à expectativa, pois, na economia permanecemos sempre extrativistas e predatórios, e não principiamos sequer a construir uma economia no sentido capitalista; na alimentação, deixamos os enlatados, porém, continuamos a receber quase tudo de fora, o que poderia ser cultivado em nossas terras; o comércio em geral ainda não era comércio, mas puro escambo, troca de mercadorias por gêneros. Além disso, a condição de vida do povo, em geral, não havia progredido.

O resultado da época do fastígio, a toda a Amazônia, segundo Djalma, teria sido um certo quê de novo-rico, ou de aristocrata arruinado, que levou a exibicionismos e exteriorização muito além das reais possibilidades do meio. Da saga da especiaria aliada à exploração gomífera surgiu um sacrificado, ao mesmo tempo herói e mártir, que era o homem, em cuja defesa Djalma se colocava intransigentemente. Por meio da defesa à natureza, ele chegava à defesa do homem transposto àquelas paragens. Por isso, o pensamento djalmiano se contrapõe a do ‘homem impertinente’, de Euclides da Cunha. Assevera Djalma: “Reanimando o habitante da Amazônia, através da educação, enquanto a paisagem seja defendida, é preciso aprender a tirar, do que a terra possui ou pode dar, com a aplicação de novas técnicas e de nova orientação, as vantagens e os privilégios que não soubemos ou não pudemos até agora valorizar” (1976, p.101). A floresta não é uma redoma de cristal, de aura intocável, ela poder ser manejada de forma racional em favor de seus habitantes. É possível desenvolver, preservando.

Diferente de certos ecologistas radicais hodiernos, para Djalma a floresta não deve constituir uma barreira ao desenvolvimento da Amazônia, mas ser considerada um dos mais preciosos recursos. O que tem de se criar, afirmava o pesquisador, são bases econômicas realmente estáveis, simultâneas a bases culturais, que permitam o progresso da terra e representem boas condições para sua gente, sem que se destruam as potencialidades da terra e sem que o homem seja tentado a emigrar por se sentir abandonado e sem horizontes (cf. 1979, p.291). Lição que ainda não foi assimilada de toda. Depreende-se assim, que o desenvolvimento do homem amazônico encontra-se sempre atrelado à preservação da floresta. Por isso era categórico em afirmar: “é preciso de qualquer maneira defender a ecologia amazônica” (1979, p.25).

A preservação da floresta se conjugaria com o desenvolvimento cultural do povo. Djalma atacava o subdesenvolvimento cultural como um dos principais problemas da Amazônia a ser superado: “O que sei é que o importante, na Amazônia, é preparar o povo para procurar suas próprias soluções, criadas pela experiência de seus homens devidamente esclarecidos e amadurecidos, sem cópias nem modelos alienígenas” (1976, p.213). É claro que numa reflexão atualizada, o subdesenvolvimento cultural, apesar de não está superado, poderia ser substituído pelos grandes latifúndios agro-pecuários que devastam e dominam, rápido e assombrosamente, grandes áreas na Amazônia. Por isso Djalma pregava a necessidade de se criar uma consciência da importância da natureza amazônica, que deve ser conhecida e amada, para poder ser defendida na sua ecologia, isto é, nas relações que os seres têm de guardar entre si, partindo do homem, que é o comandante lógico de todo o processo transformador.

A educação assume um lugar de destaque no pensamento djalmiano. A cultura amazônica declinava, afirmava ele, pois havia se chegado a um nível de cultura muito baixo. Por isso os seus esforços, para o estudo do “complexo amazônico”, de formar pesquisadores locais, acrescidos aos de fora, enquanto esteve à frente do INPA. Essa pobreza generalizada, agravada pelo isolamento, teria suas raízes na ausência, pouca oportunidade ou má orientação da educação, e, consequentemente, subdesenvolvimento psicossocial ou sóciocultural. Portanto, para ele, a solução estaria na educação, que levantaria o nível cultural da população, dando-lhe novos horizontes, com a valorização do trabalho e novas perspectivas de vida, que deveria ser boa e digna, em qualquer lugar; estaria também na criação de novas condições econômicas, reduzindo o extrativismo a um número suportável pela natureza, sem que esta se desgastasse de modo ameaçador como estava acontecendo (cf. 1979, p.90), e prossegue até hoje.

A cultura, a que se chegaria pela educação, seria um forte fator para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da humanidade: “Estou convicto de que só há uma força, hoje, no mundo, capaz de sustentar os ideais supremos de Liberdade, de Justiça Social e de Paz: é a cultura” (2003, p.97). Djalma prosseguia afirmando que a memória, o raciocínio, a imaginação, o espírito crítico, dependem de exercício, treinamento e estímulo: só eles poderão conduzir à ciência, à arte, à criação literária, à filosofia, ao domínio das ideias e dos fatos, isto é, à cultura, como o patrimônio espiritual de um povo. Ainda acrescentava que essa civilização só poderia surgir de um movimento de cima para baixo, isto é, do homem de estudo para a massa, e com a elevação gradual desta, através de uma sistemática e eficiente divulgação do saber. Se não havia pesquisadores e cientistas, então o que se devia fazer era formá-los. Por isso ele propunha, em primeiro plano, a organização de uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Como homem de letras, chegou mesmo a expressar: “Precisamos, enfim, de poetas, de muitos poetas na Amazônia, que eternizem no verso os anseios e os sentimentos do povo” (2003, p.94). É incomum ouvir apelos assim vindos do meio científico. Mas Djalma era um devoto do homem diante do altar da natureza.

Acerca da criação de um possível Centro de Estudos Amazônicos, em tom quase poético, Djalma se deleitava com a ideia que este só lhe podia trazer o concurso, inútil porque vazio, despretensioso porque sincero, de sua mocidade, formada no culto devocional e no amor afervorado pela terra e pelo homem amazônicos: terra feiticeira e boa, portentosa e triste, que encerra o futuro da humanidade no seu seio carinhoso – no recesso ignoto de suas florestas, onde corre a seiva fecunda de uma botânica intrincada e nova, e toda uma zoologia que assombra e fascina; na trama vascular de seus caudalosos rios; no sistema nervoso de suas cidades, vilas e povoados, vibrando ao toque mágico de suas convulsões potâmicas, geológicas e econômicas (cf. 2003, p.12).

Naquele momento crítico da história brasileira, em que o governo militar passou a incentivar a ocupação da Amazônia, Djalma alertava: “Não basta para o Brasil a posse física da Amazônia, urge recuperá-la para a economia e criá-la para a cultura brasileira” (2003, p.94). Isso não queria dizer uma ocupação desorganizada e uma exploração predatória, pois o que mais o impressionava constantemente naquele momento era o desmatamento desmedido, contra o qual ergueu sua voz veementemente. Por isso ressaltava que tudo nos cumpre fazer para defendê-la, e, defendendo-a, desenvolvê-la. Considerava uma estultície pensar em reduzir toda a riqueza amazônica a dinheiro, porque, em troca dele, teríamos o deserto. Além disso, a floresta comporta valor em si mesmo. A grande esperança continuava sendo, entretanto, o despertar da consciência ecológica, assegurava.

Por fim, decorridos mais de três décadas da publicação de sua principal obra, O Complexo da Amazônia (1976), e de seu falecimento (1979), seu pensamento ainda permanece uma verdade que não se esgotou e um testemunho que não envelheceu. Um homem que levantou ardorosamente a bandeira da preservação da Amazônia, num momento em que pouco se falava ou se conhecia em relação à ecologia. A Amazônia persiste a necessitar de outros Djalmas capazes de ir além de sua época, na busca de solução e empreendimentos que ajudem cada vez mais a garantia de todos ao bem supremo da vida, numa era em que esta se vê constantemente ameaçada. Que a memória de Djalma Batista não se reduza a nomes de avenidas e escolas, mas ganhe a consciência dos homens, de quem foi defensor intransigente, pois “asseguro que nada mais sou que um dos que muito desconhecem a Amazônia, pertencendo, no entanto, ao grupo dos que almejam entendê-la e defendê-la”. O que fez de modo ímpar.


REFERÊNCIAS
BATISTA, Djalma. O complexo da Amazônia: análise do processo de desenvolvimento. Rio de Janeiro: Conquista, 1976.
BATISTA, Djalma. Amazônia, Cultura e Sociedade (Org. Tenório Teles). Manaus: Editora Valer, 2003.

quinta-feira, 12 de março de 2009

DJALMA BATISTA E A MEDICINA


"É tarefa honrosa, emotiva e portanto difícil abordar a face médica, a meu ver a mais eclética da formação do Djalma da Cunha Batista. Neste ciclo de palestras onde a Fundação que leva seu nome o homenageia nos 80 anos de seu nascimento, pensei cumprir esta minha parte, a última do ciclo, começando pela análise da conjuntura política, econômica e social da década de 30, quando ele iniciava seu curso médica na Faculdade de Medicina da Bahia(...)

(...)O que o motivou a ser médico? Era importante que eu iniciasse pelos porquês e buscasse entender sua vida médica dedicada à Amazônia e aos amazônidas(...)

(...)Djalma Batista durante o curso médico se destacava dos colegas quando exercia funções técnicas peculiares do Curso. Internato no Sanatório São Jorge pode tê-lo iniciado na compreensão e compromisso do combate à tuberculose(...)

(...)Assim, o marco referencial que busquei ter acesso para entender e falar do médico que foi Djalma da Cunha Batista não poderia ser outro senão o seu Discurso de Formatura. Escolhido no meio de tantos, de diferentes origens e procedências, o acadêmico finalista de Medicina, da turma de 1939, com apenas 23 anos de idade, fez um disco de formatura intitulado Medicina e Estética, que se consituiu em sua primeira obra literária(...)

(...)Ao retornar aos 23 anos, o Dr. Djalma Batista funda em 12 de fevereiro de 1940, o Laboratório De Patologia Clínica que traz o seu nome, hoje com 56 anos de bons serviços prestados aos doentes do Amazonas.

(...)O reencontro com o amigo da adolescência Moura Tapajós, agora médico vinda escola de Octávio de Freitas no Recife, cimenta uma profunda convivência com base em respeito mútuo e no idealismo contagiante.

(...)É a convite de Moura que Djalma começa a militar na Liga Amazonense contra a Tuberculose (fundada em 1932)(...)

(...)Com o retorno dos jovens médicos e o crescimento galopante da "peste branca" (assim chamava-se a tuberculose), Moura Tapajós e seu grupo fundam em 31.07.1939 o Dispensário Cardoso Fontes(...)

(...)A partir desta base definitiva e contando com melhores e mais especializados recursos humanos, o Dispensário se desenvolveu com o "Ateneu Clemente Ferreira", um Centro de Estudos que Djalma assim definia: "é uma escola de disciplina mental e profissional e de incentivo espiritual, em que todos são mestres e discípulos fraternalmente, compreensivamente"(...)

(...)Todo este trabalho de quase 20 anos não lhe mudaram a modéstia e a humildade. "Não sou tisiólogo, apenas afeiçoado entusiasta da especialidade, sobretudo da parte social da tisiologia. O que se fizer não em meu benefício pessoal, nem me trará glórias, a que não aspiro, certo, com Anatole France, de que a glória é a mais funesta e a mais ridícula das ilusões de um cerébro doente"(...)

(...)Depois da atividade em tuberculose, o Dr. Djalma Batista foi o médica de família e dos doentes da Santa Casa que tinha certa de 30 leitos(...)

(...)Somente quando eu tomei consciência de que as perdas desses homens sabios àquela altura não eram somente dos cargos, mas de suas próprias vidas, pude perceber claramente que aqueles que tinham o "lado" bem definido, que estavam ombreados com os desvalidos, que pensavam o bem comum, "estavam subvertendo a ordem estabelecida" e deviam ter seus caminhos cortados. Tempos de chumbo! Como e quanto perdermos com eles! Penso que Djalma Batista começou a morrer com esta perda, com estes tempos.(...)

(...)Apesar de tudo isso, chegou o momento de nos encontrarmos no espaço que percebí ter sido sua grande realização: a Faculdade de Medicina. Educar as gerações, socializando o imenso conhecimento acumulado, lecionando Patologia Clínica. O meste nos ensinou, com a paciência do sábio que desvalorizava nossa ignorânci e alienação(...)

(...)Quando após uma de suas aulas, ele me destacou dos outros alunos e me convidou para estagiar em seu laboratório de patologia clínica, estava me abrindo um espaço que não só mudou a minha vida, mas me fez olhar o mundo sobre outro prisma(...)

(...)Hoje, o que mais nos tem entristecido além da saudade que sentimos dele, é revermos o quadro nosológico brasileiro se agravando com a volta das endemias medievais como a cólera, das viroses que nem conhecemos, ou da tuberculose que volta a ter a força da "peste branca"da década de 40"(...)

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(Trechos da palestra do Dr. Marcus Luiz Barroso Barros, proferida em 29.02.96, no Auditório da Faculdade de Ciências da Saúde).
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