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sábado, 21 de dezembro de 2013

sábado, 14 de dezembro de 2013

A voz de CHICO – O MENDES

Regina Amélia D’Alencar Lino


Em uma casinha coberta de palha de paxiúba e assoalho de madeira bem limpinho, numa madrugada de muita chuva,  mês de fortes temporais, ecoou um choro de vida pela densa floresta amazônica, quando dona Iraci Lopes Mendes, juntou toda a energia que lhe restava para dar à luz  Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes. Era 15 de dezembro de 1944, no Seringal Porto Rico, na Colocação Bom Futuro, no pequeno município de Xapuri, localizado no meu amado Acre.

Quando a notícia de seu nascimento se espalhou entre os raros e distantes vizinhos, ouvira-se os comentários: "É menino homem, nasceu cabeçudo e zoiudo, coisa de gente inteligente."

Chico cresceu e se criou como todas as crianças dos seringais acreanos. Arrastava-se pelas tábuas lisas de sua casa na fase de engatinhamento, marcara seus pézinhos na poeira do quintal varrido pelos galhos da palmeira do açaizeiro; mamava nos seios de sua mãe; comia bolinho  "capitão" feito de arroz, feijão e farinha, amassados com as mãos; pulava de galho em galho nos pés de manga, graviola, se fartando de seus frutos, além de biribá, genipapo e banana. Entretia-se com os irmãos construindo os brinquedos com sucatas, bichinhos e bola de látex; banhava-se nos rios e igarapés; subia no pau de sebo; apreciava o deslizar das cobras; a caça da capivara que lhe servia de alimento; a pesca do mandim; o sabor da macaxeira bem quentinha derretendo em sua boca, da tapioca, do cuscuz e do açaí.

Com tudo isso,  a vida no seringal era muito dura, e por essa razão, desde a mais tenra idade, Chico começara a trabalhar e aprendera com seu pai Francisco Alves Mendes, o ofício de seringueiro. Dessa forma, amar e respeitar a floresta, fonte de sobrevivência para sua família, fora uma das primeiras lições apreendidas por Chico  criança. Assim, enquanto dona Iraci, sua mãe, ocupava-se dos cuidados domésticos e da criação dos filhos menores, ele saia cedinho, de madrugada, calçando os sapatos de seringa, com seu genitor, para colher o látex das seringueiras nativas, as castanhas do Pará, fonte de proteína, produzida por uma das mais majestosas árvores  que existem, a castanheira, e tudo mais que a floresta lhes ofertava.

Nos seringais, lugares longínquos, raramente havia uma escola e por essa razão, Chico Mendes aprendera a ler  por volta dos 19 e 20 anos, lições ensinadas por Euclides Távora, um comunista cearense que participara do levante comunista de 1935 e da Revolução de 1952 na Bolívia. Ao retornar para o Brasil, Euclides decidiu fixar residência em Xapuri, por ser próxima à fronteira boliviana, e, ao conhecer Chico se propôs  alfabetizá-lo.

O conhecimento das letras, lhe dera a oportunidade de compreender melhor o universo em que vivia, ampliando-o de tal forma, que ao conhecer novas realidades, fez corretamente a leitura de códigos antes indecifráveis, tornando-se além de seringueiro, sindicalista, ativista ambiental, vereador em Xapuri pelo MDB, e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores em seu município.

Chico poderia ter tido outro destino, se, em seu DNA, não carregasse características que normalmente marcam a personalidade dos líderes: consciência, indignação, compromisso e coragem para lutar e se opor a exploração e manipulação da classe dominante, e se Euclides Távora não aparecesse em sua vida. Com carinho afirma Ilzamar: "Euclides foi enviado por Deus. Sintonizava Chico com o mundo, quando ligava o radinho de pilha na BBC de Londres e lhe mostrava os recortes de jornais que carregava em uma pasta aonde falava da ditadura, dos refugiados e com ele questionava como seria a vida daquele momento para frente".

Quando Chico e seu  José Moacir Bezerra, pai de Ilzamar, toda boquinha da noite sentavam para conversar, concluíam que precisavam dar um basta e mudar radicalmente a relação de trabalho que existia entre  o patrão e o seringueiro, pois dentre as barbaridades cometidas, o pai de Ilzamar relatava, por exemplo, que era chicoteado pelos jagunços de seu patrão, quando o contrariava.

Chico ao comandar os "empates" - uma corrente pacífica que os seringueiros faziam com seus corpos, com o objetivo de proteger as árvores da floresta, que estavam sendo dizimadas, provocara a ira de fazendeiros que queriam derrubá-las para transformar a área em pastos para gado e explorá-la a qualquer custo, de maneira predatória, sem considerar os prejuízos que causaria as gerações futuras.  Chico passou a denunciar esses fatos e a contrariar interesses que os levaram a morte.

Quando Chico Mendes foi assassinado, em 22 de dezembro de 1988, o mundo todo ficara estarrecido, perplexo – mesmo tendo sido sua morte por ele  anunciada – pois seu ativismo havia tomado fôlego internacional.

Chico deixou lições e saudades. Algumas do mito, outras, reais e  mais íntimas do homem simples, generoso, sensível, capaz de lutar por uma causa até as últimas consequências.

Um dia, viajando de Brasília para Rio Branco, sentei-me ao lado de sua viúva, Ilzamar Mendes, que à época ainda residia em Xapuri e expressava grande preocupação em relação ao trauma vivido pela família, especialmente por Elenira, sua filha e de Chico por ter presenciado o assassinato do pai.

Contou-me que no dia da morte de seu marido, Chico amorosamente havia sentado no chão da casa – um hábito comum das pessoas que vivem nos seringais e em casas de madeira na Amazônia, em razão do forte calor que faz, para refrescarem-se – com ela e as crianças – Elenira e Sandino –, e como Elenira era maiorzinha, tinha 4 aninhos, disse-lhe as seguintes palavras: "se papai  morrer, quero que você seja valente e corajosa e, quando crescer, estude Direito e defenda os pobres".

Após abraçá-los,  colocou Sandino no colo para tomar banho lá fora, mas Ilza não permitiu que o filho fosse com o pai porque estava muito gripado e lembrou-lhe que havia um balde cheio de água na cozinha para ele tomar banho e não ter que sair também para fora da casa. Ao entregar Sandino nos braços de sua mulher, com a toalha nova jogada nas costas dirigiu-se ao banheiro e foi covardemente alvejado. Quando Ilza e as crianças correram para socorrê-lo,  Chico veio na direção deles cambaleando, momento em que a fumaça de polvóra os cobriu. Ele pedia socorro. Os quatro caíram no chão e sua cabeça no colo de Ilza. Suas últimas palavras foram: a Elenira...

A vida da família de Chico virou de cabeça para baixo. De repente, filhos, inclusive Ângela, a filha mais velha de seu primeiro casamento, e mulher foram subtraídos da maneira mais violenta de sua convivência, deixaram de ouvir seus conselhos, perderam a referência da autoridade paterna, perderam sua proteção, passaram a receber alimentos de amigos para aplainar a fome, sentiram-se fragilizados e amedrontados por toda a repercussão de sua morte.

Na terça-feira, 10 de dezembro, na Comissão de Educação, Cultura e Esporte da Câmara dos Deputados, a deputada Janete Capiberibe PSB-AP, apresentou o PLC 95/2013, projeto que declara Chico Mendes Patrono do Meio Ambiente no Brasil. Segundo a parlamentar, a justa homenagem se dá pela luta de Chico pela preservação da Amazônia e em defesa dos povos da floresta. Após 25 anos de  seu assassinato, os ideais de Chico colocaram na pauta dos governos do mundo a ideia do desenvolvimento sustentável e provocam consciências e instituições, a repensar, sempre, suas relações com a natureza e o meio ambiente.

O choro forte que das entranhas de D. Iraci, uma mulher simples e cabocla, ecoou pela floresta naquele 15 de dezembro, transformou-se em canto, que ao tentarem emudecer, espalhalhou-se por todo o planeta,  tornando-se mais forte.

Ouçam!!! O canto das águas, o canto dos ventos, o canto dos pássaros, do balançar das árvores, é a voz de Chico embalando as florestas.


                                               Regina Lino
                                               dezembro/2013


> Leia aqui outros textos de Regina Lino, socióloga acreana.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A VOZ DA AMAZÔNIA

Quando Chico Mendes fora assassinado, em 1988, eu contava apenas 3 anos, e ainda morava no distante seringal Sumaré, no rio Tarauacá. Hoje, um pouco mais crescido, com um pouco mais de bagagem, a vida desse homem continua a me impressionar profundamente. Os que mitologizam Chico Mendes não o compreenderam. Podemos chamar Chico de um grande homem porque ele foi além de seu tempo dentro de seu próprio tempo. Já sabia o caminho enquanto outros nem se davam conta de que havia um caminho. Homem simples. E uma daquelas raras inteligências que, quando muito, surge de século em século.

Abaixo o documentário Chico Mendes - A voz da Amazônia, da documentarista norte-americana Miranda Smith, exibido no Brasil, em 1989, pela extinta Rede Manchete. É uma das últimas entrevistas de Chico Mendes. Interessante por mostrar alguns dos personagens centrais dessa história, mas que nem sempre aparecem documentados, como então um dos diretores do Jornal O Rio Branco, João Branco, que diz: “Nós combinamos com o Chico que ele teria de morrer entre seis e meia e sete horas, porque o nosso jornal fecha às nove. E ele compareceu ao encontro pra ser morto. O que você acha dessa tese, não é interessante?”

sábado, 22 de dezembro de 2012

ECOOU PELA MATA AFORA...


“Não quero flores no meu enterro, pois sei que irão arrancá-las da floresta. Quero apenas que o meu assassinato sirva para acabar com a impunidade dos jagunços sob a proteção da Polícia Federal do Acre que, de 1975 para cá, já mataram mais de 50 pessoas como eu, líderes seringueiros empenhados em defender a floresta amazônica e fazer dela um exemplo de que é possível progredir sem destruir. Adeus, foi um prazer. Vou para Xapuri ao encontro da morte, pois dela ninguém se livra, tenho certeza. Não sou fatalista, apenas realista. Já denunciei quem quer me matar e nenhuma providência foi ou será tomada. O delegado da PF do Acre, Mauro Spósito, me persegue não é de hoje. E não tenho nenhuma dúvida de que os pistoleiros levarão a melhor por um motivo: o delegado mandou cassar meu porte de arma, sob a alegação de que tenho ligações com uma entidade ‘alienígena’ e ‘comunizante’. É a Fundação Ford, dos Estados Unidos. Veja só.” 

 Chico Mendes
5 dez. 88, em Piracicaba-SP

Chico Mendes foi assassinado, de fato, às 18 horas e 45 minutos do dia 22 de Dezembro de 1988, à porta da cozinha de sua casa, em Xapuri – AC. Além das dezoito perfurações no braço, ele fora atingido no peito direito por 42 grãos de chumbo. 

* A mensagem de despedida de Chico Mendes foi retirada do livro “Chico Mendes por ele mesmo” (São Paulo: Martin Claret, 1992) p.114-115. 

** No vídeo, canta o saudoso e talentoso músico acreano TIÃO NATUREZA.