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terça-feira, 31 de maio de 2011

MARIA - Carlos Heitor Cony

Hoje é o último dia de maio, mês dedicado ao culto (não à adoração) de Maria. Agnóstico, acreditando cada vez menos em Deus e na vida futura, devo justamente à perda da fé a minha ligação cada vez maior com os seres humanos, iguais a mim e a todos nós, que por isso ou aquilo cumpriram uma trajetória inexplicável na terra.

Lenda ou realidade, a história daquela menina-moça, de 15 ou 16 anos, camponesa ou pastora que ficou prenhe de um Deus, seria uma ficção além da capacidade humana.

Na fabulação do cristianismo, sobretudo depois da necessidade de transmitir a boa nova aos povos enraizados no politeísmo, a figura de Maria, com a sua carnalidade, sua assombrosa aventura no imaginário do homem, foi um elo que facilitou a conversão dos gentios. Não haveria gênio literário capaz de criar uma lenda com elementos tão delicados e, ao mesmo tempo, tão extraordinários. A menina-moça, virgem que permaneceria virgem através dos tempos, perdida na pobreza de uma Galiléia rude, foi erguida a protagonista de um auto pastoril cuja beleza varou os séculos.
A seu lado, também magnífico em sua missão, o carpinteiro José, que mereceu dos evangelistas um único adjetivo: era um homem justo. Mais tarde, seria consagrado como “custos pudice virginis”. Queiramos ou não, tenhamos a fé ou a não-fé do agrado ou da conveniência de cada um, a história de Maria e José é a mais bela e comovente de todas as histórias de amor que empolgam a mente humana.

Neste último dia de maio, um maio tão bonito e tão azul, com a luz das tardes dourando a lagoa, eu recordo a emoção dos maios antigos, junto à gruta que padre Cipriano fizera com as pedras que ele roubara de uma obra ao lado do seminário.

E, quando brilhava a primeira estrela no céu de maio, como era bonito o hino que cantávamos em gregoriano: “Ave maris stella Dei Mater alma...”

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CONY, Carlos Heitor. Os anos mais antigos do passado. Rio de Janeiro: Record, 1999.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O SUOR E A LÁGRIMA

Carlos Heitor Cony


Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.

Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante.

O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.

Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.

Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.

E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.

Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.

Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.


* O texto acima foi publicado no jornal “Folha de São Paulo”, edição de 19/02/2001, e faz parte do livro “Figuras do Brasil – 80 autores em 80 anos de Folha”, Publifolhas – São Paulo, 2001, pág. 319, organização de Arthur Nestrovski.
** Crônica retirada do site RELEITURAS.

domingo, 11 de julho de 2010

O MENINO DAS MEIAS VERMELHAS

Carlos Heitor Cony

O nome dele era complicado, passou a primeira semana sem que ninguém o chamasse para brincar. Até que repararam que sempre usava meias vermelhas e ele ficou sendo o “menino das meias vermelhas”. Vivia pelos cantos, quase não falava, quase não existia. Apesar disso, não parecia infeliz. Era apenas solitário: era o Menino das Meias Vermelhas.

Um dia perguntaram: “Menino das Meias Vermelhas, por que você sempre usa meias vermelhas?” Ele respondeu como se não fosse com ele: “No dia dos meus anos, minha mãe levou-me ao circo e colocou-me meias vermelhas. Eu reclamei, com aquelas meias chamaria a atenção dos outros, todos zombariam de mim. Mas ela explicou: ‘É que lá vai ter muita gente, se eu me perder de você, olharei para baixo e será fácil encontrá-lo.’”

E todos os dias lá vinha o Menino das Meias Vermelhas com suas meias vermelhas, com seu silêncio, sua solidão, como se esperasse alguma coisa ou como se tudo já houvesse acontecido com ele. Ninguém dava mais importância ao menino nem às suas meias vermelhas. E era isso o que ele parecia desejar.

Sentava em cima de uma pedra, nos fundos do campo onde os outros jogavam pelada ou soltavam pipas. Até que veio a tarde de chuva e os meninos não puderam jogar pelada nem soltar pipas. Como distração, resolveram provocar o Menino das Meias Vermelhas.

“Você não está no circo! Tire essas meias vermelhas, elas são ridículas!”

O Menino das Meias Vermelhas não ficou aborrecido. Depois de algum tempo, falou, como se falasse consigo mesmo: “Eu vou continuar usando meias vermelhas. É que minha mãe foi embora. Um dia, talvez ela passe por mim em algum lugar, verá minhas meias vermelhas e me reconhecerá.”

O sol apareceu de repente e os outros meninos foram jogar pelada e soltar pipa. 


CONY, Carlos Heitor. Os anos mais antigos do passado. Rio de Janeiro: Record, 1999.