segunda-feira, 10 de maio de 2010

CAPIONGO: ROMANCE DA AMAZÔNIA ACREANA

Isaac Melo


O romancista não é um historiador nem profeta, assevera Milan Kundera, ele é um explorador da existência. É assim que se apresenta José Inácio Filho, um explarador da existência do homem seringueiro em seu Capiongo. Publicado em 1968, no Rio de Janeiro, Capiongo – Romance da Amazônia Acreana é o único romance de José Inácio Filho. Integra a lista dos poucos romances editados fora do estado, num momento de escassas publicações romanescas na literatura acreana.

Na ordem cronológica das obras do autor, Capiongo é seu segundo livro. A estreia foi com Fatos, Cultos e Lendas do Acre, que veio a termo em 1964, composto por 27 narrativas, que vão desde a descrição de algumas lendas regionais a relatos de alguns animais e aves que povoam o imaginário popular pelo seu caráter supersticioso. Termos e Tradições Populares do Acre, de 1969, uma espécie de dicionário que congrega palavras e expressões típicas do Acre, encerrou a trilogia de livros com temáticas acreanas do autor.

José Inácio Filho reside atualmente no Ceará, onde é membro da Associação Cearense de Escritores. Lançou em Junho de 2009, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura de Fortaleza, o livro de poesia "Canta Musa meus Versus e Rimas", obra que se abre num universo mágico de muitos personagens lendários e de diversas culturas, como Iracema, Uirapuru e o Boto Encantado, etc. Além desses livros, José Inácio escreveu: O bb e eu (RJ, 1975) e Vocabulário de termos populares do Ceará (CE, 2001).

O enredo de Capiongo se desenrola assim: Timbaúba, ou seu Timba como é chamado, é um experiente seringueiro respeitado por todos, muito estimado pelas crianças e que, apesar da idade, ainda desperta a admiração das mulheres. É casado com dona Guarabira, que morre de parto ao conceber seu único filho, Capiongo, cujo nome empresta a esse livro.

Sozinho o velho Timba se casa novamente, agora com dona Bebé das Brecas, esta desde a morte de Guarabira passou a morar com ele, e tomou para si os cuidados para com Capiongo, a quem estima e zela como filho. Capiongo, o filho tristonho das selvas, é como que uma repetição do pai num mundo sem grandes perspectivas e fadado a uma existência afogado na selva. Um dia Capiongo recebe a notícia da morte de seus pais afogados no rio. Agora é o seu drama a desenrolar-se. Tem a vida e os ensinamentos do velho Timba para garantir-lhe a sobrevivência na selva selvaggia.

Capiongo é um romance com características bem diferentes daqueles que comumente tenho me deparado. A maior parte dos diálogos é, paradoxalmente, intimista, isto é, de si para si. E porque não dizer uma obra filosófica, já que discorre a maior parte, não conceitualmente, sobre o sentido da existência humana, onde a luta física travada pelas personagens contra o próprio corpo pode ser entendido como a luta da vida frente às constantes situações de morte. Há certa dose de melancolia na narrativa, mas tão somente devido à melancolia da selva, fruto da monotonia de paisagens, sons e cores.

Há, no romance, um linguajar bem característico do acreano interiorano, com palavras como: mucumbu (anca, traseiro); tibungadas (pular n’água); casco (pequena embarcação feita do tronco de árvores); cangapé (estrepolia, pular); caicos (peixe pequeno); espinhel (instrumento utilizado para pesca atado de vários anzóis); coivara (galhos que não foram de todo queimados em um roçado). E expressões como “espinho que pinica de pequeno já trás a ponta”. São essas peculiaridades que faz com que Capiongo, embora razoavelmente pequeno, mereça figurar entre as obras de relevância literária para nossa história.

É mais uma obra que enriquece nossas letras, de um devotado acreano de Brasiléia, gerado desse chão, dessas águas e dessas matas e que encontrou na própria vida o enredo para muitos das alegrias e dramas de seus personagens. Com seu pequeno romance José Inácio Filho nos colocou frente a frente com um dos maiores e mais intrigantes dramas do ser humano, a morte. Todavia, só está passível de morte aquele a quem foi dado a vida. Esta, longa ou breve, útil ou medíocre, uma vez realidade, não há como negar ou anular seu existir. Escreveu a sua linha no compêndio inacabável do universo.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O CONCEITO ATUAL DE FILOSOFIA

Profª. Inês Lacerda Araújo**


Desde os primeiros filósofos até o século 19, portanto, até o início da modernidade, a filosofia tinha uma missão de ordenar e de fundamentar todos os conhecimentos. Aristóteles a considerava como a “rainha das ciências”. Para Descartes a metafísica era a raiz do saber. Para Kant a razão era suprema. Desse modo a filosofia poderia ser a base para ciência, a moral, o direito.

Atualmente, a maioria dos filósofos considera que ela colabora com todos os saberes. Não há mais uma concepção dogmática e impositiva: se os conceitos nascem de uma cultura e de uma história, a tarefa filosófica é a de pensar a diversidade das culturas em colaboração com a arte, a moral, o direito, as ciências.

Nossa época, a época da modernidade possui estruturas de racionalidade próprias, como a informação e a ciência; possui uma ética descentrada (não mais ditada pelas religiões), pluralismo de credos e ideias, um saber científico renovável, autonomia na arte e no direito.

A filosofia pode e deve fazer a mediação entre esses saberes, ensejar o diálogo entre eles sem pretender totalizá-los em uma única grande teoria que pudesse explicar o real de modo certo e indubitável.

Essa nova perspectiva leva a filosofia a fazer uma leitura de nossa época e propor caminhos alternativos para que se possa pensar com autonomia, liberdade, ampliando e renovando as experiências com o mundo. É um importante instrumento para pensar nossos problemas e dificuldades. Quando se questiona como e por que tal ou tal saber foi produzido, tal ou tal conceito é usado, o pensamento como que se ilumina, surgem novas ideias, mais criativas.

Ainda assim, há culturas e sociedades até hoje fechadas, impermeáveis, sectárias. Pense no Irã, no fundamentalismo islâmico, ou nos ditadores de alguns países africanos e de alguns vizinhos nossos, risíveis e farsescos, nem por isso menos perigosos.

Enfim, a filosofia pode mudar o modo de ser e de pensar de uma pessoa, e, às vezes, de toda uma cultura.

"Eu discordo de que haja um conceito ideal de exatidão dado a priori, como tal. Em épocas diferentes nós temos diferentes ideais de exatidão; e nenhum deles é supremo". (Wittgenstein)

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**INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, autora e organizadora, entre outros, de Temas de Epistemologia (Editora Champagnat - PUCPR, 2006)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

MENINO DE SERINGAL

Meu pai, Zé Lima, foi seringueiro nas cabeceiras do rio Tarauacá, num seringal chamado Boca de Pedra, quando Melo, nosso primo, era o seringalista. Nunca estive naquelas paragens, mas ouvia, saudoso, meus pais a ela se referirem. Tempos difíceis. Minha mãe nasceu por aqueles lados. Lá nasceram também meus primeiros irmãos. E lá moravam os pais de minha mãe: Hibernon Alves de Melo, grande conhecedor da medicina natural, e Maria Engracia de Melo.

Já eu nasci no seringal Sumaré, quando era seringalista o sr. Luis Madeiro, meu avô (de criação). Meus pais compraram um pedaço de suas terras, à margem esquerda de quem sobe o rio, e foi aí que passei toda a infância e parte da adolescência. Esse seringal distava quase três dias de viagem da cidade de Tarauacá.

Ali, pela primeira vez, sentei num banco de escola. A professora chamava-se Célia Moura, filha do saudoso Chico Crente, que era nosso vizinho. Mas, digamos que eu era um aluno não muito afeito aos estudos. Gostava mesmo era de ir tirar goiabas, comer cereja, me fartar de cajarana. A casa do seu Chico era cercada por fruteiras, um paraíso para a criançada. Um paraíso que a gente suava para chegar, já que era em cima de uma enorme terra. Lá de cima via-se o marulhar das águas do rio das tronqueiras a denunciar quem nele vinha na volta de cima ou na de baixo.

Menino de seringal é menino besta. Eu era besta de feliz. Aquelas confusões no caminho da escola de volta p’ra casa. Inda bem que eu tinha um irmão maior. Naquele tempo ter uma borracha de apagar colorida era um luxo, p’ra mim, o que me fez recusar, certa vez, uma ‘borracha’ feita de um pedaço de sandália havaianas. Não, eu queria aquela de duas cores, e inteira. E ficou só no desejo. É, talvez, como castigo me vestiram em outra ocasião, no caipira, de saci, me pintando todinho com cinza de toco chamuscado de roçado.

Ainda no seringal eu não sabia ler, mas gostava de acompanhar o meu irmão mais velho, quando mexendo em seus livros, lia alguma coisa p’ra nós. Ele era o mais estudado da família. Com ele havia um livro com a pintura O Grito do Ipiranga (1888) de Pedro Américo. Eu tinha pavor daquela imagem, representava para mim a guerra, o mundo desconhecido e mal que havia para além da tranquilidade da floresta, então, meu único mundo, seguro e bom. Sei lá como fiz essa alegoria.
O Grito do Ipiranga (1888) de Pedro Américo

As circunstâncias me levaram para a cidade, juntamente com alguns de meus irmãos. Lá reiniciei meus estudos na Rousara Mourão da Rocha, e aprendi a ler e nunca mais parei. Essas reminiscências servem para dizer da minha paixão pelos livros e, de modo especial, pela literaura de cepa acreana.

Gibran, notável poeta sírio-libanês, já dizia que razão e paixão são os lemes e as velas de nossa alma navegante. Não somos só razão. Somos também seres de múltiplas paixões. Já li centenas de livros e parece que foi um apenas. Primeiramente, as fascinantes histórias dos livros didáticos, os gibis (claro emprestados e velhos), a Bíblia a quem devorei de cabo a rabo algumas vezes ainda na adolescência. Depois, com o suceder dos anos e da escola, literatura em geral, sobretudo poesia.

Foi José Potyguara, com seu Terra Caída, quem me implantou o gérmem inicial da magia pelas letras acreanas. Isso com a inestimável contribuição das obras de Leandro Tocantins, alcançando seu ápice com José Higino de Souza Filho em A Luta Contra os Astros. Desde então, tornei-me uma alma acreana a espalhar esse gérmem a quantos for possível. E considero-me, em meu neologismo, um acreanófilo, isto é, alguém que estuda sua terra, sua cultura, sua gente, não por querer satisfazer necessidades acadêmicas ou intelectuais, mas por amor.
Há alguns anos venho remexendo sebos e realizando pesquisas na internet em busca das obras acreanas “perdidas”. E, assim, tenho montado uma pequena biblioteca de títulos acreanos e temas amazônicos que se assemelham, hoje já com modestos 91 livros, dentro os quais a maior parte rara e de primeira edição. Nessa miscelânea, para se ter uma ideia, há a obra completa de José Potyguara, as edições fac-similadas de Álbum do Rio Acre (1906-1907), Autonomia Acreana (1913), A Primeira Insurreição Acreana (1904).

As primeiras edições de A Represa (1942) de Océlio de Medeiros, A Epopéia Acreana (1939) de Freitas Nobre, Certos Caminhos do Mundo: romance do Acre (1936) de Abguar Bastos, Folk-lore Acreano (1938) de Francisco Peres de Lima, Ressuscitados: romance do Purus (1938) de Raimundo Morais, Capiongo: romance da Amazônia Acreana (1968) de José Inácio Filho, Letras da Amazônia (1938) de Djalma Batista, O Estado Independe do Acre e José Plácido de Castro (1930) de Genesco de Castro, Os Assassinos do Cel. Plácido de Castro (1916) de Orlando Correia Lopes. Além de obras como a 2a. edição de Inferno Verde (1916) de Alberto Rangel, Histórias Silvestres do tempo em que Animais e Vegetais Falavam na Amazônia (1939) de Raimundo Morais, O Memorial em Prol dos Acreanos (1906) de Gumersindo Bessa, etc. Grande parte já resenhada e disponibilizada neste blog.

O meu sonho é também o de meus pais. Estes nunca aprenderam a ler, mas fizeram de tudo para que seus filhos não repetissem suas sinas. E, dessa forma, sigo em meu desvario de menino besta de seringal, às vezes, acompanhado, mas ainda a fazer a maior parte do caminhar como viandante solitário, cumprindo minha missão, no breve peregrinar por esse mundo, de viver para fé e com os livros...

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Foto: Angela Peres/Secom

terça-feira, 27 de abril de 2010

O CONCEITO DE FILOSOFIA

Inês Lacerda Araújo


É comum pensar que a filosofia é inútil ou que há tantos conceitos de filosofia quantos são os filósofos.

Ok, digamos que isso esteja correto. Mas o que se deve entender por utilidade? A do martelo? A da receita culinária? A de um sinal de trânsito?

Neste sentido, a filosofia é inútil, contemplativa, pura reflexão, ideias que apenas servem para se ter novas e mais ideias. Eu costumava dizer aos meus alunos: tudo contitunuará tal como está, com ou sem a filosofia...

Então, para que filosofar? A filosofia é ensinadora, tem um uso na formação pessoal, alarga horizontes, sem ela não saberíamos como pensar as situações a partir de um ponto de vista menos comprometido com casos particulares, mais geral e mais aprofundado.

Quando se para (do verbo parar) para (preposição) pensar, surgem questões fundamentais, que a maioria dos filósofos fez e ainda faz: para que, por que, por que não, desde quando?

Algumas respostas são dadas pela ciência, outras pelas diversas religiões, e outras ficam sem resposta.

Ora, isso que acabei de escrever, é reflexão filosófica. A partir do momento histórico, na Antiga Grécia, em que pela razão são expostas dúvidas e perguntas, a narração mítica aos poucos cede lugar à reflexão dos primeiros filósofos.

Por exemplo, nos mitos se atribui aos deuses com suas iras, conflitos e lutas, a existência do cosmo. Os filósofos, pelo contrário, perguntam com sua própria cabeça, como tudo veio a ser?

E, ainda apenas pensando, refletindo, atribuem a origem a uma causa primeira, a um princípio geral, como o fogo, o ar, as partículas elementares.

Aos poucos a pergunta se deslocou para outras questões, como o que são as coisas que percebemos? São como as percebemos ou o que não percebemos é o que elas realmente são, isto é, sua essência?

A pergunta pela essência de todas as coisas dominou o cenário da história da filosofia até bem recentemente. Hoje as questões mudaram. Esse é um tema para a próxima postagem.

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** INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, doutora em Estudos Linguísticos (UFPR), professora aposentada do departamento de filosofia da UFPR e do programa de Mestrado da PUC-PR. Autora dos livros: Do signo ao discurso: introdução à filosofia da linguagem; Foucault e a crítica do sujeito; Introdução à Filosofia da Ciência, dentre outros.

sábado, 10 de abril de 2010

GIBRAN KAHLIL GIBRAN

Há 79 anos, em 10 de abril de 1931, desfalecia o autor de "O Profeta", o poeta do belo e da arte, o libanês Gibran Kahlil Gibran. Como leitor e admirador de sua obra não poderia deixar de lembrar essa data e partilhar um pouco mais com vocês, amigos e amigas.

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Vim para dizer uma palavra e devo dizê-la agora. Mas se a morte me impedir, ela será dita pelo amanhã, porque o amanhã nunca deixa segredos no livro da Eternidade. Vim para viver na glória do Amor e na luz da Beleza, que são reflexos de Deus.

Estou aqui, vivendo, e não me podem extrair o usufruto da vida porque, através da minha palavra atuante, sobreviverei mesmo após a morte. Vim aqui para ser por todos e com todos, e o que faço hoje na minha solidão ecoará amanhã entre todos os homens.

O que digo hoje com apenas meu coração será dito amanhã por milhares de corações.

- Gibran Kahlil Gibran -
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Ele escreveu coisas maravilhosas, e sua literatura e arte ímpares espalharam-se, traduzidas por mais de 30 países. Gibran manteve sempre seu sublime e independente culto ao espírito e aos ditames da ética.
Gibran Kahlil Gibran, em 1896, com 13 anos.

Para aqueles que o leem pela primeira vez, pode-se acentuar que ele combina as mais elevadas e vívidas percepções da realidade espiritual com uma poesia adornada e absolutamente individual.

Sua originalidade e poder conquistaram a admiração e até mesmo o fervor de milhões de leitores, em dezenas de línguas. Gibran também conquista quase igual reputação como pintor. Seus desenhos e pinturas eram expostos periodicamente pelas metrópoles mundiais. Quando o grande Rodin quis que lhe pintassem o retrato, Gibran, que era comparado a ele e a William Blake, foi o artista escolhido.

No mundo ocidental, esse poeta, filósofo e artista chegou a ser chamado de "o Dante do século XX". Para seus admiradores do Oriente Médio, ele é o Amado Mestre.

Uma testemunha dos funerais de Gibran, realizados em 1931, descreveu-os como tendo sido "além da imaginação". Centenas de padres e líderes religiosos, representando cada uma das grandes seitas do Oriente, ampliavam com suas presenças a emoção da solenidade. Lá estavam sacerdotes e dignitários Maronitas, Católicos, Xiitas, Protestantes, Muçulmanos, Gregos Ortodoxos, Judeus, Sunitas, Druzos e outros.

E, para completar a reintegração de Gibran no seio da Igreja, ele foi enterrado numa gruta do Mosteiro de Mar Carkis, em Bsharri, no Líbano — a diocese de sua infância.

Seu túmulo transformou-se num lugar de peregrinação. Ao lado, o Comitê Nacional de Gibran edificou um museu onde são expostos algumas das suas belas telas e os seus livros em todas as línguas. Em cima do túmulo, esta simples inscrição: "Aqui, entre nós, dorme Gibran."

Mas lá, na verdade, dorme somente seu corpo. Sua alma, difundida nos seus livros, serve de guia a milhões de leitores na mais fascinante de todas as viagens: a que leva o homem das trevas do egoísmo e da cegueira ao esplendor do dom de si e da compreensão.

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

O CONHECIMENTO PRÓPRIO

Gibran Kahlil Gibran


E um homem disse:
- Fala-nos do Conhecimento Próprio.
E ele respondeu dizendo:
- O vosso coração conhece em silêncio os segredos do dia e da noite.
Mas os vossos ouvidos esperam escutar o eco do conhecimento do coração.
Gostarias de conhecer por meio de palavras o que sempre conhecestes em pensamento.
Gostarias de tocar com os dedos o corpo nu dos vossos sonhos. E está bem que gosteis.
A fonte secreta da vossa alma deve brotar e correr murmurando para o mar.
E o tesouro das vossas profundezas infinitas que ser revelado aos vossos olhos.
Mas não há balança para pesar o vosso desconhecido tesouro.
E não procurais os abismos do vosso conhecimento com a vara ou som a sonda.
Porque o eu é um mar sem limites e sem medida.
Não digais:
- Achei a verdade mas antes:
- Achei uma verdade.
Não digais:
- Encontrei o caminho da alma
dizei antes:
- Encontrei a alma a andar no meu caminho.
Porque a alma pisa todos os caminhos.
A alma não anda sobre uma linha mas cresce como a cana.

A alma desdobra-se como lótus de inumeráveis pétalas



quarta-feira, 31 de março de 2010

DOROTHY STANG

Narrativa da morte de Ir. Dorothy Stang, por Binka Le Brenton.
Dorothy se voltou para ir, e Eduardo acenou. Rayfran puxou a arma. “Irmã!”, ele gritou.

Dorothy se virou e viu a arma. Ficou ali parada um instante, paralisada. “Meu Deus!”, disse a si mesma. “Ele realmente quer me matar.”

“Bem, senhora, ela o ouviu dizer, se não resolvermos este assunto hoje, não resolveremos mais.”

[...]

“Não faça isso”, ela dizia para Rayfran. “Não atire em mim.”

Rayfran ficou tenso. “Tira a mão da sacola!”, ele gritou. “É uma arma o que você tem aí ou o quê?”

“Eu não tenho arma”, ela respondeu em sua voz suave. “Minha única arma é esta.” E ela tirou sua Bíblia e a abriu calmamente.

Rayfran e Eduardo a observavam, hipnotizados. Detrás da árvore, Cícero fechou os olhos e rezou uma breve oração. Aproveitando-se de reservas que ela nem sabia que tinha, Dorothy leu com uma voz equilibrada: “Abençoados são os puros de coração, pois eles verão a Deus. Abençoados sãos os dóceis, pois eles herdarão a terra. Abençoados são os que têm fome e sede de justiça...”

Ela fechou a Bíblia e olhou nos olhos de Rayfran. Eles estavam duros como uma rocha. “Bem, senhora”, ele lhe cuspiu, “chega disso.”

O silêncio da floresta foi rompido por um tiro e Dorothy caiu por terra. A última coisa que viu foram as botas de Rayfran, de pé, esvaziando o tambor de seu revólver. Tudo ficou preto.

Os dois matadores se viraram sem uma palavra e correram para dentro da floresta. Cícero segurou a respiração e os observou enquanto partiam, e então, soluçando, correu na direção oposta o mais depressa que seus pés podiam levá-lo.

Houve um silêncio absoluto e então começou a chover sobre o corpo de Dorothy deitado na estrada, misturando seu sangue com o barro vermelho do chão da floresta.


BRETON, Binka Le. A Dádiva Maior. São Paulo: Globo, 2008.
Fotos: CNBB

segunda-feira, 29 de março de 2010

CONCEITO DE JUSTIÇA

Profª. Inês Lacerda Araújo


A cada crime, a cada ato de violência, ouve-se "Queremos justiça!". Trata-se da justiça obtida pelo direito, que é muitas vezes precária, lenta, cheia de percalços. Condenar o culpado é tudo o que se requer para que a justiça se estabeleça. Isso basta?

Justiça pode ser entendida como um valor, aliás, para Platão, ela é a virtude mais preciosa para a realização política na polis. A cidade ideal é aquela em que as pessoas têm um papel, uma função, cada um ocupa seu lugar no todo segundo sua capacidade. Artesãos, guerreiros, governantes têm suas funções específicas e realizam um tipo de valor: os primeiros realizam a virtude da temperança, da moderação, sua alma é sensitiva; os guerreiros defendem a cidade, sua virtude é a da coragem; os governantes devem ser sábios, sua virtude é a da sabedoria. Justiça é uma decorrência dessa distribuição.

O conceito de justiça que mais usamos na modernidade não é o distributivo e sim o equitativo. Ela é para todos, e todos ganham o mesmo quinhão.

Evidentemente isso não funciona, há diversidade enorme de gostos, de educação, de projetos pessoais. Governo algum consegue distribuir tudo a todos da mesma forma. E se por acaso o fizesse, teria que ser impositivo, totalitário, ter mão de ferro para que uns não quisessem também o que caberia ao outro.

Um conceito mais interessante e viável é o de um filósofo norte-americano, Richard Rorty (1931-2007), de justiça como lealdade ou solidariedade alargada. Para ele não há uma moral universal, não há regras morais que devam ser seguidas por todas as culturas. Ele sugere que em algum lugar, de alguma forma, entre as crenças e desejos compartilhados deveria haver recursos que permitissem a convivência, a convivência sem violência.

Como aplicar isso a palestinos e israelenses, por exemplo? A aproximação deveria permitir que cada um desempenhasse seu papel, seu destino político sem que nenhuma das partes pretendesse impor-se ou arvorar-se em ter razão, ser superior ou alegar direito inconteste.

Alargar a lealdade que se tem com seu amigo, seu familiar, ao outro, ao outro lado da fronteira, ao diferente de nós. Isso seria praticar justiça.
 
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**INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, autora e organizadora, entre outros, de Temas de Ética (Editora Champagnat - PUCPR, 2005)

segunda-feira, 22 de março de 2010

SOBRE ACASO, DESTINO, SORTE E AZAR

Profª. Inês Lacerda Araújo


É frequente ouvirmos "estava escrito", "era o destino". Ou "hoje é meu dia de sorte" e também o inverso "hoje tive azar".

Como entender o tempo? O futuro? Se algo está escrito nas estrelas, então pode ser que tudo esteja escrito e pré-determinado.

Mas não é bem assim, temos liberdade para agir, para decidir, podemos planejar. Quando o planejado não dá certo costumamos atribuir a "culpa" ao misterioso, ao desconhecido, ao azar, ao acaso. Quando o planejado dá certo, consideramos que nós somos os responsáveis!

Não é estranho pensar dessa maneira?

Há diversas séries de acontecimentos, e elas se entrelaçam e deságuam no acontecimento x ou y. Se isso nos favorece, achamos que foi sorte. Se não favorece chamamos de azar.

Acontecimentos que se entrelaçam por causas diversas, em momentos diversos e que culminam em certo momento, podem ser o que chamamos de acidentes, uns felizes outros não...

Se houvesse destino, algo marcado para acontecer, não poderíamos mudar nossos percursos, e mudamos, ainda bem. O que não podemos mudar, aquilo em que não podemos interferir são as séries de acontecimentos aleatórios, ocasionais, fortuitos. Um terremoto, um galho que cai, a existência do universo, a evolução da vida na Terra. Podemos nos defender com prédios mais seguros, ficando abrigados numa tempestade, fazendo modificações genéticas.

Mas isso não elimina a incerteza, mesmo com todos os dispositivos de prevenção e de segurança, o futuro nos inquieta e amedronta. Vêm daí os mitos, os deuses, as promessas, as tentativas do dominar o acaso. Esses recursos podem até nos consolar, nos distrair por um momento, criar a ilusão de que somos eternos e incólumes.

Em vão.

Enfim, há três tipos de fenômenos: os que estão fora de nosso alcance, insondáveis; os fenômenos causados direta ou indiretamente pela nossa ação; e aqueles em que podemos influir, um enorme espaço de criação e liberdade, que só encontra limite na nossa humana forma de ser e de agir.
 
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**INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, autora, entre outros, de Do Signo ao Discurso: introdução à filosofia da linguagem  (Editora Parábola, 2008)

sexta-feira, 19 de março de 2010

A TEMPESTADE

Gibran Kahlil Gibran

O pássaro e o homem têm essências diferentes. O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas; o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos.

Acreditar é uma coisa; viver conforme aquilo que se acredita é outra coisa. Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos. Muitos levantam a cabeça acima dos montes; mas sua alma jaz nas trevas das cavernas.

A civilização é uma árvore idosa e carcomida, cujas flores são a cobiça e o engano e cujas frutas são a infelicidade e o desassossego.

Deus criou os corpos para serem os templos das almas. Devemos cuidar desses templos para que sejam dignos da divindade que neles mora.

Procurei a solidão para fugir dos homens, de suas leis, de suas tradições e de seu barulho.

Os endinheirados pensam que o sol e a lua e as estrelas se levantam dos seus cofres e se deitam nos seus bolsos.

Os políticos enchem os olhos dos povos com poeira dourada e seus ouvidos com falsas promessas. Os sacerdotes aconselham os outros, mas não se aconselham a si mesmos, e exigem dos outros o que não exigem de si mesmos.

Vã é a civilização. E tudo o que está nela é vã. As descobertas e invenções nada são senão brinquedos com que a mente se diverte no seu tédio. Cortar as distâncias, nivelar as montanhas, vencer os mares, tudo isto não passa de aparências enganadoras, que não alimentam o coração nem elevam a alma.

Quanto a esses quebra cabeças, chamados ciências e artes, nada são senão cadeias douradas com as quais o homem se acorrenta, deslumbrando com seu brilho e seu tilintar. São os fios da tela que o homem tece desde o início do tempo sem saber que, quando terminar sua obra, terá construído uma prisão dentro da qual ficará preso.

Uma coisa só merece nosso amor e nossa dedicação, uma coisa só...

É o despertar de algo no fundo dos fundos da alma. Quem o sente, não o pode expressar em palavras. E quem não o sente, não poderá nunca conhecê-lo através de palavras.

Faço votos para que aprendas a amar as tempestades em vez de fugir delas.


GIBRAN, Kahlil Gibran. Todo Gibran. Seleção e tradução Mansour Challita. Rio De Janeiro: Associação Cultural Internacional Gibran.

sexta-feira, 12 de março de 2010

SOBRE AS COISAS SIMPLES DA VIDA

Profª. Inês Lacerda Araújo


Heráclito de Éfeso, filósofo pré-socrático (cerca de 540-470 a. C.), ficou famoso pela afirmação de que tudo muda, a cada vez que alguém se banha em um rio, as águas não são mais as mesmas, a pessoa já não é mais a mesma. O elemento primordial, aquele de que tudo é feito, a causa de tudo é o movimento, tal como o do fogo, incessante. Ele era famoso como pensador, admirado pela sua sabedoria. Era até mesmo arrogante, preferindo viver isolado. Morreu com hidropisia, como os médicos não conseguiam retirar a água de seu ventre, ele mesmo se fechou em um estábulo, cobriu-se com esterco imaginado que pudesse secar a água (!), mas acabou morrendo ...

Perguntado por que muitas vezes ele se calava, respondia "Para que vocês possam tagarelar". Dizia que a felicidade não residia nos prazeres do corpo, se residisse, "diríamos felizes os bois, quando encontram ervilha para comer". O equilíbrio de todas as coisas se acha na luta dos contrários, no ser e não ser de todas as coisas.

Conta-se que certa vez foi procurado por estrangeiros, que foram visitá-lo em busca de respostas para as questões mais nobres da filosofia. Encontraram-no junto ao fogão, se aquecendo, e se espantaram por ver um sábio em uma situação comum. Ao que ele respondeu: "Junto à lareira também habitam deuses".

Nas mais simples e cotidianas tarefas, "se manifesta algo de natural e de belo", completa Heráclito.

É possível encontrar harmonia, satisfação e plenitude nos atos mais banais. Muitas vezes a filosofia serve para isso, para ver o que está diante de nossos olhos e não buscar o inalcançável quando o sentido e a completude estão à nossa mão.
 
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**INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, autora, entre outros, de Foucault e a crítica do sujeito (Editora UFPR, 2008)

terça-feira, 9 de março de 2010

NADA MELHOR



Para fazer pessoas ninguém ainda não
inventou nada melhor que o amor:
Deus ajeitou isso pra nós de presente.
De forma que não é
aconselhável trocar
o amor por vidro.



Manoel de Barros
in O Fazedor de Amanhecer

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O HOMEM ABSURDO de Albert Camus

Isaac Melo

"Para Camus, o único problema fundamental da filosofia e, verdadeiramente, sério é: o suicídio, isto é, julgar se a vida merece ou não ser vivida".


Albert Camus (1913-1960) foi um homem de muitas faces: foi jornalista, romancista, dedicou-se ao teatro, foi militante político e polemista. Sua vida e sua obra entrelaçam-se de uma maneira fecunda e criativa. São seus sentimentos que impulsionam sua obra, seu sentir frente a um mundo que lhe era estranho, absurdo, mas também fraternal e cheio de sol. É um mundo do absurdo, num primeiro momento, e da revolta num segundo. Ele não é um filósofo preocupado com definições nem com o rigor conceitual, mas com o simples, cotidianos e profundos problemas da existência.

É em O Mito de Sísifo que o tema do absurdo aparece em toda a sua plenitude no pensamento filosófico de Camus. Agora ele problematizará filosoficamente a vida e refletirá sobre ela. O livro começa colocando o único problema fundamental e, verdadeiramente, sério: o suicídio, isto é, julgar se a vida merece ou não ser vivida. Não tem importância maior saber se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias. Tudo é secundário. O homem se sente estranho porque vê-se privado de repente das ilusões e das luzes. É o encontro do exílio, fuga sem conforto e solução, pois, não se tem esperança de se encontrar a tão querida e desejada terra prometida. O sentimento de absurdo consiste, pois, na afirmação do divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e sua decoração. Camus considera que todos os homens sadios pensam no suicídio. Conclui, daí, que há uma ligação direta, lógica entre esse sentimento e a aspiração ao vácuo, isto é, ao nada.

A revelação da morte tem algo de violento e nos transforma. Chega um dia em que nos damos conta de que o homem morre e de que morremos. Uma vez atingida esta verdade, seremos para sempre sua presa. É pela morte que nossa sensibilidade chega ao absurdo. Só depois de termos sidos atingidos de perto, a grande verdade terá significação e não mais se deixará levar ao desprezo. Ela é o nosso acesso à sensibilidade. A verdadeira expressão camusiana é que os homens não são felizes porque morrem. O fato da morte é repugnante à sensibilidade. Por mais que façamos, a morte não pode ser enfeitada. Será sempre “uma aventura horrível e imunda”. A imagem da “aventura imunda” é uma barreira para que sonhemos uma eternidade. O absurdo sensível não é esta constatação da brutalidade de um termo. Mas é a constatação violando o meu desejo de vida.

A atitude essencial do homem absurdo será a lucidez, isto é, uma consciência que não se quer negar. Por isso, o homem absurdo não foge à luta, não despreza a razão. Acha que reúne todos os elementos, os dados da experiência. Contudo, não está disposto a saltar antes de saber. É resultante de sua lucidez, daí não haver lugar para esperanças. Os homens que acreditam na esperança, para Camus, vivem mal neste mundo.

Na última parte do livro Camus fala do antigo mito grego de Sísifo que tinha sido condenado a empurrar sem descanso um rochedo até o cume de uma montanha, de onde ela caía de novo, em conseqüência de seu peso. Para Camus, Sísifo é o herói absurdo, pelas suas paixões bem como pelo seu tormento. O tormento dele é o preço que é necessário pagar pelas paixões desta terra. Camus nos diz que seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte e a paixão pela vida valeram-lhe esse suplício indizível em que seu ser se emprega em nada terminar.

Sísifo sobe e desce infinitamente, sem nenhuma esperança que isso termine. Camus faz da situação de Sísifo uma analogia com a situação de milhares de operários que devem recomeçar seu trabalho cada dia. Mas Sísifo é lúcido e, embora imponente e revoltado, conhece toda a extensão da sua miserável condição. É essa condição que Sísifo pensa durante a sua descida, pois, para Camus, a clarividência que devia fazer o seu tormento consome ao mesmo tempo também a sua vitória. Camus nos diz que não há destino que não se transcenda pelo desprezo. Ele conclui afirmando que há só um mundo e que a felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra, são inseparáveis.

Sísifo faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens, e ali é que Sísifo encontra sua silenciosa alegria. Seu destino pertence-lhe e é um destino único e pessoal, pois não há destinos superiores. Isto faz com que Sísifo sinta-se senhor de seus dias.

De acordo com Guimarães, o Mito de Sísifo é de fato uma análise da sensibilidade absurda, uma análise racional, que procurar tirar as conseqüências. O absurdo é um ponto de partida e não um estado. Transformar um sentimento em estado é negar qualquer saída e concordar com o que oprime. Fazer do absurdo uma regra é viver no desespero. Camus anota em O Mito de Sísifo várias possibilidades do surgimento do absurdo, sempre em situações corriqueiras, onde é apenas decisivo o exame da inteligência. A consciência da rotina, seguida da indagação do sentido, leva-nos para a sensibilidade absurda. A inteligência dá-se conta de que a existência faz-se no tempo. Compreende a tragédia de jogarmo-nos, constantemente, no futuro. A cada momento aproxima-nos mais do termo e, não querendo o fim, queremos o futuro. O absurdo é a constatação de que o mundo se nos escapa. O absurdo não é nem o mundo nem a Inteligência, mas a relação entre a inteligência e o mundo.

A fidelidade do raciocínio à evidência que o despertou exige a manutenção do absurdo. O salto filosófico é uma empresa condenada. Esta é a lógica que reina no absurdo. A fidelidade ao absurdo é aqui uma fidelidade ao homem. O que obtemos com o salto, aquela certeza de ordem religiosa, ultrapassa a dimensão humana. O homem absurdo quer viver lucidamente. E a lucidez mostra uma realidade que nos rejeita. Rejeitados, talvez seja nossa tarefa rejeitar. Num mundo sem sentido, permanece a exigência humana de sentido. Nada pode ser feito para satisfazê-la. Sou obrigado a manter o caos reinante, mas este caos, este inferno, é meu lugar. Assim me imponho frente a uma realidade que me contraria e frente a qual sou impotente. O confronto do homem com a realidade é favorável ao homem. Ele é o grande inocente.

O homem absurdo tem que viver. Viverá sem apelo, sem esperança. Outra vez não anulará o problema. A tentação seria a negação da consciência: o suicídio. Porém, um absurdo que nasceu da consciência tem que viver como verdade, logo, viver na consciência. A resposta absurda é viver. Viver é então convertido em revolta. A revolta é a manutenção dos dois elementos da questão: considera o real e mantém a consciência. Viver mantendo os dois elementos da oposição é viver a própria oposição. Negando-lhe o que lhe nega, ele se afirma e se faz superior, pois a consciência dá grandeza à revolta.

Sísifo é fiel à sua tarefa absurda. Mas sua fidelidade é consciente e, consciente, faz-se superior aos deuses que o condenaram. Sem esperanças, sem verdades absolutas, sem Deus, o homem é livre. Porém, o homem absurdo se sabe condenado ao que não dura. Aceitando o relativo, aceita a possibilidade. Sua liberdade é disponibilidade, é abertura. A liberdade absoluta será sua criação. Nada se impõe, pois ser livre é criar e examinar todas as soluções.

Por fim, desligado de valores absolutos não será possível procurar viver melhor, mas, unicamente, viver mais. Só o finito da condição pode nos levar a esta paixão. Só a morte justifica o amor intenso pela vida. Viver mais é viver conscientemente. A lucidez faz-nos sentir a vida. Só a consciência conta. Retirados todos os valores, a lucidez é o único valor. Se o absurdo acentua a experiência quantitativa, tal experiência terá que ser qualitativa, consciente, para ser válida. Estão aí as três conseqüências do absurdo: revolta, liberdade e paixão. Três afirmações da vida.



REFERÊNCIAS

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007.

GUIMARÃES, Carlos Eduardo. As dimensões do homem: mundo, absurdo, revolta. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1971.

GUTIÉRREZ, Jorge Luis. A revolta do homem absurdo. Revista Ciência & Vida (Filosofia). São Paulo, no. 21, ano II, p. 22-33, 2008.

LEITE, Roberto de Paula. Albert Camus: notas e estudo crítico. São Paulo: Editora Edaglit, 1963.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

UM ÍNDIO ACREANO REINVENTA A PINTURA

Chico da Silva
(1910 - 1985)
Chico da Silva. O que está por trás deste nome tão simples é a história daquele que é considerado o maior pintor de estilo primitivo do Brasil. E poucos sabem que a sua obra hoje se encontra nas principais coleções de arte do mundo – como na coleção da Rainha da Inglaterra. A seguir transcrevo o artigo de Cassandra de Castro Assis Gonçalves (bolsista IC-FAPESP) sobre o nosso Chico da Silva.

“Marcadas pelo talento, o acaso e a decadência, a vida e a obra de Chico da Silva são das mais intrigantes da História da Arte brasileira e também um retrato da falta de suporte por parte do governo e dos próprios artistas em oferecer a oportunidade de um grande artista, ainda que simples como Chico da Silva - analfabeto toda a vida - de se profissionalizar.

Francisco Domingos da Silva nasceu em 1910, às margens do “Alto Tejo” no Acre, e aos 10 anos veio para Pirambu, bairro pobre de Fortaleza-CE. Perdeu o pai logo cedo, passando então, a fazer todos os tipos de serviços - consertando sapato, fogão, cobrindo guarda chuva, etc. para sobreviver. Em suas muitas andanças pela cidade, Chico às vezes parava em frente a um muro branco e fazia desenhos com carvão ou tijolo, colorindo-os com folhas. Foram estes desenhos, na Praia Formosa, que chamaram a atenção do crítico de arte e pintor Jean-Pierre Chabloz que passou a procurá-lo e foi seu primeiro incentivador.

Chabloz ensinou Chico da Silva a pintar com guache e passou a dar o material para que ele pintasse, além de comprar todas as suas telas - comprou mais de 40. Foi por intermédio dele que Chico da Silva expôs sua arte, pela primeira vez, no III Salão Cearense de pintura e no Salão de Abril de 1943, em Fortaleza. Em 45, junto com outros artistas cearenses, expõe na Galeria Askanasy e, durante a década de 50, suas obras vão ser vistas em várias galerias da Europa, conseqüência de um artigo a seu respeito no CAHIERS D’ART, conceituada publicação francesa, que o considerou um pintor genuinamente primitivo.

Deslumbrado com o dinheiro e a fama, Chico da Silva passa a gastar com álcool e mulheres; atento à supervalorização dos seus quadros, quer produzir cada vez mais, e passa a recorrer a ajudantes, na verdade meninos e meninas que pintavam os quadros que ele só assinava - cerca de 90% dos quadros com data posterior a 72 eram falsos. A esta altura o artista estava cercado de aproveitadores que o exploravam, exigindo cada vez uma produção maior, vendendo quadros de Chico em mercados, feiras e até na porta de hotéis, por valores ínfimos.

Em meio a denúncias de falsificação, Chico da Silva é indicado para expor na XXXIII Bienal de Veneza (Itália), em 66, onde recebe Menção Honrosa. Chabloz, decepcionado com os rumos que artista e obra tomaram, rompe com ele em 69, afirmando em um artigo do Jornal do Brasil, intitulado Chico da Silva ou a ingenuidade perdida, que sua arte estava morta.

O processo de decadência do artista se agravara com a morte da mulher, Dalva, em 75, e tem seu ápice em 1976, quando foi internado com cirrose hepática e tuberculose crônica, permanecendo um ano no hospital. Mesmo se recuperando fisicamente, Chico continuou bebendo e jamais conseguiu recuperar sua arte. O maior artista primitivo do Brasil, que imprimia nas suas pinturas toda a mitologia da região amazônica realizava através de uma expressão quase surrealista, e que está representado nas maiores coleções do mundo - como a da Rainha da Inglaterra - nunca teve suporte para estruturar sua carreira, apenas incentivos isolados, que o jogou em um meio desconhecido que o deslumbrou e, dentro do qual, sem orientação, acabou por perder-se.”

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Algumas de suas obras:




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Fonte das imagens: MAUC
Obs: Não foi possível precisar o nome de cada obra, pois o site de onde foram retiradas, expirou.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O SONHO DE UMA SOMBRA

Píndaro


A sorte dos mortais
cresce num só momento;
e um só momento basta
para a lançar por terra,
quando o cruel destino
a venha sacudir.

Efêmeros! que somos?
que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
Mas quando os deuses lançam
sobre ele sua luz,
claro esplendor o envolve
e doce é a vida.



Referência e sugestão:
Píndaro. Poesia: Grega e Latina. Sel. e trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Editora Cultrix, 1964.