Roberto Gomes
Dia destes,
ouvindo uma transmissão de futebol no rádio, me diverti com a aflição do
locutor, francamente favorável a um dos times – ele estava irritado com a cera
que o adversário fazia para segurar o empate. O locutor esbravejava, exigia do
juiz uma atitude, condenava a demora, o anti-jogo, e por aí vai. Eu tomava um
quieto café de final de tarde e segui escutando aquela arenga.
Volta e meia o
locutor se exaltava:
- Olha o goleiro!
Não repõe a bola! É uma barbaridade!
Sendo o futebol a
tal da caixinha de surpresas, quando eu passava manteiga no segundo pedaço de
pão, o time do locutor fez um gol, mudando o placar. O locutor, comemorou aos
berros, fazendo com que meu rádio desse saltos sobre a mesa da cozinha. Agora
seu time estava vencendo.
Bom, não demorou,
o time do locutor retardou a colocação da bola em jogo por conta de um lateral.
E ele, triunfante:
- É isso aí! Agora
é nossa vez!
E toda a equipe da
rádio comemorou aquilo que passaram a chamar de esperteza, de jogo de cintura,
de “administração do resultado”.
Bom. O Brasil é um
país não apenas de ponta-cabeça, como dizia Tom Jobim, mas é também um país
que, por diversas circunstâncias históricas e sociais, não exercita o que se chama
de pensar. Pensar é de fato doloroso, custa esforço, desprendimento das
circunstâncias imediatas da vida, projeção da inteligência e da imaginação no
futuro, acúmulo de dados vindos do passado, para ficarmos apenas no mínimo
necessário.
Fascinado pelo
imediatismo, o locutor agia em função dos estímulos momentâneos, o jogo. Não
lhe ocorria especular sobre as condições que tornam um jogo possível – não só a
bola, as traves, as chuteiras, mas as regras comuns a todos. O lamentável é que
esta cegueira intelectual não está presente apenas no torcedor de futebol, mas
se encontra em todas as camadas da população e condiciona o que podemos chamar
de oportunismo ético. Ou realismo cínico.
Desliguei o rádio,
meu café chegava ao fim de modo melancólico.
Lembrei então que
o locutor tinha não apenas um grande número de iguais, mas também um número
ilustre de iguais. No caso, o presidente Lula, que vive citando o futebol como
o universo de onde extrai seus conceitos (Conceitos? Que Kant e os leitores me
perdoem.)
Quando esteve em
Madrid, Lula fez uma declaração surpreendente, ao menos para mim, que gasto um
tempinho diário com isso de pensar. Disse ele: “Você não governa com principismos.
Principismo você faz no partido quando pensa que não vai ganhar as eleições.
Quando vira governo, governa em função da realidade que tem”.
É uma versão
vulgar da idéia de que existem razões de estado que se impõem aos governantes,
caricatura tupiniquim das relações entre meios e fins – uma espécie de
Maquiavel de chuteiras. Ela exige, em nome do realismo político, que os
governantes possam mudar de convicções e atitudes com relação àquilo que
pregavam antes de chegar ao poder.
Se estes dois, o
tal locutor e o presidente Lula, conseguissem pensar e tivessem o hábito de ler
e estudar, lembrariam que Kant estabeleceu uma condição básica para o
imperativo ético: a universalidade. Para que algo possa ser tido como ético
deve ser passível de generalização para todos os seres humanos. Por que a
mentira é condenável? Porque, se todos mentirem, qualquer sociedade humana se
torna inviável. No futebol, as botinadas indiscriminadas ou as malandragens
impunes destruiriam o jogo. Trata-se, poderia objetar o filósofo Lula, de um “principismo”.
O locutor diria que ficaria impedido de torcer. Enfim, os dois lutariam para
que prevalecesse a ética brucutu: ao nosso time tudo, ao adversário o cartão
vermelho. Enfim, como não pensam, buscam seus modelos no futebol.
Eis como,
terminado o meu café vespertino, descubro mais uma vez que o Brasil é um país
desossado intelectual e eticamente. Um país que não pensa. Por isso, qualquer
um – seja presidente ou profissional da comunicação – pode dizer qualquer
besteira impunemente.
Como talvez
observasse Kant, que era um “principista” de quatro costados: “neste caso vocês
vão ter que agüentar a guerra de todos contra todos”.
É onde estamos,
não é mesmo?
-
* Roberto Gomes é autor, entre outros, de Crítica da Razão Tupiniquim (1977), hoje em
décima terceira edição, a propósito da qual Darcy
Ribeiro escreveu, em Aos Trancos e Barrancos: "O Brasil volta,
finalmente, a filosofar". O texto acima foi retirado do site do escritor.
** Entrei em contato ainda recente com
a obra de Roberto Gomes, esse blumenauense que reside em Curitiba, onde se
aposentou como professor da UFPR. Tive oportunidade de encontrá-lo ainda
recente na Biblioteca Pública do Paraná, e desde então sua obra passou a ter um
fascínio ainda mais sobre mim. Seus textos são excelentes. Escreve com
profundidade e humor.