segunda-feira, 19 de junho de 2017

AMO-TE ASSIM

Paulo Bomfim


Amo-te assim
Com o amor dos condenados,
O desespero dos náufragos,
A lucidez dos suicidas;
Moro em tua liberdade,
Sonho em teu mar selvagem,
Desperto em tua vida.
Amo-te assim
Com a tristeza dos cegos
E a doçura do crepúsculo
Na hora azul que se perde
Entre o que sou e o que fui.
Amo-te assim
Em cada último minuto
Que rola sobre as pétalas
De tua essência,
E morre em minha carne.


BOMFIM, Paulo. 50 anos de poesia. São Paulo: Editora Green Forest do Brasil, 2000. p.36

sexta-feira, 16 de junho de 2017

O QUE POSSUO ME BASTA

Isac de Melo 

Sou Sebastião Isac de Melo, o 4° filho homem, (vivo) do casal João Felipe de Melo e Maria Anastácia de Melo, ambos naturais das cidades de Angicos e Lages respectivamente no Rio Grande no Norte.

Desde menino me descobri poeta ao notar o quanto já era saudosista, boêmio e (sem modéstia) visionário e que vez em quando já ensaiava escrever romances, novelas e/ou contos por mim imaginados. Lembro-me até que quando tinha aproximadamente 12 anos de idade, fui desafiado por um repentista chamado Beija-flor para um desafio de repente no terreiro, com direito a bandeja de arrecadação e tudo. Topei inconsequentemente e até que fui bem na opinião de muitos os presentes.

Entusiasmado com a abundante inspiração que me envolvia piamente, escrevi um livreto contando uma estória (conto talvez), mas quando tentei publicar, um vizinho meu ainda rapaz que trabalhava na única gráfica de Rio Branco que situava-se na Avenida Ceará próximo ao cruzamento das agora avenidas Ceará/Getúlio Vargas, me deu o seguinte conselho: – Coisa desse tipo, só se você conseguir um político que queira patrocinar sua causa. Do contrário sairá muito caro. Aquilo arrefeceu-me os ânimos de tal forma que eu abandonei definitivamente a ideia, o folheto e esqueci até o título do mesmo.

Fiz carreira como militar do exército brasileiro como músico (nunca prendi ninguém) e servi a caserna de 1981 a 2005 e como estava de certa forma praticando uma arte afim, vez em quando escrevia letras de canções, o que me permitia auto proclamar-me compositor.

Logo após ser reformado do EB em virtude do avanço da idade, eu então junto a esposa tracei a seguinte meta: Descansaremos até cansar e só então faremos alguma coisa. Ela topou, aprovamos a nossa resolução por unanimidade e tratamos de cumpri-la.

Nos separamos por um ano (do trabalho é claro) e enquanto isso eu vez por outra compunha uma musiquinha. De repente já tomado pelo ímpeto de fazer algo – que não fosse pesado nem que, impusesse pontualidade, pois junto com meus deveres abandonei também o enfático relógio de pulso, – veio-me a ideia de buscar no subconsciente algum resquício de repentista deixado lá na minha infância e para minha doce surpresa ela restava viva e latente nos porões da minha memória.

Voltei a escrever, só que agora escrevo poesias com o intuito não somente de vender, pois a arte da escrita é árdua e pouco apreciada, mas também de preencher esse vazio do tamanho de Jesus que cada poeta carrega no fundo d’alma e que faz parte da sua própria existência.

Formei, eduquei e protegi meu lar, transmitindo à minha família todos os valores legados a mim por aquele eximo casal supracitado. Tenho orgulho do que fui, do que sou e se Deus quiser ainda serei, do que fiz, do que faço e se Ele assim o permitir ainda farei por mim e em prol de todos que me são caros.
 
Concluo dizendo que: “o que possuo me basta, a exceção da cultura e do saber”.

SEXTO PROPÉRCIO (elegia I 2)

Sexto Propércio (47 a.C.-14 d.C.)


Por que tens tanto prazer, vida minha, em andar com os cabelos enfeitados,
em fazer ondular as leves pregas de teu traje, de tecido de Cós?
Por que tens tanto prazer em inundar os cabelos com mirra do Orontes
e vender-te por presentes estrangeiros?
Por que tens tanto prazer em trocar tua beleza natural por um luxo comprado
e em não permitir que teus membros brilhem com seus próprios dotes?
Crê-me: nenhum cosmético é necessário ao teu semblante;
o Amor é nu e não ama os artifícios da beleza.
Observa as cores formosas que a terra produz
para que as heras, espontaneamente, cresçam mais belas;
para que, nas grutas abandonadas, o medronheiro surja mais formoso
e as águas indóceis saibam percorrer o seu caminho.
As praias atraem, matizadas com seixos nativos,
e os pássaros, sem aprender, cantam com doçura maior.
Não foi assim que Febe, a filha de Leucipo, inflamou o coração de Cástor;
não foi pela beleza cultivada que Hilaíra, sua irmã, inflamou o de Pólux;
não foi assim que a filha de Eveno, na praia do seu país,
foi motivo de discórdia para Idas e para o cúpido Febo;
não foi com a falsa brancura de uma tez pintada que Hipodâmia,
raptada por um carro estrangeiro, conquistou um esposo frígio:
seu rosto não devia nada às pedras preciosas;
tal é o aspecto nos quadros de Apeles.
Nenhuma dela teve a intenção de conquistar o amante de forma vulgar;
nelas o grande pudor já era suficiente formosura.
Não tenho receio de ser para ti menos do que todos estes.
Se uma mulher agrada a um único homem, ela já é enfeitada
principalmente quando Febo te oferece seus versos
e a jovial Calíope, sua lira aônia.
Não te falta a graça das palavras belas
e tudo o que Vênus e Minerva aprovam.
Serás sempre o encanto de minha existência
desde que sintas repulsas por todo esse luxo infeliz. 


NOVAK, Maria da Glória; NERI, Maria Luiza (orgs.). Poesia lírica latina. São Paulo: Martins Fontes, 2003.p.133 e 135

quarta-feira, 14 de junho de 2017

BARRACÃO

Lhé (Abrahim Farhat) 


Na solidão
deste barracão
o meu patrão,
que é o cão,
rouba-me
no preço
na tara
no peso
e, se descuido-me,
soma inté data de aniversário!

Mesmo diante de tanta roubalheira,
se tiro saldo
posso ficar
na volta, na curva
da sapupema.



OUTRAS PALAVRAS, Ano II, N.12, Julho de 2001
Ilustração: Danilo de SAcre

segunda-feira, 5 de junho de 2017

BARCAROLA AO RIO ACRE

Florentina Esteves

Rio que passa assim tão manso e lento,
Correndo águas fundas e barrentas,
A que destino vais com qualquer vento,
Que porto buscas ou que mar intentas?

Teu caminhar afora flui constante,
Cumprindo a lei de ir, não importa, indo.
Depões os teus balseiros na vazante,
Se cheio és arrastão, caminho abrindo

Vais destruindo pontes e barranco,
Em igapós e igarapés tornando
De areias, nem sequer restando um banco,
Cego voraz, a tudo vais levando.

Mas se a estiagem chega de repente
E de repente escoa teus delírios,
Eis-te a passar humilde, novamente:
Esperas repiquete e outros rios.

Rio que hoje assim faz a corredeira
Em direção veloz à ribanceira,
Navego em teus balseiros, passageira.

Revista OUTRAS PALAVRAS, Ano II, N.12, julho de 2001, p.27