segunda-feira, 23 de julho de 2018

TRÊS POEMAS DE JOÃO VERAS

A LABUTA DE SER

Não sou em si. Nem algo ali, aqui...
Metido na totalidade, um sujeito a-sujeitado.
Quando é possível, quando não é.
Um motor enguiçado na arena da inconstância social.

Cambista solitário de interjeições imaculadas, sou em meio.
Um permeio de sons, imagens, sabores, olfatos e outros fatos.
Encarnado na terra desde o piso.
Eis aqui um quase extintor preciso.
Aquela alma penada de esfinge voadora que,
nos desertos tópicos de acres utópicos, pensa, finge...

Uma luta super a-tômica, a-total e des-naturalizada.
Como sonhos desacordados vendo filmes de heróis cansados.

Quem mesmo eu já fui?

tarde de 22.07.18


CRÔNICA DO DES-ENVOLVIMENTO BARATO

A máquina de fazer espíritos noturnos
- quando não se ver saídas -
é liquida e tem cor de terra depois da chuva.

Ela foi na noite de ontem elevada à contabilidade da aldeia.
Assegurada no plano de manejo, único e eficaz instrumento
de viagem empreendedor.

Caliban a vende a preços módicos, crente da sedução do outro.
Próspero faz de conta que a compra com as suas moedas verdes esterelizantes.
Eles estão certos que os seus controles são remotos,
desde o achado.

Nesta operação simples da economia do mercado espiritual,
os dois permanecem um único, no estado de consumo.
Se consumindo, o mundo segue a sua rota – vela a este bordo - se transformando todo dia no mesmo.

manhã de 07.07.18


POÉTICA LITERAL

Pra onde eu vou
levo as chaves de casa no bolso.
E quando as esqueço em algum lugar
eu sei
não preciso lembrar
elas estarão sempre lá.

manhã de 29.06.18

segunda-feira, 16 de julho de 2018

O DIVINO BEIJA-FLOR

O DIVINO BEIJA-FLOR
Intérprete: Clenilson Batista
Letra: Geovânia Barros
Produção musical: Kemeson Arantes
Arranjos: Kemeson Arantes e Clenilson Batista
Produção de video:  Nativuslive
Direção de arte: João Veras e Clenilson Batista
Roteiro: Clenilson Batista
Iluminação e efeitos especiais: Lelande Holanda, João Veras e Luiz Rabicó
Câmera: Edelson Mota e Lelande Holanda
Edição e Finalização: Lelande Holanda
Auxiliar de Edição: Clenilson Batista
Direção geral: Lelande Holanda & Clenilson Batista

sexta-feira, 13 de julho de 2018

ATA DE FUNDAÇÃO DA VILA THAUMATURGO

A VILA THAUMATURGO
Ata de fundação da vila Thaumaturgo, na foz do Amônea, margem esquerda, em 1905
Vila Thaumaturgo, início do século XX.
Aos dias um de janeiro do ano de mil novecentos e cinco da era de Cristo e décimo sétimo da República Brasileira, os abaixo assinados, habitantes da região banhada pelo rio Amônea, afluente do Juruá –, reunidos na casa onde funciona o Posto Fiscal Federal, resolveram, em harmonia de vistas, denominar o lugar em que está estabelecido o referido Posto e em que esteve indevidamente instalado, à mão armada, por espaço de dois anos, um Posto Militar e Aduaneiro do Peru – de Vila Thaumaturgo, como preito ao emérito organizador e patriótico reivindicador da integridade territorial deste Departamento, o exm. sr. coronel doutor Gregório Thaumaturgo de Azevedo, que, para dar cumprimento ao que determinam os decretos do Governo Federal números 5188 e 5206, – teve de expulsar os intrusos vizinhos deste lugar incontestavelmente nacional, sendo por esta ocasião as armas brasileiras, mais uma vez , cobertas de glória no campo da luta. Por esta razão, em que pese a modéstia do excelentíssimo senhor coronel doutor Thaumaturgo, os residentes desta até aqui abandonada zona resolveram denominá-la de Vila Thaumaturgo, e pedir que com essa denominação seja registrada no mapa da Prefeitura.

Fernando Ribeiro, Antonio Joaquim de Almeida Pimentel, Fernando Guapindaia de Souza Brejense, tenente Pedro Lustosa de Araújo Costa, José Candido Martins Trindade, alferes Matheus Marques de Souza, Alvaro José da Costa Ferraz, Joaquim Barroso Cordeiro, Antonio Ferreira Braga, Gilberto Rebelo de Figueiredo, Francisco Santana, filho, Pedro Assumpção de Mattos, Amadeu Alencar Araripe, João Rufino Jorge de Souza, Luiz Francisco de Melo, Cleodulpho Bonifácio Antunes, Lucio de Castro, Glycerio de Vasconcelos Pessoa, José Henrique de Melo, Sebastião Teixeira de Alencar, Solano Marignier de Noronha, Manuel Ribeiro, Frederico Ortiz do Rego Barros, Joaquim de Sales Theophilo, Francisco das Chagas Pinto, Joaquim Aristides Ribeiro, Antonio Machado, filho, Francisco Bonifácio da Costa, Raimundo Machado Freire, Francisco Ribeiro, Pedro Canuto, José Mergulhão, Belmiro do Nascimento Lisboa, João Leoncio, Raimundo Cordeiro de Oliveira, Francisco Benicio de Carvalho, José Rodrigues Torquato, Bernardino Ribeiro da Cruz, Francisco das Chagas Neiva, João Nogueira da Silva, Antonio N. de Lima, Tertuliano Antonio Crispim, José Baptista França, Lourenço O. Ribeiro, João Rodrigues Freire, Vicente Alves Ferreira, Joaquim Nogueira da Silva, Manuel Martins da Fonseca, José Justino de Araújo, Vital Celestino da Costa, Alcebíades Cardoso Brasil, Joaquim Ribeiro do Carmo, Adelino Pereira de Souza, José da Silva Costa, Francisco da Silva Costa, José Alves Pereira, Elmiro Ferreira de Melo, Joaquim Rodrigues, José Vicente Assumpção, Luiz Gonzaga de Araújo, Manuel Vicente Lopes Falcão, Manuel Pinho, Antonio José Leite, Abdias Gomes de Oliveira, Henrique José dos Santos Viana, Hildebrando Augusto Saint Clair Soares, Honesto Mafra da Mota, Domingos Luiz Rebelo, Manuel Ignacio de Carvalho, junior, Manuel Alfredo Castro, junior, João Leão Vieira, Felinto Elisio Ausin, Gregorio Custódio Pinheiro, Manuel de Souza Moreira, Eduardo Augusto Fernandes Ribeiro, Martinho Marques de Moreira Maia, Manoel Benicio Rola, João Barcelos da Silva, José da Costa Vieira, Luiz do Amaral Dias da Mota, Manuel Angelo, Romeu Marques Correa, José Gonçalves Caramulho, Pedro Cordeiro de França, Alfredo José Pereira, Salestiano José da Silva, João Ferreira Viana, Manuel de Oliveira Marques, Ludgero Braulio do Carmo, Honorato Bertholdo, João Gomes de Melo, Pedro Augusto da Silva, Luiz Vieira da Silva, Manuel Maximiano Pereira, Manuel Cabral de Vasconcelos, João Peixoto Lisboa, João Martins de Menezes.

O CRUZEIRO DO SUL, Cruzeiro do Sul-AC, 5 de agosto de 1906, N.13, Ano I

CONDIÇÃO

Carlos Nejar 


Que homem sou,
se desde o acordar
uma culpa flamejante
me guarda?

Não resolve indagar
no tribunal da boa hora
ou da aurora.

Que homem sou,
se continua a reclusão
fora da cela,
se apenado permaneço
além da pena
e não sei quando termina
em suas radiações, irradiações, resinas?

Serei então
ficha
de ideias infinitas,
relâmpagos de abraços,
sistemas?

Liberdade,
indiviso pensamento,
regedor de uma pátria
que não vejo,
mas sinto
por instinto
onde ela arde
e é coragem.

Uma culpa flamejante
me separa de mim.
Veleiro dos instantes,
por acaso fugi
do que perdi?

Uma culpa flamejante
e eu infuso
nos pontos cardeais,
consoante ações e usos.

Que homem sou?


NEJAR, Carlos. Poesia reunida I: Amizade do Mundo. Osasco: Novo Século Editora, 2009. p.288-289

quarta-feira, 11 de julho de 2018

GISELDA

Reginaldo Castela e Eliana Castela


Não assisti por displicência,
a importância de ver
O tempo pulverizar flocos de neve
Em teus cabelos negros.

Hoje tua cabeça branca
espelha os anos vividos

Tua alegria jovial expressa em sorrisos
também nas faces a raiva às injustiças
Agora teus gestos lentos expressam sua luta
Para não satisfazer as limitações do corpo.

Tua voz perdeu o forte timbre
Que minha memória gravou na infância
Hoje é voz baixa, pausada…
Mas tudo é surpresa em ti
Vigorosa mulher.

Recordo ainda teus braços fortes
lavando, passando, construindo nossa casa,
com suas próprias mãos,
subindo e descendo os barrancos do rio
com latas d´água nas mãos.

Teus poucos anos de escola
Não te aluíram de alfabetizar oito filhos
Lavou, passou,
Cozinhou, costurou…
Fez muito mais que isso
Dessa concretude
(desde o mais cru ao mais concreto ou cozido)

À parte mais espiritual de nossas relações
Àquelas que nos sustentam e mantém o elo.
Que bom poder dizer isto a ti agora
No momento que ainda vives,
embora, viverás para sempre em nossa memória e em nosso coração.


Publicado originalmente em:

segunda-feira, 9 de julho de 2018

MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO NA RUA DA HOSANA (notas sobre o filme)

João Veras

“Sem esquecimento não passamos de papagaio”
(Paul Valery)


Do que se constitui a vida das pessoas, como seres culturais, senão de suas memórias, que é como nos vemos e também os outros o tempo todo? Todos somos o que somos justamente em razão das memórias. Não consigo desmembrar a ideia de vida com a de memória. Porque as vidas são construídas de memórias e estas justificam e motivam aquelas. E memória não é passado, tão somente, mas também o que se passa. A memória resiste a ausência de vida, esta ideia de vida como a concebemos. Dizendo de outro modo, penso que é a memória que possibilita uma vida muito próxima da infinitude que tanto desejamos. A vida passa e a memória fica. A gente permanece e vai, tudo como memória.

Mas enquanto ela nos é contemporânea, isto é, enquanto a produzimos/somos por ela produzidos, ela não se faz só senão amalgamada de imaginação. Não há produto dela que não seja resultado das duas. Não é possível lembrar sem imaginar. E isto se faz, em regra, por uma operação inconsciente. É que a imaginação é um suporte, em maior ou menor grau, da memória esta que, por sua vez, alicerça aquela. As duas se retroalimentam e, por isso e por vezes, se confundem. E, ambas, não existiriam misturadas, vezes confundidas, não fosse, muito talvez, o esquecimento.

E quando não se pode dizer que são, numa narrativa, uma coisa e outra, quando não se pode fugir do senso de ambiguidade que produz outro modo de ver o mundo, ai reside a arte, a arte enquanto se difere, para um lado ou para outro, do exato, do linear, do oficial, da história, especialmente disso tudo mascarado de imparcialidade, de verdade.

Rua da Hosana, filme de Ney Ricardo Silva lançado no final do mês passado em Rio Branco, é uma obra de arte concebida em um ambiente narrativo a destempo, no sentido de que busca desvelar, ao seu modo, um contínuo histórico, pois é sobre um fato social em si que nunca acaba de acontecer em certos lugares – e em desfavor de certas pessoas - que o estado-centro vai cunhar de sua periferia e de periféricas as pessoas que ali vivem: O assassinato de uma mulher sem que se consiga/queira fazer justiça. Casos tão comuns em que a vítima é que é merecidamente condenada por sua condição tida como ofensiva ao status quo. Hosana era uma mulher livre. Daí, justiça para, no caso contra, Hosana.

O filme trata das vidas, das memórias, das imaginações e dos esquecimentos, de Hosana, de seus testemunhos e de todos nós. Ninguém está fora disso. Não é viável, com esta nova obra de Ney, desconjuntar uma coisa da outra. O que se passou, se passa e se passará na Rua da Hosana é produto do que é vivido, lembrado, esquecido e imaginado. Por ele, é possível se afirmar que a cultura é senão uma autocriação e não algo reduzido a uma macro narrativa institucional só encontrada nos livros escolares de história e nas propagandas governamentais.

Rua da Hosana, como produto cultural das narrativas de memória, imaginação e esquecimento, traduz e revela todo o espectro social – e seus significados morais, políticos e culturais – da época e de agora. As pessoas que emprestam seus testemunhos ao filme, pelas quais Hosana é desadormecida, buscam, mais que honrar o fato (na sua exatidão formal), honrar, para além de sua própria defesa (como semelhante), a vítima e a ideia de justiça, tão desconsideradas ao longo do tempo naquela região em suas histórias de desventuras sem fim. De um símbolo, por sua silenciosidade, sem consideração para o centro, Hosana, a mulher perdida, agora é infinita arte na obra do cineasta acreano.


João Veras 
01.07.18

domingo, 1 de julho de 2018

VIDA DE ARTISTA

Leila Jalul

Antes das 8 da manhã, sacolão em punho, suando em bicas, me chega o JB. Sua cabeça lisa e brilhosa mais parecia ter acabado de sair duma sauna.

Beijinhos formais, chamei-o para o café, não sem antes esperar que lavasse o rosto e enxugasse a luzidia careca.

Mal pulamos o tempo, ainda mastigando o último naco de pão, ele abre a sacola e de lá retira um turbante verde e já cosido no formato usual. Além do tecido ser ‘lurex’, não me peçam explicações, ainda havia muita purpurina colada sobre, o que deixava o turbante mais parecido com um capacete de gesso.

Após, com cuidado, retira uma cestinha lotada de diversas e coloridas frutas de plástico e cera.

Dali sairia uma Carmen Miranda, com certeza! – pensei.

O adereço, por baixo, pesava um quilo. E, pasmem, sobre a coroa do abacaxi, em destaque, um passarinho de palha parecia ter acabado de pousar para bicar as doçuras ‘frutosas’.

Por último, JB retira um bustiê de cetim rubro e uma saia longa e rodada, também em cetim rubro, com aplicações de flores artificiais de vários tipos, tamanhos e tonalidades. Um jardim, pois.

Bem, a curiosidade foi inevitável.

- De quem é isso, JB? Estás fazendo fantasias de carnaval?

Afinal, de JB, tinha poucas informações. Ele era apenas um amigo do rapaz que morava na minha casa, que trabalhava como ‘chapeiro’ na lanchonete de uma loja de conveniências e que havia nascido em Ilhéus. Sabia, também, que tinha um caderno de 300 páginas, com manuscritos sobre sua vida. Queria minha opinião para escrever sua história. Tinha muitas coisas escritas e pouco sistematizadas. E só!

Sentados na área, bastante alegre e rindo da minha pergunta, responde:

- Esta é a roupa que vou usar esta noite na Boate Xamêgo, onde me apresento como drag. Quero sua opinião e uma ajuda.

- Vamos lá, menino! Acho que a roupa está bem feita e bonita. O turbante, no entanto, creio que te machucará. Vais colocar o cesto de frutas nele? Não vai ficar pesado demais? Olha, acho que até pode cair durante o show, entendes?

- Isso, também, está me preocupando. Já experimentei várias vezes e ele desmonta. Se cai sem a cesta de frutas, imagine com o peso dela. O que faço?

- Será que um elástico preso no queixo não resolveria?

- Não, acho que perderia o movimento do pescoço durante a dança. Quer me enforcar, é?

De repente, num estalo, perguntou-me se tinha cola de madeira. Peguei um tubo grande, dos meus artesanatos e entreguei nas mãos dele.

- Bem, enquanto você faz o almoço, vou ao banheiro fazer um teste. Fique tranquila.

Fui para a cozinha, fiz tudo e nada do JB aparecer. Quando apareceu, estava em pânico. A cola, além de não ter resolvido o problema, causou-lhe uma reação alérgica na careca, no rosto, inclusive nos olhos e já estava descendo para o resto do corpo.

Mandei-o para o PS. Voltou depois de umas duas horas, já refeito, após uma injeção de alergênico que não soube dizer o nome.

-E o show, JB? Como será o show?

- Não se preocupe. Darei meu jeito. Com turbante ou sem turbante, Regginee Grace estará quebrando a castanha e rodopiando no palco. Voltarei para lhe contar e trazer fotos e vídeo, tá?

- Combinado, Regginee Grace!

Muitos dias depois, na lanchonete, JB mostrou-me um vídeo da apresentação na boate Xamêgo. A danada da Regginee Grace inventou uma coreografia com o turbante numa mão e a cesta de frutas na outra, quebrando a castanha no palco e fazendo a alegria da moçada.

Depois disso, nada mais soube de JB. Ou de Regginee Grace, como preferirem.

sábado, 30 de junho de 2018

A VIDA SEM VIDA, SEM MORTE, SEM NADA

Proposta de intervenção em defesa da vida, contra o agronegócio e todo tipo de barbárie e a violência que [nos] transforma todos os seres vivos em mercadoria e coisas descartáveis. por Gerson Albuquerque.
 

sexta-feira, 29 de junho de 2018

REVÉRBERO: ÁLBUM MUSICAL DE ARTHUR MIÚDA

Arthur José de Souza Martins, também conhecido como “Miúda”, músico, artista e pesquisador. Nascido em 1987 na cidade de Rio Branco no Acre. Iniciou sua carreira musical aos 15 anos com a Banda Lona Blues Boys, em Shows na Universidade Federal do Acre, desde então fez parte das bandas; Na Tora, Far Star, Mamelucos, Mapinguari Blues. Participou ainda como Baixista em shows, apresentações, Jam Sessions com os seguintes artistas; Andrelino Caetano, Antonio Pedro, Arismar do Espírito Santo, Bima, Bruno Souto, Caravana do Pecado, Carol Freitas, Chico Chagas, Chiquinho da Guitarra, Clenilson Batista, Daniel Groove, Deivid de Menezes, Haley Guimarães, Heloy de Castro, João Araújo, João Donato, Jorge Cardoso, Juca Culatra, Leo Chermont, Nemias Maciel, Pia Vila, Pio Lobato, Robertinho Silva, Saulo Duarte, Shaneihu Yawanamá, Thiago do Espírito Santo, Vinícius Dorin, Zé Jarina, dentre outros.

Em 2008 participou da formação da banda Instrumental Caldo de Piaba, que tinha como proposta, um Amálgama Sonoro de elementos musicais como; Carimbó, Cumbia, Dub, Funk, Jazz, Lambada, Rock, etc, que se dava através de composições próprias, tanto quanto como em releituras. A banda gravou três CDs entre os anos de 2009 a 2011.

Atualmente desenvolve pesquisas sobre, saberes práticos, com músicos do seringal, no projeto “Memórias Musicais Vivas na Amazônia Acriana”, e também sobre Improvisação Livre com o G.I.L (Grupo de Improvisação Livre), na Universidade Federal do Acre.

Clique aqui para ouvir: artmiuda.bandcamp.com 

quinta-feira, 28 de junho de 2018

ALUÁ DE PEGA-PINTO

Leila Jalul

Cemitério é coisa mórbida. Os mais modernos, nem tanto. O dos Israelitas, em São Paulo, mais parece um jardim. Na minha ideia, é como no céu. Tudo planinho, com pequenas placas, lugar para sentar, flores bem cuidadas, deve ser como no Éden. Agora, cemitério feio, com sepulturas abandonadas, covas rasas e recentes, afundadas, é um terror.

Mas a reverência aos entes que já partiram é dever cristão.

Hoje, por uma questão de escolha pessoal, reverencio meus mortos ouvindo música. Não acendo velas, nem deposito flores. Minha reza é só no pensamento. Minha homenagem faço com músicas: músicas alegres, de preferência.

Laura e Benedito Maia
Não vim aqui falar de mortos. Vim para dizer de Seu Benedito e Dona Laura. E de Milton Maia, um de seus muitos filhos. Os outros eram Esterzinha, Alan Kardeck, Dr. Mário Maia, Seu Tancredo, Edevar, Áurea e Zilma. De todos, creio que somente a Dona Áurea e Dona Zilma ainda respiram poluição. Os outros já se foram. Oito criaturas, oito mil diferenças. E muitos descendentes, com outras tantas mil diferenças.

De todos, o Milton era o mais expansivo. Uma semelhança incrível com o Salvador Dali, inclusive no jeito de ser. Meio escrachado, falante, creio que nunca coloriu uma tela, porém, pintava o sete e bordava o oito!

Chovesse, fizesse sol, todos os dias de finados, estava ele, desde muito cedo da manhã até o fim do dia, à beira do túmulo de Dona Laura e Seu Benedito, cantando velhas valsas, velhos boleros de Dom Pedrito de Las Américas e antigas baladas. Isso me espantava. Normalmente e de praxe, deveria existir um ar de tristeza, velas, flores e uns terços desfiados ligeirinho para acabar logo. Ele não. Não tinha pressa. As contas do terço eram sempre em lá maior e lá menor.

Outro dia, lembrei-me do Seu Milton e perguntei para minha mãe a razão daquela doideira.

– Minha filha, era o amor que ele tinha pelos pais. A Laura e o Benedito criaram esses filhos vendendo aluá de raiz de pega-pinto. Todos os dias, muito cedo, ele passava com as panelas de aluá para vender no mercado. Era muito gostoso. Com cravo, gengibre, gramixó e amor, ele vendia tudo. Com isso, alegria e paciência, criou os meninos e ainda fez médico o Mário, fez professora a Ester, e os outros, se não doutores, fez de bom caráter. Todos bons pais e mães. Você os conheceu bem.

– Entendi, mãe. Obrigada pela informação.

Agora sei de tudo, mas fiquei sem saber o que é a raiz de pega-pinto.