domingo, 14 de abril de 2019

TARAUACÁ: APONTAMENTOS HISTÓRICOS

José Marques de Albuquerque

José Marques de Albuquerque
Em princípios de maio de 1887, fui passageiro com outros companheiros de jornada do vapor nacional “Augusto Pará”, sob o comando do capitão José Rodrigues de Oliveira, português, residente hoje no Alto Purus, cujo vapor deixou-nos no baixo Tarauacá, no lugar denominado Conceição, nome ainda hoje conservado.
Existia ali uma barraca ordinária ocupada por caboclos amazonenses de ordem de João da Matta Martins, já falecido em Parintins que era o posseiro do lugar adquirido por compra ao primeiro explorador Pedro de Sousa Leão, cearense, sócio de Sousa Leão & Cª., de Manaus.
De Conceição até vila Martins não existia outra habitação.
Vila Martins era o barracão do proprietário já referido que tinha como gerente um moço de nome Gabriel Pedro Ribeiro Guimarães, que vivia com uma mulata, casada com Raymundo de tal. Gabriel tratava os doentes com homeopatia e era muito feliz na aplicação desse remédio que o tornou estimado e muito conhecido neste rio e no Embira, onde morreu, casado com a mesma mulata que enviuvara, deixando regular prole.
D’ali transportei-me, em canoa, até o seringal Sobral de Antonio Patriolino de Albuquerque que havia mudado o nome de Restauração, do dito lugar para o de Sobral que era o do berço daquele digno cidadão, no Ceará, depois vantajosamente conhecido em todo norte.
Havia acima de vila Martins uma barraca pertencente a João Martins de Sousa, cearense, homem branco e bem educado que, mais tarde, vendeu a dita barraca a Francisco Fernandes de Araujo Junior e retirou-se para Fonte-Boa, no rio Solimões, onde inda vive na ilha do Tarará. Francisco Fernandes, cearense, já era dono do lugar denominado Baturité, onde viveu muitos anos, casando-se ali com uma enteada de um seu freguês, havendo desse consórcio uma só filha de nome Luiza, tendo em 1899, o mesmo Fernandes, divorciado-se de sua esposa, por infidelidade desta.
Francisco Fernandes foi um bom e digno homem que finou-se em seu lugar Baturité, carregado de anos e também de desgostos, até a vista lhe faltara.
Acima de Baturité, a margem direita do rio, estava situado o seringal Monte Flor, de Francisco de Sousa Javi, cearense de Baturité casado, tendo trazido para ali sua família, inclusive a velha mãe, viúva. Javi era um cidadão de princípios e de educação como todos de sua família, tendo misteriosamente desaparecido numa pescaria, para sempre.
Toda sua família regressou ao Ceará, enlutada. O negociante português Antonio Fernandes Costeira, depois sócio de Mello & Cª. dispensou toda proteção a essa família que muito apreciava.
Dizem que Javi foi traiçoeiramente morto por Agostinho Alves Teixeira, falecido há anos no rio Acre, sem família.
Entre Monte Flor e Sobral habitava Flavio Florentino do Amaral, no lugar Boa Esperança, hoje Diamantina de propriedade do mesmo Flavio, velho cearense, casado com uma respeitável e distinta senhora, também cearense que sofreu em 1889, um desequilíbrio mental, por ocasião da chegada ao porto de Diamantina, do vapor “Alfredo” de propriedade e comando de Leão Levy, judeu paraense.
Três praias acima de Diamantina, que então era de Mello & Cia, morava José Eufrosino, casado, cearense de Baturité ou Meruoca, gente de baixa classe sendo depois ocupado Diamantina em 1888 pelo hebraico Abraham Cohen que veio acompanhado de sua família, gente bem educada.

Abraham Cohen, era arrendatário de Diamantina.
Dez voltas acima de Diamantina está situado o barracão de Sobral, onde aportei a 22 de maio do dito ano de 1887.
O proprietário do lugar, como já ficou dito, era o coronel Antonio Patriolino de Albuquerque, homem distinto e cavalheiro de fino trato, sendo viúvo naquele tempo, e tendo uma companheira, mulher solteira, porém de boas qualidades, com quem houve o mesmo Patriolino, duas filhas.
Ali fiquei algum tempo, voltando ao Ceará em 1889, como empregado e agenciador de pessoal para o trabalho de extração da borracha, do já referido Patriolino.
Baixei no vapor “Mundurucus” do comando de Antonio Peters Gomes, português, sendo imediato um sr. Damasceno e escrivão Vicente Barjona de Miranda, paraense, depois comandante e conhecido pela alcunha de “Dormes que eu velo”.
O dito vapor tinha chegado até a Foz do Envira, ponto em que terminava a navegação a vapor.
Voltei ao Tarauacá no ano de 1890.
Acima de Sobral 16 praias, morava Raymundo Martiniano Fernandes, cearense, de Cascavel, homem de bem, vivendo com uma respeitável senhora depois sua atual e virtuosa esposa. Era proprietário, como ainda hoje, do seringal Bom Futuro. Três voltas acima de Bom Futuro, está Bom Intento, de João Rodrigues Nepomuceno, cearense, casado, mulato, com muitos filhos que se empregavam na extração da borracha.
Vizinho de Bom Intento está o lugar Pacatuba então de propriedade de José Bento Barreto, que havia comprado dito lugar a Severiano Ramos. José Bento, era casado, não tinha filhos legítimos, criava, porém, umas moças cearenses, como eram José Bento e senhora. Desse cidadão ouvi dizer sempre bem, apesar de sua grande ignorância.
Nos limites de Pacatuba residia, no lugar São José, hoje Aracaty, José Adolpho Martins, cearense, do Aracaty, solteiro, amasiado com uma cabocla amazonense com quem houve duas filhas que perfilhou. José Adolpho, homem branco, de certa educação, era descendente de importante família do Ceará.
Deu nome de Aracaty ao lugar S. José, e ali faleceu em 1911, deixando poucos bens. Antonio Tavares Coutinho era o proprietário  da Foz do Envira, Coutinho, que ainda vive em Portugal, é português e então solteiro e vivia em concubinato com Etelvina de tal, cabocla amazonense com que não teve filhos.
Tavares Coutinho, gozou sempre de bom nome como homem sério trabalhador e fino comerciante, sendo hoje chefe das casas Coutinho & Companhia de Belém, de Antonio Tavares Coutinho, da Foz do Envira, de Coutinho Annibal & Ca., do Jurupari e de outras, neste município e no Estado do Amazonas.

Subindo o Tarauacá. Dez voltas rio acima, residia Joaquim Rola, português no lugar, Boa Esperança, passando depois essa propriedade a A. T. Coutinho. Existia também naquelas imediações uma firma Santos & Ca., composta de portugueses que pouco se demoraram ali, regressando ao Juruá donde tinham vindo.
Também residia perto de Boa Esperança o sr. Faustino, amazonense, com filhas moças que se retirou em 1890, vendendo sua exploração a José Adolpho Martins que deu o nome de Varsinha, adquirindo depois ainda a Foz do Aty, seringal importante por sua extensão e produção. O capitão Claudio era o dono de Cachoeirinha acima de Aty.
Claudio, era homem traquejado e barulhento, tanto assim que era acusado de haver assassinado um seu vizinho, por questões de extremas de seringais. O capitão Cláudio nascera no Amazonas, tinha diversos filhos homens e era um maníaco por festas e danças.
S. Barbara era lugar sem gente. Em S. Sebastião morava Manoel Pereira Cidade, pertencendo S. Sebastião ao seringal S. Catharina de propriedade do capitão Felipe Honorato da Silva Miranda, proprietário também do Bacaba, no Juruá.
Miranda era um cidadão paraense de esmerada educação e ótimos costumes.
Pertencia à firma comercial de Miranda & Cia. do Pará, sendo os seus empregados e gerentes moços habilitados, como fossem Francisco de Tal e João Antonio de F. Vasconcellos, aquele maranhense e este, mulato cearense.
Mais tarde o capitão Miranda, deu sociedade a Vasconcellos e entregou-lhe a casa em 1899.
Dezenove voltas acima de S. Catharina está Macucaua, então propriedade de Severiano de Freitas Ramos, cearense, viúvo, vivendo em comum com a senhora d. Antonia Feitosa também cearense, com quem se casou eclesiasticamente, entre 1898 e 1899.
Vinte e duas praias acima está o Araty que pertencia a Antonio Ferreira Lima, (vulgo Rogerio) que explorava o dito seringal com os seus cunhados Delfino e João Farias, a quem mais tarde vendei o dito lugar e retirou-se para Manaus, voltando depois, já casado em segunda núpcias, para o lugar de seus cunhados.
O coronel Patriolino possuía a exploração denominada Ibiapaba que vendeu a seu primo Jesuino Coelho de Albuquerque, a quem deu pessoal e aviamento.
Jesuino nada fez e arrependendo-se do negócio voltou para o Juruá, entregando Ibiapaba ao coronel Patriolino que a vendeu novamente a P. Sousa e P. Marques. Jesuino retirou-se em 1891, ficando perto do rio Gregório. O seringal S. Francisco foi vendido a Severiano Ramos, ignoro o nome do vendedor. Vizinho a S. Francisco havia o seringal denominado Bom Fim, de Ernesto Nunes Serra, cearense, de Jaguaribe-Mirim. Nunes Serra era acompanhado por seu cunhado Antonio Lima.
Em 1890, tendo se dado um morticínio de índios em Araty, pelos fregueses João Cavalcante e José Barroso na própria barraca destes fazendo correria de acordo com os srs. Delfino S. Ramos e Nunes Serra; Raymundo Pereira assassino por índole matou uma índia velha, única que pode alcançar na ocasião.
Ernesto N. Serra, desgostoso com esse acontecimento, abandonou o seringal e mudou-se para o Juruá, onde comprou outro lugar.
Acima de Bomfim moravam os irmãos Baptista que já haviam vendido o lugar a Ernesto e com ele também se retiraram.
Os irmãos Baptista moravam 4 praias abaixo da foz do Muru, cujo lugar, meu freguês Arcenio Francisco da Silva, deu o nome de Sulué.
A foz do Muru, onde se acha hoje a cidade Seabra, foi explorada por um sr. Zacharias, que logo vendeu dita exploração a Severiano Ramos.
Esta exploração constava de 5 praias no Tarauacá e 10 no Muru, isso só nas margens esquerdas.
Para cima pertencia a Novo Destino que era de Joaquim Freitas e de um sr. Amaral, sendo aquele cearense e este português.
É mister saber-se que existia estas extremas mas sem cultivo, só havendo gente 4 praias abaixo da foz do Muru e assim esteve em abandono até 1892.
Tornou-se habitada quando eu tomei posse por compra do antigo Bomfim, hoje S. Salvador.
Ali encontrei apenas vestígios de um barracão que tinha sido queimado.
É preciso notar que estas explorações eram quase imaginárias e vendiam-se ao preço de duzentos mil réis.

RIO EMBIRA

Antonio Tavares Coutinho chegou ao Tarauacá, já conhecia outros rios do Amazonas e trazia alguns recursos e o seu bom nome de homem trabalhador, correto e financeiro.
A sua primeira moradia foi acima da Foz, poucas voltas no rio Embira, em uma barraca comum donde retirou-se pela perseguição dos índios, estabelecendo-se definitivamente na Foz do Embira. Pouco acima da barraca onde morava Coutinho, havia outra propriedade de um cidadão português afamiliado que mais tarde vendeu dita propriedade ao mesmo Coutinho e retirou-se.
Vizinho a essa propriedade que ignoro o nome, estava colocado com barracão Henrique Ferdinant Luniere, francês, casado com uma senhora amazonense, já tendo grande prole, sendo esse barracão à margem esquerda.
Pouco acima de Luniere, está o seringal Novo Mundo de Francisco Rodrigues Nepomuceno, cujo seringal limitava-se com a Foz do Jurupari, de propriedade também de Antonio Tavares Coutinho que tinha ali um sócio, subdito português.
Acima da foz do Jurupari poucas voltas, estava encravado o barracão de um aparentado dos Nepomucenos que tinha família.
Manoel Gomes era vizinho há um ano antes tinha sido atacado pelos índios que mataram duas ou três pessoas, deixando em cima de um balseiro no rio, uma criança do sexo feminino, com um grande golpe atribuindo que os índios iam conduzindo a dita criança para cupichaua, mas como a menina chorasse muito, golpearam-na e deixaram-na sobre o balseiro que descia à tona dágua, cuja criança foi salva.
Essa propriedade de Manoel Gomes era limítrofe com o lugar Boa Esperança de Benedito Rodrigues do Nascimento e de quem era Gomes aparentado, sendo ambos paraibanos, também parentes de João e Francisco Rodrigues Nepomuceno.
Acima de Boa Esperança morava sozinho um sr. de nacionalidade Suíça, homem esquisito e original.
Possuía uma cachorrinha que era sua inseparável companheira. Abria estradas de seringueiras e fazia plantações de cereais, cuja colheita guardava em frasqueiras. A casa desse suíço era uma espécie de paiol, ali esteve em 1889, quando o referido suíço fazia uma canoa com enormes pranchões tirados à machado.
D’aí para cima moravam uns três seringueiros e um caboclo cearense aviado de José Adolpho Martins.
Para o alto não existiam moradores, continuavam as terras de exclusivo domínio dos índios que realmente eram os legítimos e naturais possuidores.

Em 1888 Manoel Pereira Cidade e Wolfango de tal, saíram de S. Sebastião e entraram no rio Muru, voltando com poucos dias de viagem os mesmos exploradores trazendo muita carne de caça.
Cidade e Wolfango, ao chegarem a Foz do Muru, declararam que haviam explorado 40 voltas do rio, apossando-se de 30 voltas e deixando 10 para fundos do possuidor da Foz que então Joaquim Gonçalves de Freitas, cearense, que nesse tempo morava numa pequena barraca acima da Foz do Acuraua, lugar denominado Cujubim. Depois o mesmo Freitas acompanhado de Cipriano, caboclo amazonense, Baraúna e Antônio Lino, subiram o Muru, dizendo terem respeitado as 30 praias de Cidade e Wolfango e explorado onze praias para cada um.
Em 1889 subiram de novo ao Muru, Freitas, Antonio Lino e os Baptistas. De volta declararam esses exploradores que haviam demarcado um certo número de praias.
Nesse mesmo ano subiram também o Muru, Raymundo Pereira e José Barroso que voltaram dizendo o mesmo que os outros haviam dito.
Em 1890, só haviam habitantes até o Sulué. Joaquim Freitas estava colocando-se a oito voltas acima da Foz do Muru.
No dia 1º. de setembro do mesmo ano, chegaram ao meu barracão os fregueses: Sabino F. do Rego, Arcenio Ferreira da Silva e Jorge da Costa Filho e os moradores de Sulué – Manoel F. de Maria e José Manoel do Nascimento, trazendo em estado agonizante Joaquim Gonçalves de Freitas e uma mulher com um grande ferimento no ventre.
Agasalhados os doentes e feitos os curativos possíveis na ocasião, informaram-me que os índios haviam atacado Freitas e uma mulher à pancadas quando este não esperava, na ocasião do jantar. Contou-me Freitas que recebendo a primeira pancada, traiçoeiramente, ficou atordoado, mas ainda pode pegar no rifle e lutar heroicamente com os índios até que pode disparar o mesmo rifle que eles procuravam tomar.
Amedrontados com o tiro disparado, fugiram os selvagens, dando ainda Freitas outros tiros a esmo. Freitas embarcou gravemente ferido com a mulher do companheiro e uns meninos, filhos do dito companheiro que se achava do outro lado do rio também ferido. Freitas aportando a canoa onde estava seu companheiro de fato ferido, embarcou-o e desceram rio abaixo, chegando a noite, quase alagados, em Sulué, barraca de Sabino, Arcenio e Jorge, onde a mulher vestiu roupas de um deles por falta de outras roupas próprias. Perguntei a Freitas pela outra mulher, respondeu-me que vira cair de cima do assoalho e julgava-a morta, na ocasião da luta.
Disse-me ainda o mesmo Freitas que a mulher de seu companheiro havia lutado como verdadeira heroína.
Nesse mesmo dia reuni meus fregueses e mandei imediatamente ao lugar onde Freitas fora atacado pelos índios.
Ali chegados na noite de 2 para 3 de setembro, encontraram a mulher morta ao pé da escada, a barraca incendiada e tudo que ali havia fora devorado pelo fogo.
O cadáver da infeliz mulher achava-se em estado de adiantada putrefação e não havendo um só instrumento com que pudessem cavar uma sepultura, cobriram o dito cadáver com terra e retiraram-se apavorados do que viram e presenciaram.
Essa sepultura verifiquei um ano depois.
Em 5 de setembro desse mesmo ano em que se deu a tragédia, faleceu Freitas, em meu barracão. O companheiro de Freitas e a mulher voltaram para a casa de Severiano Ramos, donde tinham vindo, sob a responsabilidade de Freitas, da importância de 700$ que ele devia a Severiano.
Outras perseguições fizeram os índios no mesmo ano em todo rio, sendo que em S. Catharina mataram dois homens que depois foram encontrados os seus ossos em uma praia por um pescador. Fizeram-se muitas correrias sem, com tudo, ter havido mortandade de índios.

Em 1892 o rio Tarauacá achava-se explorado até o lugar que hoje se chama Novo Destino.
A foz do Muru era de Zacharias de tal, com 5 voltas de rio acima que se limitavam com as 10 voltas de Joaquim de Freitas e 10 de um cidadão português.
Depois do falecimento de Joaquim Gonçalves de Freitas, vítima da ferocidade dos selvícolas, Severiano Ramos, arvorando-se em dono da exploração de Freitas, mandou o facínora Raymundo Pereira com Joaquim Silva, fazerem as extremas do seringal Novo Destino.
Em 1893, Joaquim Silva, Manoel Paixão e outros, subiram o rio Tarauacá.
Em 1894 subiu também José Dutra Belem, que comprou as explorações de Alexandre Teixeira e vendeu-as depois a F. Ferreira de Sousa.
No mesmo ano Ignacio Pereira Lima foi comprado das explorações de Manoel Paixão, que tomou outro rumo.
O Jurupari foi explorado por Simplicio, aviado de José Adolpho Martins e um dos homens mais fortes e resistentes aventureiros que passaram por essas plagas, donde saiu paralítico e paupérrimo.
Foi o primeiro cearense que trouxe do Ceará a família para essas paragens. 
Simplicio foi um dos heróis desconhecidos que deixaram os ossos pelos barrancos destes rios.

Referências
A REFORMA, Tarauacá-AC, 29 de outubro de 1922, Ano V, N.223 p.2
A REFORMA, Tarauacá-AC, 5 de novembro de 1922, Ano V, N.224 p.2
A REFORMA, Tarauacá-AC, 12 de novembro de 1922, Ano V, N.225 p.2
A REFORMA, Tarauacá-AC, 19 de novembro de 1922, Ano V, N.226 p.2
A REFORMA, Tarauacá-AC, 26 de novembro de 1922, Ano V, N.227 p.2-3
A REFORMA, Tarauacá-AC, 3 de dezembro de 1922, Ano V, N.228 p.2

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JOSÉ MARQUES DE ALBUQUERQUE foi um dos primeiros exploradores do rio Muru, onde era comerciante e proprietário de um dos mais prósperos seringais da região, o seringal Paraíso. Na década de 1930, sem deixar seu seringal, chegou a ser vice-governador do Território, na administração de Hugo Ribeiro Carneiro. Também ocupou, a partir de 1927, a presidência da Associação Comercial do Tarauacá e integrou, por duas vezes, o Conselho Municipal.

sábado, 13 de abril de 2019

A ORIGEM DO CONHECIMENTO HUMANO

Urbano Zilles 

O homem é um ser que pensa e pergunta. É um eterno peregrino. Contesta o mundo existente em busca de um mundo melhor, pois a utopia é constitutiva do ser humano. Não só quer entender a natureza, mas transformá-la. Procura o caminho para isso. Esse caminho chamamos, desde os gregos, de método.
O mundo que nos cerca provoca diversas atitudes em nós e emoções, como admiração e dúvida. Abrange desde as gigantescas galáxias até os pequenos seres que povoam nosso planeta. Neste mundo, o homem pode sentir-se ameaçado pelo desconhecido. Por isso sente medo de doença, da fúria dos elementos. Por outro lado, já dizia o pensador espanhol José Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minhas circunstâncias... O homem não se contenta com o simples viver, mas busca o bem viver”. Quer desfrutar a vida e seus prazeres.
Neste mundo o homem se inquieta com grandes perguntas: para onde vamos? De onde viemos? Quem somos não sabemos exatamente onde e quando, em nosso planeta, surgiu o primeiro homo sapiens, nossa espécie. Cercado por animais mais fortes, pela fome e pela doença, não tendo as armas e a força do leão, o homem nasceu com uma capacidade mais poderosa, a da inteligência e do espírito.
Conhecer coisas é a capacidade que distingue os humanos de outros animais. Isso faz do homem o mais bem sucedido, pois alguns animais andam mais rapidamente que o homem, mas este construiu automóveis que lhe permitem andar com velocidade maior que a dos animais. Alguns animais enxergam melhor que o homem, mas este construiu telescópios e microscópios que superam a visão de qualquer outro animal. Ao contrário do homem, o pássaro voa. Mas o homem construiu aviões que voam com maior velocidade e mais longe que qualquer outro pássaro. A diferença em tudo é o saber que possibilita ao homem construir automóveis, telescópios, microscópios e aviões. Nesse sentido, saber é poder. O saber faz do homem o animal mais poderoso de todas as criaturas.
Por um lado, o homem observa e interpreta a natureza, por meio do sobrenatural. Dessa maneira, entre os humanos, surgem os sacerdotes, que tudo relacionam com os deuses. Fenômenos da natureza, como raio e trovão, são interpretados como manifestações de deuses. O homem nasce para dentro de um sistema de crenças. Habitua-se a elas. Conta com as coisas e vive a interpretação que herda dos pais, mestres e antepassados. Mas também há momentos em que as crenças se tornam problemáticas. Interpretações de tipo religioso entram em conflito. Surgem incertezas. E, por outro lado, entre o povo também apareceram, paralelamente aos sacerdotes, os que são chamados artesãos. Esses, através da experiência, percebem que existem algumas pedras mais duras que outras. Passam a usá-las como instrumentos, criando objetos e ferramentas. O homem mantém as tentativas sucedidas, multiplicando-as, deixando de lado as erras ou falsas. O conhecimento adquirido é transmitido de uns a outros, socializando-se e acumulando-se.
Sendo o homem um ser pensante, desenvolve ideias e as testa na prática da vida. Busca coisas úteis, que tornem a vida melhor e mais confortável. Inventa armas para a caça e a pesca; faz cestas, para carregar coisas consigo; o arado, para cultivar a terra e semear; a cerâmica e os tijolos, para construir casas, aldeias e cidades. Enquanto não encontra explicação para o mundo, preocupa-se com o desenvolvimento de técnicas que funcionem. Para poupar suas próprias energias, locomove-se a cavalo ou de camelo. Assim, na Mesopotâmia, já foram construídas cidades, que à noite eram iluminadas com lâmpadas a óleo.
A invenção da técnica, para cultivar a terra, permite ao homem abandonar o nomadismo e fixar-se à terra. Assim surgiram povoados e aldeias, e a convivência humana trouxe novos problemas a resolver, como a divisão de terras, a troca de produtos agrícolas ou animais. O homem foi desafiado a criar uma linguagem própria para o cálculo. A medição e divisão de terras e o comércio produziram a matemática.
Se, por exemplo, no Ocidente medieval, predominava a ortodoxia religiosa, no final do século XX é a ciência e a técnica, ou a tecnociência. A linguagem universal passa a ser matemática. No topo da hierarquia estão os cientistas. Esses assessoram políticos. Se as cruzadas medievais foram substituídas pela conquista do espaço, os sacrificados são vítimas da ciência: a morte em acidentes automobilísticos, os desempregados marginalizados pela máquina. Mas a ciência também ajuda o homem a ganhar mais conhecimentos e maior compreensão do mundo.
Desse modo, o conhecimento nasce na experiência cotidianas do homem, no mundo que o cerca. Esse conhecimento é fortalecido na diversidade das circunstâncias, através do tempo. Primeiro é transmitido oralmente e depois escrito. A transformação da natureza pela inteligência e pelas mãos do homem é chamada, de modo genérico, de cultura. O conhecimento tem, pois, sua origem na capacidade reflexiva do próprio homem, a qual lhe garante um lugar único entre os seres que habitam nosso planeta. O prestígio da ciência hoje é incontestável. Entretanto, pode ser que no futuro o homem conclua que o mundo só se interpreta pelo amor, que a religião e a filosofia são pelos menos tão importantes como a ciência.

ZILLES, Urbano. Teoria do Conhecimento e teoria da ciência. São Paulo: Paulus, 2005. p.15-17

quinta-feira, 4 de abril de 2019

O QUE É FILOSOFIA?

Battista Mondin (1926-2015)

Filosofia é palavra de origem grega que significa literalmente “amigo da sabedoria” (philos sophias). Narra-se que o termo foi inventado por Pitágoras (670-496 a.C.), que certa vez, ouvindo alguém chamá-lo sábio e considerando este nome muito elevado para si mesmo, pediu que o chamassem simplesmente filósofo, isto é, amigo da sabedoria.
A filosofia é conhecimento, forma de saber que, como tal, tem esfera própria de competência, a respeito da qual procura adquirir informações válidas, precisas e ordenadas. Mas, enquanto é fácil dizer qual é a esfera de competência das várias ciências experimentais, o mesmo não se dá com a filosofia. Sabemos, por exemplo, que a botânica estuda as plantas, a geografia, os lugares, a história, os fatos, a medicina, as doenças etc. Quanto à filosofia, que coisa estuda? No dizer dos filósofos, estuda todas as coisas. Aristóteles (384-322 a.C.), que foi o primeiro a fazer pesquisa rigorosa e sistemática em torno desta disciplina, diz que a filosofia estuda “as causas últimas de todas as coisas”; Cícero (106-43 a.C.) define a filosofia como “o estudo das causas humanas e divinas das coisas”; Descartes (1596-1650) afirma que a filosofia “ensina a racionar bem”; Hegel (1770-1831)  entende-a como o “saber absoluto”; para Whitehead (1861-1947), o papel da filosofia é o de “fornecer uma explicação orgânica do universo”. Poderíamos citar muitos outros filósofos que definem a filosofia ora como o estudo do valor do conhecimento, ora como a indagação do fim último do homem, ora como o estudo da linguagem, do ser, da história, da arte, da cultura, da política etc. Realmente, coerentes com essas diferentes definições, os filósofos estudaram todas as coisas. Devemos então concluir que a filosofia estuda tudo? Sim, e por duas razões.
Em primeiro lugar, porque todas as coisas podem ser examinadas no nível científico e também filosófico. Assim, os homens, os animais, as plantas, a matéria, estudados por muitas ciências e diversos pontos de vista, podem ser objeto também da indagação filosófica. De fato, os cientistas se perguntam de que é feita a matéria, que coisa é a vida, como são formados os animais e o homem, mas não consideram outros problemas que dizem respeito também ao homem, aos animais, às plantas, à matéria, como, por exemplo, o que é a existência. Especialmente a respeito do homem, que as ciências estudam sobre vários aspectos, muitos são os problemas que nenhuma delas estuda (supondo-os já resolvidos), como o do valor da vida e do conhecimento humano, o da natureza do mal, o da origem e do valor da lei moral. Destes problemas ocupa-se somente a filosofia.
Em segundo lugar, porque, enquanto as ciências estudam esta ou aquela dimensão da realidade, a filosofia estuda o todo, a totalidade, o universo tomado globalmente.
Eis, portanto, a primeira característica que distingue a filosofia de qualquer outra forma de saber: ela estuda toda a realidade ou, pelo menos, procura oferecer explicação completa e exaustiva de esfera particular da realidade.
Há, porém, duas outras qualidades que contribuem para dar caráter próprio e específico ao saber filosófico: trata-se do método e do objetivo.
O método não é o da simples verificação, nem o da descrição mais ou menos fantasiosa, nem o da experimentação. O primeiro é próprio do conhecimento comum; o segundo, da poesia e da mitologia; o terceiro, da ciência. A filosofia tem método diferente, o da justificação lógica, racional. Das coisas que estuda, a filosofia deseja oferecer a explicação conclusiva e, para consegui-la, se serve somente da razão, isto é, daquilo que os gregos chamaram logos.
Quanto ao objetivo, a filosofia não busca fins práticos e não tem interesses externos como a ciência, a arte, a religião e a técnica, as quais, de um modo ou de outro, sempre têm em vista alguma satisfação ou alguma vantagem. A filosofia tem como único objetivo o conhecimento; ela procura a verdade pela verdade, prescindindo de eventuais utilizações práticas. A filosofia tem finalidade puramente teorética, ou seja, contemplativa; não procura a verdade por algum motivo que não seja a própria verdade. Por isso, como diz egregiamente Aristóteles na Metafísica (A, 2, 982b), é “livre” enquanto não se destina a nenhum uso de ordem prática, realizando-se na pura contemplação da verdade.
Dissemos há pouco que todas as coisas podem ser objeto de indagação filosófica. Como decorrência disso, pode haver uma filosofia do homem, dos animais, do mundo, da vida, da matéria, dos deuses, da sociedade, da política, da religião, da arte, da ciência, da linguagem, do esporte, do riso, do jogo etc. Na verdade, porém, os que são chamados filósofos estudam de preferência somente alguns problemas, os que são designados com os nomes de lógica, epistemologia, metafísica, cosmologia, ética, psicologia, teodiceia, política, estética, os quais constituem as partes mais importantes da filosofia. A lógica se ocupa da exatidão do raciocínio; a epistemologia, do valor do conhecimento; a metafísica, do fundamento último das coisas em geral; a cosmologia, da constituição essencial das coisas materiais, de sua origem e de seu vir-a-ser; a ética, da origem e da natureza da lei moral, da virtude e da felicidade; a psicologia, da natureza humana e das suas faculdades; a teodiceia, do problema religioso ou da existência e da natureza de Deus e das relações dos homens com ele; a política, da origem e da estrutura do Estado; a estética, do problema do belo e da natureza e função da arte.

MONDIN, Battista. Curso de Filosofia: volume 1. Tradução Benôni Lemos. São Paulo: Paulus, 1981. p.7-9