segunda-feira, 3 de agosto de 2026

POEMAS DE ADALCINDA CAMARÃO




COMEMORAÇÃO

 

Deixa-me cantar porque o dia amanheceu chovendo

e as folhas brotam verdes,

e as flores desabrocham!

Deixa-me cantar porque eu me sinto criança

ainda com tranças,

correndo descalça no capim molhado!

Deixa-me cantar porque o meu vestido é novo,

e as meninas me acham bonita e perfumada,

e eu quero brincar de ciranda e bom barqueiro!

Deixa-me cantar porque hoje eu sou pluma,

sou avezinha pulando no galho que fez o ninho,

sou pensamento divino, sou lírio do altar da Virgem!

Deixa-me! Deixa-me cantar mais e muito!

Deixa-me rir, deixa-me fazer tolices!

Deixa-me rodar até cair exausta,

porque hoje, querido, faz um ano

que chegaste de uma viagem para o meu amor! p. 43

 

 

PAISAGEM MARAJOARA

 

Da migração úmida e mansa do crepúsculo

ficou um olor de maresia brava,

lambendo o limo lodoso das raízes.

A lua, ciumenta e oca,

encolhida e acuada,

espia desconfiada,

pelas frestas da mata,

a terra grávida de sombras e silêncios...

O vento é um passarão agourento

voando por sobre os contornos ondulantes

da grande ilha supersticiosa

de litorais iluminados

pelos olhos da boiúna! p. 15

 

 

AQUELA CANOA...

(Musicado pelo maestro Armando Angeles)

 

Aquela canoa sem rumo, à-toa,

branquinha, sozinha, que vai e que vem,

parece uma sombra

que a gente quer bem.

 

Aquela canoa perdida, sem dono,

que em pleno abandono

flutua, flutua,

parece um cadáver com medo da lua.

 

Aquela canoa alguém já me disse

(só mesmo se eu visse)

que o boto alagou na noite da festa

que não começou.

 

E contam que viram

um moço bonito vestido de branco

chorar junto à moça que ia remando

pedindo-lhe amor, tremendo de frio.

E contam que viram a moça gemendo

desaparecendo nas águas do rio...

Aquela canoa, fazendo visagem,

na sua viagem não cansa, não cansa.

Parece o barquinho da minha esperança... p. 19

 

 

SORTILÉGIO

 

Há um pensamento chorando dentro da noite erma.

Há um pensamento virgem, solitário,

apalpando a floresta,

roçando no rio largo,

por onde boia, em cada estirão,

o sortilégio da mãe-d'água.

 

O jurutaí canta para a lua cheia.

Os grilos arremedam o assobio do vento.

As nuvens sacodem chuva e tristeza

só porque eu quero luar nos meus pés.

 

E vem lá de dentro da mata,

lá de onde eu não sei como está,

a voz rouca do silêncio amazónico

consolando as umbaubeiras perdidas

que a trovoada vergou.

 

Há um pensamento chorando dentro da noite esquecida...

Descendo pela correnteza,

pedindo a mão das estrelas...

Há um pensamento com sono e sem poder dormir...

Marinheiro, vê se tu podes compreender

esse pensamento de mulher. p. 21

 

 

PASMO

 

Depois que o momento passou,

fiquei quieta na tua alma,

qual gota de orvalho

dormindo na pétala de um lírio.

Fiquei parada nos teus olhos,

qual vitória-régia

na doçura da onda

de um lago azul! p. 29

 

 

POEMA

 

Nasci dos lírios boiando

na água barrenta do inverno,

por isso que o meu amor tem a força

das grandes enchentes!

Nasci da boca da meia-noite

lavada de orvalho virgem,

por isso que o meu beijo tem o gosto

das açucenas da madrugada!

Nasci quando as águias solitárias

atravessam os espaços,

chorando,

por isso que em todo o meu pensamento

existe uma lágrima sem destino!

Nasci do êxtase de atmosfera,

quando a lua cochila, insatisfeita,

por isso que o meu desejo

flutua agoniado

no sono da luz coada do dia!

Nasci da angústia cósmica, quando os astros

perdem o ritmo do movimento,

por isso que a minha paixão é desordenada

e a ansiedade em mim permanece!

Nasci do cheiro do ar, quando o mundo se deita,

por isso que a minha alma

tem um corpo que sofre sozinho,

qual bólido isolado, rolando, rolando,

esquecido de Deus! p. 30

 

 

O RIO VEM PARA O MAR

 

Os olhos humildes e bons do caboclo

sorvem a manhã deliciosa.

Os olhos humildes e bons do caboclo

estão também cheinhos de lágrimas,

mas todos pensam que é o borrifo das águas.

 

Vez em vez, nas rembiúas

os botos, quietos, fitam o barco...

O barco parando, o barco mexendo,

seguindo o destino do rio amoroso...

 

Vento do norte sopra de manso,

com vontade de fugir para o oceano...

Vento do norte sopra e assusta

o sono das mamoranas que acordam...

 

E o dia sedento bebe água fria

nas bandejas verdes da flor de aguapé.

E as flores vaidosas recuam felizes.

E o rio se alarga e se deita,

e se joga pra longe,

com o pensamento no mar!

 

As nuvens cochilam cansadas e pálidas.

Passam as vigilengas,

passam as praias anônimas

sem poetas, sem histórias.

Passam as canaranas, mururés e periantās

por sobre as pálpebras das ondas...

 

O vento do rio vem alisar os cabelos da noite.

E o rio vem para o mar

e se inclina magoado,

sem poder dormir o antigo sono de paz,

ouvindo ao longe, muito longe,

as folhas caírem na ponta dos pés

das árvores verdes da margem! p. 83-84

 

 

BLIZZARD

 

Sultana, este

é o teu

do meu

coração

 

 

Palavras não cantam o poema inventado

no silêncio do espaço

quando incide em teu seio.

Ninguém quer ler mensagens de fuga

do infinito

soprada de vento

em cinza ainda estuante da fogueira

onde nascem as estrelas.

 

Prostrada em marasmo

a cair branca e bela,

mal tocas o chão da terra

és lágrima sem face pra escorrer!

Não te lembras dos olhos bons

que te choraram

nem do poeta que escreveu

a minuciosa ilação

do teu sofisticado silêncio...

 

Junto à janela te vigio

e obstinada desliguei o rádio.

 

Estranha é esta ausência de ânimo

para acender a lenha verde

da lareira.

 

Ponte, gramado e arvoredo cobertos,

coberto não ficará meu corpo senão de amor:

teus flocos não serão nunca o bastante

para apagar o braseiro

de um coração brasileiro!

 

Devo sair. Sou impura de medo

e um som

em tom

de amor

me invade.

 

Que horas são eu não sei.

Noite ou dia, que me importa?

Só sei que sou amada

e que inda não sou morta

com todo este segredo e toda esta saudade! p. 151-152

 

 

PEQUENINO

 

No meu mar vieram dois olhos boiando

e eu guardei-os nas mãos como duas misteriosas sementes.

Choramos juntos e juntos

imaginamos construir algo sem música

nem vício, tempo ou eternidade.

E agora desça o céu e desça o mundo.

Estes dois olhos eu não dou nem mostro.

Só depois do imaginado.

acenderęi a estrela,

contarei a lenda

e enxugarei todas as lágrimas! p. 161

 

 

SONHANDO

 

Vem dormir na maqueira dos meus olhos,

meu amor.

Eu estou sob a sombra da saudade

com medo que o luar

venha me descobrir toda de branco,

à tua espera.

 

Vem beber do licor da minha boca,

meu amado.

As estrelas debruçam-se curiosas

em me vendo rolar na areia fria,

e eu não lhes conto nada,

de covarde.

 

Vem passar tua mão

nos meus ombros doídos de preguiça,

meu querido.

Estendi minhas mãos para o teu beijo,

e os frondes das mangueiras

cobriram-nas de orvalho, persuadidos

que fossem duas folhas pequeninas.

 

Vem que eu te escondo aqui

nos meus cabelos compridos, volutuosos,

da cor deste luto que eu tenho na alma:

saber que te amo, saber que me amas

e sentir que não sou tua nem tu és meu.

Mas vem, meu amor, que a cauda dos astros

será o cortinado do nosso himeneu! p. 341

 

 

ADALCINDA. Antologia poética. Belém: Cejup, 1995.

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Adalcinda ou Adalcinda Magno Camarão Luxardo nasceu em Muaná-PA, em 18 de julho de 1914, e faleceu em Belém-PA, no dia 17 de janeiro de 2005. A primeira mulher a integrar a Academia Paraense de Letras (1949). Escreveu para rádio e teatro e para todas as revistas da Amazônia de seu tempo. Viajou aos Estados Unidos com bolsa de estudos oferecida pelo Departamento de Educação, onde graduou-se em Linguística na America University. Estabelecida nos Estados Unidos, em 1960 abriu o Departamento de Português da Georgetown University (Institute of Languages and Linguistics), onde também lecionou literatura brasileira e de Portugal. Lecionou Português na America University, na Graduate School os the Agriculture Departament e ainda na Casa Branca, para assistentes do presidente Nixon e Ford. Foi casada com cineasta Líbero Luxardo (1908-1980). Publicou: Despetalei a Rosa (1940, poesia), Vidência (1941, poesia), Baladas de Monte Alegre (1949, poesia), Entre Espelhos e Estrelas (1953, poesia), Um reflexo de aço (1956, monólogo), o Mar e a Praia (1956, poesia), Eu não posso te amar (1956, ensaio), Brasil fala Português (1961, livro didático), Caminho do Vento (1968, poesia), Folhas (1979, poesia), À sombra das cerejeiras (1989, poesia) e Antologia Poética (1995).